Volume 2
Capítulo 14 - Os Verdadeiros Monstros
QG dos Ceifadores
Henry estava sentado à mesa, mastigando mecanicamente uma porção de massa com molho fresco. A máscara estava pousada ao lado do prato, refletindo a luz fria do teto.
Henry olhou para suas mãos. As bandagens que Sílvia aplicou estavam limpas, mas ele sentia o fantasma dos dedos mindinhos latejar a cada movimento. Ele era um Ceifador agora, pelo menos por fora.
O silêncio clínico da cozinha foi estilhaçado por um estrondo vindo do pátio interno, seguido pelo som inconfundível de metal colidindo e risadas histéricas.
— VOCÊ ROUBOU O MEU LUGAR NA ESCALA, SEU RATO URUGUAIO! VOU DEIXAR VOCÊ DE COMIDA PARA OS "ESPANTALHOS"! NAQUELE MILHARAL VOCÊ NÃO ESCAPA! — O grito de Andrew ecoou, abafado pelas paredes, mas carregado de uma fúria juvenil.
Henry levantou os olhos a tempo de ver, através da enorme vidraça que dava para o pátio, uma cena de caos coreografado. Andrew estava com seu facão de caça em punho, avançando contra Zack.
Zack recuava com uma agilidade fluida, manipulando seu baralho com uma mão enquanto a outra segurava o fuzil M4 pela alça.
— O baralho não mente, moleque! — Zack exclamou, desviando de um golpe de Andrew com um giro de corpo que beirava o deboche. — Saiu o Ás de Espadas para a patrulha. O destino me quer lá, e o destino acha que você deveria ficar aqui limpando o sangue que o Lil deixou no chão!
Andrew rugiu de frustração e lançou um chute lateral que Zack bloqueou com a coronha do fuzil. A briga não era uma disputa de vida ou morte, mas um treino perigosamente real entre dois predadores entediados.
Elijah entrou na cozinha com sua calma habitual. A máscara presa próximo à cintura, revelando o cabelo preto bagunçado e o olhar sereno que escondia sua letalidade. Ele serviu-se de um copo de suco, ignorando completamente os gritos e o som de vidros quebrando lá fora.
— Eles são como cães disputando um osso — Elijah comentou, sentando-se à frente de Henry. — Zack acha que a sorte justifica o egoísmo dele, e Andrew... bem, Andrew só quer matar algo que sangre antes do pôr do sol. É a vitalidade da nossa espécie. Aprenda a apreciá-la.
Elijah bebeu um gole, observando Henry através do vidro do copo.
— Termine logo. Silas deu a ordem. Hoje você sai com a gente. Ian já está no blindado verificando o sistema de mira. Se eu fosse você, colocaria a máscara agora.
A Sorte Contra a Carnificina
O pátio interno tornou-se um palco de horror biológico. No momento em que Zack equipa a faca, esperando que o reflexo de Andrew o fizesse recuar, o caçula dos Ceifadores fez o oposto. Ele avançou contra o aço.
O som da lâmina atravessando a palma da mão de Andrew foi abafado, um "thud" de carne e resistência. Zack arregalou os olhos por trás da máscara. Andrew não gritou; ele soltou um riso curto e doentio. Com a faca ainda atravessada em sua mão esquerda, ele agarrou o pulso de Zack, usando a própria ferida como um gancho para travar o oponente.
— Minha vez de dar as cartas, Zack — Andrew sibilou. Com a mão esquerda perfurada, ele desferiu um soco brutal que estalou o pescoço de Zack para o lado, começando a golpeá-lo com uma fúria cega, ignorando o sangue que espirrava de sua palma empalada.
A violência só parou quando a porta pneumática se abriu. Silas saiu para o pátio. Ele não gritou. Ele apenas parou. A pressão de sua presença foi como um vácuo que sugou todo o oxigênio do lugar. Andrew e Zack congelaram instantaneamente. Andrew soltou a mão de Zack, e retirou a faca de sua mão com a mão direita, ignorando a dor.
