Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 3

Capítulo 19: A Caçada (Parte 3)

Vamos voltar um pouco, aos momentos imediatamente após Jinshi e Maomao saltarem na cachoeira.

Ela sentiu uma pressão firme, primeiro contra a boca, depois contra o peito.

— Hrk — gemeu Maomao, antes de tossir e cuspir água. Ela se sentou, permitindo-se vomitar tudo o que conseguisse, junto com o que restava no estômago. Sentiu alguém esfregar suavemente suas costas encharcadas.

— Me desculpe. Eu não sabia que você não sabia nadar.

— Ninguém… conseguiria… nadar… naquilo — Maomao conseguiu responder, apesar do rosto e dos lábios sem cor. Sem qualquer aviso, Jinshi a agarrou nos braços e se jogou com ela do penhasco. Ele tinha tomado impulso e chutado o chão com força; em algum ponto no meio da queda, Maomao achou ter ouvido outro disparo da feifa.

O penhasco rochoso tinha quase cinquenta metros de altura. Em quaisquer outras circunstâncias, ela só poderia ter presumido que Jinshi havia perdido o juízo.

— A bacia aqui é funda — disse ele agora. — Desde que você consiga cair nela, deve sobreviver, assumindo que não se afogue.

— Grande suposição — retrucou Maomao. Quando ele viu o quão furiosa ela estava, Jinshi percebeu que não conseguia encará-la direito. 

Maomao se levantou e afrouxou a faixa da cintura. A túnica estava completamente encharcada e muito pesada.

— O-o que você está fazendo?!

— Desculpe não ser bonita o bastante para você, mas desse jeito vou acabar pegando um resfriado. E você também. Tire a roupa, Mestre Jinshi. Eu vou torcer tudo.

E Maomao começou a fazer exatamente isso. Sua túnica ainda estava pesada. Decidindo que não se importava tanto assim, ela puxou a saia e até a roupa de baixo. Houve um baque quando vários embrulhos de ervas medicinais caíram no chão. Estavam encharcadas, arruinadas, pensou ela, suspirando. Resolveu, ao menos, não tirar as roupas simples que cobriam a frente do corpo e os quadris. Talvez não houvesse muito o que esconder, mas queria esconder o pouco que havia.

Ela pegou a túnica de Jinshi, jogou-a no chão com um baque próprio e começou a espremer a água.

— Você pode se preocupar com a minha depois — disse ele. — Cuide da sua primeiro.

O tom soava estranhamente irritado. Sabendo que não podia deixá-lo daquele jeito, ela continuou torcendo a túnica dele. Jinshi praticamente arrancou a peça de suas mãos e começou a espremê-la ele mesmo. Maomao achou melhor assim; ele era mais forte e faria isso com mais eficiência. Ela voltou a cuidar das próprias roupas.

Vestiu novamente a saia e a roupa de baixo, ainda bem úmidas, e só então olhou ao redor. Eles estavam em uma caverna pouco iluminada.

— Onde estamos?

— Atrás da cachoeira. Não são muitas as pessoas que conhecem este lugar.

— Mas você conhece.

— Um oficial que costumava brincar comigo aqui, muito tempo atrás, me contou sobre isso. Ao que parece, entrar aqui às vezes é usado como uma espécie de teste de coragem.

— Entendo… — Maomao remexia as ervas encharcadas, tentando decidir se algo ainda podia ser aproveitado, quando encontrou pequenos embrulhos envolvidos em casca de broto de bambu. Ela os estendeu para Jinshi. Ele desamarrou a grama que mantinha os pacotes fechados e revelou fuki cozido. Estavam embalados em camadas, e os do centro estavam relativamente intactos.

— Sinto muito por ser uma refeição tão pobre, mas preciso pedir que coma isso — disse Maomao. A planta havia sido temperada para dar algum sabor, e um pouco de água provavelmente não prejudicaria tanto o gosto, mas ainda assim não era algo que normalmente se colocaria à mesa de um nobre.

— O que é isso? Algum tipo de remédio?

— Não, senhor. Parece que lhe falta sal.

