Volume 6
Capítulo 4: A Caminho de Casa
Maomao não sabia como Jinshi lidaria com a noiva e sua família. Depois que tudo terminou, ele passou algum tempo conversando com Gyokuen, mas dificilmente era uma discussão na qual Maomao pudesse se intrometer. A única coisa que ela podia fazer era torcer para que o pior não virasse realidade. A Concubina Lishu já não estava mais confinada, mas o que fazer com sua meia-irmã era uma questão completamente diferente.
E assim, no sexto dia na capital do oeste, com a partida marcada para o dia seguinte, tudo o que Maomao conseguia pensar era: Não consegui nem turistar.
Era isso. Podia parecer frio, mas não fazia parte do temperamento de Maomao ficar remoendo pensamentos negativos. Em vez disso, ela esperava sair e fazer algo para se distrair, só para ouvir que já era hora de se preparar para voltar para casa. Foi assim que ela acabou no jardim de cactos, o cansaço estampado no rosto. Ela não tinha ideia se as plantas sobreviveriam ao clima da capital, mas queria ao menos pedir algumas sementes ou um pequeno broto para levar consigo. Gyokuen foi além, gentil o bastante para chamar o comerciante para elas, e por isso Maomao já se sentia grata.
E com isso, sua estadia na capital do oeste chegou ao fim.
— O que é isso, afinal? — perguntou Lahan. Eles estavam na carruagem a caminho de casa, e ele apontava para uma pena de ave, afiada e escurecida em uma das pontas. Ao que parecia, no oeste não usavam pincéis; em vez disso, usavam “canetas” de metal ou penas como aquela.
Maomao inclinou a cabeça. — Acho que encontraram isso na casa daquela vidente. — Não havia muitos pertences por lá, mas aquilo estava entre as poucas evidências que tinham encontrado. — O irmão mais novo do imperador pareceu bastante interessado em saber de que tipo de pena era. Você saberia?
— Hmm... É bem pequena. Acho que não pertence a uma ave aquática — disse Lahan.
A pena era cinza e, na verdade, não parecia muito adequada para escrever. Provavelmente alguém pegou uma pena qualquer como reserva, caso precisasse.
Depois de um tempo, Lahan disse:
— Você não acha que pode ser de uma pomba?
— Que sem graça.
Muitas pessoas comiam carne de pomba, e havia o costume de soltá-las em ocasiões festivas. Lahan pareceu um pouco desapontado; talvez esperasse algo mais exótico.
Maomao olhou pela janela.
— Disseram que vamos voltar de barco, não foi?
— Isso mesmo — respondeu Lahan. Ao lado dele, Rikuson sorria abertamente. Como não precisou participar nem do casamento nem do funeral, ao menos conseguiu passear um pouco, e deu a Maomao um pedaço de seda que havia conseguido. Ela ficava feliz em receber o que quer que lhe dessem, mas algo naquilo tudo parecia meio injusto, e ela não conseguiu evitar lançar a ele um olhar levemente atravessado.
— Por que você não foi no meu lugar? — ela murmurou.
— Eu jamais me encaixaria naquela casa — disse ele. Pelo menos soava humilde, e ele estava sorrindo, mas ela não fazia ideia se ele estava dizendo toda a verdade.
Ah-Duo e a Concubina Lishu seguiam em outra carruagem e fariam a viagem de volta juntas. Não havia motivo para continuarem na capital ocidental. O pai de Lishu, Uryuu, aparentemente disse que a levaria de volta, mas Ah-Duo recusou. Desenvolver de repente um apego pela filha que ele ignorou por quinze anos era, no mínimo, conveniente.
— Vamos precisar trocar de embarcação algumas vezes, mas devemos chegar em metade do tempo que levamos para vir. E o vento deve estar a nosso favor nesta época do ano — disse Lahan.
Os navios tinham vantagem sobre as carruagens porque não precisavam parar com frequência para descanso. Ao irem para o oeste, teriam navegado contra a corrente e contra o vento, o que tomava tempo. Mas agora, desceriam por um dos afluentes do Grande Rio, e um barco os levaria facilmente até a capital.
Enquanto isso, Jinshi e Basen ainda estavam na capital do oeste; eles tinham sido obrigados a ficar para concluir assuntos pendentes. Em teoria, Maomao deveria ter ficado com eles, mas Lahan aparentemente pediu a Jinshi:
— Posso pegar minha irmãzinha emprestada por um tempo?
