DYSTOPIA Brasileira

Autor(a): SkullGuy


Volume 1

Capítulo 9 - Paz

Desfiladeiro da Rota 97

 

O céu sobre o desfiladeiro está manchado de preto. A coluna de fumaça que sobe da Serraria é tão vasta que bloqueia o sol. Para os soldados de Gun, é o sinal de que não há mais para onde voltar. O pânico se instala, mas os 5 Hereges do Grupo A não demonstram misericórdia.

 

Kane corta os eixos dos jipes com suas serras, Kol derruba homens como se fossem carvalhos, e Elena e Tara formam uma parede de lâminas e aço que interrompe qualquer avanço.

 

No meio da estrada, Gun cai de joelhos. Sua Magnum, antes firme, agora treme em sua mão. Ele ignora os gritos de batalha ao seu redor. Seus olhos estão fixos no horizonte em chamas.

 

— Freya... — o sussurro sai abafado pelo couro de sua máscara. — Meu tesouro...

 

Ele desaba, com as mãos pressionadas contra o asfalto quente. Lágrimas silenciosas correm por trás da máscara de couro, encharcando o forro. Gun acredita que o Grupo B não foi até lá para salvar, mas para exterminar tudo o que ele amava. O Semideus está morto; tudo o que resta é um carrasco que perdeu sua razão de ser.

 

O Predador do Ferro-Velho

 

Serraria em Chamas – Pátio Interno

 

A Serraria é um inferno sonoro. O metal estala devido ao calor e tanques secundários explodem em intervalos rítmicos. O Grupo B corre em direção à saída sul, com Mika e Vane protegendo Freya, enquanto Beck e Piro carregam o restante dos suprimentos médicos.

 

— Movam-se! O tanque principal vai explodir em três minutos! — Beck grita, olhando para um medidor de pressão que apita freneticamente.

 

Eles atravessam uma cortina de fumaça em direção ao portão, mas param bruscamente.

 

Parado no topo de uma pilha de vigas de ferro retorcidas, bloqueando a única saída, está Mickey.

 

Ele não fugiu com o exército. Ele não tentou apagar o fogo. Ele está exatamente onde queria estar: no caos. Mickey veste sua Jaqueta Amarela manchada de graxa e uma bandana vermelha amarrada na testa, segurando o suor e o cabelo desgrenhado. Em suas mãos, ele balança preguiçosamente uma corrente de âncora que saqueou da baia de carga, com um gancho de açougueiro na ponta.

 

Mickey solta uma risada rouca que corta o rugido das chamas.

 

— Henry é um verdadeiro poeta... enviando "O Bósnio" e "Piro" para fazer o trabalho sujo. — Mickey salta da pilha de ferro com uma leveza doentia, pousando a dez metros do grupo. — Mas ele esqueceu que eu amo o calor.

 

Ele encara Freya, que se encolhe atrás de Mika.

 

— Ora, ora... a Rainha está fugindo com os ratos? Gun vai ficar tão triste... — Mickey gira o gancho de ferro, criando um zumbido hipnótico. — Sabe, Henry me deu uma surra no bunker. Ainda sinto o gosto do sangue dele. E já que ele não está aqui para eu retribuir... acho que vou apenas quebrar cada osso dos corpos das pessoas que ele enviou para salvar.

 

Vane dá um passo à frente, desenrolando seu chicote de aço.

 

— Saia do caminho, Mickey. Este lugar vai explodir, e você vai junto.

 

— Explodir? — Mickey abre um sorriso maníaco, revelando dentes manchados. — Vane, eu nasci no lixão. Não tenho medo do fogo... eu sou o que sobra depois que o fogo se apaga.

 

Mickey arremessa o gancho com uma velocidade sobre-humana. O metal voa em direção ao rosto de Vane; ele se esquiva por milímetros, mas o gancho atinge um pilar de madeira atrás dele, arrancando um pedaço enorme da estrutura.

 

— PIRO! BECK! TIREM A FREYA DAQUI! — Vane grita, preparando-se para o golpe. — Mika, Leo... me ajudem a derrubar esse animal!

 

Mickey não recua. Ele puxa a corrente de volta. Ele está em seu elemento: sozinho, cercado por metal quente e faminto por dor.