O fuki não tinha sido preparado como medicamento; Maomao o levou como um lanche para beliscar no tempo livre. O tempero tinha aparecido no café da manhã daquele dia, e ela havia gostado, então pediu a uma criada que separasse um pouco para ela.

— Sal? — perguntou Jinshi, olhando para Maomao. Seu humor parecia ter melhorado, mas ela não conseguia esquecer como ele andava cambaleando antes. Durante o salto, ela deixou cair a garrafa que trouxe para lhe dar, cheia de uma mistura de água, pasta de soja e açúcar.

— Quando você usa um disfarce desses num dia tão quente como hoje, é óbvio que vai acabar sentindo calor excessivo. Aposto que estava se sentindo letárgico e com dor de cabeça.

Estava claro por que Jinshi não estava se sentindo bem. Ele passou o dia com o rosto coberto, não apenas sem se alimentar direito, mas quase sem beber água. Mesmo a falta de água sozinha, algo tão simples, podia levar à morte em alguns casos. Mergulhar na bacia ajudou a aliviar o calor, mas ela queria que ele ingerisse sal para garantir. Daí o fuki.

— Então era isso que você estava pensando. — Jinshi pegou um pedaço da planta e colocou na boca. Logo em seguida, pegou outro, o sabor salgado devia estar melhor do que ele esperava.

Naquele momento, um som bastante constrangedor ecoou pela caverna: vinha do estômago de Maomao. Não era culpa dela, Maomao não comia muito, mas justamente por isso sentia fome mais cedo. E os servos só comiam depois que os convidados terminavam a refeição.

Jinshi levou a mão à boca e estendeu um pouco do fuki para Maomao. De repente, ela sentiu vontade de encará-lo feio, mostrar os dentes e fazer uma careta. Ela conseguiu conter o impulso, é claro.

— Obrigada — disse ela, embora tenha deixado escapar um leve bico enquanto falava. Então pegou um pedaço de fuki para si e colocou na boca. Derrotado, Jinshi comeu sua parte também. Quando restou apenas a embalagem, Jinshi lambeu o sal que sobrara nos dedos. Maomao achou aquilo infantil, mas mesmo assim tratou de limpar o envoltório de bambu.

— O que diabos foi aquilo antes? — perguntou ela, profundamente inquieta.

— Aquilo era uma feifa: uma arma de fogo portátil. Os disparos vieram com pouca diferença de tempo, então é bem provável que tenhamos sido atacados por mais de um agressor.

A feifa foi projetada para combate, mas usá-la exigia carregar pólvora e munição, além de atear fogo ao mecanismo. Isso provavelmente explicava a escolha de Jinshi de saltar do penhasco em vez de tentar se esconder na floresta. No meio das árvores, ele teria corrido direto para as mãos dos inimigos, ainda pior quando não se sabia quantos eram.

O que ele fez para ser tão odiado assim?

Maomao quis repreendê-lo por tê-la arrastado para aquilo, mas, sendo honesta consigo mesma, mal podia reclamar: tinha sido ela quem o seguiu até um lugar onde se tornaram alvos fáceis. No instante em que entraram na mata, haviam se tornado vulneráveis, mas sair do alcance visual da residência da montanha foi o golpe final.

Apesar das apreensões, Maomao observou melhor o local. O rugido da cachoeira preenchia a caverna, que era úmida e coberta de musgo. Ela conseguia ver esqueletos de pequenos animais aqui e ali, sugerindo que haviam entrado, mas não conseguido sair. A caverna ficava mais escura à frente, mas ela sentia uma corrente de ar.

— Então você sabia dessa caverna. Sabe se existe uma saída? — perguntou.

— Normalmente, basta nadar para fora, passando pela cachoeira.

— Isso pode ser complicado para mim.

Maomao não era uma boa nadadora. Bastava lembrar que ela quase se afogou há pouco.

— Há uma abertura no teto, mais à frente — respondeu Jinshi. — Ela se conecta a uma caverna mais próxima da residência. — Parece que aqueles que entravam ali como teste de coragem muitas vezes eram retirados por esse caminho.

— O Mestre Gaoshun sabe desse lugar?

