Volume 4
Capítulo 12: Lanterna-Chinesa
Quando chegaram ao palácio interno naquele dia, o próprio ar parecia diferente.
Jinshi dirigiu-se ao Pavilhão Jade, acompanhado por Gaoshun e vários outros eunucos. A concubina Gyokuyou parecia indisposta nos últimos dias, e naquela manhã ele recebeu notícias de que ela provavelmente daria à luz a qualquer momento.
O pai adotivo de Maomao, um homem chamado Luomen, vinha cuidando da concubina constantemente, mas o bebê não nascia. Restava a dúvida se seria um parto pélvico, justamente o motivo pelo qual Luomen foi chamado do distrito dos prazeres.
Ninguém havia mencionado oficialmente o fato de que a concubina daria à luz, mas a tensão no ar no Pavilhão Jade sugeria que todos sabiam. Outras damas da corte tentavam espiar a residência do lado de fora. No momento em que perceberam que Jinshi estava lá, porém, coraram e voltaram apressadamente ao trabalho.
Já haviam se passado dez dias desde o desaparecimento de Maomao.
Jinshi foi recebida por Hongniang, que parecia um tanto exausta enquanto os conduzia para dentro do pavilhão. No corredor, havia uma grande bacia e um bule de chá aquecendo sobre um braseiro, prontos para o momento do nascimento da criança. Era evidente que haviam se preparado para o caso do parto evoluir rapidamente.
— Como ela está? — perguntou Jinshi, esforçando-se para parecer calmo e sereno. As damas de companhia olharam para ele com desconforto, mas foi o senhor idoso que saiu da sala quem lhe deu os detalhes.
— As contrações pararam por enquanto. Ainda não sei dizer quando o bebê vai nascer. — Em princípio, isso poderia acontecer a qualquer momento, embora ainda seja um pouco cedo neste momento.
— E como está a mãe?
— A concubina continua alerta e calma. No momento, não acredito que haja qualquer perigo de parto pélvico.
Então, os tratamentos de Maomao tinham ajudado. Isso foi um alívio, mas eles ainda não estavam fora de perigo. Ainda havia muitas variáveis.
Havia outro homem no corredor com eles; ele estava vestido com um uniforme de médico e tinha um bigode fino. Era o médico oficial do palácio interno, mas naquele momento ele era pouco mais que um estorvo, e as damas de companhia pareciam ressentir-se de sua presença. A seus pés estava uma gata, velha demais para ser chamada de filhote, Maomao era agora uma jovem felina de verdade. Jinshi não pôde deixar de se perguntar se aquilo era higiênico, mas a gata ajudava a distrair a Princesa Lingli, que estava desesperada para ir até sua mãe, então talvez fosse um ponto positivo.
Normalmente, para ser franco, o palácio interno poderia ter passado muito bem sem seu médico, mas naquele momento Jinshi estava grato por ele estar ali. A expressão do homem era fácil de decifrar, e naquele instante ele claramente sofria de uma necessidade sentida de ser útil e da angústia de Maomao que ainda está desaparecida. A combinação parecia tão propensa a cometer erros simples que as damas de companhia do Pavilhão Jade evidentemente o haviam instruído a ficar parado em um só lugar. Ver alguém tão obviamente ainda mais perturbado do que ele próprio ajudou a acalmar Jinshi, permitindo-lhe deixar de lado o pânico crescente.
— Muito bem — disse Jinshi. — Então, vou me retirar por enquanto. Se algo acontecer, envie um mensageiro.
— Sim, senhor — disse o eunuco, com ar de avó, fazendo uma reverência.
Gaoshun apareceu quase no mesmo instante em que Luomen se retirou. — Mestre Jinshi — disse ele. Jinshi o havia enviado para tratar de um assunto separado com a Matrona das Servas.
— Sim? O que foi?
— Aham… — Gaoshun olhou em volta, comunicando claramente que aquela discussão deveria ser mantida em particular. A entrega poderia ser retomada a qualquer momento, mas Jinshi dificilmente conseguiria ficar ali parado indefinidamente, então deixou dois eunucos e saiu do Pavilhão Jade.
— Pronto. O que foi?
— Trata-se do eunuco desaparecido. Perguntei aos outros eunucos se sabiam alguma coisa, qualquer coisa, sobre o assunto.
