Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle

Revisão: Kessel


Volume 5

Capítulo 11: Bandidos

— Se houver algum bandido por perto, acho que eles vão aparecer por aqui — disse o guia com um sotaque tão forte que parecia quase proposital. Ele apontou para um ponto no mapa de pele de carneiro, uma passagem entre duas cadeias de montanhas. O tipo de lugar que praticamente pedia para ser cercado. — Eles também não são todos burros; não vão se arriscar a se machucar. Se vocês deixarem cerca da metade das mercadorias, devem deixar vocês passarem. De qualquer forma, só nos encontramos com eles mais ou menos uma vez a cada três vezes.

Interessante, nesse caso, os mercadores considerariam usar a rota. Eles sabiam que não seriam atacados todas as vezes, e fazer o caminho longo exigia mais tempo e despesa.

— Pensem nisso como uma espécie de pedágio caro, bons senhores. De qualquer forma, dizem que esses bandidos são o que vocês poderiam chamar de ladrões justos.

— Ladrões justos? — Basen perguntou, incapaz de conter uma nota de indignação em sua voz. Maomao se preocupou se ele conseguiria se controlar caso encontrassem os fora-da-lei.

Jinshi parecia ter se encantado com os cavalos do país árido e preferia cavalgar a andar na carruagem. Isso deixou Basen sem escolha a não ser ir a cavalo também, o que por sua vez deixou Maomao com a espaçosa carruagem só para si; ela moveu parte da bagagem de lado e fez um lugar para dormir no chão. Ficar sentada o tempo todo deixava seu traseiro dolorido; ela pensou que deitar um pouco poderia ajudar.

Convencida de que se preocupar se algo aconteceria ou não era um desperdício de tempo valioso, Maomao decidiu ir dormir. Se ela tivesse muita sorte, quando acordasse já teriam passado pelo posto de controle dos bandidos.

Infelizmente, ela não teve sorte.

 

Antes mesmo de terem chegado à metade da travessia das montanhas, Maomao se viu rolando dentro da carruagem. Os cavalos relincharam e o veículo parou de repente. Forçando seus olhos sonolentos a permanecerem abertos e esfregando as costas onde tinha batido, Maomao olhou para fora. Não havia saqueadores, mas o guia parecia estar explicando algo para Basen.

— O que está acontecendo? — Maomao perguntou ao cocheiro.

— Ah, parece que outra carruagem à nossa frente foi atacada por bandidos. Provavelmente é melhor esperar aqui por um tempo. — Em outras palavras, eles esperavam que, ficando parados por alguns minutos, pudessem escapar sem que nada acontecesse com eles. Alguém que tinha escapado do ataque à outra carruagem estava ali, pedindo ajuda a Basen. Maomao não conseguia entender o que o homem dizia, mas Basen parecia estar conseguindo controlar sua raiva.

Isso foi até o recém-chegado mostrar algo a ele e a Jinshi que os fez ficarem pálidos. Jinshi pegou e olhou atentamente.

Curiosa, Maomao saiu da carruagem, sem se importar com o cabelo despenteado. (Ou seria de dormir no chão?) Mas antes que pudesse se aproximar de Jinshi, Basen fez seu cavalo galopar. Jinshi instruiu vários de seus guarda-costas a seguirem o jovem, embora na hora em que deu a ordem, Basen já estivesse fora de vista.

— Você estava dormindo — Jinshi comentou.

— Não faço a menor ideia do que você está falando — Maomao disse inocentemente.

— Tem um padrão estranho na sua bochecha.

— De qualquer forma, o que está acontecendo? — ela perguntou, esfregando a bochecha com a mão. Jinshi silenciosamente lhe mostrou o que o outro homem tinha trazido: uma placa de madeira marcada com uma insígnia em forma de flor. Maomao reconheceu: cada uma das concubinas do palácio interno recebia um brasão como aquele. Mas a quem pertencia esse?

