DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 2

Capítulo 11 - A Caçada Começa

Florestas de Cascade – 00:11 AM

 

O silêncio das Cascades não era o silêncio de uma floresta viva; era o vácuo deixado por um predador que já havia passado. O único som que preenchia a umidade opressiva do ar era o estalo seco dos galhos sob as botas dos Hereges e o rangido horrível da madeira sob o peso dos mortos. Os corpos do Hidro-Conselho, pendurados como oferendas macabras em estacas de carvalho, cantavam conforme o vento movia suas carcaças carbonizadas. O cheiro de carne queimada e decomposição recente era um veneno invisível que invadia os pulmões.

 

Henry parou no centro do corredor de mortos. Ele se virou para o grupo, o semblante mais rígido do que o mármore.

 

— Tá legal, vamos nos dividir em equipes — a voz de Henry saiu baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Gun, você vai com Piro para a mansão velha.

 

Gun, que estava terminando de ajustar a Magnum em seu cinto com uma calma irritante, soltou uma risada curta e seca, olhando para o especialista em chamas com um desdém evidente.

 

— Ora, então eu vou com o bartender? — ironizou Gun.

 

— Não faça eu queimar sua pele, Gun! — rosnou Piro, os olhos brilhando com a instabilidade que o tornava tão perigoso.

 

Henry deu um passo à frente, interrompendo a tensão antes que ela se tornasse fogo real.

 

— Eu vou sozinho pela mata explorar outras regiões — declarou Henry, ajustando a alça de seu equipamento. — Não se preocupem, eu me viro.

 

Ele olhou para as mulheres do grupo, Elena e Tara, cujas habilidades combinadas de sombra e resistência eram a melhor aposta para o reconhecimento pesado.

 

— Elena e Tara, vocês vão em direção ao QG em furtividade, mas não se aproximem demais. Precisamos de olhos lá, não de mártires. Kol e Kane, vocês vão até o aeroporto abandonado; aproveitem e procurem recursos por lá, é uma área grande.

 

Por fim, ele apontou para o trio restante.

 

— Leo, Vane e Beck, vocês vão até o posto de gasolina.

 

O plano estava lançado. Nove Hereges e um prisioneiro armado, prestes a se espalhar pelas veias de uma floresta que pertencia aos seus piores pesadelos.

 

No entanto, o silêncio das Cascades foi estilhaçado por um som sibilante, quase imperceptível antes do impacto. Uma flecha preta atravessou o ar com velocidade sobre-humana, cravando-se profundamente na coxa de Gun, que soltou um rosnado de dor e surpresa. Antes mesmo que o primeiro grito de alerta fosse dado, um segundo projétil atingiu o ombro de Vane, arremessando-o um passo para trás.

 

Logo em seguida, cilindros metálicos caíram silenciosamente entre as estacas de crucificação. Puff. Puff. Cortinas densas e químicas de fumaça cinzenta engoliram o grupo em segundos.

 

— Cof, cof! — Henry cobriu o rosto com o antebraço, sentindo o ar queimar. — Eles nos encontraram! Andem logo, cada um para sua posição! Agora!

 

Através da névoa que se dissipava, o pesadelo se materializou. Dez figuras surgiram entre as árvores, movendo-se com uma sincronia que desafiava a biologia humana. Trajes táticos pretos, capuzes sombrios e as icônicas máscaras de metal. Rostos de caveiras, sorrisos macabros e expressões vazias que refletiam a luz fria da noite. Eles eram o ápice do terror tecnológico: pistolas, fuzis M4, arcos de alta tensão e foices de mão que brilhavam com um fio letal.

 

Em um movimento uníssono e coreografado, como se compartilhassem uma única consciência, todos os dez Ceifadores inclinaram o pescoço para a esquerda. O estalo coletivo das vértebras soou como um gatilho; um sinal de desdém absoluto, a marca da superioridade de quem não vê inimigos, mas apenas presas.

 

Silas deu um passo à frente. Sua voz, distorcida e baixa, cortou a fumaça:

 

— Vão. Cada um com sua dupla. Matem todos.

 

A ordem foi o rastilho de pólvora. As sombras se dispersaram como fumaça ao vento:

 

Sílvia e Silas mergulharam na mata densa, rastreando o rastro leve de Elena e Tara em direção ao QG.

 

Elijah e Ian fixaram o olhar em Henry, que recuava para a mata profunda. Enquanto Elijah avançava, Ian desaparecia entre as sombras como um fantasma, mantendo-se oculto para o bote final.