O eunuco desaparecido atendia pelo nome de Tian, que significa “Céu”. Um nome comum; podia-se ouvi-lo em qualquer lugar. Corria o boato de que Tian não era muito próximo dos outros eunucos. Ele possuía uma beleza estonteante e frequentemente era assediado pelas damas da corte, mas parecia haver um outro lado dele. De todos os eunucos libertados da escravidão entre os bárbaros, ele era o único que não tinha conhecidos no grupo. Em outras palavras, era possível que ele tivesse se infiltrado entre eles antes mesmo de chegarem ao palácio interno.
A hipótese mais segura era que esse tinha sido o plano dele desde o início. Isso explicava por que Tian se esforçava tanto para não se aproximar de ninguém e significava que eles estavam perdendo tempo, sem sequer obter qualquer informação.
— Um eunuco disse ter visto alguém que ele acreditava ser Tian rezando em frente a um santuário.
— Acho que isso não é nada incomum. — O palácio interno estava repleto de santuários, grandes e pequenos. Uma oração de vez em quando era o mínimo que se esperava de um crente devoto.
— Sim, mas… — Das dobras de sua túnica, Gaoshun tirou um diagrama do palácio interno; ele apontou para um santuário no quarteirão norte.
— Isso é… — Jinshi começou. Era um santuário dedicado à veneração daqueles que morreram no palácio interno, o mesmo lugar onde realizaram o funeral da Concubina Jin. Normalmente, aqueles que morriam ali eram devolvidos às suas famílias, mas havia aqueles que não tinham para onde ir nem mesmo depois da morte.
Jinshi imediatamente se voltou para o quarteirão norte.
— O homem com quem falei disse que Tian estava visitando um túmulo.
— De quem?
— Receio que ele não tenha certeza.
Jinshi resmungou e cruzou os braços. Decidiu ir inspecionar o local pessoalmente. Tinha outras coisas para fazer, mas simplesmente não podia deixar isso para lá.
No palácio interno pairava um horror persistente à morte. Era ali que os futuros “filhos do céu” nasceriam e seriam criados e naturalmente, os habitantes desejavam manter-se distantes de algo tão sinistro quanto a morte.
[Kessel: Acho que vocês se lembram, mas filhos do céu é a expressão que a obra usa para se referir aos filhos do imperador.]
Ao mesmo tempo, porém, aqueles que serviam aos privilegiados tinham um costume: quem tivesse se deitado com o Imperador uma vez jamais poderia deixar o palácio interno enquanto vivesse. Havia exceções, é claro. Concubinas dadas a subordinados por razões políticas, ou como recompensa por serviços leais. Na maioria das vezes, porém, essas mulheres eram filhas de pessoas poderosas. Uma mera criada cuja flor murchasse no galho, que nunca gerasse descendentes, poderia simplesmente desaparecer ali neste jardim, seu nome esquecido sem qualquer registro. O lugar para onde Jinshi estava indo era onde aquelas flores repousavam.
Não havia nem dez lápides ali, embora ele não soubesse se isso era muito ou pouco, e todas pertenciam a mulheres que haviam servido no palácio durante o reinado do imperador anterior. Os supervisores do palácio posterior haviam decidido (chame isso de forma caprichosa, se quiser) que muitos sepultamentos logo se tornariam um problema.
Ao chegarem, descobriram que já havia alguém lá. Algo muito incomum, alguém visitar os túmulos de mulheres anônimas do palácio. Mesmo à distância, perceberam que a visitante era uma mulher mais velha; ela estava sentada em frente à lápide mais próxima, relativamente mais recente.
Essa mulher, talvez com mais de quarenta anos, tinha um rosto que transmitia força. Diante do túmulo havia flores que ela devia ter colhido em algum lugar, e um ramo de physalis, Jinshi diria que estava um pouco fora de época. Talvez alguém o tivesse deixado ali antes.
A mulher se levantou, e foi então que ela notou Jinshi e Gaoshun. Seus olhos se arregalaram por um instante, mas logo voltaram ao normal e ela fez uma reverência educada antes de se retirar. Não havia nada de errado em visitar os túmulos; eles não tinham motivos para suspeitar dela.
Exceto por uma coisa.
Enquanto a mulher passava, Jinshi sentiu um forte cheiro de álcool. Muito forte, como se pudesse ficar bêbado só de sentir o cheiro. Como aquelas bebidas destiladas estrangeiras. Quase sem perceber, ele agarrou o pulso dela.
