Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Kessel

Revisão: noelletokito


Volume 3

Capítulo 1: Livros

— O que você está fazendo? — perguntou o eunuco Jinshi, completamente perplexo, que estava tão belo como sempre. Seu assistente, Gaoshun, estava atrás dele.

— Acho que isso deveria ser óbvio — disse Maomao, enxugando o suor enquanto estava de pé perto de um fogão a lenha aceso. Ao lado dela estava o charlatão, abanando-se com a mão e visivelmente incomodado com o calor. Enquanto ele trabalhava diligentemente, Maomao precisava de um assistente, já que sua perna ainda estava se recuperando, ela não pôde deixar de pensar que seus movimentos eram tão desajeitados quanto ele. Talvez ela estivesse esperando demais.

Eles estavam usando o fogão a lenha do consultório médico para aquecer uma panela de ensopado muito incomum. Da tampa da panela saía um longo tubo que atravessava água fria, fazendo com que gotículas se formassem na ponta, onde eram coletadas em um pequeno recipiente. Esse dispositivo de destilação era uma das descobertas da recente faxina. Doía em Maomao saber que um objeto tão valioso havia permanecido sem uso em um depósito por tanto tempo. O ar estava impregnado com o aroma de flores; uma profusão de pétalas ocupava a panela.

— Estamos fazendo perfume — disse Maomao. Ela tinha uma fonte maravilhosa de pétalas nas rosas que cultivava para a festa no jardim pouco tempo antes.

— É certamente... aromático.

— O aroma é bem suave comparado ao das rosas silvestres. E vamos diluí-lo ainda mais com óleo e água.

Ao longo das gerações, os humanos moldaram as rosas a seu gosto, priorizando a beleza e a intensidade da cor em detrimento do perfume. Era simplesmente assim que o mundo funcionava; não se podia pedir tudo, senão não se conseguia nada.

Jinshi observou o destilador com interesse. Quando o médico, que estava diligentemente transportando lenha, percebeu a presença do outro homem, começou a sacudir a poeira e a sujeira das roupas com toda a timidez de uma adolescente. Alisando o bigode e a barba com os dedos, perguntou: — A que devemos a honra, senhor?

O rosto de Jinshi escureceu; Maomao não achava que o médico tivesse más intenções com a pergunta, mas Jinshi pareceu ressentido com a forma como ela foi feita. 

— Ninguém deixaria de notar um cheiro tão forte — respondeu ele, formando um leve bico com os lábios. Perto dali, Gaoshun franziu a testa.

Ele acha que Jinshi precisa de mais seriedade, supôs Maomao. O charlatão era tão alheio que isso não importava muito, mas ser importante significava nunca parecer menos do que distinto.

Maomao levantou-se da cadeira, pegou alguns petiscos de chá de uma prateleira (ela já sabia que o charlatão guardava seus doces mais valiosos na prateleira mais alta) e os colocou sobre a mesa. Jinshi sentou-se; Maomao pegou um bolo lunar deu uma mordida para garantir que não fosse perigoso e então o ofereceu a ele.

— Imagino que você esteja fazendo isso aqui porque seria mais difícil no Pavilhão de Jade — disse Jinshi.

— Sim, isso faz parte — Maomao limpou a gordura dos dedos e voltou para o fogão. Ela trocou o recipiente na ponta do tubo por outro. Depois de um instante, uma substância oleosa começou a preenchê-lo: óleo de perfume. — A outra parte é a seguinte: o óleo de perfume contém um ingrediente que pode potencialmente causar aborto. Contanto que a mulher não ingira uma dose concentrada da substância, ela deve ficar bem, mas mesmo assim... 

Ela olhou em volta, certificando-se de que o charlatão não estivesse muito perto. Ele era uma pessoa muito amigável, mas tinha a língua solta. Era cedo demais para contar a ele que a senhora do Pavilhão de Jade, a Concubina Gyokuyou, estava grávida.

— Em outras palavras, não há necessidade de regulamentar o óleo de perfume usado nos aposentos do palácio interno, é isso que você está dizendo?

— Sim, senhor, acho que não tem problema.

Criar regras para cada detalhe só tornaria a vida deles mais difícil. Além disso, a fiscalização seria complicada em um lugar tão grande. 

Jinshi olhou para a outra panela no fogão. Ela não tinha um aroma agradável como a panela cheia de pétalas de rosa; em vez disso, o cheiro do que quer que estivesse dentro dela o deixou tonto. 

— O que é isso? — perguntou ele.

— Isso é álcool — disse Maomao.

Através de repetidas destilações, foi possível atingir uma concentração de álcool muito alta. De fato, essa substância era forte o suficiente para deixar Jinshi embriagado apenas com uma fungada. Não era para beber, mas sim para esterilização. A estação quente estava chegando, quando o ar nocivo poderia se acumular e causar danos à saúde. Com uma princesinha no Pavilhão de Jade, eles queriam que tudo estivesse o mais limpo possível. Maomao estava até mesmo produzindo um pouco mais do que o necessário para deixar um estoque no consultório médico, onde seria muito útil.

— Dá para usar isso para limpar coisas? — perguntou Jinshi.

— Sim; ouvi dizer que é isso que fazem no Ocidente.