 

Retorno ao Desfiladeiro

 

Henry observa Gun caído. Ele faz um sinal para que Kane e os outros interrompam o massacre. Os soldados de Gun, ao verem seu líder desmoronar, soltam suas armas e fogem para a floresta.

 

Henry caminha até Gun. Seus socos-ingleses estão manchados, mas ele não os levanta.

 

— Acabou, Gun — diz Henry, com a voz firme através da máscara. — Seu império de óleo virou cinzas. Agora somos apenas nós dois.

 

Gun levanta a cabeça lentamente. Suas mãos estão sujas de fuligem. Ele olha para Henry, e a tristeza em seus olhos é substituída por um vazio absoluto. A ilusão de que Freya morreu transformou sua dor em uma indiferença suicida.

 

— Você não entende, Henry... — diz Gun, levantando-se com dificuldade. — Você não destruiu um império. Você destruiu a única coisa que me mantinha humano.

 

Gun saca sua Magnum e a aponta para o próprio peito, depois muda o alvo para Henry, com o braço firme como uma rocha mais uma vez.

 

— Se ela morreu nas chamas... vou garantir que você sinta o calor aqui fora.

 

Gun não luta mais como um estrategista; ele luta como um terremoto. Ele dispara a Magnum, mas o tambor está vazio, forçando Henry a usar seu parkour para saltar entre os destroços dos jipes.

 

Como a munição acabou, Gun arremessa a arma pesada no rosto de Henry e avança. Henry se esquiva, mas o soco de Gun — um impacto brutal — atinge seu ombro, lançando o batedor contra a parede de pedra do desfiladeiro.

 

— ELA ERA TUDO! — Gun ruge, desferindo uma sequência de golpes poderosos.

 

Henry bloqueia com os antebraços, o metal de seu soco-inglês batendo contra os nós dos dedos calejados de Gun. Henry usa sua agilidade para contra-atacar, acertando um corte preciso com sua faca serrilhada na coxa de Gun, mas o líder dos Executores nem sequer estremece. Ele agarra Henry pelo colarinho e o joga sobre o capô de um caminhão.

 

Henry se recupera com um rolamento e chuta o peito de Gun. Eles se atracam, rolando pelo asfalto. Henry tenta encaixar um mata-leão, mas Gun usa sua força absurda para bater as costas de Henry contra uma rocha, tirando o fôlego do batedor.

 

A luta é feia, crua e desesperada. Nenhum deles cede. Henry consegue acertar um cruzado de direita que rasga parte da máscara de couro de Gun, revelando um olho injetado de dor. Gun responde com uma cabeçada que racha a ponta da máscara de madeira de Henry. Ambos estão exaustos, sangrando e arfando, parados no meio da estrada, esperando pelo próximo movimento.

 

O Matadouro Amarelo 

 

Na Serraria, a cena é apocalíptica. Vane e Mika cercam Mickey, enquanto Leo tenta flanqueá-lo pelas vigas superiores que rangem sob o fogo.

 

Mickey é um demônio. Ele balança a corrente de âncora com uma maestria que desafia o peso do metal. O gancho de açougueiro de raspão atinge o pescoço de Mika enquanto ela gira sua naginata para aparar o ataque. O som do aço colidindo contra a corrente ecoa pelas paredes em ruínas.

 

— Vocês são lentos! — Mickey ri, chutando um barril em chamas na direção de Vane.

 

Vane usa seu chicote de aço para rebater o barril, mas Mickey aproveita a abertura para prender a perna de Vane com a corrente. Com um puxão violento, ele derruba O Tecelão.

 

— VANE! — Mika grita, avançando com um golpe de sua lança.

 

Mickey enrola a corrente em volta da lâmina da naginata e puxa Mika para perto, desferindo uma cabeçada brutal. Ele está prestes a cravar o gancho no peito dela quando Leo salta das vigas, cravando suas garras de escalada nas costas de Mickey.

 

Mickey urra — não de dor, mas de excitação. Ele se joga para trás contra uma parede de concreto para esmagar Leo, que solta no último segundo.

 

A luta vira um caos de destroços caindo. Vane se levanta, com o rosto sujo de fuligem, e prende a corrente de Mickey com seu chicote. Mika e Leo avançam simultaneamente. Mickey está cercado, sangrando por vários cortes, mas seu sorriso permanece intacto. Ele chuta uma viga de sustentação, fazendo o teto entre eles desabar, criando uma barreira de fogo e entulho que separa o grupo.