Ela não conseguiu disfarçar o choque. Mesmo assim, manteve a calma e disse: — Posso ajudá-lo, senhor?
Normalmente, Jinshi jamais teria feito algo tão impulsivo. Ele teria ponderado melhor suas ações, em vez de agarrar repentinamente o braço de uma dama da corte. Mas, embora tivesse se convencido de que estava perfeitamente calmo, agora percebia que estava muito mais perturbado do que imaginava.
— Onde está Maomao? — perguntou ele. Sentiu a mulher ficar tensa. Gaoshun e os outros eunucos os observavam em silêncio. Acalme-se, Jinshi disse a si mesmo. Ele precisava se acalmar. Quando falou novamente, foi com seu tom adocicado de sempre. — Estou curioso para saber algo sobre uma certa dama do palácio com sardas. Por acaso você sabe alguma coisa sobre ela?
Ele usou o sorriso que tantas vezes lhe garantia o que queria das damas da corte, mas esta mulher não retribuiu o sorriso; em vez disso, o sangue lhe sumiu do rosto. Parecia que ela tinha visto um demônio. As pupilas da mulher, Shenlü, dilataram; Jinshi podia sentir o pulso dela acelerar sob seus dedos. Ela sabia de algo. Ele tinha certeza disso. Apertou seu braço com mais força para que ela não pudesse escapar.
A mulher olhou para ele, com os olhos arregalados. Talvez tivesse sangue estrangeiro nas veias, pois seus olhos eram verdes. De repente, embora o encarasse, seu olhar se tornou distante. — Uma velha lembrança me veio à mente — disse ela. — Alguém me chama com uma voz gentil e me oferece doces de uma terra estrangeira.
Grandes lágrimas começaram a rolar por suas bochechas, mas Jinshi não conseguia entender o que ela estava dizendo.
— Ninguém parece se lembrar de como ele era quando jovem. Tudo o que ouvi é que, quando ficou velho, ele não passava de uma sombra do que foi um dia. Ele parou de me visitar depois que eu completei quatorze anos, então não sei nada sobre como ele estava depois disso.
De quem ela estava falando? O que queria dizer, e por quê? Jinshi percebeu, porém, que mais profundo que o tom verde dos olhos daquela mulher era a raiva que havia neles.
— Mas ele também tinha uma voz doce como mel e um rosto como o de uma ninfa celestial. — Havia convicção em sua voz. — Por que alguém como você se rebaixaria a fingir ser um eunuco?
O aperto de Jinshi afrouxou por um instante, mas foi tudo o que Shenlü precisava; ela se livrou dele e começou a correr. Ela nunca teve esperança de escapar, porém, com os eunucos por toda parte, logo foi capturada.
— O que faremos com ela, Mestre Jinshi? — perguntou o homem que a havia capturado. Enquanto ele falava, a mulher tirou uma pequena garrafa das dobras de seu manto, destampou a rolha e bebeu o conteúdo. Gaoshun gritou antes mesmo de Jinshi: — Faça-a vomitar! — Ele ordenou a um dos eunucos que trouxesse água, segurando a mulher desmaiada e enfiando os dedos em sua boca, tentando fazê-la vomitar. Jinshi só podia observar.
— …Shi! Mestre Jinshi! — Ele se assustou momentaneamente com o grito de Gaoshun. Devia estar completamente fora de si. O eunuco já havia retornado com a água e a despejava na garganta da mulher. A garrafa da qual ela bebeu rolou pelo chão. Jinshi a reconheceu como um dos recipientes onde Maomao havia colocado seu álcool destilado. Álcool extremamente forte era um veneno por si só, e aquela mulher acabou de beber um frasco inteiro.
O vento soprava forte, levando embora as flores em frente ao túmulo e sacudindo os frutos da planta-lanterna.
— Mestre Jinshi, o que o senhor quer que façamos? — Gaoshun perguntou com firmeza. Jinshi percebeu de repente que a testa franzida do outro homem estava praticamente diante de seus olhos. — Mestre Jinshi, o senhor precisa se controlar; certamente sabe disso. Não precisa se incomodar com uma encenaçõ de uma dama da corte.
