DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 2

Capítulo 12 - Infiltrado

Clareira das Cascades – 08:30 AM

 

A luz do sol que filtrava pelas copas das árvores era cruel de tão clara. Elena, com o braço quebrado imobilizado por trapos sujos, estava sentada sobre um tronco. Ao redor dela, o resto do grupo era a imagem da derrota: Beck limpava um corte em Vane, enquanto Leo, Kol e Kane mantinham uma vigia paranoica.

 

— Ela não teve chance... — a voz de Elena quebrou. — Aquele monstro de máscara branca... ele a abateu como se a Tara fosse nada.

 

— O Henry também se foi — Kane murmurou, do alto de uma rocha. — Eu vi dois deles o levando. Um de máscara de sorriso largo e outro de máscara negra. Eles se movem como se o chão não existisse.

 

O silêncio foi interrompido pelo estalo de galhos. O grupo saltou em posição de combate, armas erguidas com mãos trêmulas.

 

Emergindo da névoa, Piro vinha na frente, seguido por Gun, que mancava pesadamente, com o rosto pálido, mas sua presença ainda era um lembrete amargo do antigo regime. No entanto, foi a terceira figura que fez o clima congelar.

 

Mickey apareceu logo atrás, girando uma barra de ferro com um sorriso maníaco.

 

— Mickey? — Kol rugiu, o machado pronto para partir o crânio do ex-executor. — O que esse rato está fazendo aqui? Gun, você trouxe esse lixo com você?

 

— Eu não trouxe ninguém — Gun cuspiu, sentando-se com dificuldade. — Ele apareceu do nada na mansão. Se não fosse por ele, eu e o Piro estaríamos mortos. Ele empalou um daqueles demônios na parede.

 

— Como você está vivo, Mickey? — Elena perguntou, o olhar gélido. — Todo o seu esquadrão foi dizimado na queda da Região 97. Você desapareceu como um covarde.

 

— Eu sou o 1%, boneca — Mickey deu de ombros, ignorando a hostilidade. — Fiquei nas sombras vendo vocês tentarem brincar de heróis. Mas esses caras novos... — ele apontou com a barra de ferro para a mata profunda — ...eles não são humanos. Eu vi o com máscara de caveira, o que eu espetei. Ele não gritou. Ele só... me olhou com aqueles dois buracos negros da máscara.

 

Gun olhou para o grupo, vendo o medo nos olhos dos Hereges. Ele era o único que sabia a verdade por trás daquelas máscaras.

 

— Vocês não têm ideia do que enfrentaram essa noite — a voz de Gun saiu rouca. — Aqueles demônios têm nomes. O líder se chama Silas. E se vocês querem o Henry de volta, vão ter que aceitar que o Mickey é o único aqui com estômago para fazer o que precisa ser feito.

 

— Nós não precisamos de um assassino psicótico — retrucou Beck.

 

— Precisam sim — Gun sorriu de forma sombria. — Porquê o Silas tem o Henry. E o Silas não faz prisioneiros... ele faz exemplos.

 

QG dos Ceifadores – Antiga Base da CIA – 10:15 AM

 

Henry não foi arrastado por soldados comuns. Quem o guiava era o próprio Silas. O líder dos Ceifadores mantinha uma mão firme no ombro de Henry, uma pressão constante que lembrava ao Herege que qualquer tentativa de fuga seria esmagada em segundos. Henry estava sem sua máscara azul, sentindo o ar condicionado frio da base contra o rosto suado.

 

O trajeto foi um mergulho em um pesadelo imaculado. Enquanto caminhavam pelos corredores brancos, Henry viu a família que Silas havia construído. Passaram pela área de lazer, onde Diego e Zack estavam sentados em poltronas de design futurista; Zack brincava com um baralho, fazendo as cartas voarem entre as mãos, enquanto Diego observava Henry com um sorriso curioso, balançando seus brincos de caveira.

 

Logo à frente, o silêncio foi quebrado pelo tilintar de guizos. Jester surgiu deslizando em seu hoverboard, girando em torno de Silas e Henry como um satélite maníaco. Com uma voz fina e saltitante, ele exclamou — Olha só, Silas! O prêmio de consolação! Ele morde? Podemos ver o que tem dentro dele?

 

— Silas não respondeu, e o humor de Jester mudou instantaneamente. Ele acionou o modificador de voz, que saiu como um trovão mecânico — Ou talvez eu deva apenas abrir a cela do Lil e ver quem sobra inteiro.

 

Silas continuou caminhando, indiferente às provocações do estrategista. Eles passaram pela ala de monitoramento, onde Ian e Elijah revisavam mapas digitais com uma seriedade militar, e pela enfermaria, onde a Bela Morte, Sílvia, trocava os curativos de Fabrizio. O gêmeo de franja branca tentou se levantar ao ver Henry, mas a mão pálida de Sílvia o conteve, enquanto ela lançava um olhar de aviso ao prisioneiro. 

