Volume 7
Capítulo 16: O Jantar
O tempo nem sempre passa na mesma velocidade. Os momentos agradáveis duram pouco demais, enquanto os períodos difíceis parecem se arrastar sem fim. Os dias que antecederam o banquete passaram num piscar de olhos, pois o tempo também corre rápido quando algo desagradável se aproxima.
Maomao deixou bem claro que, até o dia do evento, não queria ir à casa do estrategista excêntrico a menos que fosse absolutamente necessário. Yao, por outro lado, estava radiante por ter recebido a responsabilidade de cuidar de uma tarefa sozinha. Ela ficou vários dias na vila da sacerdotisa antes do banquete, a pedido da própria sacerdotisa, para se familiarizar com o tipo de comida que ela consumia diariamente. Embora os detalhes da dieta já tivessem sido cuidadosamente listados e revisados, a mulher queria garantir que não houvesse erros.
Maomao estava ansiosa para experimentar a comida estrangeira. Ela culpava totalmente o estrategista excêntrico por fazê-la perder essa oportunidade.
Yao nunca tinha sido provadora de comida antes, então, antes dela se mudar para a vila, Maomao ensinou tudo o que ela precisava saber. Yao era uma aluna aplicada, anotando tudo com entusiasmo. Maomao tinha certeza de que ela tinha aprendido direitinho.
No dia do banquete, elas precisaram se apresentar para o trabalho uma hora mais cedo do que o normal. Aff. Não quero fazer isso. Quantas vezes Maomao já tinha pensado aquilo? Ela perdeu a conta. Forçou-se a trocar de roupa, saindo do quarto apenas no último momento possível. E, mesmo assim, não fez o menor esforço para parecer animada.
— Ah, Maomao.
— Ora! Faz tempo que não te vejo.
Quem ela encontrou no corredor senão En’en? A outra mulher já não dormia mais no dormitório desde que foi designada como dama de companhia de Jinshi, ficando em outro alojamento. Ainda assim, parecia claramente exausta: o olhar vazio, os lábios ressecados. Ela cambaleava levemente ao andar, como um fantasma.
Sofrendo por falta da Yao? Maomao pensou.
— Maomao... Onde está a jovem senhorita?
— Ah, hum, a Yao? Ela não está aqui...
Ao ouvir aquilo, En’en pareceu alguém atingida na cabeça por uma estrela caída do céu. Ela tropeçou até a parede, apoiando-se nela antes de escorregar lentamente até o chão. Ela parecia estar derretendo, ou como um caracol coberto de sal.
— Você está bem? — perguntou Maomao. Claramente ela não estava, mas parecia educado perguntar.
— J-Jovem senhorita... — foi tudo o que En’en conseguiu dizer.
[Kessel: Que fofura, meu deuso!]
Ela realmente está apaixonada. Maomao cutucou En’en algumas vezes, sem saber o que fazer. Ela não queria ir trabalhar, mas chegar atrasada por motivos pessoais pegaria mal, então também não podia ficar ali para sempre. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar trabalhando? Imagino que hoje você tenha que ficar o dia inteiro com certa pessoa.
En’en soltou um som estranho.
— Essa foi a única chance que tive de escapar. O Príncipe da Lua tem uma chefe das damas de companhia que parece ter olhos na nuca...
— Ahh. — Maomao conseguia entender perfeitamente.
O “Príncipe da Lua” era Jinshi. Ele tinha um nome, claro, mas, como irmão mais novo do Imperador, praticamente só os membros da família imperial podiam usá-lo. Todo o resto o chamava por algum apelido. Quanto à chefe das damas de companhia, era uma mulher mais velha chamada Suiren, e ela era extremamente rígida. Nem En’en conseguia escapar dela.
— Ela não vai ficar brava se você não voltar logo?
— Sim, acho que você tem razão... Tudo bem. Eu só queria poder sentir o cheiro dela de perto. Arrumar o cabelo dela direitinho. Eu simplesmente não quero arrumar o cabelo de um cara qualquer, mesmo que seja liso e sedoso.
Então Jinshi é “um cara qualquer”, é? Mais uma prova da devoção de En’en à sua senhora. Mas, se estavam confiando a ela o cabelo de Jinshi, então Suiren devia gostar bastante dela. Curiosamente, depois que Maomao se estabeleceu no serviço de Jinshi, pediram várias vezes para ela arrumar o cabelo dele, mas ela sempre recusou alegando nunca ter feito aquilo antes.
