Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 3

Epílogo

Ela ainda não se sentia bem com isso. Assim como no caso de Suirei, Maomao odiava deixar as coisas sem resolução. Mas sabia que perder a cabeça não serviria para nada.

Gaoshun estava participando do banquete daquela noite, realizado em um barco no meio do lago. Isso significava um número mínimo de guarda-costas, e Maomao ficou em casa. Estava em seu quarto, aproveitando a brisa noturna.

Aquelas feifas…, pensou. Pareciam incomuns. Alguém comentou que elas eram o modelo mais recente. Dava para supor que vinham do oeste.

O oeste…

Maomao pensou nas emissárias que haviam vindo com a intenção de se tornarem noivas do Imperador. O que estariam fazendo quando saíam escondidas de seus quartos? Gaoshun tinha perguntado sobre mulheres que carregavam segredos em vez de crianças, mas também era possível carregar um plano. Maomao havia pensado que talvez estivessem seduzindo oficiais da corte para torná-los cúmplices, mas havia outra possibilidade.

Todo país desejava possuir as armas mais modernas, mas, se uma nação as vendesse abertamente a outra, o único resultado possível seria a guerra. Por isso, o país das emissárias não podia vender armamentos de forma explícita. Mas será que também não poderiam vendê-los às escondidas, sem passar pela corte…? Será?

Talvez a ponte que estamos atravessando seja ainda mais perigosa do que eu imaginava, pensou Maomao.

Por outro lado, talvez eles tivessem um patrocinador ainda maior e mais poderoso.

Não havia como saber quanto os homens presos hoje contariam, ou sequer quanto sabiam. Maomao apenas esperava que o que quer que estivesse acontecendo fosse cortado pela raiz. Ela não era gentil a ponto de desejar a felicidade e a alegria dos outros, mas, se tudo ao seu redor estivesse em paz, isso significava que ela também poderia viver em paz.

Ela estava justamente fechando a cortina, pensando em dormir um pouco, quando ouviu uma batida na porta. Ela deu um pequeno salto, apesar de si mesma. Aproximou-se em silêncio e abriu a porta apenas o suficiente para espiar. Deu de cara com a última pessoa que gostaria de ver naquele momento.

Gaoshun estava no banquete, e Basen provavelmente estava com ele. Por que esse homem era o único que não estava lá?

— Você não precisa me deixar entrar, se não quiser. — A voz bonita soava contida. Pela fresta da porta, Maomao viu Jinshi se virar e encostar na parede. — Desculpe por ter te deixado chateada.

Maomao não disse nada, mas encostou-se na parede do lado de dentro, espelhando Jinshi. Do corredor, ouviu-o suspirar. Depois ouviu o som dele coçando a cabeça, arrastando os pés no chão, frustrado, e por fim o som de seu cabelo batendo na parede. (Ele está balançando a cabeça?) Ela não precisava vê-lo para saber exatamente como ele devia estar naquele momento. Ele queria dizer algo, mas não encontrava as palavras. Maomao sentia o mesmo.

Ela coçou a ponta do nariz, um pouco irritada. 

— Não pensei duas vezes sobre isso. Na verdade, sou eu quem deveria pedir desculpas. — Afinal, ela tinha insistido tanto em “tamanho decente”. Qualquer um teria perdido a paciência. Até Jinshi. Até com Maomao.

Do outro lado da parede, Jinshi soltou um resmungo.

O que será que ele está pensando? Maomao era quase alheia aos sentimentos das pessoas, em parte porque nunca se interessou muito por eles e em parte por causa da forma como havia sido criada. As pessoas da Casa Verdigris cuidaram bem dela quando era bebê, mas o trabalho sempre vinha em primeiro lugar, e muitas vezes ela era deixada sozinha. Podia chorar, mas ninguém viria ajudá-la até terminarem o serviço. Diziam que, com o tempo, ela praticamente parou de chorar, talvez tivesse aprendido a lição.

Talvez isso explicasse tudo, talvez não; Maomao não sabia. Mas, fosse qual fosse o motivo, ela cresceu sem muita sensibilidade para perceber quando alguém sentia afeição por ela, ou ódio, aliás. Foi isso que lhe permitiu atravessar a tempestade no Pavilhão Cristal. Ela não gostava daquilo, claro, mas a afetava muito menos do que afetaria a maioria das pessoas.

Isso também a deixava sem saber o que dizer a Jinshi, então ela não disse nada. Ela pensou o máximo que podia, procurando as palavras certas. Por fim, disse:

— Não há nada a dizer. Para mim, o senhor é quem é, Mestre Jinshi.