 

Antes de chegarem ao bloco final, um estrondo veio de uma sala lateral acompanhado pelo grito psicótico de Lil — VOCÊ ME DEU UMA ORDEM? — Andrew saiu da sala logo em seguida, limpando as mãos em um pano branco e dando uma piscadela sádica para Henry.

 

Silas finalmente parou diante de uma cela de vidro reforçado. Ele empurrou Henry para dentro e entrou logo atrás, fechando a porta. O líder dos Ceifadores retirou sua máscara de crânio, revelando o rosto marcado por faixas brancas, mas mantendo a postura imponente de dois metros de altura.

 

— Você passou um tempo procurando por mim, Henry — a voz de Silas saiu baixa e controlada. — Eu vi pelos sistemas da CIA, você e Freya reviraram o que restou deste país atrás de um nome... um ativo que os militares levaram antes da Queda. Enquanto aquele idiota do Gun procurava armas militares. Pena que nós temos todas as armas restantes do governo americano.

 

Henry sentiu um nó no estômago. Ele olhou para os olhos loiro-escuros de Silas, tentando encontrar neles o menino das fotografias que Freya guardava como relíquias.

 

— Silas... então é você. O irmão dela. Ela nunca desistiu. Mesmo quando o Gun a mantinha presa, ela orava para que você estivesse vivo. Se ela soubesse que você é o líder dessas aberrações...

 

— Ela nunca vai saber — Silas afirmou. — O Silas que ela conheceu morreu para que o Ceifador pudesse nascer. Mas eu a observei, Henry. Vi quando vocês a tiraram das mãos de Gun e a levaram para o Oregon. Eu deixei que vivessem porque, até agora, vocês eram o lugar mais seguro para ela.

 

— E agora? Você vai atacar a base? Vai matar o Solomon e os outros?

 

— Meus irmãos querem sangue, e o mundo precisa ser limpo dos pecados. Mas a Freya... e a criança... eles são intocáveis. Crianças não têm pecado, Henry. Elas são a única pureza que resta. Eu não gosto que o sangue do Gun macule o que ela é, mas eu vou protegê-los. Mesmo que eu tenha que destruir todos os Hereges para garantir que ela fique sob minha guarda, onde ninguém mais poderá tocá-la.

 

Henry deu um passo à frente, desafiando a estatura de Silas.

 

— Você acha que está protegendo ela? Se você matar os amigos dela, você vai destruí-la por dentro. Ela vai odiar você sem nem saber quem você é. Você não quer um sobrinho, Silas, você quer um troféu de pureza em um laboratório branco.

 

Silas inclinou a cabeça, uma sombra de dúvida cruzando seu olhar antes de ser substituída pela frieza habitual.

 

— Ela terá segurança. Terá comida e ordem. Coisas que o seu grupo de parkour e ideais furados não podem garantir por muito tempo. Agora, me diga o que eu quero saber sobre a defesa de Solomon. Se você cooperar, eu garanto que a transição será indolor para os seus amigos. Se resistir... eu deixo o Jester e o Lil cuidarem do interrogatório. E eles não têm o meu senso de... misericórdia familiar.

 

Henry fechou os olhos por um segundo, absorvendo o peso das escolhas. Ele percebeu que Silas não era apenas um soldado; era um homem preso entre uma doutrina de pureza e o que restava de seu coração.

 

— Você fala de misericórdia, mas deixou corpos pendurados em estacas nas Cascades. Falou que protege a Freya, mas ela quase morreu fugindo das garras de um império que você permitiu que existisse.

 

Silas deu um passo à frente, a máscara de crânio pendurada em sua mão livre, o rosto enfaixado parecendo uma escultura de mármore sob a luz branca.

 

— O sofrimento purifica, Henry. Mas se você quer falar sobre perdas... — Silas soltou um suspiro que soou quase como um riso sarcástico — ...devo dizer que sua amiga, aquela com o escudo... Tara, não é? Ela foi uma excelente jogadora no nosso "pega-pega" na floresta. Mas, infelizmente para ela, eu sou muito rápido. A morte dela foi... artística. Tão brutal e definitiva quanto o que Elijah fez com o pescoço daquela sua outra amiga, a Mika.

 

O sangue de Henry ferveu. A imagem de Mika sendo morta por Elijah já o assombrava, mas saber que Silas havia acabado de massacrar Tara pessoalmente, e falava disso com tamanho desdém, quebrou algo dentro dele.

 

— Você é um monstro. Não importa o que diga sobre crianças ou pureza. Você é a mesma coisa que o Elijah, a mesma coisa que aquele louco que eu ouvi gritando lá fora.

 

— O que eu sou não importa. O que importa é o que eu posso fazer por ela. Me dê as frequências. Deixe-me entrar na base sem precisar explodir o lugar. Eu levo a Freya e o bebê para cá, onde eles estarão seguros, e deixo você e os outros sumirem do Oregon. É o melhor acordo que você vai receber.

 

Henry levantou o rosto, encarando Silas diretamente nos olhos.