 

Fabrizio e Aiden partiram com velocidade predatória rumo à mansão velha, onde Gun e Piro tentavam buscar cobertura.

 

Zack e Diego saltaram pelos troncos caídos, movendo-se como borrões em direção ao posto de gasolina atrás de Leo, Vane e Beck.

 

Lil e Andrew iniciaram a perseguição em direção ao aeroporto abandonado, o som do facão de Andrew batendo no couro e a risada instável de Lil ecoando entre as árvores enquanto buscavam Kol e Kane.

 

O jogo de sobrevivência havia começado. E, para os Hereges, as regras eram simples: corram ou morram.

 

Mansão Antiga – 00:54 AM

 

A escuridão da madrugada nas Cascades era absoluta, um manto pesado que absorvia até a luz das lanternas. Gun e Piro avançavam tropeçando pelas raízes, o suor frio de Gun misturando-se ao sangue que empapava sua calça onde a flecha abrira o caminho. Quando a silhueta decrépita da mansão rústica finalmente surgiu entre os carvalhos, parecia mais um túmulo do que um refúgio.

 

— Cacete, chegamos... — rosnou Gun, apoiando-se no batente da porta apodrecida, a respiração pesada. — Precisamos nos esconder.

 

Piro lançou um olhar impaciente.

 

— Nossa, valeu aí, o Capitão Óbvio — retrucou Piro em um sussurro áspero. — Se você não tivesse falado, eu ia ficar aqui fora acendendo um sinalizador para eles.

 

Eles invadiram a sala principal, onde o cheiro de mofo e poeira acumulada de décadas subiu aos pulmões. Enquanto Gun tentava estancar o sangramento na perna com um pedaço de pano rasgado, Piro vasculhava as prateleiras em busca de qualquer coisa útil — álcool, comida enlatada ou ferramentas. O tempo esticava, cada segundo pesando como uma hora.

 

Minutos depois, o silêncio da casa foi assassinado.

 

Rannnnnnng. O som da porta da frente rangendo sobre as dobradiças enferrujadas congelou o sangue dos dois. Logo em seguida, o som rítmico e pesado de botas militares chocando-se contra o assoalho de madeira. Clac. Clac. Clac.

 

A luz das lanternas táticas cortou a escuridão. Fabrizio e Aiden entraram no recinto. Suas silhuetas eram espectros de morte, a máscara de caveira de Turner e a máscara de sorriso de Aiden reluzindo sob o luar que entrava pelas janelas quebradas. O som de suas vozes, distorcidas pelos modificadores, saía metálico e inumano.

 

— Aí, Turner, essa casa é horrível — a voz de Aiden chiou, carregada de uma arrogância sintética. — É um lugar péssimo para a minha beleza.

 

Fabrizio não se virou. Ele empunhava sua pistola Silver Ghost com uma postura de tiro perfeita, os olhos frios por trás da máscara de esqueleto examinando cada canto da sala.

 

— Cala a boca, Aiden — respondeu Turner, o tom gélido e autoritário. — Eu mesmo corto esse seu cabelo. Anda, vai olhar no segundo andar. Eu fico aqui embaixo.

 

O som das botas de Aiden começou a subir a escadaria de madeira, cada degrau estalando como um osso quebrando, enquanto Turner permanecia no centro da sala.

 

No andar de cima, o ranger das tábuas sob as botas de Aiden era acompanhado pelo resmungo constante e vaidoso que o modificador de voz transformava em um chiado sinistro.

 

— Que casa nojenta... — Aiden tateava as paredes descascadas com desdém. — Ainda bem que estou de máscara e com capuz. Não quero pó de serra caindo no meu cabelo.

 

Lá embaixo, o silêncio era ainda mais perigoso. Fabrizio não se movia como um homem, mas como um predador que já sentia o cheiro do medo. Com uma calma absoluta, pegou um cabo de vassoura caído, quebrou-o com um estalo seco e começou a raspar a ponta contra a parede de pedra da lareira, criando uma estaca afiada em segundos.

 

— Então... eu sei que vocês estão aí — a voz de Turner ecoou pela sala, fria e desprovida de pressa. — Gun, é uma pena que você e seu exército tenham caído para esses bastardos do Oregon. Mas não se preocupe... eu mesmo ficarei aqui para limpar o que sobrou.