Droga, pensou, balançando a cabeça em reprovação a si mesma: não pretendia usar o nome verdadeiro dele. Ainda assim, aquela era sua resposta mais sincera, vinda do fundo do coração.

Então ninguém roubou as joias da família. E daí? Não era como se ela fosse vê-las. Considerava todo o assunto irrelevante para si.

— Para você, eu sou quem eu sou, é isso? — Era difícil definir o tom da voz de Jinshi: ele soava ao mesmo tempo encantado e desolado. Maomao ouviu um farfalhar, como se Jinshi estivesse mexendo em algo. Então, uma mão surgiu pela fresta da porta. Maomao deu um passo para trás, instintivamente. — Não tenha medo — disse Jinshi. — Só quero te entregar isto.

Dizendo isso, ele apoiou um embrulho de pano na travessa da porta. Curiosa, Maomao estendeu a mão para pegá-lo, e seus dedos roçaram nos de Jinshi. Foi só por um instante; as mãos já haviam se separado antes mesmo que ela tivesse tempo de registrar o calor do corpo dele.

— Há algo que prometi a mim mesmo contar a você quando finalmente lhe entregasse isto. Você deve se lembrar de que comecei com aquele bile de urso — disse Jinshi, com seriedade.

Cada vez mais intrigada, Maomao abriu o embrulho. Dentro, havia várias pedras amareladas.

— Sei muito bem que esse conhecimento pode te trazer problemas no futuro, mas quero que você saiba a verdade. — Jinshi falava baixo, mas com convicção.

Essas são… Essas são…

— Foi por isso que eu quis que você me acompanhasse nessa viagem. — Ele parecia espremer as palavras, uma a uma. Mas elas caíram em ouvidos surdos.

B… B…

Bezoares de boi! — gritou Maomao, dando um salto. Tão raros e tão preciosos, o objeto que assombrava seus sonhos, agora estava ali, diante dela. Seus olhos se encheram de lágrimas, e o coração disparou num ritmo descontrolado. A respiração veio curta e acelerada.

Maomao escancarou a porta. Jinshi, completamente pego de surpresa, recuou.

— Muito obrigada! — Maomao se curvou.

— Ah, sim, eu finalmente consegui pôr as mãos em… Ei! Não feche essa porta! Eu ainda não tinha terminado de falar…

Mas Maomao bateu a porta com força e correu o ferrolho. Ela não queria que ninguém a interrompesse. Ela girou sobre si mesma enquanto admirava suas preciosas pedras do estômago de boi. Seus lábios se curvaram numa expressão incomum:

— Hoo hee hee!

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Ela achou que ouviu alguém esmurrando a porta, mas o som parecia distante, trivial diante dos bezoares. Eles a deixavam tão feliz que quase varriam o comportamento de Jinshi naquela tarde como uma brisa. O coração de Maomao batia com tanta força que ela mal conseguia ouvir qualquer outra coisa. Ela esfregou a bochecha nas pedras enquanto se jogava na cama.

Chutando as pernas sem pensar, rolou entre os lençois, acariciando os bezoares com a ponta do dedo. Só de olhar para eles, sentia como se tivesse energia para trabalhar um mês inteiro sem descanso nem sono. (Era apenas uma sensação, claro. Se fizesse isso de verdade, morreria.)

Ela não poderia se importar menos com o fato de Jinshi ser ou não um eunuco. Fosse o que fosse, ou não fosse, Maomao não tinha nada a dizer sobre isso. No entanto, não era tão volúvel a ponto de não se comover com um presente daqueles. Decidiu que, se Jinshi algum dia se visse encurralado, com seu segredo prestes a vir à tona, então ela faria o máximo para ajudá-lo:

Se e quando esse momento chegar…

… ela o tornaria um eunuco de verdade.

Apesar da resolução particular de Maomao, as batidas na porta continuaram, mas, para seus ouvidos, não passavam de um tamborilar distante ao fundo.

○●○

Com o convidado de honra de volta em segurança, o banquete da tarde foi encerrado rapidamente. Os diversos oficiais fizeram questão de demonstrar o quanto estavam aliviados, numa bajulação transparente. Ninguém diria que, poucas horas antes, faziam piadas obscenas e cochichavam, rindo, sobre se divertir um pouco com uma dama da corte.