 

— Você quer a frequência? Quer entrar na base? Então faz o seguinte: se revela para ela. Agora. Vai até lá, olha nos olhos da sua irmã e conta que você matou a Tara e a Mika. Conta que você é o líder dos assassinos que a caçaram no escuro. Se você tiver coragem de fazer isso e ela decidir te seguir, eu te dou o que você quiser.

 

Silas travou. A mão que segurava a máscara de crânio apertou com força.

 

— Mas você não vai, não é? Porque você sabe que ela nunca perdoaria o monstro que você se tornou. Você prefere mandar aquele palhaço de rodinhas ou o psicopata da foice porque é um covarde que não consegue encarar a própria família.

 

A sala ficou em um silêncio absoluto. O tom calmo de Silas desapareceu, substituído por uma aura de violência contida que fazia as paredes brancas vibrarem.

 

— Eu tentei ser civilizado por causa do sangue dela em você. Mas se você prefere o caminho da dor... que assim seja. Eu não preciso que você me ame, Henry. Eu só preciso que você quebre.

 

Silas se virou para a porta de vidro e acionou o comunicador.

 

— Jester. Traga o Lil. O azulzinho acha que o silêncio é uma opção. Vamos mostrar para ele que, aqui dentro, até os pensamentos pertencem a nós.

 

Henry sentiu o peso das palavras de Silas, mas uma dúvida ainda corroía sua mente enquanto a porta da cela se preparava para abrir. Ele precisava entender a lógica distorcida daquele homem antes de ser entregue ao carrasco.

 

— Por que agora, Silas? Você a observou por anos. Viu o Gun tratá-la como um troféu, viu ela ser usada por um psicopata... Por que você não a tirou de lá quando ela estava com os Executores? Por que esperar que ela encontrasse refúgio conosco para decidir que agora é o momento?

 

Silas parou com a mão na maçaneta da porta de vidro. Ele não se virou, mas sua silhueta pareceu crescer contra o brilho das paredes brancas. Houve um silêncio pesado, onde apenas o zumbido do sistema de ventilação era ouvido.

 

— Eu cheguei a considerar. Muitas vezes. Mas o mundo de Gun era um chiqueiro de ganância e petróleo. Não era o lugar para o que está por vir. Agora, no entanto... — ele fez uma pausa, e sua voz adquiriu um tom quase místico — ...agora é a hora perfeita. O nascimento dessa criança significa que a nossa espécie não está extinta. É o sinal que eu esperava.

 

Henry franziu o cenho, o suor frio escorrendo pela têmpora.

 

— Nossa espécie? Do que você está falando? Ela é humana, Silas. O bebê é humano. Do que diabos você está...

 

Antes que Henry pudesse terminar a frase, a porta se abriu com um estalo pneumático. O ar da sela foi invadido pelo cheiro de suor e metal frio.

 

Lil entrou na sala. Seus olhos claros estavam arregalados, injetados de uma energia instável. Ele não usava a máscara agora, revelando um rosto loiro e bagunçado, mas com uma expressão que oscilava entre o riso e o ódio puro. Ele segurava um par de algemas de transporte curtas, que forçariam Henry a andar curvado.

 

— Silas... ele está pronto? — Lil sussurrou, com a voz tremendo de antecipação. — Ele vai brincar comigo? Eu posso mostrar para ele os meus instrumentos lá embaixo?

 

Silas colocou a máscara de crânio de volta, ocultando qualquer rastro de humanidade que o diálogo anterior pudesse ter sugerido.

 

— Leve-o, Lil. Ele é todo seu até que ele decida falar. Mas lembre-se: ele precisa estar consciente para o Jester registrar as frequências.

 

— CONSCIENTE! SIM! VOCÊ ME DEU UMA ORDEM! UMA ORDEM CLARA! — Lil gritou de repente.

 

Lil agarrou Henry pelo colarinho com uma força bruta. Henry olhou uma última vez para Silas enquanto era arrastado para o corredor, mas o líder dos Ceifadores já havia se voltado para a janela, observando o horizonte como se estivesse guardando um segredo que ia muito além da biologia humana.

 

Ao longe, o tilintar dos guizos de Jester se aproximava, anunciando que o interrogatório de Lil teria uma plateia sádica.

 

A sala de tortura era o único lugar do QG que não era totalmente branco; as paredes eram de um cinza metálico fosco, projetadas para serem lavadas com mangueiras de alta pressão. No centro, Henry estava preso a uma cadeira de ferro parafusada ao chão.

 

Através do vidro reforçado da galeria superior, o público se posicionava. Ian e Elijah observavam com uma frieza clínica. Zack e Diego faziam apostas silenciosas com olhares. Aiden e os gêmeos Fabrizio e Sílvia mantinham-se nas sombras, enquanto Andrew terminava seu doce, ansioso. Jester flutuava em seu hoverboard, a máscara de bobo da corte inclinada, capturando cada batimento cardíaco de Henry nos sensores.