 

Escondido atrás do balcão da cozinha, Gun sentia a pulsação na perna ferida, mas seus olhos brilhavam com a velha astúcia de quem já foi rei. Ele se inclinou para o ouvido de Piro, sussurrando de forma quase inaudível:

 

— Você, Piro... vai lá em cima. Eu distraio ele.

 

Piro arregalou os olhos, o suor escorrendo pela máscara de madeira vermelha.

 

— Você enlouqueceu? — devolveu o sussurro, incrédulo. Subir significava dar de cara com um deles.

 

— Vai logo — Gun apertou o cabo da Magnum, a expressão de quem não aceitava discussões. — Eu me viro.

 

Piro hesitou por um milésimo de segundo, mas aproveitou a sombra da escada lateral para começar sua ascensão silenciosa. No mesmo instante, Gun esticou o braço e arremessou uma garrafa de vidro vazia em direção ao lado oposto da cozinha.

 

O som do vidro se estilhaçando contra o chão de cerâmica explodiu no silêncio da casa. Turner girou o corpo instantaneamente, o som abafado dos passos de Piro era mascarado pelo eco dos estilhaços.

 

Piro avançava com cautela pelo corredor escuro. Sem nenhum aviso, Aiden surgiu de uma sombra lateral e desferiu um chute que jogou Piro contra a parede.

 

Aiden não usava armas de fogo; ele usava as mãos limpas. Ele deu um chute duplo, atingindo o estômago de Piro e, em seguida, deu uma joelhada no rosto do Herege. Piro tentava revidar com suas manoplas de fogo, mas Aiden se esquivava com uma facilidade humilhante, como se estivesse dançando.

 

Aiden zombou:

— Você é lento, sujo e está estragando o meu uniforme com esse cheiro de querosene.

 

Aiden acertou uma sequência de socos rápidos que quebraram a guarda de Piro. O Ceifador o segurou pelo pescoço e o empurrou contra a moldura de uma janela grande e quebrada, preparando-se para finalizá-lo.

 

Piro, sentindo que ia desmaiar, percebeu que Aiden estava muito preocupado com a própria postura e vaidade. No momento em que Aiden o segurava para o golpe final, Piro não tentou socá-lo. Em vez disso, ele abriu a válvula de segurança da manopla, liberando um jato de óleo lubrificante escorregadio diretamente nos pés de Aiden e no chão de madeira lisa.

 

Sem equilíbrio devido ao óleo, os pés de Aiden deslizaram. Piro aproveitou o impulso, segurou Aiden pelo casaco preto e, usando a força do próprio Ceifador contra ele, girou o corpo e o empurrou com tudo para trás.

 

Aiden, pego de surpresa pela manobra inteligente, não teve onde se segurar e atravessou o vidro, caindo de costas lá embaixo no meio do mato.

 

Lá embaixo, o som da garrafa quebrada cumpriu seu papel por apenas alguns segundos. Turner entrou na cozinha com a precisão de um fantasma. Gun, sabendo que não teria uma segunda chance, não hesitou. Ele sacou a Magnum e descarregou as seis balas de alto calibre diretamente contra o peito do Ceifador. O impacto foi brutal; o corpo de Turner foi arremessado contra a parede, derrubando um quadro velho e colidindo contra o chão com um baque surdo.

 

Gun ofegava, a fumaça saindo do cano da arma.

— Merda... era tudo o que eu tinha — resmungou, sentindo o peso da arma vazia.

 

Para qualquer humano, aquilo seria o fim. Mas Turner não era humano. O modificador de voz emitiu uma risada metálica e distorcida enquanto o Ceifador se erguia lentamente, ignorando os buracos em seu colete balístico de nível militar.

 

— Seu assassino imbecil... a morte não pode morrer! — a voz de Turner ecoou, gélida.

 

Num movimento rápido, Turner sacou sua Silver Ghost e disparou, atingindo a coxa de Gun. O ex-rei da Rodovia 97 urrou de dor e, num esforço desesperado, arrastou-se até o hall principal, deitando-se perto da escadaria. Turner guardou a pistola e sacou suas duas foices de mão, caminhando calmamente.

 

— Você sempre foi forte, Gun, mas sem seu exército você... ah, meu amigo, você não é nada!

 

Turner levantou a foice para desferir o golpe de misericórdia. Tunc! De repente, um estalo seco soou e um prego de aço atravessou a mão de Turner, fixando-a por um segundo no ar. O Ceifador parou, olhando para a própria palma atravessada. Sem soltar um único gemido, ele simplesmente arrancou o prego com força bruta, o sangue escorrendo pelas luvas pretas enquanto examinava o ambiente.