Se estivesse presente, ela poderia ter protestado — “Não sou sua irmã” ou “Não me envolva nos seus planos distorcidos” — mas ela não estava lá, e tudo foi decidido sem que pudesse opinar. Pelo que ouviu, Jinshi quase recusou, mas acabou mudando de ideia e concordando.
Ela não teve uma oportunidade adequada de falar com ele desde a noite do banquete. Maomao admitia que se sentia estranha perto dele e, à sua maneira, até ficou aliviada por ter sido tirada daquela situação.
Por mais feliz que eu esteja por voltar para casa mais cedo… Ela também estava inquieta. Enquanto arrumava suas roupas em um embrulho para usar como travesseiro, pensava se não deveria dormir com Ah-Duo em vez de ficar perto de Lahan. Depois de todo o esforço que teve para montar um lugar confortável na carruagem, agora teria que começar tudo de novo.
— Que tal um pouco de bons modos, irmãzinha? — disse Lahan.
— Não sei do que você está falando.
Lahan e Rikuson trocaram um olhar, mas Maomao não se importou. Ela fechou os olhos e adormeceu.
Depois de dois dias de viagem em uma carruagem, eles chegaram ao cais, onde o leve mau pressentimento de Maomao virou um péssimo pressentimento. O rio era estreito rio acima, e a embarcação que os aguardava era menos um navio e mais um bote. Nem sequer cabiam tudo em um só barco; havia outro flutuando ali só para a bagagem.
— Temos certeza disso? — perguntou ela.
— Confio no comerciante — respondeu Lahan. — Não espero problemas com roubo.
— Não foi isso que eu perguntei.
— Eu sei. Nem diga nada. — Ele evitou encará-la. Evidentemente, ele também tinha imaginado um barco maior.
— Ah ha ha ha ha! Isso é divertido! — A exclamação veio de Ah-Duo, a única animada do grupo; o resto estava ocupado demais se agarrando ao bote para gritar. O capitão garantiu que as corredeiras só cobriam o primeiro li (500 metros) ou algo assim, mas parecia haver grandes chances de virarem antes disso.
Lishu estava com a cabeça apoiada no colo de Ah-Duo. O balanço incessante do barco nos primeiros momentos da viagem tinha sido suficiente para fazer a jovem tímida desmaiar completamente. Ela estava presa com uma corda para não cair na água. Na verdade, talvez ela fosse a mais sortuda.
— E-eu não pensei... q-que ia b-balançar tanto... — disse o homem de cabelos bagunçados e óculos, pálido, enquanto vomitava na água espumante. E pensar que ele estava se gabando de que aquele seria o jeito mais rápido de voltar para casa. Aparentemente, esqueceu completamente a diferença entre viajar por terra e por navio.
— Não vire pra cá. Você vai me sujar.
— Maomao, me dá alguma coisa pra enjoo… — Ele estendeu uma mão trêmula, mas ela não sabia o que fazer. Ela já tinha dado a ele um antiemético, e ele simplesmente vomitou logo em seguida. Podia dar outro, mas ele só colocaria tudo para fora de novo.
Rikuson não estava tão animado quanto Ah-Duo, mas parecia igualmente relaxado. Observava a fauna local com um sorriso no rosto.
— Veja ali, senhor Lahan, um passarinho. Ah, nunca me canso da paisagem daqui. É sempre tão encantadora.
Isso é só outra forma de dizer que a paisagem nunca muda, pensou Maomao.
Suirei parecia um pouco enjoada, mas não fazia escândalo como Lahan. Nem todos os guardas pareciam confortáveis, mas não iam se permitir parecer patéticos em serviço.
Maomao era Maomao: nem uma garrafa de vinho a deixaria tonta, e tampouco um veículo em movimento. Ainda assim, não era uma nadadora confiante, então ficou quieta para evitar cair na água.
— Olha só pra vocês... — resmungou Lahan. Vê-lo tão fora de si era, à sua maneira, um espetáculo raro, e Maomao se divertia com isso.
Quando o afluente se juntou ao rio principal, a corrente se alargou, e eles trocaram de embarcação.
— Tem certeza de que não tem nada para me ajudar a não me sentir tão mal? — perguntou Lahan. Ele se agarrava a um balde, o rosto pálido. Mesmo com o barco maior, ele não parecia muito melhor, embora vomitasse com menos frequência.
Eles estavam em uma pequena cabine, o navio tinha apenas duas; aquele quarto era destinado às mulheres do grupo. Não podiam deixar Ah-Duo ou a Concubina Lishu dormirem junto com todos. Se Lahan apareceu ali, ainda mais naquele estado deplorável, era sinal de que não aguentava mais o enjoo.