— A carruagem que foi atacada era da Lady Ah-Duo — Jinshi disse.

O que ela está fazendo aqui? Maomao pensou, mas essa dificilmente era a hora para tais perguntas. Como ela acabou sendo atacada, afinal? Ah-Duo parecia ser alguém que sabia perfeitamente bem como subornar alguns bandidos. Ela saberia que não devia provocá-los desnecessariamente.

— A Concubina Lishu está com ela — Jinshi disse. Isso respondeu a algumas das perguntas de Maomao, mas também a deixou substancialmente mais ansiosa. A congenitamente azarada Lishu não deveria, em princípio, ter sido autorizada a sair do palácio interno, mas isso era algo que Maomao poderia perguntar depois.

— O senhor tem certeza de que está tudo bem? — perguntou o homem que tinha vindo pedir ajuda. Quando ela olhou bem, Maomao achou que o reconhecia da vila de Ah-Duo. Era improvável que ele percebesse quem Jinshi era. Ele provavelmente estava perguntando sobre os guardas. Maomao não tinha ideia de quantos bandidos havia, mas Basen e o punhado de guardas que o seguiram somavam no máximo cinco pessoas. Provavelmente era o máximo que Jinshi podia dispensar; ele não podia se deixar muito desprotegido. Mas isso levantava a questão de por que ele tinha mandado Basen na frente. Para verificar se Ah-Duo estava bem, talvez. Esperançosamente ela não estava machucada.

Jinshi parecia surpreendentemente indiferente. — Tenho certeza de que ele teria ficado bem sozinho. Se chegar a tempo.

— Hein?

Não demorou muito para Maomao descobrir o que ele queria dizer.

 

Quando alcançaram o local, descobriram uma coleção de bandidos amarrados. Obviamente houve uma luta considerável. As roupas fétidas dos homens tinham sido rasgadas, revelando pele coberta de cortes recentes. Cortes eram o de menos, na verdade; vários deles tinham braços e pernas apontando em direções antinaturais. Que tipo de batalha ocorreu para que terminassem assim?

Os guarda-costas usavam o que pareciam ser faixas sujas amarradas em seus pulsos. O que significa isso? Maomao se perguntou. O que elas queriam dizer? Ela observou de longe, não querendo se aproximar muito dos bandidos; alguns deles estavam espumando pela boca.

Os guardas de Ah-Duo não estavam em muito melhor estado. Felizmente, ninguém tinha sido morto, mas um homem teve uma boa parte do braço decepada. Maomao saiu da carruagem e correu até ele.

— Mas o que é isso? — perguntou o guia que Basen tinha contratado, chocado. Seu rosto bronzeado pelo sol estava praticamente pálido.

— Eu pensei que dinheiro deveria ser suficiente para eles — Basen disse, com fúria em sua voz. Uma figura severa e adorável estava parada atrás dele. Ela estava vestida com roupas masculinas, mas era a ex-concubina, Ah-Duo. Ela, pelo menos, estava ilesa.

— Eu ofereci — Ah-Duo disse — mas eles disseram que iam vender a mulher. E a que tenho comigo está apenas emprestada.

Enquanto ouvia, Maomao inspecionou o braço do guarda. Não fazia muito tempo desde que o ferimento tinha ocorrido, mas era um corte bem feio. Luomen talvez tivesse conseguido reimplantar um membro decepado se o ferimento fosse limpo o suficiente, mas Maomao não tinha essa habilidade. Se ela tentasse costurá-lo de volta, apenas apodreceria novamente. Ela cerrou os dentes e fez o que podia. Ela não tinha ervas suficientes consigo, e quando foi pedir mais remédios, descobriu outro rosto familiar.

— Pensei em visitar, mas simplesmente não consegui sair. — A pessoa que estava falando era a outra pessoa atraente vestida com roupas masculinas — Suirei. Ela estava carregando bandagens e ervas medicinais.