— Encenação? — perguntou Jinshi. Quem beberia um frasco de veneno por brincadeira? Tudo não tinha começado porque Jinshi impulsivamente agarrou o braço dela? E será que a pessoa de quem a mulher falava era realmente...
— Gaoshun... Será que eu realmente me pareço com ele?
[Kessel: Coitado.]
Esse pensamento sempre incomodou Jinshi, desde pequeno. Ele não se parecia com aquela pessoa. Nem com seu irmão mais velho, nem com sua mãe. Então, com quem ele se parecia? Era uma pergunta que alimentava rumores infundados entre as damas de companhia. Histórias de que ele era ilegítimo.
Era praticamente ridículo: o que ele estava fazendo ali, naquele jardim de mulheres? Ele havia pedido ao irmão mais velho que o deixasse assumir essa identidade de eunuco para se livrar de seu status de herdeiro aparente... Era ridículo, simples assim.
Ainda frustrado consigo mesmo, ele foi até a lápide que Shenlü vinha visitando e parou ao lado. Queria rir até não aguentar mais, mas ainda tinha trabalho a fazer. Lentamente, ajoelhou-se junto à lápide e pegou a cápsula vermelha de physalis caída no chão. Ressecada agora que sua estação havia terminado, ela começou a se rasgar, revelando o fruto vermelho em seu interior. Ele se lembrou de ter ouvido que a physalis podia ajudar a induzir o aborto. E quando viu o nome gravado na lápide, um nome que um dia seria apagado pelo tempo, pensou ter entendido por que alguém teria oferecido a planta ali.
Taihou.
Um nome perfeitamente comum para uma criada. Não tanto na capital, não hoje em dia; mas no campo, as mulheres chamavam suas filhas de Taihou aos montes. Aqui, porém, nesta lápide, o nome era inesquecível.
Era o nome de uma serva que havia morrido no ano passado. Uma mulher cuja única alegria no mundo recluso nos aposentos do palácio interno era reunir grupos de mulheres para contar histórias de terror. Ela não tinha família alguma. Com uma exceção. Se a filha nascida de seu encontro com o médico do palácio tivesse sobrevivido...
Taihou. O eunuco desaparecido e a serva. E...
Não. Ele ainda não tinha todas as peças desse quebra-cabeça. Mas sua intuição permitiu que ele preenchesse as lacunas, e lentamente a intuição se transformou em certeza. Jinshi sabia para onde tinha que ir em seguida.
Se uma criança nascida naquela época tivesse sobrevivido, ela seria agora dois anos mais velha que o Imperador. Suponha que o médico exilado tenha levado a criança consigo.
Disseram que eles desapareceram depois disso, mas isso era questionável. Algo não fazia sentido.
A mulher chamada Taihou havia sido serva de uma das concubinas, ninguém menos que a mãe de Loulan, esposa de Shishou. Dizia-se que Taihou era parente do clã Shi, uma parente distante da mãe de Loulan. Talvez ela soubesse algo sobre a criança nascida dessa serva e do médico desaparecido, pensou Jinshi, e se voltou para o Pavilhão Granada.
Não havia ali qualquer vestígio da austeridade que havia permeado o pavilhão até o ano anterior. Em vez disso, o lugar transbordava a ostentação exótica. Jinshi suspirou em silêncio, depois forçou-se a exibir seu sorriso habitual. Uma dama de companhia curvou-se para ele, quase timidamente, e o conduziu para dentro.
Eles atravessaram um corredor repleto de enfeites extravagantes de madrepérola e chegaram à sala de recepção onde ele costumava ser visto. A dona do pavilhão estava esparramada em seu divã, como de costume, polindo as unhas.
Jinshi deixou seus olhos se franzirem em um sorriso. A concubina Loulan era acompanhada por seis damas de companhia, todas diligentemente atentas a cada uma de suas necessidades. Cada uma vestia uma roupa extravagante; o tema do dia parecia ser o traje tradicional da nação insular a leste. Cada uma das mulheres usava uma profusão de robes sobrepostos, uma visão berrante, sem dúvida. As mulheres estavam tão completamente cobertas que não se conseguia sequer ver as formas de seus corpos, e ao mesmo tempo, haviam aplicado maquiagem ao redor dos olhos que as fazia parecer de olhos arregalados e zangados, dando a seus rostos uma aparência angulosa. O efeito geral era, no mínimo, estranho. Jinshi achou que as fazia parecer raposas sorridentes.