Jinshi não conseguiu encará-la. — Ele odiava que eu brincasse com esse tipo de coisa. — Então eles faziam isso às escondidas. O clima entre Maomao e Jinshi pareceu ficar mais tenso de repente. — Basen sabe, mas não tenho certeza se ele vai ligar os pontos imediatamente. — Diferente de Gaoshun, Basen nem sempre era rápido para perceber as coisas. Se ao menos houvesse algum jeito de avisá-lo de onde estamos…

Quem quer que tenha atirado em Jinshi provavelmente estava vasculhando a área ao redor da cachoeira naquele momento. E, no estado físico atual de Jinshi, não havia garantias de que ele conseguiria nadar para fora com segurança.

Maomao se voltou para o interior da caverna. O vento assobiava pela abertura no teto. Ocorreu-lhe que talvez pudessem gritar por ajuda, mas Jinshi balançou a cabeça.

— Teriam de estar muito perto para nos ouvir. Teríamos sorte se alguém notasse mesmo que gritássemos o dia inteiro.

Maomao inclinou a cabeça quando uma lembrança lhe veio à mente. Colocou o polegar e o indicador na boca e tentou assobiar. Mas fazia muito tempo que não fazia aquilo, e quase nenhum som saiu. Devia saber que não seria tão fácil.

Admitindo a derrota, aproximou-se e olhou para a abertura no teto. Não ficava tão alta assim, talvez uns 270 centímetros. Jinshi devia ter pelo menos 1,80, mas provavelmente não conseguiria saltar até lá.

Jinshi a observava, parecendo saber exatamente o que ela pensava. Não disse nada, mas ela supôs que ele tentava calcular o quanto ela pesava.

Maomao se antecipou: — Eu não posso.

Ele provavelmente imaginara colocá-la sobre os ombros e concluiu que assim ela poderia alcançar a abertura. Mas, sendo quem era, Maomao simplesmente não podia aceitar esse plano. Se Suiren algum dia descobrisse que Maomao colocou os pés em Jinshi, independentemente da situação, ela nem queria imaginar o que lhe aconteceria.

— Qual é a alternativa? Você embaixo? Eu te esmagaria.

— Mas…

— Eu faço isso.

Quando ele argumentou dessa forma, ela não teve muita escolha. Maomao foi até onde Jinshi estava agachado, fazendo questão de parecer contrariada. Ele se preparou para que ela subisse em seus ombros, e, sem outra opção, ela o fez. Segurou a cabeça úmida dele o mais levemente possível enquanto ele se levantava.

— Você poderia ganhar um pouco de peso, sabia?

— Certamente não é hora para isso, senhor.

Ela não conseguia ver a abertura na penumbra, mas conseguiu encontrá-la pelo tato. Estava úmida e escorregadia em alguns pontos. De alguma forma, agarrou-se com a ponta dos dedos e puxou o corpo para cima até apoiar os pés nos ombros de Jinshi.

— Parece promissor — disse ele.

— É… — respondeu Maomao. Mas, no instante em que se preparava para se erguer, uma criatura de olhos úmidos caiu bem em cima da sua cabeça.

— Croac! — coaxou, antes de pular para longe.

Um sapo, pensou Maomao. Não era o bastante para assustá-la, mas foi suficiente para quebrar sua concentração. Seus dedos, que mal a sustentavam, escorregaram. 

— Ah…— Maomao perdeu o equilíbrio, ainda a meio caminho de firmar os pés. O movimento desequilibrou Jinshi abaixo dela.

— Ei—cuidado! — exclamou ele, cambaleando. Ele poderia simplesmente tê-la soltado, mas teve a decência de tentar segurá-la. Infelizmente, o resultado foi que ele escorregou no musgo úmido e caiu com força.

Ele não disse nada de imediato. Maomao, por sua vez, não sentiu dor, mas percebeu uma pele úmida pressionada contra sua bochecha. Estava visivelmente quente, e ela sentia um pulso ali.

Ela também não conseguia se mover. Dois braços grandes a envolviam, mantendo-a bem próxima. Vestígios de um perfume suave alcançaram seu nariz.