 

— Aqui em cima! — gritou Piro, posicionado no topo da escada com uma pistola de pregos velha que encontrara nos escombros.

 

Turner começou a subir as escadas, ignorando a chuva de pregos que Piro disparava. Os projéteis atingiam seu peito e ombros, mas ele continuava caminhando como uma máquina imparável. Quando a munição de Piro acabou, o Herege não recuou; ele se jogou sobre o Ceifador. Os dois corpos colidiram e rolaram escada abaixo em um emaranhado de socos e chutes, até atingirem o chão do hall.

 

Piro ficou caído, sem fôlego. Turner, demonstrando uma agilidade sobre-humana, deu um mortal para trás e parou em pé, encarando o Herege. Ele girou a foice, pronto para o corte final, quando uma sombra surgiu à frente dele enquanto olhava para o chão.

 

Mickey, um dos antigos e mais letais executores de Gun que todos julgavam morto, apareceu segurando a estaca que Turner mesmo havia afiado minutos antes. Com um movimento violento, Mickey empalou o peito de Turner, perfurando o Ceifador. Ele empurrou com todo o peso, encarando a máscara de esqueleto com um sorriso de dentes fechados.

 

— Eu venci, babaca — sussurrou Mickey.

 

Com um último esforço, Mickey cravou o corpo de Turner na parede de madeira da mansão, prendendo-o lá como um inseto em uma vitrine. A cabeça do Ceifador pendeu para frente e ele aparentemente estava morto.

 

Gun, chocado, olhou para o seu antigo subordinado.

— Mickey? Onde você estava enquanto meu império caía?

 

Mickey caminhou até Gun, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.

— E aí, chefe. Eu andei fazendo ovos mexidos enquanto você e todo o império caíam, mas ficava vigiando.

 

Piro limpou o sangue do rosto, incrédulo.

— Mickey? Seu desgraçado... pensei que todos os Executores tinham sido mortos. Pelo menos a maioria.

 

— Eu sou o 1%, meu amigo — Mickey respondeu com uma piscadela cínica. — Agora anda, vamos sair daqui antes que o outro lá fora resolva voltar.

 

Florestas de Cascade – 00:24 AM

 

A infiltração em direção ao QG dos Ceifadores era uma jornada através de um cemitério vertical. Elena e Tara moviam-se com a precisão que Henry esperava: Elena era a sombra líquida, deslizando entre as folhagens, enquanto Tara era a rocha, o escudo pronto para qualquer impacto. Mas, nas Cascades, as sombras têm olhos.

 

Sem aviso, a temperatura pareceu cair. Do alto de um afloramento rochoso, duas silhuetas desceram como anjos caídos. Silas, o líder dos Ceifadores, e Sílvia, a Bela Morte.

 

— Elas são determinadas, não são, Silas? — a voz de Sílvia, distorcida pelo modificador, soou como um sussurro fúnebre.

 

— Determinação é apenas o prelúdio do fracasso — respondeu Silas, sacando seus dois bidentes de ferro das manoplas ocultas.

 

O combate explodiu. Tara rugiu, levantando seu escudo de porta de cofre e avançando contra o líder dos Ceifadores. O impacto foi ensurdecedor. Tara era forte, mas Silas era uma força da natureza. Ele desviou do golpe do escudo, mantendo-se imóvel, e com o bidente desferiu um ataque que amassou o aço reforçado.

 

Tara tentou usar os espinhos do escudo para perfurar Silas, mas ele se moveu com uma calma aterrorizante. Ele chutou a base do escudo, desequilibrando a tanque dos Hereges, e em um movimento fluido, cravou um dos bidentes no ombro de Tara. Ela soltou um grito de agonia, mas Silas não parou. Ele a ergueu do chão pela arma cravada, olhando nos olhos dela através da máscara de crânio. Com uma força sobre-humana, Silas girou o outro bidente e o atravessou na garganta de Tara, silenciando-a para sempre. O corpo da sul-africana caiu pesadamente no chão úmido, o escudo que protegeu tantos Hereges agora é apenas uma lápide de metal.

 

Ao lado, Elena vivia seu próprio pesadelo. Ela tentou acionar suas lâminas ocultas, atacando Sílvia com uma sequência de cortes rápidos. Sílvia, no entanto, movia-se com uma elegância macabra. Ela não apenas esquivava; ela brincava.