 

Lil caminhava em círculos ao redor de Henry, movendo-se com uma energia nervosa, as mãos tateando os instrumentos dispostos em uma bandeja cirúrgica.

 

— Sabe, Henry... o mundo lá fora é tão barulhento, não é? — Lil começou, sua voz oscilando entre um sussurro doce e um rosnado. — As pessoas gritam, choram, imploram... mas aqui dentro, o som é diferente. Aqui, o único som que importa é o da verdade saindo da carne. O Coronel Turner dizia que o corpo humano é como um instrumento musical mal afinado. Eu? Eu sou o maestro. Eu tiro as notas que estão escondidas lá no fundo, embaixo dos nervos. Silas diz que você é um herói, que você tem fé... mas a fé é só uma camada de pele, Henry. E eu adoro descascar peles.

 

Lil parou atrás de Henry, respirando pesadamente em seu ouvido. Ele pegou uma torquês de aço carbono, brilhando sob as lâmpadas fluorescentes.

 

— Vamos começar com as extremidades. Onde a alma tenta escapar primeiro.

 

Sem aviso e com uma velocidade mecânica, Lil prendeu a mão esquerda de Henry. Crak. O som do osso do dedo mindinho sendo esmagado e removido ecoou pela sala acústica. Henry soltou um grito que rasgou sua garganta, o corpo arqueando contra as tiras de couro. Lil não esperou. Ele girou para o outro lado, prendendo a mão direita. Crak. O segundo mindinho foi arrancado com um movimento seco.

 

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração ruidosa de Lil e pelo som do vômito de Henry atingindo o chão metálico. O Herege estava pálido, a visão turvando, o suor frio lavando seu rosto.

 

— Para... por favor... — Henry balbuciou, a voz quebrada, a cabeça pendida para a frente. — Eu faço... eu faço o que vocês quiserem. Só para...

 

No andar de cima, o silêncio dos Ceifadores foi quebrado pelo choque. Os nove membros arregalaram os olhos simultaneamente. Ele deu uma ordem para Lil, eles sabiam o que iria acontecer.

 

Zack soltou uma risada curta e sádica, ajeitando a máscara:

— Ah, olhem só... agora o show vai começar de verdade.

 

Lil estancou. Seus olhos, já instáveis, dilataram até ficarem quase inteiramente negros. O rosto dele começou a tremer. Ele soltou a ferramenta, que caiu no chão com um tilintar metálico.

 

— Você... você me deu uma ordem? — a voz de Lil subiu de tom, tornando-se um grito histérico que vibrou o vidro da galeria. — VOCÊ ME DEU UMA ORDEM, HEREGE?! NINGUÉM ME DÁ ORDENS!

 

Lil explodiu em fúria. Ele avançou sobre Henry, desferindo socos brutais e desordenados contra o rosto do prisioneiro. Cada golpe estalava como um chicote. Henry, preso e indefeso, recebia os impactos que poderiam facilmente fraturar seu crânio. O rosto do Herege transformou-se em uma massa de sangue e hematomas em segundos. Lil estava em transe, pronto para transformar a cabeça de Henry em polpa.

 

— MORRA! MORRA POR ME DAR UMA ORDEM! — Lil levantou o punho para o golpe de misericórdia, visando a têmpora de Henry.

 

De repente, a voz de Jester ecoou pelos alto-falantes, usando o modificador de voz para soar como um trovão pesado, autoritário e desumano:

 

— CHEGA, LIL!

 

Lil parou o soco a milímetros do rosto ensanguentado de Henry, o corpo todo tremendo, o suor pingando no peito do prisioneiro.

 

— Ele pode ser útil — continuou Jester, a voz metálica agora mais calma, mas ainda fria. — Ele é habilidoso como nós. Silas tem planos que exigem que ele continue respirando. Saia daí agora.

 

Lil recuou, bufando como um animal ferido, olhando para Henry com um desprezo doentio. No andar de cima, os Ceifadores continuavam observando. Henry estava quase inconsciente, a dor dos dedos arrancados latejando em sincronia com os batimentos de seu coração, enquanto ele percebia que, naquele ninho de monstros, até sua tentativa de rendição havia se tornado uma arma de tortura.

 

O ambiente metálico da sala de tortura zumbia após a saída violenta de Lil. O som de rodinhas elétricas anunciou a entrada de Jester. Ele deslizava em seu hoverboard com uma elegância infantil, circulando a cadeira de Henry enquanto soltava pequenas risadinhas que ecoavam nas paredes frias.

 

— Oh, Henry! Que bagunça você fez! — Jester exclamou com sua voz fina e saltitante, sem o modificador. Ele se inclinou, observando os cotos sangrentos onde ficavam os dedos mindinhos. — Mas não fique triste. Dedos são superestimados. Sabe o que não é superestimado? Talento. E você tem de sobra! Eu vi como você se move. Você é rápido, é inteligente... quase como nós, só que com menos "ajuda" química.

 

Jester esticou a mão e pegou a jaqueta de Henry, que estava jogada em um canto, e a máscara de madeira azul que Elijah havia confiscado. Ele as segurou como se fossem tesouros.