En’en se ergueu com esforço. Ainda cambaleava enquanto começava a ir embora. Então se virou de volta para Maomao, como se tivesse lembrado de algo.
— Nunca consegui te dar minha resposta à sua carta... por causa de você-sabe-quem.
Mandar cartas demais podia fazer começarem a suspeitar que você era uma espiã. O simples fato de En’en estar ali daquele jeito já era suspeito o suficiente; se alguém começasse a fazer perguntas, Maomao teria que testemunhar em favor dela.
— Obrigada por se dar ao trabalho — disse Maomao, aceitando a carta de En’en. (Era a resposta à carta em que perguntava como lidar com a condição da sacerdotisa, já que En’en parecia ter bastante conhecimento sobre tratamentos para doenças femininas.)
Maomao abriu a carta e viu que a resposta era extremamente detalhada. A maior parte descrevia tratamentos que ela já conhecia, mas havia algumas aplicações que a surpreenderam. Ela ficou impressionada.
Então notou uma linha no meio da carta. — Ei, isso aqui… — Ela segurou En’en, que já estava mais uma vez tropeçando de volta ao trabalho. — Essa parte sobre hasma... isso é verdade?
Depois de um instante, En’en respondeu:
— Sim, é.
— E mesmo assim você deixou a Yao comer isso? (Sim, Maomao sabia que aquilo supostamente fazia uma mulher ficar mais voluptuosa.)
— Eu quero que Lady Yao seja bonita — disse En’en. Por um segundo, o brilho voltou ao rosto dela, mas logo depois sua expressão morta retornou.
Maomao foi para sua própria tarefa agora sentindo uma renovada compaixão por Yao.
[Kessel: Hasma é uma sobremesa chinesa e amplamente utilizada na Ásia Central, feito a partir do tecido adiposo {ou seja, gordura} seco encontrado próximo às tubas uterinas de rãs verdadeiras, tipicamente a rã-da-grama asiática. Interessante, não é? Mas não achei nenhuma comprovação de que isso realmente funciona, como a Maomao disse ali em cima.]
Maomao não sabia exatamente o que aconteceria antes do jantar. Haveria algum tipo de cerimônia, mas ela tinha tantas etapas que, sendo sincera, Maomao não entendia todas. O evento ocorria em uma área separada, onde apenas os diretamente envolvidos podiam entrar. Maomao e os outros na mesma posição apenas tinham que esperar, e ela estava profundamente irritada por terem mandado se apresentar uma hora mais cedo só para ficarem parados sem fazer nada.
Ela cogitou ir admirar os armários cheios de remédios, mas um dos médicos a chamou. Para seu desgosto, ele precisava de uma intermediária.
— Leve isto até as concubinas— disse ele. Banquetes, festas no jardim e eventos parecidos eram algumas das raras oportunidades em que as flores do palácio interno podiam sair ao exterior. Seria inadequado enviar um homem como mensageiro, e, sem Yao ou En’en por perto, não havia ninguém além de Maomao para a tarefa.
Quando viu o que tinha recebido, descobriu que eram bastões de incenso. O escritório médico os mantinha porque, na verdade, tinham aplicações medicinais. A fumaça ajudava a afastar insetos, enquanto o aroma tinha um efeito calmante nas pessoas.
— Querem isso para espantar os mosquitos. Acho que o método normal soltava fumaça demais — disse o médico. Normalmente, incenso seria luxuoso demais para ser usado apenas contra insetos; o comum era queimar galhos de árvores com propriedades repelentes. Até a fumaça comum ajudava um pouco, mas certamente deixava tudo... bem, esfumaçado.
— Gostaria de saber qual nobre dama fez uma exigência dessas — disse Maomao.
— Ahh, foi a nova. Sabe, a estrangeira.
Aquilo surpreendeu Maomao um pouco. Ainda nem entregamos um relatório adequado a ela... sobre o segredo da sacerdotisa. Será que ela realmente deu à luz uma menina? Parecia possível que ela voltasse para casa antes que descobrissem a verdade.
— Como ela é de Shaoh, acho que não importa ser recém-chegada. Ela ainda pode participar do banquete. Enfim, entregue um pouco do incenso para todas as concubinas e certifique-se de fazer isso na ordem correta.