 

— Tão lenta, pequena sombra — Sílvia zombou.

 

Em um contra-ataque que Elena mal conseguiu acompanhar, Sílvia agarrou o pulso da espanhola. Com um movimento seco e preciso de alavanca, o som do osso partindo ecoou pela floresta. Elena gritou, caindo de joelhos enquanto segurava o braço inutilizado, agora em um ângulo impossível. A dominância de Sílvia era absoluta; ela chutou o rosto de Elena, jogando-a contra o tronco de uma árvore.

 

Elena, tomada por um terror que nunca sentira antes, olhou para o corpo sem vida de Tara e depois para os dois monstros à sua frente. As lágrimas pintadas na máscara de Sílvia brilharam sob o luar. Em um ato de puro instinto de sobrevivência, Elena correu, segurando o braço quebrado junto ao peito, desapareceu entre os arbustos, correndo desesperadamente.

 

Sílvia levantou o fuzil M4, mirando na direção dela, mas Silas pousou a mão sobre o cano da arma, baixando-a.

 

— Deixe-a ir, Sílvia — disse Silas, observando a escuridão onde Elena sumira. — Um rato a menos para nos incomodar já se foi. O medo dela alimentará as lendas.

 

Posto de Gasolina – 01:30 AM

 

O posto de gasolina abandonado era uma carcaça de metal e vidro, um fantasma do velho mundo que cheirava a ferrugem e poeira. Leo, Vane e Beck moviam-se com cautela entre as bombas de combustível vazias. Beck tentava abrir um painel de controle antigo, enquanto Vane vigiava o perímetro.

 

— Nada aqui — Beck murmurou, limpando o suor da testa. — Eles limparam tudo antes de...

 

Um ruído metálico interrompeu sua frase. No topo da loja de conveniência, duas silhuetas observavam. Zack e Diego. Zack estava sentado na borda, embaralhando um maço de cartas pretas com uma mão, enquanto a outra segurava seu fuzil M4.

 

— Olhem só, Diego... três ratinhos procurando queijo onde só tem veneno — a voz de Zack, filtrada pela máscara de sorriso predatório, era carregada de um sarcasmo vibrante.

 

— Vamos dar um show para eles, Zack? — Diego saltou para o chão, caindo com a leveza de um acrobata. Ele acionou duas granadas de fumaça, mas estas não eram cinzas; eram de um vermelho intenso, criando um cenário de pesadelo cromático.

 

A luta começou como um turbilhão. Diego era rápido demais. Ele se movia entre as bombas de gasolina como um borrão, usando suas facas pequenas para desferir cortes superficiais em Leo, que tentava revidar com suas garras de escalada. Leo, o mais ágil dos Hereges, sentiu pela primeira vez que estava enfrentando alguém que o fazia parecer estático. Diego ria enquanto saltava sobre os ombros de Leo, deixando um rastro de fumaça vermelha.

 

Vane tentou intervir, lançando seu chicote de aço para laçar o pescoço de Diego, mas uma bala de precisão atingiu a polia metálica do chicote, arrancando a arma de suas mãos.

 

— Errou a aposta, amigo! — gritou Zack lá de cima. Ele saltou do teto, disparando rajadas curtas de M4.

 

Zack avançou contra Vane. O Herege bósnio tentou o combate corpo a corpo, mas Zack lutava com uma alegria maníaca, usando o fuzil como um bastão antes de sacar uma faca e fazer um corte em X no peito de Vane.

 

— Vamos ver o que o baralho diz sobre você — Zack tirou uma carta do bolso e a jogou sobre o corpo caído de Vane. Era um Ás de Espadas. — Morte. Que falta de sorte.

 

Beck, vendo seus companheiros sendo massacrados, percebeu que a força bruta não funcionaria. Ele correu para o gerador de emergência que estava tentando consertar e, num ato de desespero, sobrecarregou as células de energia manual que carregava nas costas.

 

— Leo! Vane! Saiam daqui! — Beck gritou.

 

Ele acionou sua lança mecânica diretamente no tanque de contenção subterrâneo que ainda retinha vapores de combustível. A explosão não foi total, mas criou uma onda de choque de pressão e fogo que arremessou Diego e Zack para trás, cobrindo a fuga desesperada dos três Hereges para a mata.