 

Destino Interrompido

 

No desfiladeiro, Gun levanta um pedaço de vergalhão para desferir o golpe final em um Henry exausto. Henry prepara seus socos-ingleses para um último contra-ataque.

 

— PARE! — o grito rasga o ar.

 

Do topo da encosta, o Grupo B surge. Piro e Beck aparecem primeiro, seguidos por Freya. Ela está suja, seu vestido está rasgado e seu rosto manchado de fuligem, mas ela está viva.

 

Gun congela. O vergalhão cai de sua mão, ecoando contra o asfalto. Ele arranca sua máscara de couro com um puxão desesperado, revelando um rosto banhado em suor e lágrimas.

 

— Freya... — ele sussurra, sua voz falhando completamente.

 

Freya desce a encosta correndo e para entre os dois homens. Ela olha para Gun com uma mistura de piedade e rejeição, depois olha para Henry, que luta para se manter de pé.

 

— O império acabou, Gun — diz Freya, com a voz firme. — Não resta mais nada pelo que lutar.

 

Gun cai de joelhos novamente, mas desta vez não é por causa de uma derrota militar. É o colapso de um homem que percebe que seu tesouro é agora quem dita o fim de seu reinado.

 

Na Serraria, Mickey observa através das chamas enquanto o Grupo B escapa pelos fundos. Ele limpa o sangue do rosto com a manga de sua jaqueta amarela e solta uma risada baixa. Ele sabe que a guerra mudou de forma. Ele desaparece nas sombras da base que desmorona, como um rato que sobrevive a qualquer naufrágio.

 

O Pós-Guerra

 

Henry olha para seus irmãos, todos reunidos. Solomon se aproxima, colocando a mão no ombro do General. Os Hereges estão juntos, armados e livres. Os Executores estão espalhados, sem combustível e sem uma causa.

 

Gun permanece no asfalto, encarando suas mãos vazias. Ele não está morto, mas o "Deus" que ele acreditava ser foi incinerado.

 

— Vamos nos mover — diz Henry. — Oregon está limpo, pelo menos nas rodovias.

 

O silêncio que se segue ao cessar-fogo é ensurdecedor. A fumaça da Serraria ainda desenha padrões escuros no céu, mas no desfiladeiro, a tensão física deu lugar a uma melancolia pesada.

 

Henry caminha até Gun, que permanece de joelhos, imóvel. Henry pega os dois revólveres do chão, sentindo o peso do aço forjado. Com um movimento ágil e técnico, ele gira as armas entre os dedos — um reflexo de sua nova posição de poder — antes de prendê-las em seu próprio cinto.

 

— Vou ficar com este brinquedinho — diz Henry, com a voz baixa e afiada. — O chumbo agora tem um mestre que conhece o valor da vida.

 

Kane e Kol se aproximam com correntes de aço recuperadas dos destroços e amarram os pulsos de Gun. O homem que se proclamava um "Deus" não luta; ele parece ter envelhecido décadas em apenas alguns minutos.

 

A Promessa da Rainha

 

Freya se aproxima lentamente. Ela para diante de Gun, observando o rosto do homem que a manteve em uma gaiola de seda. Há uma tristeza profunda em seus olhos, mas também um senso de libertação.

 

— Eu vi a maneira como você olhou para o fogo, Gun — diz Freya, com a voz firme apesar de tudo. — Eu realmente pensei que você se importava mais com seu exército e seu império do que comigo. Mas você desmoronou por mim.

 

Gun olha para cima, buscando os olhos dela. Não há mais ódio nele, apenas um apelo silencioso.

 

— Eu não vou abandonar você ao esquecimento — continua Freya, tocando levemente o rosto dele uma última vez como sua Rainha. — Eu sempre visitarei você na prisão. Você viverá para ver o mundo que tentou escravizar florescer sem você.

 

Gun fecha os olhos, aceitando a sentença. Ser prisioneiro daquela que amava era o único destino que ele não havia previsto.

 

O Êxodo dos Executores

 

A cena se expande para mostrar o que resta da Região 97. Ao longe, pequenos grupos de soldados caubóis caminham pelo asfalto, abandonando seus postos. Sem a liderança de Gun e sem o comando estratégico de Colt, o exército se fragmentou.