O médico entregou a Maomao uma lista de todas as concubinas presentes e mostrou um mapa indicando onde cada uma estava no prédio. A Imperatriz Gyokuyou estava presente, claro, assim como a concubina de alto escalão, Lihua. Aylin era uma das três concubinas de médio escalão presentes. Companhia assustadora se você errasse a ordem correta de distribuição do incenso.
Tenho que admitir, a política de poder de Shaoh não faz muito sentido para mim, Maomao pensou enquanto seguia em sua tarefa. Aylin é uma refugiada política, e Ayla é sua inimiga política. Ainda assim, Aylin quer conseguir alguma vantagem sobre a sacerdotisa para forçá-la a ajudá-la. Ao menos, esse era o melhor entendimento que Maomao tinha da situação. Ela estava curiosa, mas sabia que meter o nariz naquilo era um ótimo jeito de perder a cabeça. O máximo que podia fazer era ficar quieta, ouvir com atenção e tentar escapar se as coisas começassem a ficar perigosas demais.
Cada concubina recebeu seu próprio quarto para descansar e se preparar. Apenas a Imperatriz Gyokuyou aguardava em um local completamente diferente. Maomao concluiu que o correto seria entregar primeiro o incenso à Concubina Lihua, mas ela parecia o tipo de pessoa que puxaria uma longa conversa. Então Maomao ficou esperando do lado de fora do quarto dela até que alguma dama de companhia conhecida passasse por ali. As damas menos prestativas de Lihua tinham sido dispensadas, mas as que restaram ainda olhavam para Maomao com um medo evidente nos olhos, e ela desejava que parassem com aquilo.
Assim, distribuiu o incenso uma pessoa após a outra até chegar ao quarto de Aylin. Ali, ela farejou o ar. Que estranho. Mesmo do lado de fora, já conseguia sentir cheiro de incenso vindo do interior. Ela bateu na porta.
— Por favor, entre — disse Aylin. A voz era inconfundível. Maomao abriu a porta e descobriu que ela estava sozinha, sem damas nem acompanhantes. Ela pressionava algo contra o peito. Conforme Maomao se aproximava, o cheiro ficava mais perceptível.
— Trouxe o repelente de mosquitos — disse ela.
— Obrigada. Poderia deixar ali? Minha dama de companhia saiu por um instante.
Talvez tivesse ido ao banheiro? A dama da concubina estava ali tanto para servi-la quanto para vigiá-la, mas devia ter considerado seguro deixar Aylin sozinha por um momento. O quarto tinha apenas uma pequena janela e uma única porta, além de haver um guarda do lado de fora.
— Então vou me retirar — disse Maomao. Ela estava prestes a sair quando Aylin segurou sua manga. — S-Sim? — disse Maomao.
— Você foi ver a honrada sacerdotisa, não foi? Como ela está?
Ai, essa não. Como eu respondo isso? Maomao pensou. Mas bastou um segundo para ela decidir simplesmente dizer a verdade. — Ela não demonstra nenhum sinal de cansaço da viagem. Quanto à enfermidade dela, estamos realizando os exames mais minuciosos possíveis. Não precisa se preocupar com isso.
Era uma resposta tão banal que até Maomao quase riu. A concubina podia agir de forma preocupada, mas Maomao sabia perfeitamente que ela estava tentando descobrir a fraqueza da sacerdotisa. Ela é uma ótima atriz. Se Maomao não soubesse do pedido secreto de Aylin, talvez realmente acreditasse que a mulher estava preocupada. A aparência dela não parece muito boa...
— É possível que a senhora também não esteja se sentindo bem? — perguntou Maomao. Ela não tinha exatamente planejado dizer aquilo. Era um risco ocupacional.
Os olhos de Aylin se arregalaram.
— Nossa, pareço doente? Admito que fiquei um pouco nervosa com a chegada deste banquete.
— Se não há nenhuma queixa específica, então está tudo bem — disse Maomao. Ela não tinha motivo para insistir mais.
— Sim. Está tudo bem. — disse Aylin, mas parecia quase estar falando consigo mesma, com o olhar distante. Mas apenas por um instante, logo ela voltou a se concentrar em Maomao. — Obrigada. Ouvi dizer que, entre todas as damas da corte, você é excepcional. Tenho grandes expectativas em relação a você.