 

Zack se levantou, limpando a fuligem da máscara negra, rindo enquanto via os três desaparecerem nas sombras.

 

— Eles correm bem, Diego.

 

— Que chato... — Diego respondeu, girando suas facas.

 

Aeroporto Abandonado – 02:04 AM

 

O Aeroporto Regional das Cascades era um esqueleto de concreto e vidro, onde a natureza começava a reclamar as pistas de pouso através de rachaduras profundas. O vento assoviava pelas janelas quebradas, criando um som lúgubre. Kol e Kane avançavam pelo asfalto, os sentidos em alerta máximo.

 

Eles se aproximaram das portas duplas de vidro da entrada principal. Kol esticou a mão para forçar a abertura quando um som agudo de metal cortando o ar ecoou. Tunc! Uma faca de arremesso preta cravou-se na moldura de alumínio, a centímetros da orelha de Kol.

 

— Mas que porra... — Kol recuou bruscamente, o coração disparado enquanto olhava para a lâmina ainda vibrando na parede.

 

Kane sibilou, puxando Kol para longe da entrada principal. — Vamos dar a volta. Não podemos entrar pela frente, seremos alvos fáceis se tentarmos arrombar essa porta.

 

Eles começaram a contornar o enorme edifício cinzento, mantendo-se baixos e usando as carcaças de alguns carrinhos de bagagem e veículos de serviço abandonados como cobertura. O silêncio do aeroporto era quebrado apenas pelo som das botas deles no asfalto seco.

 

Kane apontou para uma estrutura metálica que subia pela lateral do prédio, levando ao teto.

 

— Vamos procurar um lugar para subir e entrar pelo duto de ventilação! — sugeriu Kane.

 

Eles se moveram rapidamente para os fundos do hangar, procurando uma entrada alternativa ou uma escada que desse acesso aos níveis superiores.

 

A escuridão dentro do terminal do aeroporto era absoluta, uma massa densa de ar estagnado que cheirava a combustível velho e poeira. Assim que atravessaram a entrada alternativa, Kol e Kane se separaram instintivamente para cobrir mais terreno, movendo-se como sombras entre as fileiras de poltronas de plástico rasgadas e balcões de check-in abandonados.

 

O silêncio era tão profundo que Kane podia ouvir o próprio batimento cardíaco. Sentindo que precisava de pelo menos um ponto de referência visual naquele breu, ele parou perto de um pilar de sustentação. Com as mãos trêmulas pela adrenalina, ele buscou no bolso e riscou um fósforo.

 

Fric.

 

A pequena chama laranja nasceu, lutando contra as sombras pesadas do saguão. A luz tremeluzente iluminou o rosto suado de Kane por um segundo, criando um círculo minúsculo de visibilidade. Mas, conforme a chama ganhava força, ela também revelou o que a escuridão estava escondendo.

 

Exatamente atrás de Kane, a centímetros de sua nuca, o brilho do fósforo refletiu no metal frio de uma máscara. Os traços distorcidos e a expressão de loucura esculpida na face de Lil surgiram do nada, como se o Ceifador fizesse parte da própria coluna de concreto.

 

Lil não se moveu. Ele apenas ficou ali, respirando silenciosamente, esperando que Kane percebesse a sua presença. O contraste entre a luz quente do fósforo e o vazio metálico da máscara de Lil era aterrorizante.

 

Pelo canto do olho, Kane viu o reflexo do seu maior pesadelo.

 

— A luz é um erro, ratinho — a voz de Lil, vinda do modificador de voz, soou como um sussurro elétrico e instável. — Ela só serve para eu ver melhor onde vou cortar.

 

Kane sentiu o hálito frio do metal contra sua nuca. Em um reflexo desesperado, ele soltou o fósforo e girou o corpo, sacando sua faca de combate. Lil foi mais rápido; a foice gigante do Ceifador cortou o ar em um arco horizontal, obrigando Kane a se atirar ao chão. O metal da lâmina atingiu o pilar de concreto, arrancando lascas de pedra onde a cabeça do Herege estava segundos antes.

 

— Kol! — gritou Kane, tentando se localizar no breu.

 

Do outro lado do saguão, Kol estava agachado atrás de um balcão de conveniência. Ele acabara de enfiar algumas latas de conserva e um kit médico em sua mochila quando ouviu o grito. Antes que pudesse correr, uma rajada de submetralhadora despedaçou as prateleiras acima dele. Andrew surgiu saltando sobre o balcão, o facão brilhando com a luz da lua que entrava pelas claraboias.