Lishu eventualmente recobrou a consciência, mas continuava deitada no colo de Ah-Duo. Era óbvio que fingia estar enjoada para ser mimada.
— O que você vomitou antes era tudo o que eu tinha — disse Maomao. Ela finalmente tinha lhe dado o remédio, mas ele voltou inteiro. Nem teve tempo de fazer efeito. Ela trouxe os antieméticos por causa do balanço da carruagem; nunca imaginou precisar deles para isso.
Os navios realmente tinham a vantagem de não parar, fazendo com que se chegasse mais rápido, mas isso também significava que o balanço nunca cessava. Maomao ficou um pouco surpresa ao perceber que Lahan era tão sensível ao barco, já que não teve problemas na carruagem.
Quer dizer, não é como se eu não entendesse. Maomao acompanhou o movimento do barco, mas Lahan exclamou: — Ai! — e se agarrou a um poste, ainda segurando o balde.
Em seguida, ela se inclinou para o outro lado.
— Por que você não enjoa? — perguntou ele, ressentido.
— Talvez seja o mesmo motivo pelo qual eu não fico bêbada com facilidade.
Aliás, Lahan não era alguém que aguentava bebida. Ele continuou encarando Maomao, que nem sequer ficou esverdeada.
— Não vou mais andar de barco! — anunciou, abatido. Mas, no meio de uma viagem fluvial, não havia como encontrar uma carruagem, e ele acabou embarcando no próximo barco também. Além disso, ele precisava acompanhar Ah-Duo e a concubina de volta para casa. Ah-Duo parecia adorar viajar de barco, enquanto Lishu adorava ser mimada por ela. Nenhuma das duas tinha motivo para trocar por uma carruagem agora.
Por fim, chegaram ao terceiro cais. Quando Maomao descia para trocar de embarcação, ouviu um forte baque. O que foi isso?
Era alguém desabando bem ali no cais. Um marinheiro tentava reanimá-lo, embora parecesse cauteloso. A figura caída era um homem com um manto bastante gasto.
Ele está doente? pensou Maomao, observando de longe. Não queria se envolver, mas também não era fria a ponto de ignorar alguém doente ou ferido.
— Ei, senhor, você está bem? — disse o marinheiro, sacudindo-o.
— E-eu... estou m-muito bem — respondeu o homem, claramente fora de si.
O marinheiro o virou de barriga para cima, mas então fez uma careta.
— Urgh...
O homem devia ter sido muito bonito um dia; o nariz alto e firme e as sobrancelhas elegantes comprovavam isso. Mas metade do rosto estava coberta de marcas de varíola; se seu rosto fosse um círculo, a parte marcada e a parte limpa formariam algo como um yin-yang.
O marinheiro o empurrou para longe. O recém-chegado se levantou cambaleante. — Com licença, senhor. Posso pegar uma carona no seu barco? — Havia um sorriso naquele rosto deformado, e Maomao viu uma bolsinha de moedas em sua mão estendida. Ele ainda era jovem, talvez pouco mais de vinte anos.
— E-espera aí! Você não tem alguma doença estranha, tem? — gritou o marinheiro, esfregando freneticamente qualquer parte que tivesse tocado o homem.
Ainda sorrindo, o homem tocou o próprio rosto marcado. — Ops! — Ele assentiu como se tudo fizesse sentido. Um lenço caído no chão provavelmente se soltou quando ele desmaiou. Ele o pegou, dobrou em triângulo e cobriu metade do rosto, quase como uma bandagem.
— Eu sei! É varíola! É isso, não é?!
A varíola era uma doença terrível que cobria o corpo de pústulas. Extremamente contagiosa, dizia-se que podia devastar uma nação inteira. Bastava um espirro ou tosse para infectar outra pessoa.
O homem deu um sorriso bobo e coçou a bochecha.
— Haha, tá tudo bem! São só cicatrizes. Eu tive varíola uma vez, mas agora estou ótimo! Olha só!
— Nem pensar! Você desmaiou há menos de cinco minutos! Fica longe!
— Eu só desmaiei porque fiquei com um pouco de fome! Você precisa acreditar em mim!
A conversa fez todos ao redor se afastarem um pouco mais. Maomao estreitou os olhos. Se ele não estava doente, então ela não era necessária ali.
— O que está acontecendo? — perguntou Rikuson, que estava transferindo a bagagem deles para o próximo barco. Ele parecia muito meticuloso. Maomao decidiu, para si mesma, apelidá-lo de “Gaoshun 2”.