Sem pressão nenhuma, claro. Aylin se inclinou para frente, e o cheiro voltou a ficar mais forte.
Sério, o que é isso? Maomao se perguntou. Ela continuou pensando nisso enquanto deixava o quarto de Aylin. Aquele cheiro persistente...
E não era só o cheiro que parecia permanecer no ar. As questões sobre Shaoh continuavam incomodando ela. Ela sentia que já possuía várias das pistas necessárias, mas ainda não eram suficientes para chegar a uma resposta. Faltavam mais algumas peças daquele quebra-cabeça para serem encontradas.
Tenho certeza de que meu velho já teria descoberto tudo há muito tempo. Ela suspirou, frustrada com sua própria falta de experiência, e voltou para o consultório médico.
Em teoria, um jantar formal deveria ser uma atividade agradável, passada em tranquilidade e relaxamento. Não era assim na alta sociedade.
O centro do salão era dominado por uma única mesa comprida, com cadeiras ao longo dos lados e outra mesa na cabeceira. O Imperador e a Imperatriz sentavam-se na extremidade mais distante, junto de Jinshi e da sacerdotisa, a convidada de honra. Ela usava um véu para se proteger do sol.
Também havia dignitários de outros países presentes no jantar formal, mas a maioria vinha de estados vassalos, e eram tratados como tal. Quase todo o restante das pessoas se alinhava na mesa comprida. A ordem dos assentos era praticamente a mesma das festas no jardim; a diferença era que, desta vez, estavam em um ambiente fechado e tinham cadeiras para se sentar.
Maomao ficou junto à parede com uma expressão de espero que isso acabe logo. Ela percebeu que a maioria dos provadores de comida estava atendendo o Imperador, os convidados e as concubinas. As pessoas realmente importantes.
Ele não precisa de seu próprio provador de comida, pensou ela, observando o estrategista excêntrico pelas costas enquanto resistia à vontade de vomitar. Ele tinha um porte mediano e postura levemente curvada. Tirando o monóculo, era um homem comum, sem nada que o diferenciasse de qualquer outra pessoa. Estranho pensar que ele era o comandante do exército nacional.
Na prática, até esse título era mais honorário do que qualquer outra coisa. Seu cargo oficial era Grande Comandante, mas Maomao não sabia exatamente o que aquilo significava. Tudo o que ela sabia era que seu assento indicava tratar-se de uma posição de altíssimo status.
Se ele acha que precisa de um provador de comida, então por que sequer se dá ao trabalho de vir?
As expressões das pessoas ao redor do estrategista sugeriam que elas pensavam a mesma coisa. Afinal, quando o velho maldito ficava entediado, passava o tempo pregando pequenas peças em quem estivesse por perto. Era por isso que ninguém reclamava quando ele faltava às festas no jardim e outros eventos importantes; tê-lo presente não era melhor.
O excêntrico pareceu ficar entediado muito rapidamente naquela ocasião e começou a cochichar com o homem ao lado dele, que parecia um soldado. Maomao lançou um olhar fulminante para ele e puxou o pano que segurava. O pano estava preso a uma corda amarrada no tornozelo do excêntrico. Toda vez que ela puxava, ele se encolhia na cadeira. Então olhava para trás, com uma expressão de puro êxtase atravessava seu rosto, e ele voltava a se sentar direito novamente. Maomao já tinha ouvido falar em lidar com alguém pelo nariz, mas lidar com alguém pelo tornozelo... aquilo era novidade para ela.
Aquilo fazia a pele dela se arrepiar, ele continuava lançando olhares na direção dela, mas era assim que o jogo seria jogado hoje. Lahan, o mão de vaca, não quis pagar outra pessoa para vigiar o estrategista durante o jantar formal; ele mandou Maomao fazer isso além das suas funções de provadora de comida. Não que ela se importasse com o que ele queria, mas o velho dela também fez um pedido pessoal e até disse que lhe daria um remédio incomum em troca, algo vindo do exterior.
E assim acabaram amarrando uma corda no tornozelo do maluco, como ratos colocando um sino em um gato. Maomao não conseguia se livrar da sensação de que as pessoas estavam olhando estranho para eles, mas se contentou supondo que os olhares eram para o esquisitão. Como ninguém tinha audácia suficiente para dizer nada, ela resolveu não se incomodar.