 

— Sabe o que eu estava pensando? Esse azul é tão... 1990. Vou levar isso para o meu ateliê. Imagina só: couro preto fosco, máscara negra com detalhes em prata... você ficaria lindo, Henry! Se você cooperar, se nos ajudar com o Solomon, você pode trocar esse chão sujo por um dos nossos quartos brancos. Pense nisso, tá? A família adora rostos novos!

 

Com piruetas sobre as rodas, Jester saiu da sala, deixando Henry mergulhado no silêncio e na agonia.

 

Poucos minutos depois, a porta se abriu novamente. Mas desta vez, não houve barulho de guizos ou gritos. Sílvia entrou silenciosamente, carregando uma maleta médica branca. Ela retirou a máscara de lágrimas negras, revelando seu rosto de traços finos e pele pálida. Seus olhos encontraram os de Henry, e por um breve segundo, não havia a frieza de uma assassina, mas a precisão de alguém que conhecia a dor intimamente.

 

Ela se ajoelhou ao lado de Henry e começou a limpar os ferimentos com um antisséptico potente que fez o Herege contrair o corpo inteiro em um espasmo.

 

— Fique parado — ela ordenou em um sussurro baixo, quase inaudível para as câmeras de Jester. — Se você se mexer, o selante não vai fechar a artéria.

 

Henry soltou um gemido abafado, a visão turvando enquanto ela aplicava uma substância nos dedos mutilados. O toque dela era leve, contrastando brutalmente com a violência de Lil. Henry olhou para ela, sentindo o calor do remédio começar a anestesiar a carne viva, e deixou um sorriso fraco e dolorido escapar entre os lábios ensanguentados.

 

— Pe... pelo menos... — Henry tossiu um pouco de sangue, forçando as palavras. — Um anjo... entre dez demônios...

 

Sílvia estancou a mão por um milésimo de segundo. Ela não sorriu. Seus olhos apenas se estreitaram levemente, uma sombra de amargura cruzando seu rosto.

 

— Não se engane, Henry — ela disse, voltando a enfaixar as mãos dele com uma gaze branca impecável. — Anjos não existem neste lugar. Eu só estou garantindo que você não morra antes do Silas decidir o que fazer com você. O "anjo" aqui também carrega um fuzil e também obedece a ordens.

 

— Mas você... você sente muito mais do que eles — Henry insistiu, a voz falhando. — Eu vejo no seu olhar. Você não é máquina. É apenas... prisioneira em uma gaiola branca.

 

Sílvia apertou a faixa final com um pouco mais de força do que o necessário, fazendo Henry gemer, mas seus olhos evitaram os dele. Ela fechou a maleta e se levantou, colocando a máscara de lágrimas negras de volta.

 

— Descanse, Herege. A próxima pessoa a entrar por essa porta não terá remédios nas mãos.

 

Ela saiu da sala, deixando Henry sozinho com a dor e a certeza de que a família de Silas era muito mais fraturada do que o líder imaginava.

 

Henry estava mergulhado em uma semi-inconsciência quando sentiu as travas da cadeira de ferro se abrirem. Silas estava lá, imponente e silencioso. Com uma delicadeza que Henry não esperava, o líder o ajudou a se levantar. O rosto de Henry agora estava envolto em gaze branca devido aos socos de Lil, deixando apenas seus olhos e boca visíveis — uma imagem especular de Silas, embora o Herege carregasse a marca da tortura, enquanto o outro carregava a marca de um passado que se recusava a morrer.

 

Eles caminharam pelo labirinto de corredores brancos até chegarem a uma porta pesada que se abriu para um quarto que parecia ter saído de um sonho de antes da Queda.

 

— Eu poderia ter deixado o Lil terminar o serviço — disse Silas, observando Henry cambalear até o centro do quarto. — Mas somos apenas onze pessoas no mundo todo que realmente importam. Um reforço de vez em quando seria bom... mesmo você não sendo "imortal" como nós.

 

Silas recuou e fechou a porta, o som da trava eletrônica ecoando como uma sentença final.

 

Henry desabou na cama. Os lençóis eram de um algodão egípcio tão macio que sua pele castigada quase ardeu ao toque. Ele olhou ao redor, incrédulo. Havia uma TV de tela plana ligada em um protetor de tela estático, uma pequena geladeira cheia de água mineral e energia elétrica pulsando em cada tomada. Henry sentiu um nó na garganta; nos dez anos desde que o mundo acabou, ele nunca viu tanta abundância. Mas o conforto era um veneno.

 

"Não se preocupem, Hereges..." — Henry pensou, fechando os únicos dedos que lhe restavam em um punho trêmulo. "Eu vou matar cada um desses bastardos, um por um. Eu vou voltar para vocês, meus irmãos."

 

Ao mesmo tempo, as perguntas começavam a corroer sua mente. Imortais? Do que Silas estava falando? O que eram os Ceifadores? Por que Silas tinha o rosto enfaixado? Seriam as faixas para esconder cicatrizes ou algo muito pior?