— Você também está aqui?

— Sim, embora eu também tenha me questionado se realmente deveria ter saído daquela vila.

Certamente foi uma surpresa encontrá-la aqui, e isso significava que algo estava acontecendo.

— Você é boa em costurar? — Suirei perguntou enquanto aquecia uma agulha sobre uma chama.

— Não mais do que qualquer outra jovem. Sinto particularmente por não termos anestésicos ou sedativos. — Ela se preparou para desinfetar.

Enquanto elas praticamente conversavam descontraidamente, o rosto do guarda se contorceu de dor. A maneira como Suirei segurava o homem trêmulo e colocava uma mordaça em sua boca para que ele não mordesse a língua provava que ela era veterana nesse tipo de coisa.

 

O incidente com os bandidos parecia representar um erro de cálculo considerável. Jinshi e os outros sabiam que dificilmente poderiam passar por uma caravana de mercadores, então em vez disso sua história era a de que um jovem lorde rico tinha sido designado para um posto sem saída nas províncias. Mas os bandidos pareciam desconfiar que os viajantes eram ainda mais importantes do que afirmavam ser.

Com essas pessoas por perto... Maomao trocou de roupa, o manto que tinha sido salpicado com o sangue do guarda e se dirigiu à tenda de Ah-Duo. Jinshi tinha pedido a Maomao para ouvir a história diretamente dela.

Quando entrou, encontrou ali também a Concubina Lishu, agarrando a mão de Ah-Duo sem mostrar sinais de soltar. Ela estava tremendo quase incontrolavelmente. Por que ela estava ali permanecia sendo a questão que mais intrigava Maomao.

[Kessel: Tadinha da Lishu, ela sempre se ferra.]

Suirei, também recém-trocada, também estava lá. Pelo menos estava claro o suficiente por que ela estaria nessa expedição: ela tinha talentos médicos consideráveis e poderia efetivamente servir como médica em uma longa jornada como essa. Ainda assim, sua presença trazia questões próprias.

Por que uma concubina que não deveria ser capaz de sair do palácio interno estava ali, de todos os lugares, parecia algo muito estranho mesmo; a julgar pela atitude de Jinshi, no entanto, havia uma boa razão para isso.

— Presumo que você esteja se perguntando por que a concubina está conosco — Ah-Duo disse. Sua perspicácia era uma verdadeira benção.

— Sim, senhora — disse Maomao.

— Você ouviu por que o Senhor Basen está indo para o oeste? — Como Jinshi estava disfarçado, Ah-Duo teve o cuidado e a perspicácia de entrar no jogo.

— Me disseram que havia discussões importantes acontecendo lá. — Supostamente, Jinshi não era a única personagem importante que estaria presente em nome do governo. Ela tinha ouvido que ele e os outros iam observar o que estava acontecendo, além de perseguir suas próprias agendas.

— Nós também vamos participar dessas discussões. Com a concubina presente, pensamos que seria melhor não viajar com uma comitiva muito grande. Na verdade, diria até que fomos tratadas como estorvos.

Isso soou ameaçador. Maomao ainda não sabia exatamente qual papel a Concubina Lishu deveria desempenhar nesse encontro. A Imperatriz Gyokuyou, que era dessa região, ou a Concubina Lihua, que era parente do Imperador por sangue, poderiam ter sido escolhas mais óbvias.

Ah-Duo parecia divertida com a evidente confusão de Maomao. Ela de alguma forma lembrava para Maomao de Gyokuyou naquele aspecto. Ela de repente teve o pensamento de que Sua Majestade devia gostar de mulheres assim.

— Uma das outras tarefas que devemos cumprir nessa viagem — Ah-Duo lhe disse — é encontrar uma esposa para o irmão mais novo do Imperador.

De repente, Maomao entendeu por que Ah-Duo parecia estar se divertindo tanto.

[Kessel: Ih.]


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