 

Alguns Executores ainda viajam juntos em motocicletas ou em jipes velhos, mantendo a insígnia da máscara, mas agora não passam de mercenários errantes, sem uma causa e sem combustível. O império que outrora dominou o Oregon evaporou junto com a fumaça de petróleo da Serraria.

 

O Reagrupamento dos Hereges

 

Henry se vira para o seu grupo. Os dez Hereges — agora completos com Piro e Beck — estão reunidos em volta de Solomon. Eles carregam as marcas da batalha, mas suas máscaras de madeira permanecem intactas, símbolos de uma resistência que derrotou a pólvora através da unidade.

 

— Estamos voltando para casa, Solomon? — Henry pergunta, olhando para as montanhas ao norte.

 

Solomon observa Freya, que agora está ao lado de Mika e Elena.

 

— Oregon está limpo, Henry... mas o mundo lá fora ainda está doente.

 

Edifício Central – 19:30

 

O comboio dos Hereges entra na zona urbana. O Edifício Central, que por meses exibiu as bandeiras pretas e laranjas dos Executores, está agora mergulhado em um crepúsculo imponente. Henry lidera o grupo pelo saguão de mármore, onde as estátuas e murais dos Hereges foram vandalizados ou cobertos pelos grafites de Gun.

 

— É bom estar de volta; espero que não tenham arruinado o meu sofá — resmunga Kol.

 

Eles sobem pelos elevadores manuais até o nível do conselho. Henry caminha até a janela panorâmica. Lá embaixo, Oregon parece soltar um suspiro de alívio. O medo que outrora emanava deste edifício evaporou.

 

O Prisioneiro do Ápice

 

Henry não leva Gun para o porão. Ele o leva para uma sala de contenção no andar mais alto — uma sala com paredes de vidro reforçado que oferece uma visão panorâmica do mundo que ele perdeu.

 

— Você queria ser um Deus, Gun? — Henry diz, enquanto Kane trava as algemas de Gun em um pilar central. — Bem, aqui está o seu Olimpo. Olhe para o Oregon. Olhe para cada luz brilhando lá embaixo. Nenhuma delas brilha mais para você. Você vai assistir a este mundo florescer sem disparar um único tiro.

 

Gun senta-se no chão, encostando as costas no pilar. Pela primeira vez, Gun não responde com ameaças. Ele apenas observa o reflexo das luzes da cidade no vidro — um homem em um aquário de luxo.

 

A Reocupação

 

O edifício rapidamente volta à vida:

 

Beck reconecta os servidores locais, trazendo de volta o sistema de vigilância por sensores que Henry usava para patrulhar a cidade.

 

Piro e Mika organizam a cozinha comunitária no andar intermediário, preparando a primeira refeição em total liberdade.

 

O Legado Confiscado

 

Henry remove as duas Magnums de Gun e as coloca sobre a mesa de carvalho, bem no centro. O brilho do metal sob as luzes de LED recuperadas por Beck é hipnotizante.

 

— Estas armas causaram muita dor — diz Henry. — Mas agora elas servirão para proteger aqueles que não podem se defender.

 

Ele se vira para Freya, que observa a cidade. — Você disse que o visitaria. A sala dele é a última ao final do corredor norte.

 

Freya assente. Ela caminha pelo corredor em direção à sala onde Gun está detido.

 

O Sussurro da Traição

 

Enquanto os Hereges celebram a retomada de seu lar, a cena corta para o nível da rua, a alguns quarteirões de distância do Edifício Central.

 

Mickey caminha calmamente entre os escombros de uma loja de conveniência abandonada. Ele assobia uma melodia fora de ritmo. Ele para diante de uma parede onde está pendurado um cartaz rasgado com o rosto de Henry.

 

Mickey tira uma lata de tinta spray amarela de sua jaqueta e desenha um grande círculo ao redor do rosto de Henry, com uma seta apontando em direção ao Edifício Central.

 

— Lar, doce lar, batedor... — Mickey resmunga, rindo para si mesmo. — Aproveite o seu descanso. O segundo turno começa logo.

 

Edifício Central – Sala de Contenção (50º Andar) – 21:00

 

A sala de vidro é um aquário de isolamento. Gun está sentado no chão, com as costas contra o pilar de aço, as correntes emitindo um leve estalo metálico cada vez que ele respira. Ele não usa mais a máscara; seu rosto está à mostra, revelando um homem de feições rudes, marcado por cicatrizes e uma profunda tristeza.