O coração de Maomao acelerou. Ela temeu que, com os corpos tão próximos, Jinshi pudesse ouvir, mas não conseguia se afastar, embora quisesse. Com o sangue pulsando nas veias, Maomao se viu concentrada em uma única coisa.

O que é isso?

A mão esquerda de Maomao estava presa entre eles, e algo macio pressionava sua palma. A princípio, pensou que fosse o sapo, esmagado pela queda, mas o tamanho não correspondia em nada ao do anfíbio que saltou sobre sua cabeça. Além disso, fosse o que fosse, parecia estar coberto por tecido. O sapo teria pulado para dentro da túnica de Jinshi? Sem pensar muito no que fazia, Maomao começou a apalpar com os dedos, tentando entender do que se tratava.

[Noelle: Como às vezes ela é tão devagar kkkkkkkkkkkkk]

[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. O tão esperado momento!]

— Argh?! — Jinshi soltou um grunhido. Seu coração disparou. Maomao ergueu o rosto e se viu encarando o queixo dele, conseguia vê-lo mordendo o lábio com força. Ele parecia lutar contra algo, resistindo.

O “sapo” dentro da túnica se mexeu, como se estivesse vivo.

— Eu… eu sinto muito, mas… você poderia tirar a mão? Isso está… t-tornando as coisas bem difíceis… — Jinshi parecia mal conseguir articular as palavras e se recusava a olhar para ela. Maomao percebeu até que, por algum motivo, suor frio escorria pelo rosto dele. Sua testa estava profundamente franzida, quase como se sentisse uma dor intensa.

— Difíceis? — Por reflexo, Maomao apertou a mão, e a expressão de Jinshi se intensificou de forma dramática. Só então ocorreu a Maomao olhar para onde sua mão realmente estava. Ela repousava em algum lugar abaixo do umbigo de Jinshi.

Ela não disse nada. Havia algo ali, algo que jamais deveria estar ali. Algo que seria absurdamente constrangedor de segurar, e que ela não deveria sequer ser capaz de segurar, porque não deveria existir ali, categoricamente não poderia estar ali. Jinshi era um eunuco, um oficial do Palácio Interno.

Mas… bem… o que estava ali… estava ali.

Hã?!

Lentamente, Maomao afastou a mão e estava prestes a tentar se desvencilhar do abraço agora frouxo de Jinshi, mas ele pressionou a mão contra a parte inferior das costas dela, mantendo-a onde estava, montada sobre ele.

Jinshi afastou a franja do rosto e soltou um suspiro, então olhou para Maomao.

— Suponho que, de certa forma, isso me poupa algum trabalho.

Seu rosto era o de uma ninfa celestial tomada por melancolia. Mas ele não era uma ninfa. Tinha uma beleza capaz de fazer um país inteiro se ajoelhar com um único sorriso, e, ainda assim, não era uma mulher.

E tampouco, ao que tudo indicava, era um eunuco privado do principal símbolo da masculinidade.

A túnica de Jinshi se abriu quando Maomao caiu sobre ele, mas o corpo revelado não era macio nem indulgente; era feito de músculos firmes, moldados por disciplina e treinamento. Seu rosto podia ser o de uma ninfa, mas seu corpo era o de um guerreiro.

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Agora parecia inexplicável para Maomao que nunca lhe tivesse ocorrido antes que ele talvez não fosse um eunuco. Talvez tivesse evitado inconscientemente considerar essa possibilidade.

— Há algo que eu quero lhe contar — disse Jinshi. — É um dos motivos pelos quais pedi que você viesse comigo nesta viagem.

Maomao sentiu vontade de tapar os ouvidos. Entendeu no mesmo instante que não devia ouvir mais nada. Mas tapar os ouvidos só deixaria óbvio o que ela estava pensando.

Havia um homem no palácio interno que não era um eunuco. O que aconteceria se esse fato viesse à tona? E se esse homem tivesse tocado em alguma das concubinas; se uma semente que não fosse a do Imperador tivesse sido plantada em seu jardim?

Maomao lançou um olhar severo para Jinshi. Pare, por favor! Não me arraste para isso...