Henry observava tudo da mesa. Ele percebeu que a imortalidade deles não era apenas resistência, era uma desconexão absoluta com a preservação humana. Ele se levantou, limpou a boca e caminhou até a porta, parando a uma distância segura de Silas.
— Silas — Henry chamou. — Deixe os garotos brincarem. Se você quer eficiência hoje, eu tenho um alvo melhor que vilarejos de supremacistas.
Silas virou o rosto enfaixado lentamente para Henry. Elijah, que estava encostado na porta de vidro da cozinha, inclinou a cabeça, curioso.
— Prossiga — disse Silas, a voz baixa e perigosa.
— Existe um grupo chamado os Espectros. Cinquenta soldados que se vestem de mato e se acham os donos da floresta. Eu fazia negócios com eles nos Hereges, mas eles são traiçoeiros. Estão mapeando as rotas da região. Eles ficam em Portland a uma hora daqui. Me deixe ir com Elijah e Ian. Eu conheço os rastros deles. Eu volto com a cabeça daqueles soldados de arbusto para enfeitar o seu pátio.
Silas permaneceu em silêncio por longos segundos, processando a informação. Elijah deu um sorriso de canto, passando o polegar pela navalha em seu punho.
— Soldados invisíveis... — Elijah murmurou. — Isso parece divertido, Silas. Ian adoraria um desafio de sniper contra alvos que se camuflam.
Silas olhou para Andrew, que ainda sangrava, e depois voltou para Henry.
— Você está muito ansioso para provar sua lealdade, Henry. Isso pode ser sede de sangue... ou desespero. — Silas deu um passo em direção a Henry, ficando a poucos centímetros dele. — Vá. Leve Elijah e Ian. Mas lembre-se: se voltarem de mãos vazias, ou se eu sentir o cheiro de traição no vento de Cascade, eu não vou mandar o Lil. Eu mesmo vou arrancar o que restou dos seus dedos. Um por um.
Silas se virou para Ian, que já estava posicionado no topo da rampa do blindado preto.
— Ian! Prepare o sonar térmico de longo alcance. Vamos caçar fantasmas.
O Blindado no Escuro
Horas depois, Henry estava sentado no interior claustrofóbico e tecnológico do blindado dos Ceifadores. O veículo rugia enquanto subia as encostas em direção ao território dos Espectros. Ian estava focado nos monitores, enquanto Elijah afiava suas facas de arremesso, observando Henry como um gato observa um novo brinquedo.
Henry sabia que o Major Ghost era sua única esperança, mas ele acabara de levar dois dos Ceifadores mais mortais direto para o coração do esconderijo deles.
O blindado preto parou na borda de uma zona de transição, onde a floresta densa se transformava em um pântano lamacento, coberto por uma névoa densa e esverdeada. O motor elétrico do veículo silenciou, deixando apenas o som dos insetos e o gotejar da umidade nas árvores.
Henry saltou primeiro. Suas botas táticas afundaram na lama, mas ele se moveu com uma frieza que assustaria o próprio Solomon. Ele não estava ali para salvar o Major Ghost; ele estava ali para enterrar seu passado e garantir que Silas nunca tivesse motivos para duvidar dele. Se o Major Ghost precisava morrer para que Henry subisse na hierarquia e pudesse, eventualmente, destruir os Ceifadores por dentro, que assim fosse.
Elijah desceu logo atrás. Antes de colocar sua máscara, ele se agachou perto de um tronco podre. Com os dedos enluvados, ele pegou delicadamente um pequeno besouro preto que se debatia nas costas.
Ian, ajustando a luneta térmica de seu rifle militar, olhou para o lado com um desprezo pragmático.
— Qual é o seu fascínio por esses besouros, Elijah? — a voz de Ian saiu seca, focada na varredura do perímetro.
Elijah observou o inseto por mais alguns segundos antes de deixá-lo pousar na ponta do dedo.
— Sabe, Ian... para os besouros, quando estão de barriga para cima lutando para se levantar, eles nunca desistem. Eles podem morrer, mas vão lutar até o fim para se colocar de pé novamente. — Elijah deu um sopro leve, e o besouro abriu as asas, voando para a escuridão da mata. — Por isso admiro esses insetos. A persistência deles é... poética.