— Aquele homem com o rosto coberto quer embarcar, mas o marinheiro não deixa — explicou ela brevemente.
— Hmm… — Rikuson observou o jovem. Com as marcas cobertas, ele realmente era muito bonito. E parecia bastante despreocupado. — Qual é o problema? Ele está tentando viajar de graça?
— Não, ele tem dinheiro, mas tem marcas de varíola no rosto, e o marinheiro acha que ele pode estar doente. Mas não importa, o barco já está cheio.
A Concubina Lishu estava a bordo, o que significava guardas. Eles não podiam permitir que um desconhecido embarcasse também.
Rikuson estreitou os olhos. — Ele está mesmo doente?
— Boa pergunta. — Desta distância, era difícil ter certeza, mas Maomao não viu pústulas, somente cicatrizes. Ele provavelmente dizia a verdade. Então por que Maomao não dizia isso ao marinheiro?
Porque só vai me dar dor de cabeça me envolver.
Era simples assim.
Mas o jovem não parecia disposto a desistir. Ele praticamente se agarrou ao marinheiro.
— Por favor, me deixe subir! Como pode ser tão cruel?
— Me larga! Vou pegar sua doença!
Normalmente, homens bonitos com cicatrizes tinham um ar sombrio, mas não aquele sujeito. Ele se agarrou às pernas do marinheiro e não soltava. Os outros marinheiros queriam ajudar, mas, com medo de contágio, ficaram parados à distância.
Algo precisava ser feito em relação àquele homem, ou o navio nunca iria partir.
Rikuson deve ter adivinhado o que Maomao estava pensando pela expressão dela, porque sorriu. — Eu queria que o navio fosse logo embora, e você?
Ela não disse nada. O quê, ele estava tentando dizer para ela resolver aquilo?
Com uma expressão claramente contrariada, Maomao desceu do barco e foi até o marinheiro (que àquela altura parecia profundamente perturbado) e o jovem (que agora estava com o nariz escorrendo).
— Com licença — disse ela.
— Sim? — respondeu o jovem. Não era exatamente um consentimento, mas mesmo assim ela puxou o lenço do rosto do homem com o nariz escorrendo. Um único olhar para as marcas feias foi suficiente para confirmar que ele as tinha há anos. Ela observou o olho do lado marcado; parecia turvo e sem foco. As pupilas dele também tinham tamanhos diferentes; havia uma boa chance dele ser cego daquele olho.
— Esta pessoa não está doente — anunciou ela. — Ele tem cicatrizes, mas não há chance de transmitir a doença para mais ninguém. — Não varíola, pelo menos. Quanto a qualquer outra doença que ele pudesse ter, ela não sabia e se isentava de toda responsabilidade.
Com uma expressão de total repulsa, o marinheiro pegou com cuidado a bolsinha de moedas que o homem tinha deixado cair. Ele a virou de cabeça para baixo, e moedas pequenas caíram com um tilintar suave. — E para onde o senhor está indo?
— Para a capital! Quero ir para a capital! A capital! — Ele fechou as mãos em punhos e as sacudiu, empolgado; não poderia parecer mais um caipira indo para a cidade grande nem se tentasse. — E quando eu chegar lá, vou fazer um monte de remédios!
— Remédios? — As orelhas de Maomao se animaram.
— Isso! Posso não parecer grande coisa, mas sou meio importante! — O homem puxou uma grande bolsa de algum lugar sob a capa e, quando a abriu, um cheiro característico se espalhou pelo ar. Maomao pegou um pote de argila da bolsa e abriu a tampa, encontrando-o cheio de pomada. Ela não fazia ideia se era eficaz, mas tinha sido preparada com extremo cuidado, com ervas medicinais bem trituradas e misturadas até a consistência perfeita. Esse capricho no preparo era ainda mais importante para a qualidade do produto final do que exatamente quais ervas eram usadas.
Maomao olhou para o homem com um olhar totalmente novo. Ele sorria de orelha a orelha e disse ao marinheiro: — Quer um pouco? Funciona contra enjoo de mar! — Mas, claro, nenhum marinheiro compraria um remédio desses.
— Tsc, mão de vaca. Por que não compra logo? Ah! Na verdade, esqueça a compra. Posso subir no barco? Posso? No barco?
— Não. Este navio está alugado. Você vai ter que esperar o próximo.