Por algum motivo, comida nunca era realmente a primeira prioridade em um jantar formal. Sempre havia outras coisas antes que se pudesse comer. Diferente da festa no jardim, não houve danças selvagens com espadas, mas pelo menos puderam ouvir uma música agradável. Soava vagamente “estrangeira”. Talvez os músicos estivessem tentando fazer a apresentação soar como algo de Shaoh.
— A letra dessa música foi dedicada a sacerdotisa — informou Lahan, aproximando-se dela de mansinho. — A concubina Aylin escreveu pessoalmente. Com uma ajudinha modesta de um compositor profissional, mas ainda assim. Não ficou ruim.
— A concubina escreveu isso? — disse Maomao, olhando na direção de Aylin. A estrangeira estava sentada entre as outras concubinas de médio escalão, sorrindo enquanto escutava a música.
— Eu sei que as coisas podem ser complicadas entre elas agora, mas acredito que a concubina seja grata à sacerdotisa — disse Lahan. — A concubina Aylin diz que, quando era aprendiz, a sacerdotisa garantiu que ela recebesse uma educação apropriada. Talvez você saiba que algumas mulheres em Shaoh acabam se casando ainda mais cedo do que aqui.
Sim, Maomao já tinha ouvido algo assim. Rumores de que o povo da areia às vezes tomava como esposas garotas que mal tinham dez anos.
— E uma garota sem educação não consegue nem fugir do casamento para o qual foi enviada.
— Verdade.
Isso também acontecia em Li: mulheres incapazes de escapar dos maridos, não importava o quão cruéis eles fossem, porque, se abandonassem o casamento, não existia trabalho que pudessem fazer. Mais cedo ou mais tarde, alguém as enganaria e as venderia para um bordel.
Maomao acreditava que ignorância era um pecado. Ainda assim, sabia que conhecimento não era dado igualmente a todos. Se o velho dela não tivesse lhe dado educação pessoalmente, ela teria acabado servindo clientes na Casa Verdigris. Da mesma forma, Aylin recebeu educação da sacerdotisa. Poderia simplesmente ter tratado aquilo como algo que lhe era devido, mas, em vez disso, sentia gratidão. E mesmo assim continua tentando explorar as fraquezas da sacerdotisa. Acho que gratidão não torna o mundo menos cruel. Maomao suspirou.
Parecia que o estrategista não tinha interesse algum na música, porque tirou um livro sobre Go das dobras da roupa e começou a ler. Maomao puxou a corda de novo. Ele podia se considerar sortudo se o Imperador não decidisse colocar a próxima corda em volta do pescoço dele.
E então alguma pessoa importante fez um discurso importante e, finalmente, a comida começou a ser servida. En’en estava logo atrás de Jinshi. Talvez ele preferisse que Suiren estivesse ali para atendê-lo, mas aquilo provavelmente foi ideia dela: viu que a maioria das damas de companhia eram jovens e decidiu deixar o trabalho para En’en.
Pelo menos isso significa que En’en está se saindo bem, pensou Maomao. Ela não conseguia fingir total desinteresse. Enquanto isso, En’en continuava lançando olhares discretos para um lado, especificamente, para o lado onde a sacerdotisa estava sentada. Assim como Jinshi tinha En’en o servindo, a sacerdotisa tinha Yao. Yao parecia pálida. Nervosismo, talvez.
A presença de Yao amenizou um pouco a palidez mortal de En’en naquela manhã, mas ela ainda precisava de mais contato com sua jovem senhora. Ela ficava olhando ao redor, claramente esperando que o jantar formal acabasse logo. Ela estava preocupada com a aparência abatida de Yao.
Maomao não conseguiu evitar achar graça ao pensar que as três tinham sido testadas e treinadas para se tornarem assistentes médicas, mas estavam ali trabalhando como provadoras de comida, uma função normalmente reservada aos pobres e descartáveis. Yao, pelo menos, vinha de uma família melhor do que isso; Maomao estava surpresa, talvez até preocupada, que os pais dela não tenham interferido para impedir essa designação.