 

A porta eletrônica desliza silenciosamente. Freya entra. Ela caminha até o vidro reforçado que os separa.

 

Gun olha para cima. Um lampejo de vida retorna aos seus olhos quando a vê. — Você cumpriu sua promessa — diz ele, com a voz rouca. — Veio ver o Deus caído em seu trono de vidro.

 

Freya observa o reflexo das luzes da cidade sobreposto ao rosto de Gun. Ela hesita, sua mão tremendo levemente antes de repousar sobre o próprio ventre, ainda imperceptível sob o tecido do vestido.

 

— Eu não vim para tripudiar, Gun — diz ela, com a voz baixa, quase um sussurro. — Eu vim por causa do que você disse sobre o futuro naquela manhã. Sobre herdeiros. Sobre um mundo de cinzas que precisava de vida.

 

Gun inclina a cabeça, confuso com a seriedade no tom dela. — O império acabou, Freya. Não resta herança. Henry e seus Hereges garantiram que nada reste do meu nome.

 

Freya encosta a testa no vidro frio, fechando os olhos. — Henry não sabe. Ninguém sabe ainda. — Ela respira fundo, e a verdade paira no ar como eletricidade. — Estou grávida, Gun. Faz duas semanas, mas não te contei por medo...

 

Ele simplesmente para de respirar por um longo segundo, e o desespero que antes nublava seu rosto dá lugar a um choque profundo, seguido por uma serenidade que Freya nunca tinha visto nele.

 

Ele se levanta lentamente. O som das correntes não é agressivo desta vez; é apenas o ruído de um homem tentando se aproximar da única coisa que ainda faz sentido. Ele pressiona as palmas das mãos contra o vidro, a poucos centímetros de onde Freya está.

 

— Um filho... — ele sussurra, e sua voz não tem nenhum traço de autoridade ou sede de império. É a voz de um homem que acaba de descobrir um milagre entre as ruínas. — Nosso herdeiro.

 

Ele contempla o ventre dela, seus olhos brilhando com uma vulnerabilidade bruta. A ideia de poder, exércitos e petróleo parece ter evaporado de sua mente.

 

— Freya... — Gun murmura, sua testa tocando o vidro frio. — Eu não quero o mundo para ele. Não quero que ele carregue o peso do que eu fiz. Eu só quero... eu só quero que ele tenha a chance de ser alguém melhor do que eu fui.

 

Ele olha para ela com um apelo silencioso, algo que nunca havia feito em sua vida.

 

— Por favor... eu sei que há vidro entre nós. Eu sei que sou um monstro aos olhos deles. Mas... eu posso? Posso tocar?

 

Freya observa a mão trêmula de Gun contra o vidro. Ela vê que, naquele momento, o "Deus do Oregon" morreu definitivamente, dando lugar a um pai que sabe que talvez nunca segure o próprio filho nos braços.

 

Lentamente, Freya caminha até o vidro. Ela pressiona o ventre contra a superfície transparente, exatamente onde a mão de Gun está espalmada do outro lado. Por um instante, através da barreira física e moral que os separa, eles estão conectados por aquela nova vida.

 

Gun fecha os olhos, sentindo o calor residual emanando do vidro. Um sorriso triste e genuíno surge em seus lábios.

 

— Proteja-o, Freya — diz ele, com a voz embargada. — Não deixe que Henry ou Solomon falem apenas sobre o "Líder dos Executores". Deixe que ele saiba que, no fim, eu só queria que ele vivesse em um mundo onde não precisasse de uma máscara.

 

Freya sente uma única lágrima escorrer. Ela assente. — Ele será livre, Gun. Eu prometo.

 

A Sombra no Corredor

 

Ela se afasta do vidro e caminha em direção à porta. Gun permanece ali, com a mão ainda pressionada contra a superfície, observando a silhueta da mulher que carrega seu futuro.

 

No corredor, as luzes estão baixas. Mika está encostada na parede oposta, sua máscara de carvalho escondendo qualquer expressão. Ela ouviu tudo. Ela viu o toque através do vidro.

 

Freya para ao ver Mika, com o coração acelerado. As duas mulheres se encaram no silêncio do corredor de aço e vidro.