Gaoshun se preocupava com o cansaço evidente de Jinshi, mas sabia que não estava em posição de fazer nada a respeito naquele momento. Não havia motivo para que “Gaoshun”, o assistente do eunuco “Jinshi”, desse qualquer atenção especial ao convidado de honra. Afinal, Gaoshun estava ali apenas representando seu mestre. Seria suspeito se demonstrasse interesse demais. Restava-lhe confiar que seu filho, Basen, ajudaria em seu lugar, mas será que Basen realmente podia ser confiável?

Quando Lo-en foi oficialmente inocentado, não fez questão alguma de esconder o quanto estava indignado com toda a situação, mas sua personalidade era simples. No momento, estava perfeitamente satisfeito com um banquete para “limpar o paladar”, por assim dizer. Publicamente, a versão era de que o convidado de honra havia deixado o banquete por capricho e depois retornado sem maiores complicações, mas, muito provavelmente, todos entendiam que aquilo era uma farsa. Um grupo de oficiais havia desaparecido nesse intervalo e, ao que tudo indicava, não seria visto novamente por um bom tempo.

Era preciso arrancar deles algum tipo de informação sobre essas novas feifas. Quanto a como essa informação seria obtida, Gaoshun preferia não saber. De qualquer forma, ele tinha trabalho a fazer. O banquete daquela noite acontecia em um barco no meio do lago. O suprimento aparentemente inesgotável de vinho e a multidão de mulheres belíssimas pareciam inspirados no velho ditado sobre “um lago de vinho e uma floresta de carne”.

Argh, pensou Gaoshun. Ele era um eunuco, pelo menos oficialmente. Não iria se deixar ser seduzido por mulher alguma; e, se ousasse fazê-lo, as consequências seriam terríveis. Bastava pensar em sua esposa, a mãe de seu filho Basen, para reprimir até o menor impulso de tocar nelas.

Falando em seu filho, o rapaz estava largado no convés do barco, era difícil dizer se estava enjoado devido ao balanço do barco, à quantidade de vinho ou ao perfume intenso das mulheres. Gaoshun suspirou: o rapaz ainda tinha um longo caminho a percorrer.

— Isso deve ser terrivelmente entediante para um eunuco — disse outro convidado que se aproximou de Gaoshun. Era óbvio que ele havia notado que o único passatempo dele era provar o vinho. As mulheres que bajulavam os convidados no barco eram mais novas do que o seu próprio filho. — É simplesmente horrível. Algo assim acontecer, e logo depois de você ter incorrido na ira da Imperatriz Reinante!

O vinho parecia ter deixado o homem tagarela e ousado. Seu comentário trazia um tom velado de deboche.

Era verdade, porém: Gaoshun já possuiu o nome do clã Ma, o Cavalo, mas enfureceu a Imperatriz Regente. E então recebeu uma das punições mais severas possíveis, a castração, seguida de serviço no palácio, e foi obrigado a abandonar seu antigo nome, passando a ser chamado de “Gaoshun”.

Naquele banquete, no entanto, ele não era tratado como um eunuco, mas como um membro da casa Ma. Essa era a posição que Gaoshun deveria ocupar naquele momento.

— Tudo isso ficou no passado — disse Gaoshun. — Além do mais, há uma lua tão bela esta noite para me fazer companhia enquanto bebo. — Foi tudo o que disse, antes de erguer os olhos para o céu. A meia-lua era de fato linda. Talvez ele até tivesse apreciado o momento, não fossem os homens tagarelas e presunçosos e as mulheres excessivamente insinuantes.

— Ainda assim, confesso que fiquei um pouco decepcionado por nosso lindo eunuco não ter conseguido comparecer — comentou o outro homem. Ele se referia, claro, a Jinshi e certamente não ao cavalheiro que se recuperava em seus aposentos naquele momento.

— Oficialmente, ele está resfriado. Desta vez, quem está aqui é o cavalheiro mascarado.

— Hah! Sim, imagino que um rosto tão bonito possa causar problemas por si só, se ele estivesse presente.

Dizia-se que esse cavalheiro, que jamais remove a máscara, sofreu queimaduras graves no rosto quando criança e raramente aparecia em público desde então. E nunca tirava a máscara diante de outras pessoas, não importava o calor que fizesse.

— Seja como for, vejo que ele não está aqui esta noite. Deve estar cansado.

— Parece que sim— respondeu Gaoshun, de modo neutro, cuidando para não deixar transparecer suas emoções.