Ele se pegou pensando no que levava Loulan e suas damas a se vestirem de maneira tão extravagante. Será que ela tinha consciência de que o Imperador achava aquilo desagradável? Jinshi sabia que Loulan compreendia muito bem seu papel como concubina de alto escalão, e ainda melhor seu papel como filha de Shishou.
Loulan sussurrou algo para uma de suas damas de companhia, erguendo um leque de penas para esconder a boca. Uma forma refinada de se comunicarem, refletiu Jinshi, mas não podia ser só isso. Ele veio até ali agarrado a uma tênue esperança, e isso lhe proporcionou uma apreciação por detalhes sutis que, de outra forma, poderiam ter passado despercebidos. A pinta na têmpora de Loulan, por exemplo. Ela tentou escondê-la com maquiagem, mas ainda era levemente visível. Talvez o suor tivesse diluído um pouco o pó branco.
Se Jinshi se lembrava corretamente, Loulan não tinha uma pinta na têmpora.
Ele não se deu ao trabalho de sentar na cadeira que a dama de companhia lhe ofereceu. Em vez disso, caminhou diretamente em direção à concubina Loulan.
— Qual é o problema? — perguntou uma das damas, com ar indignado. — Certamente você, Mestre Jinshi, deve possuir decoro suficiente. — Qual era o nome da mulher mesmo? Jinshi se orgulhava de saber quantas mulheres trabalhavam em cada um dos pavilhões, seus nomes e de onde vinham. As damas do Pavilhão Granada, porém, estavam constantemente trocando de roupa e maquiagem, e todas tinham biotipos semelhantes. Assim, ele sabia seus nomes, mas nunca conseguiu associá-los aos seus rostos. Em vez disso, ele as distinguia por detalhes sutis: quem tinha uma pinta, ou cujos olhos tinham um determinado formato.
Jinshi estendeu a mão, agarrou o leque de Loulan entre os dedos e o atirou para longe.
— M-Mas que audácia! — exclamou uma das damas de companhia. A concubina Loulan virou-se de costas para Jinshi como se tivesse medo dele, e suas damas se colocaram entre os dois. Uma demonstração perfeita de lealdade à sua senhora, ou assim parecia.
Jinshi só precisou lançar um olhar para os eunucos que o acompanhavam, e eles afastaram as mulheres, abrindo caminho até Loulan. Ele a segurou pelo ombro, sem muita delicadeza, e a obrigou a encará-lo. Mesmo sob a maquiagem carregada, ele pôde vê-la corar.
— Lembro-me de que a concubina Loulan tinha sete damas de companhia — disse ele. Como filha mimada de Shishou, ela trouxe nada menos que cinquenta servas com ela quando entrou no palácio interno. Jinshi segurou Loulan no lugar e limpou a maquiagem ao redor de seus olhos com os dedos, revelando grandes olhos amendoados. Agora, qual era o nome da mulher com a pinta na têmpora?
— Creio que seu nome era... Sourin. Ou... não, Renpu, era esse? — Jinshi sorriu, deliberadamente reprimindo qualquer sinal de raiva. A dama de companhia que se transformava na concubina Loulan, contudo, passou de corada a mortalmente pálida e começou a tremer.
— Mest… — Uma das outras damas de companhia tentou mais uma vez se colocar entre elas, mas Jinshi simplesmente olhou para ela, que fez uma careta visível e recuou novamente.
— Onde está a verdadeira concubina Loulan?
Teria ela planejado tudo isso desde o início? O exército de criados, as damas de companhia que se pareciam fisicamente com ela e os trajes deslumbrantes em constante mudança: tudo para que ninguém percebesse se a concubina trocasse de lugar com uma de suas damas. Teria esse sido o seu objetivo desde o princípio? E onde estaria a verdadeira Loulan agora?
— Para onde ela foi? — perguntou Jinshi. A mulher que se passava por Loulan estremeceu violentamente, mas não disse uma palavra. Jinshi apertou o aperto. — Para onde ela foi?