 

O silêncio do quarto foi interrompido pela porta se abrindo. Aiden e Sílvia entraram.

 

Aiden caminhou com sua vaidade habitual, sem usar a máscara, conferindo o próprio topete perfeitamente alinhado em um pequeno pente de bolso antes de se voltar para Henry. Ele estendeu um espelho de mão com moldura de prata.

 

— Tome — Aiden disse com um sorriso sádico e vaidoso. — Para que você possa conferir sua "beleza" todos os dias. Você está um horror agora, mas as faixas dão um ar de mistério. Tente não sujá-las, o branco é sagrado aqui.

 

Sílvia aproximou-se em seguida, carregando um conjunto de roupas dobradas com precisão militar. Ela colocou sobre a cama a jaqueta e a máscara de Henry — mas o azul e o marrom originais haviam desaparecido. Tudo fora tingido por Jester com um preto fosco, profundo e gélido, com detalhes em prata que brilhavam sob a luz forte.

 

— Vista-se — Sílvia disse, sua voz mantendo aquela neutralidade melancólica. — Para os outros lá fora, você não é mais o Henry dos Hereges. Agora, você é família. E família usa preto.

 

Henry olhou para o traje negro. Ele parecia um deles agora. Uma extensão da sombra que Silas projetava sobre o Oregon.

 

Jantar em Família

 

O despertador biológico de Henry estava quebrado pelo trauma, mas o estalo magnético da porta o trouxe de volta à realidade. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, e o relógio digital na parede — algo que Henry não via funcionar há anos — marcava 19:45.

 

Elijah estava parado no umbral, a silhueta relaxada contra o batente.

 

— Anda, Azulzinho. Vem jantar.

 

Henry piscou, a mente turva pela sedação da dor.

 

— Jantar? O quê? — a pergunta saiu rouca, quase um sussurro. A ideia de uma refeição formal parecia uma alucinação em um mundo onde se comia carne de caça chamuscada ou rações vencidas.

 

Ele seguiu Elijah pelos corredores silenciosos até a cozinha. O ambiente era um choque para os sentidos: um branco clínico e imaculado cobria das paredes aos móveis de design minimalista. Era limpo demais, bonito demais para ser real.

 

À mesa, a cena era coreografada. Os onze estavam lá. Todos trajavam versões civis de seus uniformes — tecidos pretos de corte impecável, sem o peso dos coletes balísticos, sem o metal das armas e sem as máscaras que escondiam suas humanidades (ou a falta delas). Apenas Jester destoava, mantendo algum detalhe caótico em seu traje, como se a ordem fosse uma ofensa pessoal.

 

Henry sentou-se na única cadeira vaga, ao lado de Lil. Ele não levantou o olhar; sua cabeça pesava, os olhos fixos na toalha de mesa perfeitamente esticada. Diante dele, uma abundância que beirava o obsceno: pães frescos, carnes preparadas, vegetais que brilhavam sob a luz de LED.

 

O silêncio da mesa foi interrompido pelo movimento de Silas. O líder se aproximou por trás de Henry, o passo tão leve que parecia flutuar. Ele pousou as mãos nos ombros do Herege. Henry sentiu o frio do couro das luvas e o relevo irregular dos cacos de vidro colados sobre os nós dos dedos — uma ferramenta de tortura transformada em adorno de autoridade.

 

— Sinto muito por hoje cedo, Henry — a voz de Silas ecoou baixa, carregada de uma calma hipnótica. — Mas é assim que crescemos... na base da violência. Triste violência.

 

As mãos de Silas apertaram levemente os ombros de Henry, um gesto que era ao mesmo tempo um consolo e uma ameaça. Silas pareceu viajar por um instante, seu olhar se perdendo nas paredes brancas da cozinha.

 

— Pelo menos aqueles cientistas do inferno não estão mais aqui para nos escravizar — ele murmurou, como se mastigasse uma memória amarga e antiga.

 

O líder então se inclinou, sua presença obscurecendo a luz para Henry.

 

— Agora, Henry, você é família. Pode comer. Você teve um dia difícil — Silas soltou um riso seco, quase imperceptível. — Não se preocupe, a bebida não está envenenada... embora sejamos imunes a veneno.

 

Henry olhou para o copo de cristal à sua frente. Ele sentiu o peso do olhar de cada um dos outros dez imortais sobre ele. Abaixou a cabeça e começou a comer. O sabor da carne era quase perturbador de tão real, mas ele mastigava mecanicamente, mantendo os olhos baixos, agindo como uma sombra entre luzes brilhantes. Ele não perguntou nada. Ele não era louco. Apenas ouvia o tilintar dos talheres e o fluxo da conversa entre os monstros.

 

— Eu disse que o Azulzinho aguentaria pelo menos dois dedos antes de pedir para parar — a voz de Diego quebrou o silêncio, acompanhada pelo tilintar de seus brincos de caveira enquanto ele se servia de mais vinho. — Você apostou no primeiro.