— O quê? Sério? Tenho que esperar?! — O homem não pareceu nada satisfeito, mas acabou aceitando. Então olhou para Maomao e sorriu de novo. — Valeu, você ajudou muito. Para mostrar minha gratidão, deixa eu te dar um pouco desse remédio contra enjoo!
A maneira como ele falava o fazia parecer bem jovem, mas ele parecia mais adulto do que agia. Pelo menos parecia ser mais velho que Maomao.
— Não, obrigada. Eu não fico enjoada no mar — disse Maomao.
— Não? Que pena.
O homem estava prestes a guardar o remédio quando, atrás de Maomao, alguém gritou: — Espera! — Lahan praticamente voou para fora do navio. — O r-remédio... M-me dá... — disse ele, ofegante.
Impressionante ele ter conseguido ouvir a gente, pensou Maomao. Ele estava bem longe, e não parecia nada bem. Ela se distraiu com esses pensamentos enquanto subia no barco.
— Ufa, você realmente salvou minha pele! Não só explicou sobre minha doença, como ainda me colocou nesse barco!
O homem de bandagem se chamava Kokuyou. Ele era um viajante, como Maomao já suspeitava pelas roupas sujas. Também era médico, ou pelo menos era o que ele dizia.
Quando Lahan ouviu que Kokuyou carregava todo tipo de remédio, insistiu bastante para que o viajante se juntasse a eles no navio. E, como tinha sido Lahan quem organizou a viagem desde o início, isso era prerrogativa dele, desde que o recém-chegado não parecesse representar perigo para a Concubina Lishu ou qualquer outra pessoa. Ainda assim, Kokuyou não tinha garantia de chegar à capital, apenas até o próximo ponto de parada, onde Lahan desceria.
Kokuyou era um sujeito um tanto estranho, e bastante falante também; tagarelava sobre si mesmo enquanto preparava um remédio.
— Hm. Resumindo, eles me expulsaram. “Você é amaldiçoado! Sai daqui! Grr!” Que crueldade, não acha? — disse Kokuyou, embora não parecesse realmente achar isso. Não havia amargura em seu tom; ele conversava como uma velha fofoqueira na praça de uma vila.
Maomao o observava de perto, compreensivelmente desconfiada se um remédio feito por alguém que tinha tido varíola e cuja origem era incerta realmente funcionaria. O antiemético dele também não parecia ter nada de especial. Lahan, agora muito melhor, o chamou para sua cabine pessoal, e Maomao foi junto, pensando que, já que ele dizia ser médico, talvez valesse a pena ouvir o que ele tinha a dizer.
— Na verdade, eu fiquei no mesmo lugar pelos últimos anos. No ano passado, a vila sofreu com uma praga de insetos. Aí, do nada, o xamã da vila começou a dizer que era uma maldição!
E, segundo Kokuyou, foi aí que o expulsaram. Médicos e xamãs não costumavam se dar muito bem. Na opinião de Maomao, era estúpido e ridículo acreditar em ideias sem fundamento como maldições, mas ela estava em minoria. Francamente, aquilo irritava ela.
Apesar do tom leviano de Kokuyou, seu remédio se mostrou bastante eficaz. Lahan, que até então não tinha se separado do balde por um instante, conseguiu participar da conversa. Talvez ajudasse o fato do navio já não balançar tanto quanto antes, mas, de qualquer forma, Lahan parecia muito satisfeito.
— Humm. Então você diz que vai para a capital em busca de trabalho? — perguntou ele.
— Sim, bem... Sim. Acho que é isso mesmo.
Lahan murmurou de novo e acariciou o queixo. Parecia estar calculando algo, mas Maomao o cutucou com o cotovelo.
Não nos arraste para nada... estranho.
O homem podia parecer meio esquisito, mas, se suas habilidades médicas fossem reais, ele conseguiria se sustentar na capital. Isso, claro, se escondesse as cicatrizes da varíola.
Enquanto ainda estavam viajando com Ah-Duo e a Concubina Lishu, não era ideal ter um homem estranho com eles. Lahan sabia disso: olhou para Maomao e tirou um pedaço de papel das dobras das vestes. Ele rabiscou rapidamente algo e disse: — Se precisar de qualquer coisa, vá até este endereço. Talvez eu possa te ajudar. — Lahan tinha anotado o endereço de sua casa na capital.
Kokuyou pegou o papel e lhes dirigiu um sorriso inocente. — Ha ha! Uau, encontrei pessoas muito legais!
Ele não está fazendo isso por bondade, alertou Maomao em pensamento. Lahan era do tipo calculista. Ele só havia dado o endereço porque achava que poderia usar o homem de alguma forma.