Quando ele fez a pergunta pela terceira vez, a mulher que tentou se intrometer antes, se aproximou, abraçando a falsa concubina de forma protetora. Ela lançou um olhar para Jinshi. — Sinto muito, senhor. Mas juro, ela realmente não sabe. — Ele não havia percebido antes por causa das roupas combinando, mas aquela mulher era vários anos mais velha que a falsa concubina. — Por favor, tenha piedade. — A mulher, profundamente angustiada, olhou para os pés da falsa concubina. A longa barra da saia estava úmida, e gotas escorriam pelas pernas da mulher silenciosa, pingando de seus dedos. Então, a falsa Loulan estava apavorada o suficiente para perder o controle da bexiga.

Jinshi soltou o queixo da falsa Loulan. Os olhos dela se arregalaram; as pupilas estavam dilatadas, sua respiração estava ofegante e ela ainda tremia. A pele pálida do queixo e do pescoço mostrava marcas claras de onde Jinshi a havia agarrado.
Foi uma demonstração de violência praticamente impensável para o eunuco Jinshi. Muito grosseiro, nada civilizado para ele.
Admitir as filhas de poderosos oficiais no palácio interno tinha suas vantagens para o Imperador. Sim, os oficiais podiam esperar ter um neto no trono caso sua filha desse à luz um filho do soberano, mas isso também podia limitar suas opções. Para muitos pais, não todos, mas muitos, a filha é a menina dos olhos. A gaiola que era o palácio interno mantinha essas preciosas meninas como reféns.
[Kessel: Eu adoro como a obra não romantiza a condição delas. Viviam vidas de luxo? Sim. Mas não eram menos prisioneiras por conta disso. Não passavam de objetos que o Imperador usava ao seu bel prazer. Digo objetos, porque eram facilmente descartadas, caso necessário. Triste.]
Considerando o quanto Shishou se esforçou para levar Loulan para o palácio interno, era evidente o quanto ele a adorava. Sua filha tornou-se uma concubina de alto escalão, mas, embora o Imperador fosse obrigado a tratá-la com certo nível de respeito, esperava-se que ela também se comportasse de acordo com certos padrões.
Jinshi já havia deixado de considerá-la a "concubina" Loulan, pois ela havia violado esses padrões.
— Ela disse que não voltaria — disse solenemente a dama de companhia de antes. A mulher, que se apresentou como a chefe das damas de companhia de Loulan, submeteu-se ao interrogatório de Jinshi no lugar da falsa concubina, que mal conseguia respirar direito, quanto mais manter uma conversa. Pelo que Jinshi deduziu, ela foi obrigada a servir de sósia de Loulan por ser a que mais se assemelhava fisicamente a ela; mas a mulher não compreendia bem a situação nem as implicações do que estava fazendo. Ela pensava que a exigência de se passar por sua senhora era apenas mais um dos caprichos de Loulan.
Jinshi cerrou uma das mãos em punho. Ele estava errado. Sabia agora que aquela tinha sido a maneira errada de lidar com a situação, não o que o eunuco Jinshi, com seu sorriso delicado, faria. Mas ele não estava calmo o suficiente para pensar em outra forma de abordar o problema.
Então ela não voltaria. Isso provavelmente significava que ela havia fugido do palácio interno. Era uma ofensa grave, punível em alguns casos com a morte. E como era pior quando o crime era cometido por uma concubina de alto escalão. Era como uma cortesã romper os laços com sua casa, como a filha do apotecário havia dito certa vez. Jinshi sorriu para si mesmo; era típico dela comparar o lugar onde os filhos do Imperador nasciam a uma zona de prostituição comum.
A garota. Outra pessoa que eles ainda não tinham encontrado. Conhecendo Maomao, sempre havia a possibilidade dela ter ido por vontade própria. Mas o mais provável era que não lhe tivessem dado escolha.
Mas por quê? Ele ainda tinha tantas perguntas. Interrogou a chefe das damas de companhia minuciosamente, mas ficou perplexo. Ele sempre poderia torturá-la, mas não achava que isso o levaria a lugar nenhum. Seus olhos diziam que ela estava falando a verdade.
Ele havia mantido as damas de companhia do Pavilhão Granada, as criadas, os eunucos, qualquer pessoa associada a Loulan, confinados em um único local. A “sala de aula” tinha o tamanho ideal. Enquanto isso, os eunucos realizavam o trabalho tedioso de verificar todas as mulheres do palácio interno, apenas por precaução, mas até então não haviam encontrado ninguém que se parecesse com Loulan.