O banquete noturno seguiria sem seu convidado de honra. Gaoshun despejou seu vinho na água (ploc, ploc, ploc), observando as ondas baterem na lateral do barco. Desejou que o banquete terminasse logo. O convidado de honra não era o único que parecia um pouco estranho. Outro membro do grupo de Gaoshun também parecia fora de lugar: a jovem que viera como sua assistente.

Seria compreensível que uma jovem comum, envolvida em uma tentativa de assassinato contra uma figura importante, se sentisse intimidada. Mas aquela jovem era feita de material mais resistente do que isso. De qualquer forma, ela vinha agindo de maneira um pouco estranha, mas não exatamente como alguém com medo de perder a vida. Ela sempre foi cortês com o convidado de honra (embora não em excesso), mas agora parecia mais distante em relação a ele.

Será que ele conseguiu contar a ela, então?

Ela era uma jovem inteligente, não seria surpreendente que adotasse essa postura, considerando o que aquilo significava para o próprio futuro dela. Na verdade, a mudança era tão sutil que alguém que não a conhecesse há algum tempo talvez nem percebesse. Nota satisfatória para ela.

Era necessário que ela soubesse, levando em conta o que poderia acontecer ao convidado de honra no futuro. Gaoshun sentia-se mal pela jovem, mas aquilo também deveria ter mostrado o quanto eles a consideravam útil. Quanto mais cartas se tem na mão quando a situação azeda, melhor. Que digam o que quiserem sobre como, às vezes, essas cartas são obtidas com crueldade. Ele conseguia conviver com isso.

— O próprio Imperador deve se preocupar, sendo ele quem é. E agora tudo isso que aconteceu aqui… — O oficial passou os dedos pela barba e suspirou. Havia um entendimento tácito sobre quem tinha feito o quê. Não era um assunto sábio de se trazer à tona, mas talvez fosse o vinho falando. — Com ele como próximo na linha de sucessão…

O homem mal soava reverente ao falar. Mas quem poderia culpá-lo? O irmão mais novo do Imperador quase nunca saía de seus aposentos, e sempre que aparecia em público usava uma máscara. Ninguém o considerava apto a conduzir a política.

E era o irmão mais novo do Imperador o convidado de honra daquela caçada.

Muitos dos oficiais reunidos ali provavelmente haviam comparecido em parte por interesse mórbido, atraídos pela chance de ver o príncipe que tão raramente era visto. É claro que eles não tinham visto nem jamais veriam seu rosto. Sem dúvida, agora se arrependiam dessa curiosidade, diante da tentativa de assassinato. O fato de o banquete seguir animado, apesar da ausência dele, mostrava o quanto todos estavam desesperados para afastar o clima de desalento.

Suspeitava-se que houvesse o desejo de avaliar exatamente que tipo de pessoa era o sucessor real. E agora, esse oficial concluiu que a resposta era: incompetente. Diante de uma farsa tão evidente, as reações costumam ser duas: ou se aceitava a incompetência como única explicação, ou se optava por observar mais. Tendo escolhido a primeira, o oficial encontrou um pretexto para falar com o eunuco Gaoshun.

— Nenhuma das concubinas engravidou desde a morte do Herdeiro Imperial, no ano passado? — perguntou ele. Gaoshun percebeu que era isso que realmente lhe interessava. Quem havia engravidado, qual concubina era, e se desse à luz um menino ou uma menina poderia ter um impacto devastador na política do palácio.

Gaoshun balançou a cabeça lentamente.

— Não, infelizmente. Mas há muitas concubinas, e tenho certeza de que, cedo ou tarde, alguma ficará grávida.

— Entendo, entendo. Se isso acontecer… — O oficial lançou um olhar para o pavilhão no centro do barco. Ali podia-se ver um oficial da corte corpulento: o anfitrião das festividades, Shishou. Era difícil dizer se ele apreciava os convidados ou apenas contemplava todos ao redor.

Nenhum parente das outras concubinas de alto escalão estava presente. O que fazia sentido, sendo aquela a caçada de Shishou.

O outro oficial deixou Gaoshun sozinho, sua bajulação concluída por aquela noite. Gaoshun soltou um longo suspiro e serviu-se de mais vinho. Mesmo ao beber um gole, apreciando a companhia da bela lua, perguntou-se o que o convidado de honra, Jinshi, ou melhor, Ka Zuigetsu, estaria fazendo naquele momento.

Ka Zuigetsu.

O número de pessoas neste país que podiam ostentar o caractere ka, flor, em seu nome era limitado. Naquele momento, na verdade, havia apenas duas.

Um era o homem que se encontrava no ápice absoluto do poder daquela nação. O outro era o seu irmão mais novo.


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