Elijah colocou a máscara de esqueleto sorridente.
— Vamos logo — Henry disse, sua voz distorcida pela máscara negra e prata. — Cuidado. Eles usam zarabatanas com veneno paralisante. Se um deles acertar um ponto vital, vocês vão ficar lentos.
Elijah soltou uma risada abafada que soou como um chiado metálico através do modificador de voz.
— Nossa, que medo! Estou morrendo de medo. — Ele caminhou com total desleixo em direção ao pântano aberto. — Veneno para a nossa espécie é inútil. Tão inútil quanto uma garrafa de cerveja barata.
No mesmo instante, um "thwip" quase imperceptível cortou o ar. Um dardo de madeira, embebido em um concentrado de neurotoxina natural, cravou-se certeiro na lateral do pescoço de Elijah.
O corpo de Elijah deu um leve solavanco com o impacto. Ian e Henry congelaram, mas Elijah apenas levou a mão ao pescoço com uma calma irritante. Ele arrancou o dardo, observando a ponta encharcada de veneno, e começou a rir. Uma risada que começou baixa e subiu de tom até se tornar um rosnado eletrônico pesado.
— Tá legal... Vocês se acham os donos da floresta? Acham que o mato é o escudo de vocês?
Elijah desapareceu na névoa com uma velocidade sobre-humana.
O Massacre Invisível
Enquanto Ian se posicionava em um galho alto, agindo como o olho da morte lá de cima, Henry avançava pelo centro do pântano. Ele viu o primeiro Espectro surgir debaixo de um amontoado de juncos, preparando outra zarabatana.
Henry não hesitou. Ele apenas avançou como uma flecha negra. O Espectro, vendo a máscara com a cruz de prata, não reconheceu o aliado de outrora. Para ele, aquilo era um demônio.
Henry agarrou o pescoço do homem e jogou-o contra uma árvore.
Ao longe, o Major Ghost observava através de seus binóculos de cerâmica. Ele viu a figura negra e prata massacrando seus homens com uma precisão que nem os soldados de elite possuíam. Ele não sabia que aquele era Henry. Para o Major, os Ceifadores haviam enviado um novo tipo de executor.
— FANTASMAS! — O grito de Elijah ecoou do meio da neblina, seguido pelo som de carne sendo rasgada e o grito agonizante de um Espectro sendo estripado, que após isso, o Ceifador alvejava outros quatro Espectros com sua pistola preta Five-seveN. O poder dela era devastador, mesmo que os espanhóis vestidos de arbusto usassem colete, nem isso seria suficiente para proteger de uma bala dessa arma. Nesse mundo essa pistola é uma arma divina.
Henry avistou o Major Ghost em uma plataforma elevada, camuflado pelo seu traje ghillie. Ele subiu pela árvore com uma agilidade de parkour que os Ceifadores ainda não haviam visto em sua totalidade. Ele pousou na plataforma atrás do Major Ghost. O Major se virou, sacando sua faca de osso, mas Henry foi mais rápido. Ele desarmou o veterano com um chute giratório e o prensou contra a madeira.
— O silêncio acabou, Major — Henry disse, usando o modificador de voz pesado.
O Major Ghost olhou para as lentes negras da máscara de Henry, sem saber que estava encarando o homem que ele um dia ajudou.
— Vocês... não podem... vencer a terra... — o Major balbuciou, lutando.
Henry olhou para a base do pântano, onde Ian e Elijah estavam transformando os 50 caçadores em uma pilha de restos vegetais e sangue. Ele sabia que se não matasse o Major ali, Ian o faria com um tiro de sniper, ou Elijah o torturaria por horas.
Henry desembainhou a faca tática de seu coldre. O brilho da prata na sua máscara foi a última coisa que o Major Ghost viu antes de Henry cravar a lâmina em seu peito, com uma frieza que nem ele sabia que possuía.