Jinshi sabia que não tinha condições de lidar com o parto da concubina Gyokuyou; e contra a sua vontade, encarregou Gaoshun da tarefa.
Jinshi estava em seu escritório, com as mãos na cabeça. Basen estava com ele, talvez por se tratar de um estado de emergência, pois naquele momento relatava: — Há pouco tempo, o Mestre Lakan investiu contra o palácio interno, tentando forçar a entrada.
O rosto de Jinshi estava tenso; ele não achava que conseguiria sorrir mesmo se quisesse. Era algo inacreditável, mas o homem com o monóculo tinha feito.
— A notícia deve ter se espalhado de alguma forma — disse Basen, fazendo uma careta como se estivesse mastigando algo amargo. — E o paradeiro atual de Shishou ainda é desconhecido. — Ficou bastante claro por que Basen não se referia mais ao homem com nenhum título de honra: sua filha Loulan havia fugido do palácio interno e, como pai dela, ele também seria tratado como um traidor do Imperador.
Também haviam recebido um relatório sobre o estado de saúde de Shenlü após a ingestão do álcool. Ela havia sobrevivido, de alguma forma, mas ainda não havia recuperado a consciência. Disseram-lhes que ela era uma conhecida pessoal de Taihou, e que sem dúvida foi assim que ela se envolveu nessa conspiração contra o trono. Com a morte do antigo imperador, Jinshi suspeitava que sua raiva se voltou contra o palácio interno em geral. Eles nem sabiam quem mais na clínica poderia estar envolvido. Talvez tivessem simplesmente concordado em silêncio porque, assim como Shenlü, também haviam sido vítimas do antigo governante.
Jinshi não tinha tempo a perder. Queria sair voando do palácio interno e caçar Loulan. Mas simplesmente não tinha informações suficientes. Sair correndo agora seria como procurar uma agulha num palheiro. Primeiro, pensou, deveria descobrir o que Shishou estava tramando. Sim, bem, ele já tinha alguém cuidando disso. E isso deixou Jinshi sem nada para fazer a não ser andar de um lado para o outro em seu escritório.
— Mestre Jinshi — disse Basen, lançando um olhar em sua direção. Um visitante havia chegado à porta do escritório, e Basen parecia estar tentando lembrá-lo de que não seria apropriado que ele fosse visto naquele estado deplorável. Jinshi, cedendo à necessidade, sentou-se e fingiu estar calmo. Basen olhou para um espelho posicionado de forma a ocultar o que havia dentro da sala; então, aguardou o visitante com uma expressão de certa perplexidade.
Entrou um funcionário simples, de estatura que, se fosse mulher, poderia ser considerada baixa. Usava óculos redondos, mas, além do cabelo um tanto despenteado e dos olhos estreitos e penetrantes, não havia nada de notável no jovem, embora lhe parecesse estranhamente familiar.
O jovem colocou as mãos nas mangas e fez uma reverência. Jinshi achou ter visto algo escondido na faixa do jovem; ao olhar mais de perto, percebeu que era um ábaco.
— É um prazer conhecê-lo. Meu nome é Kan Lahan. — Com essa apresentação extremamente simples, o jovem sorriu.
Aquele nome: ah, então era com ele que ele se parecia.
Ninguém o teria reconhecido se ele se tivesse se identificado como membro da Casa de Kan, pois em todo o país de Li existiam apenas cerca de vinte sobrenomes. Assim, ao indicarem suas famílias, as pessoas frequentemente usavam nomes de cortesia, que eram transmitidos de geração em geração. Além desses nomes de cortesia familiares, havia também nomes de cortesia atribuídos a diversas casas desde os tempos antigos pela família imperial.
No caso do homem que estava diante deles, La era seu nome de cortesia. Havia apenas dois homens no pátio externo que reivindicavam esse nome: Lakan e o sobrinho que ele havia adotado. A única outra pessoa que poderia ser considerada relevante era um homem que havia chegado recentemente ao palácio interno como médico: Luomen, porque “Luo” usa o mesmo caractere que “La”.
Tudo isso levantou a questão: o que o filho adotivo de Lakan estava fazendo ali?