 

— Achou tesouros, grandalhão? — Andrew riu, desferindo um golpe de facão que Kol bloqueou com o cabo de seu machado. — Deixa que eu te ajudo a carregar... para o outro lado!

 

A luta entre Kol e Andrew foi bruta. Kol usava a força para empurrar o Ceifador, tentando usar o peso do machado para manter Andrew à distância. Andrew, porém, era um sádico ágil; ele levava chutes e ombradas de Kol apenas para conseguir retalhar os braços do Herege com cortes rápidos.

 

Enquanto isso, Kane enfrentava o terror de Lil. A luta era parelha apenas porque Kane usava a estrutura do aeroporto — carrinhos de bagagem e balcões — para atrapalhar o movimento da foice imensa de Lil. Kane conseguiu chutar um balcão de metal contra as canelas de Lil e, em um momento de ousadia, desferiu um golpe que riscou o colete do Ceifador. Lil soltou um grito eletrônico de fúria e avançou com uma sequência de estocadas que quase atravessaram o peito de Kane.

 

Kol percebeu que estavam sendo cercados. Ele deu uma cabeçada na máscara de Andrew e pegou uma granada de luz do colete do Ceifador, ganhando um segundo de distância, e lançou-a no centro do saguão.

 

— Kane, agora! — Kol rugiu.

 

O clarão branco cegou Andrew e Lil por breves segundos. Foi a janela de oportunidade que precisavam. Mesmo feridos e ofegantes, os dois Hereges correram em direção à saída de emergência nos fundos.

 

— Vamos embora! — Kane gritou, tropeçando enquanto saíam para o asfalto frio da pista de pouso.

 

Eles desapareceram na escuridão da mata, levando consigo a pequena mochila de mantimentos que Kol conseguira salvar. Atrás deles, Andrew limpava os olhos, rindo alto enquanto ouvia o som dos Hereges fugindo. Eles tinham o que queriam: o medo estava espalhado.

 

Florestas de Cascade – 00:20 AM

 

Enquanto caminhava entre as árvores seculares, o silêncio era interrompido apenas pelo som da própria respiração de Henry. Ele sentia o peso do olhar de Ian, que o observava de algum lugar invisível entre as copas das árvores, mas o verdadeiro perigo estava à sua frente.

 

Henry parou em uma área aberta banhada por um luar pálido. Das sombras, uma figura emergia. A máscara de expressão vazia de Elijah refletia a ausência de alma do Ceifador.

 

— Round 2, Henry — a voz de Elijah saiu pelo modificador, fria e sem qualquer traço de pressa. — No nosso último encontro, você foi bem. Mas a velocidade não salva ninguém da inevitabilidade.

 

Henry apertou os punhos, os músculos dos antebraços saltando. — Da última vez, eu estava com pressa, Elijah. Hoje, eu tenho todo o tempo do mundo para terminar o que comecei.

 

Sem mais palavras, ambos avançaram. Os dois arremessaram facas em direção ao outro que colidiram entre si no ar. O combate era uma dança de morte técnica. Henry usava sua experiência em lutas de rua. Elijah, por outro lado, lutava como se estivesse executando uma cirurgia. Ele bloqueava os golpes de Henry com os antebraços reforçados e devolvia cortes precisos nos pontos de articulação do Herege.

 

Henry conseguiu agarrar o casaco de Elijah e desferiu uma cabeçada violenta contra a máscara de metal. O impacto fez Elijah recuar, e por um breve momento, a frieza do Ceifador vacilou. Henry aproveitou a abertura e desferiu um gancho de esquerda que jogou Elijah contra o tronco de uma sequoia.

 

— Você está ficando lento! — Henry rugiu, avançando para o golpe final.

 

Antes que Henry pudesse alcançá-lo, Elijah recuperou o equilíbrio e disparou um chute circular que atingiu o peito de Henry, jogando-o para trás. Elijah sacou uma faca de combate e a girou entre os dedos com uma habilidade hipnótica.

 

— A dor é apenas uma informação, Henry. E a informação que recebo agora... é que você está cansado.

 

Ian, posicionado em um galho alto a trinta metros de distância, apenas observava com seu rifle em repouso. Ele tinha ordens claras: Elijah queria este acerto de contas sozinho. Por enquanto, o caçador de elite apenas assistia ao duelo dos dois, aguardando o momento em que o destino de Henry seria selado.