Jinshi já havia recorrido a Maomao muitas vezes antes e, ora mais, ora menos, e aquilo sempre lhe causava dor de cabeça. Ainda assim, nunca pareceu valer a pena ficar realmente zangada. Mas agora era diferente. A partir do momento em que soubesse disso, teria de levar o segredo para o túmulo.

E eu não estou pronta para seguir você até o meu túmulo!

Então, em vez disso, Maomao disse: — Sinto muito, senhor. Acho que acabei esmagando um sapo. — Ela manteve o rosto completamente inexpressivo.

— …Um sapo. — Jinshi fez uma careta. Ótimo. Que fizesse careta. Maomao venceria aquela situação à força de pura determinação.

— Sim, senhor, um sapo. Peço desculpas novamente, ele caiu em cima de mim e eu perdi o equilíbrio. O senhor não se machucou, não é?

Aquela coisa mole tinha sido um sapo, repetia para si mesma. Apenas um sapo.

— Aquilo não foi um sa…

— Sinto muitíssimo, eu sei que o senhor acabou amortecendo a queda por mim. Vamos sair daqui logo. — Ela tentou se levantar, mas Jinshi não a soltou. — Mestre Jinshi, poderia tirar as mãos?

— Quem você está chamando de sapo? — Jinshi se sentou, ainda segurando Maomao, de modo que acabaram ficando frente a frente, com ela quase sentada em seus joelhos. Com as pernas dele abertas e ela praticamente por cima, a situação dificilmente poderia parecer mais comprometedora. Quando Jinshi se inclinou lentamente em sua direção, Maomao quase recuou, mas não iria perder agora. Ela o encarou, com os narizes separados por poucos centímetros.

— Se não era um sapo, então o que era? — perguntou.

Era só um sapo, era só um sapo, ela repetia como um mantra. A coisa molenga sob sua mão esquerda tinha sido um sapo. Um sapo, nada mais. Sapos eram nojentos, ela limpou a mão na saia.

— Um sapo não seria menor? — Jinshi perguntou, aproximando o rosto mais um centímetro.

— Não, senhor, há alguns anfíbios de tamanho razoável nesta época do ano...

— R-rázoavel…

Jinshi estremeceu outra vez, parecendo chocado, e Maomao aproveitou o momento para diminuir ainda mais a distância, até que seus narizes praticamente se tocassem.

— Sim, razoável. E se não fosse um sapo de tamanho razoável, que outra coisa de tamanho razoável poderia ser?

Tamanho razoável não chegava nem perto, mas por enquanto serviria. Sim, tamanho razoável bastava.

[Noelle: Ela entregando pra gente que o trem é grande kkkk]

— Ei, você está limpando a mão?

Por que Jinshi parecia tão escandalizado?

— Porque sapos são nojentos, senhor.

— Nojentos?! Isso vindo de alguém que bebe vinho de cobra?!

— Mas sapos são viscosos.

— Quem é viscoso?!

Eles se encararam por longos segundos, quase um minuto inteiro.

Jinshi piscou primeiro, por assim dizer, desviando o olhar de Maomao, ainda com os lábios apertados.

E… eu ganhei? Maomao se perguntou, com um suspiro de alívio.

Nunca foi bom saber demais. E para Maomao, cujo nascimento a tornou apta a pouco mais que trabalho pesado, era melhor não saber absolutamente nada. Assim, acontecesse o que acontecesse, fosse o que fosse que seus superiores decidissem fazer, Maomao poderia dizer com sinceridade que não sabia de nada. Essa sempre foi a sua posição, e ela não tinha a menor intenção de mudá-la agora. Jinshi e Maomao eram um oficial e sua serva; nada mais, nada menos, e ela não precisava conhecer segredo algum para cumprir seus deveres.

Por fim, o aperto de Jinshi relaxou, e Maomao escorregou para fora, tentando se levantar, apenas para ser empurrada de volta ao chão. Ela não esperava por isso, e caiu de costas. Quando olhou, Jinshi estava ali. Ele se moveu, rastejando por cima dela. Uma luz tênue, como a chama de uma vela, dançava em seus olhos. — Muito bem. — Ele colocou lentamente as mãos atrás dos joelhos dela e os ergueu, deixando-os numa posição ainda mais comprometedora do que antes. 