— Precisava de mim para algo? — Jinshi tinha uma posição hierárquica superior à de Lahan, de modo que a aparição repentina do jovem poderia ser considerada rude. No entanto, Jinshi sabia que usar sua posição e fazer caras de poucos amigos não o levaria a lugar nenhum naquele caso. E, independentemente de sua posição, havia alguns oficiais que simplesmente o tratavam com menos respeito por ele ser um eunuco.
— Achei que o senhor gostaria de ver isto. — Lahan tirou um pergaminho da manga e o entregou a Basen. Basen o examinou e depois o passou para Jinshi. Jinshi, por sua vez, decidiu dar uma olhada, confiando que uma mensagem do filho de Lahan pudesse ser importante. Ele desatou o cordão que prendia o pergaminho e o desenrolou, olhando para ele com espanto.
— O que o senhor acha, se me permite perguntar? — Lahan ainda sorria, com uma expressão profundamente presunçosa e um tanto desagradável, mas o conteúdo do pergaminho justificava plenamente sua arrogância. Era uma lista de palavras e números, mas, dependendo do ponto de vista, também era algo mais.
— É algo que meu pai adotivo me instruiu a investigar recentemente. Acho que ele não estava nada contente por não saber de onde vinham as feifas. Enfim, fiz algumas pesquisas em relação aos oficiais que foram punidos recentemente e descobri um padrão muito intrigante.
O pergaminho era um registro de recibos. O tipo de documento que alguém ligado ao conselho que supervisionava o tesouro nacional poderia facilmente consultar. Mesmo funcionários de outras áreas poderiam ver tais documentos se seguissem os procedimentos adequados.
— Achei que seria mais simples mostrar a vocês uma fonte primária. Claro, esta é apenas uma seleção que fiz; há muita coisa para analisar de outra forma.
Com ou sem o resumo, ele organizou os números de tal forma que até mesmo um leigo como Jinshi pudesse entendê-los. E eles revelaram que, nos últimos anos, as despesas de um órgão governamental em particular haviam aumentado cada vez mais.
— Interessante, não é? Nos últimos anos, não houve seca nem pragas de insetos, e mesmo assim o preço dos grãos subiu constantemente. Por que você acha que isso acontece? Achei muito estranho, então examinei o preço de mercado durante o mesmo período, e parece que o preço dos grãos foi um dos mais estáveis de todas as mercadorias.
Ele estava claramente desenvolvendo seu argumento. Havia algo mais cujo preço vinha subindo mês a mês, junto com o custo dos grãos.
— E havia mais uma coisa: por algum motivo, o preço do ferro também vem subindo gradativamente. Aqui você pode ver o preço dos metais subindo em todo o país, será que eles estariam construindo uma estátua colossal em algum lugar?
Jinshi entendeu o que Lahan queria dizer. Largou o pergaminho e olhou para o jovem, que certamente herdou a astúcia do pai adotivo. O preço do grão podia não parecer tão importante à primeira vista, mas havia muito a ser explorado. Um pequeno aumento no preço significaria uma valorização considerável. E se, como Lahan sugeria, alguém estivesse ficando com a diferença para si?
Quanto ao aumento do preço do metal, isso implicava um aumento na demanda. Isso poderia ser causado, por exemplo, quando alguém construindo um monumento para demonstrar seu poder, ou algum outro projeto de grande visibilidade, começava a coletar material de todos os lugares. Até mesmo panelas e equipamentos agrícolas poderiam ser requisitados e derretidos. Mas havia outros motivos para o preço subir…
— Sou capaz de examinar mais de perto a circulação de moeda ao longo destes últimos anos. Inclusive onde ela parece estar concentrada — disse Lahan. Exatamente o que Jinshi esperava ouvir. Era quase como se fosse exatamente isso que ele viera dizer.
Jinshi percebeu que havia um pedido no olhar de Lahan. Sem dúvida, era por isso que ele havia trazido aquele pergaminho para Jinshi: como ele nunca faziam nada que não lhes trouxesse algum benefício.
— E o que você quer em troca? — perguntou Jinshi sem rodeios.
A expressão de Lahan suavizou-se como se ele estivesse simplesmente esperando que Jinshi perguntasse. Ele tirou um pedaço de papel da manga, embora parecesse um tanto relutante. — Talvez você fosse tão gentil a ponto de considerar esta quantia.
O documento era uma fatura referente ao conserto de uma parede do palácio interno. Jinshi só pôde presumir que se tratava de uma parede que Lakan havia atravessado.
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