 

Henry sentia uma satisfação amarga; ele provara que podia bater de frente com o cirurgião dos Ceifadores. Na sua mente, aquele empate era uma vitória moral.

 

— É o melhor que você tem, Elijah? — Henry provocou. — Parece que vamos ficar aqui a noite toda.

 

Elijah endireitou o corpo, sua máscara imperturbável sob o luar. — Você sempre teve uma visão muito limitada do campo de batalha, Henry. Você luta como se o mundo fosse um ringue de boxe.

 

Henry sentiu um calafrio na espinha. Antes que pudesse reagir, o estalo de um galho seco atrás dele soou como um tiro. Ele tentou girar, mas sentiu o cano frio de uma arma encostar na base do seu crânio. Ian havia descido da árvore com o silêncio de um espectro, fechando a armadilha.

 

— Acabou, Henry — a voz de Elijah soou mais alta, agora carregada de uma vitória fria. — Você não pode lutar contra dois.

 

Henry congelou. Seus olhos vasculharam a mata, buscando uma saída, uma sombra, qualquer coisa. Mas com Ian às suas costas e Elijah à frente, a matemática da sobrevivência não fechava. Ele sentiu o peso da derrota esmagar seus ombros. Lentamente, ele entrelaçou os dedos atrás da cabeça e caiu de joelhos no solo úmido.

 

Elijah caminhou até ele e, sem hesitar, desferiu um chute violento nas costas de Henry, jogando o líder dos Hereges com o rosto na terra.

 

— Eu bem que poderia te matar agora — Elijah sibilou, sacando sua pistola Five-seveN e apontando-a diretamente para o peito de Henry enquanto ele se recompunha. — Mas Jester disse que você pode ser útil. Ele tem planos para o que sobrou da sua vontade.

 

Elijah usou o cano da arma para forçar Henry a se levantar, empurrando-o brutalmente para que começasse a caminhar.

 

— Anda logo, azulzinho... — ironizou Elijah, referindo-se à cor que Henry ostentava em seus dias de glória. — Vamos para casa. O QG tem uma cela com o seu nome.

 

Ian guardou o rifle e seguiu logo atrás, mantendo a guarda alta. O líder dos Hereges foi capturado, e o destino do grupo agora estava pendurado por um fio.

 

Mansão Antiga – 07:10 AM

 

O sol de 7 da manhã brilhava com uma luz pálida e indiferente, mas o calor não alcançava o solo da floresta. O silêncio que se seguiu à noite de massacres era absoluto, apenas quebrado pelo canto distante de pássaros que ignoravam a violência humana.

 

Do lado de fora da mansão rústica, entre as folhas secas e o vidro estilhaçado sob a janela do segundo andar, o corpo de Aiden jazia imóvel. A queda teria matado um homem comum, mas o silêncio foi quebrado por um estalo orgânico. Um espasmo percorreu seus ombros e, lentamente, os dedos enluvados começaram a se mexer, arranhando a terra. A máscara de sorriso voltou-se para o céu, enquanto o Ceifador começava o lento processo de se reerguer.

 

Dentro da mansão, o cenário era um santuário de morte. A sala estava mergulhada em uma penumbra fria. Encostado na parede de madeira, Fabrizio Turner permanecia exatamente onde Mickey o deixara: empalado. A estaca improvisada do cabo de vassoura ainda atravessava seu tronco, cravada profundamente próximo ao coração, mantendo-o preso como uma peça de exposição macabra.

 

A câmera foca no detalhe de sua máscara de caveira, mergulhada na sombra do capuz preto. Por longos segundos, não há vida. Então, um suspiro metálico e pesado ecoa pelo modulador de voz.

 

A cabeça de Turner se levanta lentamente, examinando o hall vazio, as manchas de sangue seco no chão e a ausência de seus agressores. Não há grito de dor, apenas uma determinação mecânica.

 

Fabrizio leva as mãos trêmulas até a estaca de madeira que sobressai de seu peito. Seus dedos se fecham ao redor da madeira áspera. Com um som úmido e angustiante de carne se separando, ele puxa a estaca para fora, centímetro por centímetro, até que o objeto se solte de seu corpo.

 

Ele se levanta com dificuldade, mas com uma postura que exala autoridade recuperada. Ele olha para o pedaço de madeira ensanguentado em sua mão por um momento e o joga ao chão com desdém, reforçando que os Ceifadores não são como mortais comuns.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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