— Quer descobrir por conta própria? — Jinshi estava com uma expressão severa.

Maomao ficou toda arrepiada e começou a suar profusamente. Percebeu, tarde demais, que tinha provocado Jinshi além do limite.

Por sua vez, Jinshi pareceu perdido por um instante. Segundos se passaram, depois um minuto inteiro, e nenhum dos dois se mexeu. Por fim, Jinshi pareceu tomar uma decisão. Mordeu o lábio e se inclinou para a frente, o rosto se aproximando lentamente do dela.

Será que eu devia chutar ele com força? Maomao pensou, com a mente em turbilhão, mas então Jinshi parou e ergueu o olhar, irritado. — O que é isso?

Maomao achou ter ouvido um barulho vindo da saída. Algo como o uivo de um animal ecoava acima deles.

Lentamente, com hesitação, Maomao levou os dedos à boca e assobiou. Foi respondida pelo latido de um cachorro. Assobiou outra vez e, então, uma bola de pelos despencou pelo buraco acima deles, caindo em cheio nas costas de Jinshi. Enquanto ele esfregava a cintura, Maomao se desvencilhou de baixo dele. A bola de pelos era o cão de caça com quem Lihaku estava brincando. Maomao o abraçou com força e fez um carinho caprichado.

— Ei, o que você está fazendo? Não saia correndo assim! — veio a voz do outro cachorro grande. Ele não parecia tão preocupado, na verdade.

Ainda esfregando as costas, Jinshi olhou para o teto. Maomao, sentindo que escapou por um fio, gritou o nome de Lihaku o mais alto que pôde.

— Como, em nome dos céus, vocês foram parar aí embaixo? — perguntou Lihaku, visivelmente confuso. Ele havia buscado uma corda e puxou Maomao e Jinshi para fora da caverna. Como Jinshi havia dito, o buraco no teto dava perto da residência.

— E o que você estava fazendo com… alguém tão importante? — acrescentou, num sussurro para Maomao. “Alguém tão importante” parecia se referir a Jinshi, que agora usava seu disfarce. Provavelmente seria seguro para Lihaku vê-lo, mas talvez não se pudesse ser cauteloso demais.

— Digamos que é complicado de explicar — disse ela.

Lihaku inclinou a cabeça, mas, com alguém do status de Jinshi envolvido, sabia que o melhor era não fazer muitas perguntas. Disseram-lhe apenas que haviam caído na bacia da cachoeira e acabado na caverna.

— Peço que não conte a ninguém que estou aqui — disse Jinshi. Ele estava sentado no chão da caverna superior. Sua voz soava diferente da habitual; talvez fosse apenas difícil falar usando a máscara.

— Como desejar, senhor — respondeu Lihaku, inclinando a cabeça respeitosamente.

Talvez Jinshi quisesse ver o que os outros fariam se não percebessem que ele foi encontrado. Mesmo assim, Maomao se surpreendeu ao perceber que ele não pretendia avisar nem Basen, nem mesmo Gaoshun.

O cachorro estava deitado no colo de Lihaku, abanando o rabo; ele fazia carinho em sua cabeça e lhe dava pedaços de carne seca. Maomao lançou um olhar ao animal. Ele havia conseguido seguir seu assobio, então claramente tinha uma audição muito boa.

— Ele sabe fazer mais algum truque? — perguntou.

— Truque? Acho que ele consegue encontrar tocas de coelho. Só isso.

Era como se ela e Lihaku estivessem tendo uma conversa perfeitamente normal. O cachorro se aproximou e cheirou Maomao. Havia inteligência por trás daquele jeito bobalhão.

Maomao lançou um olhar furtivo para Jinshi. Depois do que acabou de acontecer, mal conseguia encará-lo. Mas o que precisava ser dito, precisava ser dito.