O Despertar do Monstro
No centro de uma clareira lamacenta, a névoa se dissipou por um segundo para revelar Elijah em desvantagem. Cinco Espectros, movendo-se com a coordenação de uma matilha, o cercaram. Dois deles lançaram correntes pesadas, enroscando-as nos braços do argentino e derrubando-o violentamente no chão.
— Pegamos a coisa! — gritou um deles enquanto chutavam as costelas de Elijah. O som dos impactos no traje tático ecoava como marteladas.
Dois Espectros puxaram as correntes, mantendo Elijah de joelhos, com os braços esticados. O líder daquela pequena unidade parou à frente dele, bufando de ódio, e desferiu um soco brutal que fez a máscara de esqueleto de Elijah vibrar.
— Você não pode matar o que não pode ver! — o Espectro rosnou, preparando outro golpe.
Elijah levantou a cabeça lentamente. Suas lentes negras brilharam sob o capuz. Através do modificador de voz, sua resposta não saiu como a de um homem, mas como a de uma entidade antiga e mecânica:
— VOCÊ NÃO PODE MATAR O QUE NÃO PODE SER MORTO!
Com um movimento explosivo, a lâmina do seu bidente oculto saltou da manga esquerda sob a mão. Elijah desferiu uma cabeçada, quebrando o septo do Espectro que segurava sua corrente esquerda. No mesmo instante, um estalo seco de rifle ecoou da copa das árvores: Ian abateu o Espectro da direita com um tiro certeiro no crânio.
Livre das amarras, Elijah girou sobre o próprio eixo como um redemoinho de aço. O bidente perfurava peitos e gargantas com uma facilidade obscena. Ele não estava apenas matando; ele estava triturando. Quando o último Espectro tentou fugir, Elijah o alcançou e o empalou contra uma raiz, deixando o corpo pendurado enquanto o sangue escorria pelas suas luvas.
O Peso do Sacrifício
Minutos depois, o silêncio retornou, pesado e fétido. Henry caminhava entre os corpos, recolhendo as máscaras de fibra vegetal e os adornos de osso. Ele colocava cada um dentro de um saco de lona, seus movimentos eram lentos e carregados de uma culpa que ele lutava para esconder.
Ian desceu da árvore, limpando o cano de seu rifle. Ele observou Henry por um momento.
— Pensei que você levaria a cabeça do Major — Ian comentou, a voz gélida. — Silas gosta de provas visuais.
— Eu não sou tão brutal assim — Henry respondeu, sem olhar para trás. — As máscaras são o suficiente. Cinquenta homens não desaparecem sem deixar rastros.
A Confiança do Diabo
QG dos Ceifadores
O retorno ao QG foi marcado pelo cansaço exaustivo. Henry entrou no grande salão, onde a luz branca e imaculada julgava o sangue seco em suas botas pretas. Silas estava de pé perto da janela, observando a noite, com a máscara de crânio pendurada no cinto.
Henry jogou o saco de lona aos pés do líder. O som das 50 máscaras colidindo foi abafado pelo carpete caro.
— Cadê a cabeça dele? — Silas perguntou, sem se virar.
— Não precisava da cabeça — Henry disse, sua voz soando exausta mas firme. — As máscaras são o suficiente. Cinquenta caras mortos. A ameaça furtiva acabou. Se duvida, pergunte ao Elijah ou ao Ian. Eles viram a limpeza.
Silas virou-se lentamente. Ele olhou para Ian, que deu um aceno curto e imperceptível de cabeça, confirmando a letalidade de Henry no campo. O líder dos Ceifadores caminhou até Henry e, em um gesto de reconhecimento raro, inclinou a cabeça levemente.
— Você provou sua utilidade mais uma vez.
Henry não respondeu. Ele caminhou até o sofá branco de design futurista e desabou nele. Enquanto fechava os olhos, a imagem do Major Ghost sendo perfurado por sua lâmina queimava em sua mente.
"Sinto muito, Major..." Henry pensou, sentindo o latejar dos dedos que não tinha mais. "Era o único jeito de salvar minha família. Eu preciso da confiança desses bastardos imortais. E agora... eu a tenho."
O 12º Ceifador estava oficialmente batizado no sangue.
Fim do Capítulo
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