 

— Sorte de principiante do Henry — Zack respondeu, dando de ombros e manipulando uma carta de baralho entre os dedos. — O destino queria que ele fosse resistente. Mas o baralho nunca erra no longo prazo.

 

— Destino, que bobagem — Fabrizio, ocupando o papel de pragmático na mesa, cortou, sua voz fria. — O metabolismo dele é apenas mais lento para a dor devido ao choque térmico da floresta. Não há mágica nisso, Zack. Apenas biologia medíocre.

 

Aiden soltou uma risadinha, limpando os lábios com elegância excessiva.

 

— Biologia ou não, as faixas no rosto dele ficaram um charme. Quase me sinto tentado a usar também, se não fosse um desperdício esconder minha estrutura óssea. Sílvia, querida, você não acha que o preto realçou o tom de pele dele?

 

Sílvia não respondeu de imediato. Ela apenas girava o líquido no copo, observando o reflexo.

 

— Ele parece um cadáver em roupas de gala, Aiden. O que, neste lugar, é o maior elogio que você poderia fazer.

 

No canto da mesa, Andrew continuava empilhando doces ao lado do prato de carne, ignorando as normas de etiqueta.

 

— Silas, o Ian está de mau humor de novo — Andrew disse com a boca cheia. — Ele passou a tarde inteira limpando o rifle e olhando para o mapa da clareira.

 

Ian levantou os olhos.

 

— Eu apenas faço o que foi me mandado, e executo da melhor forma possível. Sem falha tática.

 

— Falha tática... você fala como um manual de instruções, Ian! — Jester interveio, fazendo seus guizos soarem enquanto se balançava na cadeira. — Eu acho que devíamos deixar o Gun vivo. Ele é engraçado! Ele usa um zíper na boca! É quase um de nós, só que pobre!

 

— Silêncio — a voz de Silas não foi alta, mas o efeito foi imediato. A mesa inteira calou-se.

 

Silas olhou para Henry, que continuava comendo em silêncio absoluto. O líder dos Ceifadores estava satisfeito com a submissão momentânea do prisioneiro.

 

— Amanhã será um dia longo — Silas disse, voltando-se para o grupo. — Elijah e Ian, vocês levam o Henry para o reconhecimento. Quero ver como ele se move no novo traje. Sílvia e Fabrizio, fiquem na retaguarda. Se o Mickey aparecer, não o matem de imediato. Eu quero entender como um humano comum conseguiu empalar um dos nossos na parede. Isso é... estatisticamente interessante.

 

— E a criança, Silas? — perguntou Diego, com uma nota de genuína curiosidade e um respeito quase religioso.

 

Silas suavizou o olhar, algo que Henry notou apenas pelo movimento sutil das pálpebras acima das faixas.

 

— A criança é o futuro. Ela terá o melhor que este lugar pode oferecer. Música, comida, segurança. Ninguém tocará nela. Ela crescerá sem saber o que é o cheiro de sangue ou o som de uma bala. Ela será o que nós nunca pudemos ser.

 

Henry apertou o garfo. Ele não disse uma palavra, mas a ironia era amarga: os maiores assassinos do mundo planejavam criar uma criança em um palácio construído sobre cadáveres.

 

O jantar continuava em um fluxo estranho, uma mistura de etiqueta aristocrática e barbárie contida. Henry mantinha o queixo baixo, focando apenas no movimento de levar a comida à boca, tentando ignorar a presença de Lil ao seu lado, que respirava como um animal encurralado.

 

A calmaria foi quebrada quando Andrew, distraído enquanto empilhava seus doces, cutucou o braço de Lil sem olhar.

 

— Lil, passa o sal? Por favor, não deixa cair como da última vez.

 

O tilintar dos talheres parou instantaneamente. Henry sentiu a temperatura da mesa cair. Lil travou, o garfo suspenso no ar. Seus olhos claros começaram a vibrar nas órbitas.

 

— Você... — Lil sussurrou, a voz subindo de um chiado para um rosnado agudo — … você me deu uma ordem? VOCÊ ME DEU UMA ORDEM, ANDREW?!

 

Lil golpeou a mesa com o punho, fazendo os cristais saltarem. Ele se levantou, a cadeira voando para trás.

 

— POR FAVOR NÃO DEIXA CAIR?! É ISSO?! UMA ORDEM?! VOCÊ ACHA QUE É O SILAS?!

 

Andrew nem piscou, apenas continuou mastigando um marshmallow, acostumado com o surto. Silas apenas levantou dois dedos no ar, e Lil, no auge do transe, congelou. Ele sentou-se novamente, tremendo.

 

Jester, que observava tudo de cima de seu hoverboard enquanto comia uma maçã cortada em cubos perfeitos, deslizou para trás de Henry. Ele inclinou a máscara de bobo da corte até que os guizos tocassem o ombro do Herege.