— Mestre J… Kousen — começou ela, lembrando-se a tempo de usar o nome falso. Como ele estava usando a máscara, provavelmente queria ser chamado por seu pseudônimo.

— Sim? O que foi? — A voz que saiu de trás da máscara era fria.

Ele devia estar zangado com Maomao por tê-lo provocado tanto antes. Por que mais estaria agindo assim? E seria injusto da parte de Maomao alegar que nunca viu aquilo chegando? Não era exatamente como se ele tivesse tentado enganá-la. Talvez até estivesse tentando se explicar. Mas Maomao, tomada por um desejo avassalador de não saber nada, inventou uma desculpa absurda. Dificilmente poderia culpá-lo por ficar irritado com aquela história em particular. Afinal, ele tinha tanta confiança na própria aparência. E um sapo tão belo, sem dúvida.

[Noelle: eita, olhas os pensamentos dela gente kkkk] [Kessel: ela não é inocente!]

Maomao não sabia o que fazer, mas, no mínimo, precisava começar dizendo isto: — Acho que consigo identificar quem atirou em nós mais cedo. — Ela fez um carinho na cabeça do cão de caça.

E assim voltamos ao presente.

Maomao abriu o embrulho sujo. Dentro havia três feifas, ainda impregnadas com o cheiro da pólvora. Ela nunca tinha visto uma feifa antes e se surpreendeu com o quão pequenas eram. Jinshi e Lihaku pareciam quase tão surpresos quanto ela. Supostamente, eram o modelo mais recente, importado do exterior, ainda incomum naquele país. Eles não usavam um pavio para acender a pólvora, como os modelos antigos, mas dependiam de uma construção sofisticada que utilizava uma peça de metal de formato especial para gerar uma faísca e inflamar o pó. Nem Jinshi nem Lihaku jamais tinham visto essas feifas de última geração; haviam apenas disparado uma vez, e seu entendimento sobre o funcionamento da arma não ia além disso.

Essas feifas mais novas tinham um odor peculiar, parecido com ovos podres, nada agradável. A pólvora costumava ser feita pela combinação de carvão, salitre e enxofre, de modo que, ao explodir, libera um cheiro muito característico, um aroma forte que fazia querer tapar o nariz. Se um artefato desses tivesse sido usado durante a caçada, qualquer cachorro, com seu olfato apurado, teria reagido imediatamente. E, de fato, quando apresentado ao cheiro, o cão de Lihaku os levou diretamente até aquelas feifas.

Caçadas não eram conduzidas com feifa naquela região. Primeiro, porque as armas não eram precisas o bastante, e também porque não se adequam ao ambiente montanhoso, cheio de obstáculos que podiam interferir no disparo. O motivo de terem sido usados na tentativa contra a vida de Jinshi provavelmente tinha muito a ver com o fato de serem o modelo mais recente. A forma única de gerar a faísca aumentava a precisão e o alcance, como demonstrou o teste de disparo. E, ainda assim, o homem que atirou em Jinshi errou o alvo.

Lihaku, competente como sempre, havia prendido os braços do homem atrás das costas e colocado uma mordaça em sua boca para impedir que mordesse a própria língua.

— Fico até um pouco mal por ter feito todo mundo suspeitar daqueles velhos — disse Lihaku. Toda armadilha precisava de uma isca. Por instrução de Jinshi, haviam escolhido um oficial cuja reação seria fácil de ler.

Os cúmplices do homem capturado, isto é, os oficiais acima dele e os capangas abaixo, já estavam sendo vigiados, prontos para serem presos a qualquer momento. Agora, bastava levar aquele homem embora e arrancar sua confissão.

O cão de caça corria em círculos ao redor de Lihaku.

— Isso mesmo, bom garoto — disse Lihaku, segurando o prisioneiro com uma mão e fazendo carinho no cachorro com a outra.

Eles já tinham uma boa ideia de quem era o culpado. Qualquer um que tivesse disparado com uma feifa estaria impregnado pelo cheiro, e mesmo que achasse ter se livrado do odor, não conseguiria enganar um cão farejador.

Maomao embrulhou as armas novamente e seguiu Lihaku enquanto ele empurrava o prisioneiro.


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