— A propósito, se me permite perguntar, o que aconteceu com a praga de insetos no ano passado? — disse Maomao. Ela adoraria interrogar Kokuyou e descobrir até onde ia o conhecimento médico dele, mas essa pergunta tinha prioridade.
— Mm! Não foi tão ruim a ponto de destruírem raízes de árvores ou deixar as pessoas sem dinheiro a ponto de não conseguirem alimentar os filhos. As crianças ficaram fracas por desnutrição, mas não passou disso — disse Kokuyou, com uma expressão adequada de tristeza. A desnutrição tornava as pessoas mais suscetíveis a doenças, e quem tratava dessas doenças? Médicos. Maomao se perguntou como estaria a vila que o expulsou.
— Se eles tiveram uma colheita razoavelmente boa este ano, acho que vão ficar bem — disse Kokuyou. Maomao não achava isso muito provável, e o homem aparentemente concordava com ela, pois acrescentou: — Espero que os moradores consigam continuar se ajudando até conseguirem uma...
Era um pensamento bonito, “ajudar uns aos outros”. Mas sempre havia condições. Você só podia ajudar o vizinho se tiver recursos sobrando. Se tivesse comida suficiente, poderia dar um pouco a mais para alguém. Era isso que “ajudar” geralmente significava; sustentar outra pessoa enquanto você mesmo passa fome é inútil. Sim, havia alguns idiotas por aí que dividiam tudo o que tinham, mas a maioria deles eram figuras santas de histórias.
Se as pessoas iam tratar médicos e apotecários como sábios assim, então deveriam tornar a vida deles confortável o suficiente para que tivessem disposição para trabalhar. As necessidades básicas precisavam ser atendidas antes que alguém pudesse praticar medicina. Qual seria o sentido se, vivendo na privação, o próprio médico ficasse doente?
A vila que expulsou aquele homem talvez estivesse precisando de um médico agora, mas já seria tarde demais. Água derramada não volta para o copo.
— Certo, então até mais! — Kokuyou dobrou cuidadosamente o papel com o endereço e o guardou nas próprias vestes. Eles tinham pagado a sua passagem apenas até onde viajariam juntos. Ele ficaria na cabine dos guarda-costas, o que também servia para mantê-lo sob vigilância.
Agora que penso bem nisso...
A menção de Kokuyou à praga de insetos a fez lembrar: um dos problemas acumulados era aquele que Lahan tinha assumido.
— O que você pretende fazer sobre a praga de insetos? Quer dizer, aquilo que a mulher de cabelos dourados comentou com você? — perguntou Maomao, referindo-se ao que a emissária tinha dito durante o banquete na capital do oeste. Ela queria exportação de grãos para Shaoh e, se isso não fosse possível, pediu asilo político. — Que benefício isso traz para nós?
A ideia de exportação era muito arriscada, e a de asilo era ainda mais perigosa.
Maomao e Lahan estavam sozinhos na sala; por isso podiam ter aquela conversa. Nem mesmo Rikuson tinha ouvido sobre isso.
— O que você acha? Que ela me deixou na palma da mão? Que eu faria tudo o que ela pedisse, sem pensar, só porque ela era bonita?
— Não faria? — Ela estava meio brincando; afinal, aquele era o cara que não parava de falar da aparência de Jinshi. (Lahan obviamente não sabia que Jinshi tinha certo complexo com a própria aparência.)
— Eu tenho algumas ideias próprias.
— Tipo o quê?
— Nossa pequena aventura de navio vai acabar quando chegarmos ao próximo ponto de parada. Imagino que você não se importe de eu me separar da Lady Ah-Duo e dos outros?
Talvez Lahan estivesse finalmente cansado de ficar enjoado ou talvez esse fosse o motivo de ter trazido Maomao.
— Então eu continuo acompanhando eles.
— Calma aí — disse Lahan, erguendo a mão para impedi-la de continuar. — Garanto que você vai ficar muito interessada no lugar para onde estou indo.
— Por quê?
Lahan tirou um ábaco e começou a deslizar as contas. — Bem, talvez estejamos contando com ovos antes de chocarem. — Mas, ao que parecia, valia a tentativa.
Então, porém, ele disse: — Vamos visitar o meu papai.
Então era assim que Lahan o chamava. Não algo respeitoso como “Pai”. Apenas “Papai”.
[Noelle: Queria tanto que essa mágoa da Maomao pelo pai sumisse... :(]
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