 

— Henry e os outros estão comemorando no refeitório — diz Mika, sua voz filtrada e neutra. — Eles acham que o passado foi enterrado hoje.

 

Freya pressiona a mão contra o ventre, um gesto agora instintivo de proteção. — O passado nunca morre de verdade, Mika. Ele apenas muda de forma.

 

Mika se desloca da parede, sua naginata batendo levemente contra o chão. Ela olha para a porta da cela de Gun e depois para Freya. — Um segredo desse tamanho pode derrubar este edifício mais rápido do que qualquer um dos foguetes de Gun. Mas... — Mika faz uma pausa solene. — Todo Herege merece uma chance de começar do zero. Até mesmo aqueles que ainda não nasceram.

 

Mika caminha em direção às escadas, deixando claro que, por enquanto, o segredo está seguro com ela. Freya solta um suspiro de alívio, mas sabe que a paz no Edifício Central agora é tão frágil quanto a vida que ela carrega.

 

Noite Fria no Oregon

 

Enquanto isso, o vento noturno uiva pelas estruturas de aço retorcido de arranha-céus abandonados. Do topo de uma torre vizinha, a vista do Edifício Central é perfeita: um gigante iluminado pela energia precária que os Hereges restauraram.

 

Duas figuras estão agachadas na borda do terraço, misturando-se perfeitamente à escuridão. Eles não usam o couro bruto de Gun, nem o azul-ciano dos Rodoviários. Seu equipamento é tático — um preto fosco que absorve a luz — composto por jaquetas com capuz, calças cargo/militares e coletes balísticos de última geração.

 

As máscaras de metal que usam têm formato de caveira, uma branca e a outra preta, com lentes escuras ocultando seus olhos.

 

A primeira figura gira uma pistola FN Five-Seven entre os dedos com uma familiaridade arrepiante. Ele observa a silhueta de Henry na varanda distante através de binóculos térmicos.

 

— Gun caiu — a voz sai através de um modulador eletrônico — um som metálico e rouco, desprovido de qualquer humanidade.

 

A segunda figura está em posição de tiro, mantendo o cano de um rifle sniper militar apontado diretamente para as janelas do andar de comando. Seu dedo nunca sai do gatilho.

 

— Ainda bem — o outro responde, sua voz modulada soando como um sussurro vindo de um túmulo. — Ele limpou o caminho o suficiente para nós no sul do Oregon. Não que o nosso grupo não pudesse ter lidado com isso...

 

O primeiro guarda a pistola em um coldre de perna e olha para o horizonte.

 

— Os Hereges acham que herdaram o mundo? Eles não sabem que estamos apenas deixando que mantenham o prédio aquecido para nós. 

 

— E a garota? Silas a quer! — pergunta o sniper, referindo-se a Freya.

 

— Deixe-a em paz por enquanto. Quando o sinal for dado, não restará madeira ou vidro para contar a história desta cidade — respondeu o primeiro.

 

O sniper, com o rifle militar pendurado nas costas, executa um salto de precisão, pousando silenciosamente em uma viga de aço suspensa a trinta andares de altura.

 

O outro segue logo atrás. Ele se move com uma economia de movimentos que faz o parkour de Henry parecer forçado. Ele desliza por cabos de aço, usa o peso do corpo para contornar esquinas de concreto e aterrissa em um rolamento tático perfeito, levantando-se sem quebrar o ritmo. Eles não estão apenas fugindo; eles estão flutuando sobre a cidade em ruínas.

 

Enquanto saltam de um parapeito para uma escada de incêndio, a primeira figura olha uma última vez para o brilho do Edifício Central. Por trás da máscara de caveira branca, seus pensamentos correm frios e calculistas.

 

"Eles acham que venceram a guerra porque derrubaram um louco em uma serraria...", ele pensa, enquanto realiza um salto de fé para o próximo telhado. "Esses Hereges são bons, não posso negar. Têm garra, têm técnica. Mas comparados a nós... comparados a nós, parecem crianças brincando de revolução."

 

Eles atingem o nível da rua em um beco escuro, onde um veículo furtivo os aguarda com as luzes apagadas. As portas se fecham e o motor elétrico mal emite um zumbido enquanto eles desaparecem nas sombras do setor industrial.

 

Fim do Capítulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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