Pelo menos consegui ensinar o básico para ela, pensou ela. Não importava o quanto alguém soubesse o que estava fazendo, as coisas cedo ou tarde dariam errado para uma provadora de comida. Um novo veneno apareceria ou ela acabaria ingerindo alguma toxina de efeito lento. Acho que todo mundo vai quando chega a hora. Era simples assim. Se Maomao fosse morrer, esperava conseguir fazer isso provando algum tipo novo de veneno. Principalmente se sobrevivesse tempo suficiente para apreciar os efeitos antes de expirar. Talvez isso fosse ganância. Mas uma garota podia sonhar.
O primeiro prato chegou. Maomao pegou o pequeno prato com a amostra destinada à provadora. Ela conseguia sentir o estrategista observando-a. Só esperava que a degustação transcorresse sem problemas para que pudessem continuar a refeição.
E continuaram mesmo, e o jantar formal logo terminou. Depois viria o banquete. Aquilo confundia e irritava Maomao, que não fazia ideia da diferença entre os dois. O segundo aparentemente significava ir para outro lugar e envolvia menos pessoas. Yao e En’en continuariam de serviço, mas Maomao estava livre pelo resto do dia. Um excelente motivo para sair dali e se livrar do estrategista.
Só que, justamente quando ela estava prestes a fazer isso, ouviu-se um estrondo. Ela se virou e encontrou uma dama da corte caída no chão. Era Yao.

— Senhora! — gritou En’en, se jogando ao lado dela. Ela tentou erguer Yao. Maomao largou a corda e correu até elas. Yao estava caída para frente, com o chão coberto de vômito. As outras damas da corte próximas começaram a gritar. Alguém berrava sobre a insolência de vomitar diante de tantas pessoas extremamente importantes. Ou seja, alguém não estava enxergando o verdadeiro problema ali.
— Senhora! Senhora! — En’en gritava, sacudindo os ombros de Yao e dando tapinhas em suas bochechas.
— Certifique-se de que não ficou nada na boca dela! — ordenou Maomao. — Se ficar preso na garganta, ela pode sufocar!
— Certo — respondeu En’en, recuperando o controle o bastante para enfiar um dedo na boca de Yao. A outra mulher parecia estar respirando, mas tremia enquanto segurava o estômago, e suas pupilas estavam dilatadas.
Se Yao desmaiou... Então o que aconteceu com a sacerdotisa? Uma multidão já tinha se formado ao redor dela. A outra mulher que estava provando comida junto com Yao para a sacerdotisa estava branca como papel e mal conseguia se manter em pé. Ela se afastou com as mãos cobrindo a boca, e a sacerdotisa saiu logo depois.
Então elas também foram envenenadas. Maomao cobriu Yao, que tremia sem parar, com um cobertor. En’en continuava choramingando: — Senhora, senhora! — Ela estava tão pálida quanto qualquer uma das mulheres envenenadas. — Água! Água com sal! E... E...!
Maomao puxou En’en para longe de Yao. Elas não sabiam com que tipo de veneno estavam lidando, então o melhor que podiam fazer era tentar esvaziar o conteúdo do estômago dela. Maomao enfiou um dedo na garganta de Yao, tentando induzir mais vômito, mas então um velho apareceu mancando.
— Maomao, En’en. Deixem isso comigo.
Era o velho dela, carregando um jarro e um balde. Ele também trazia outro cobertor, que usou para apoiar os quadris de Yao. Se havia dor no estômago e vômito, existia uma boa chance de diarreia também. O cobertor era a pequena gentileza dele, uma forma de tornar menos óbvio caso ela se sujasse.
— Vocês precisam cuidar da sacerdotisa — disse Luomen. — Eu consigo cuidar da Yao. — Ele puxou a corda que Maomao tinha abandonado, chamando a atenção do estrategista maluco, que estava apenas parado ali. — Traga carvão para mim, pode ser? Triturado em um pilão, se possível. E prepare alguns quartos, algum lugar onde possamos examinar essas jovens e a sacerdotisa. Confio que você consiga fazer isso, Lakan.
— Sim, claro, tio. Vou providenciar imediatamente. — Foi o estrategista quem respondeu, mas foram os subordinados dele que entraram em ação. Era mais rápido deixar o estrategista dar as ordens do que Luomen tentar fazer as pessoas o ouvirem sozinho.
— Cuida da Yao, pai — disse Maomao e então ela se dirigiu até a sacerdotisa.
[Kessel: Meu pai amado, que horrível!!!! Coitada da Yao e da En’en!!! Vocês vão pagar!!!! Seja lá quem foi!!!!]
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