 

— Ele está tão quietinho, não está? — Jester sussurrou para a mesa, a voz fina e zombeteira. — Parece um bonequinho de madeira que o Geppetto esqueceu de dar corda. Diga alguma coisa, Henry! Conte uma piada! Ou prefere que eu conte o que acontece com quem fica em silêncio por muito tempo na Ala de Castigo?

 

Henry não respondeu. Ele apenas mastigou um pedaço de carne, sentindo o olhar de Jester queimar sua nuca.

 

— Tsc, tsc. Sem senso de humor — Jester bufou, afastando-se.

 

Do outro lado da mesa, Elijah limpou os lábios com o guardanapo e olhou para Silas com uma serenidade mortal.

 

— Silas, mudando de assunto... recebemos relatórios de batedores ao sul. Estão queimando vilarejos. Racistas ou supremacistas brincando de senhores de escravos. Quando vamos visitá-los?

 

Silas tomou um gole de vinho.

 

— Em breve, Elijah. Eles acham que a cor da pele é um escudo. Mal sabem que, para a nossa espécie, todos eles são apenas carne velha esperando o descarte. Ian já está mapeando os ninhos deles. Não sobrará um capuz branco para contar a história.

 

O clima na mesa mudou para algo mais íntimo quando Fabrizio, observando a irmã gêmea do outro lado, inclinou a cabeça. Ele parecia ignorar o resto do mundo, focado apenas nela.

 

— Sílvia... — ele disse, a voz suave. — Você reparou? Com o cabelo despenteado... você tem exatamente o nariz do papai.

 

Sílvia parou o copo de vinho a meio caminho da boca. Ela fechou os olhos por um segundo, e Henry notou um tremor quase imperceptível em sua mão pálida. Ela bebeu o vinho de uma vez e colocou o copo na mesa com uma calma forçada.

 

— Por favor, Fabrizio... — a voz dela saiu carregada de uma melancolia cortante. — Não me faça lembrar dele. É por isso que eu uso a máscara. Para não ter que ver o reflexo dele no espelho todos os dias.

 

Fabrizio não recuou. Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando levemente os dedos da irmã.

 

— Eu sei. Mas você também tem o cabelo e os olhos lindos da mamãe. Os mesmos olhos que ela tinha antes de... antes de tudo acabar.

 

Sílvia abaixou a cabeça. O silêncio que se seguiu não era de medo, mas de uma dor compartilhada que Henry não esperava encontrar ali. Aqueles monstros tinham pais. Tinham memórias de um tempo em que não eram armas.

 

— É... — Sílvia sussurrou, a voz quase sumindo. — Verdade.

 

Nesse momento, ela levantou o olhar e encontrou o de Henry. Não havia a Bela Morte ali, nem a assassina. Havia apenas uma mulher pálida, cujas lágrimas negras pintadas na máscara pareciam, pela primeira vez, ser reais. O olhar durou segundos, um reconhecimento silencioso de que ambos, de formas diferentes, eram prisioneiros de fantasmas.

 

Silas limpou a garganta, encerrando o momento de vulnerabilidade.

 

— Chega de nostalgia. Henry, termine sua refeição. Amanhã você deixa de ser um convidado e passa a ser uma ferramenta. E ferramentas não podem ter olhos tristes.

 

O Encerramento: O Reflexo do Abismo

 

Após o jantar, Henry foi conduzido de volta ao seu quarto por Ian. Não houve palavras, apenas o som metálico das botas ecoando no corredor estéril. Ao entrar, ele encontrou a máscara negra sobre a cama, com uma precisão que beirava o ritualístico.

 

Henry caminhou até o espelho. Seus dedos mutilados, agora envoltos em bandagens limpas por Sílvia, tremeram quando ele alcançou a nova máscara. Jester havia feito um trabalho impecável e cruel. A madeira azul e rústica dos Hereges fora substituída por um negro fosco, frio ao toque. No centro, entre os olhos, a cruz de galhos secos — seu símbolo de fé — fora banhada em prata pura. Ela brilhava sob a luz branca como uma relíquia profanada.

 

O mundo através das lentes da máscara não era mais o mesmo. Henry olhou para o próprio reflexo. Ele não via mais o Azul dos Hereges, o herdeiro de Solomon. No espelho, um Ceifador o encarava de volta. Um monstro de preto e prata, pronto para caçar sua própria espécie.

 

Ele se sentou na beira da cama e apagou as luzes, pensando na frase de Silas: "Ferramentas não podem ter olhos tristes."

 

Henry fechou os olhos por trás das lentes. Ele não orou para o Deus dos Hereges. Ele não pensou em justiça. Ele apenas sentiu o latejar rítmico da dor em seus dedos arrancados e o silêncio absoluto da base da CIA. Pela primeira vez em dez anos, Henry Henrikson não estava com medo. O medo exige esperança, e naquela noite, ele a havia deixado em algum lugar entre a clareira e a sala de tortura.

 

Lá fora, o vento uivava nas Cascades, mas dentro do quarto, o único som era a respiração pesada do décimo segundo Ceifador.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

 

 

 

 

 

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