Essa era uma das pequenas informações que ela havia reunido ao ouvir sobre as experiências de seu pai adotivo estudando nas terras ocidentais. Se havia algo que a diferenciava, pensou Maomao, era o conhecimento que ela havia recebido dele.

— Se bem me lembro, o homem que te adotou foi…

Antes que Jinshi pudesse terminar, porém, ouviram um grande estrondo. Gaoshun espiou para fora para ver o que era. Dois eunucos haviam chegado ao consultório médico com uma caixa enorme e a colocaram bem em frente à porta.

— Do que se trata? — perguntou Gaoshun ao médico.

— Ah, a jovem pediu.

Maomao lançou um olhar fulminante para o charlatão, tentando fazê-lo calar a boca, mas era tarde demais. Jinshi já havia demonstrado interesse na encomenda e começado a desembalar. Ela torceu para que ele não a tocasse sem pedir permissão.

— Mestre Jinshi, o chá está pronto. Por favor, sente-se e aproveite — disse ela.

— O que é isso? — perguntou ele.

— Apenas algo da minha casa. Nada de interessante, garanto.

Infelizmente, Jinshi parecia muito intrigado. Não acredito nesse cara, pensou Maomao. Ela, sim, até ela... uma mulher! Queria que ele tivesse a decência de não olhar justamente num momento daqueles. Mas, em vez disso, baixou os olhos e disse:  Mas, em vez disso, ela baixou os olhos para o chão e disse: 

— E-Está cheio de roupas íntimas, senhor.

Jinshi prontamente retirou a mão, parecendo incomodado. É isso mesmo, deixe isso para lá, pensou Maomao sem levantar os olhos, mas a realidade raramente é tão complacente.

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— Quanta roupa íntima tem aí dentro que precisou de dois homens adultos para carregar? — perguntou Gaoshun. Só ele mesmo para reparar nos detalhes mais inconvenientes.

— Você tem razão! — exclamou Jinshi, e assim o conteúdo da encomenda de Maomao, que ela teria ficado igualmente feliz se ele não soubesse, foi revelado para todos verem.

— O perfeccionismo é o problema do palácio interno — disse Maomao, com as costas eretas e o rosto completamente sério.

As damas que compunham a comitiva dos residentes do palácio interno eram um grupo de virgens inocentes que esperavam um dia se tornarem companheiras de cama do Imperador. É verdade que nem todas eram assim, mas tais exceções eram minoria.

Suponhamos, para fins de argumentação, que o olhar imperial de Sua Majestade recaísse sobre uma das virgens. Ela não só teria a intimidação de estar com o próprio Imperador, como também embarcaria em experiências completamente desconhecidas com ele.

— Imagine a indignação da jovem que comete algum erro de principiante nestas circunstâncias. Eu diria que elas precisam aprender o básico com antecedência.

— E é por isso que você adquiriu tudo isso…?

Jinshi estava de pé, imponente, diante de Maomao, que estava sentado no chão em postura formal. A situação parecia estranhamente familiar.

A encomenda estava aberta, com uma grande quantidade de literatura visível dentro. Que tipo de literatura? Bem... você sabe. O tipo de literatura que Maomao já vinha adquirindo em certa quantidade para confortar um Imperador solitário quando este se encontrava definhando à noite. A Concubina Lihua também era uma ávida leitora desse tipo de material. Desta vez, Maomao decidiu comprar mais do que o habitual, na esperança de encontrar novas oportunidades de venda aqui e ali, mas o momento da chegada foi realmente péssimo.

Ela havia mandado entregar esse lote no consultório médico para finalmente escapar do olhar da exigente Hongniang, mas veja só o que conseguiu. Maomao não era de forma alguma gananciosa, mas se não conseguisse ganhar um mínimo de dinheiro, seu velho, lá no distrito do prazer, poderia não ter o que comer. Ele era tão inocente, o velho; ela tinha certeza de que a madame o importunava para que trabalhasse sem parar.

Jinshi estava visivelmente exasperado, mas também parecia perceber a verdade no que Maomao estava dizendo. Quando ela acrescentou que esse pedido partiu em parte de Sua Majestade, Jinshi pareceu profundamente dividido, mas reconheceu que ela estava certa.

Enquanto isso, Gaoshun folheava um dos livros com uma expressão estudiosa. A cena toda era tão surreal que Maomao acabou franzindo a testa, sem perceber.

— Isto é excepcionalmente bem feito — comentou Gaoshun.

Ele está admirando o trabalho artesanal? Maomao pensou. Ela vinha considerando a possibilidade de Gaoshun ser o tarado mais impassível do mundo, mas aparentemente não era isso que havia despertado o interesse dele.

— Eles usam papel de boa qualidade — disse ela.

Livros sobre esse assunto eram campeões de venda; frequentemente acompanhavam as moças quando iam se casar, e aqueles que liam tais textos por interesse pessoal estavam mais do que dispostos a gastar dinheiro com eles. Esses livros geralmente consistiam principalmente de ilustrações, então não era preciso ser alfabetizado para apreciá-los. E por mais caros que fossem, os lucros potenciais que poderiam gerar eram igualmente grandes.

— São impressas? — Jinshi também examinava as ilustrações, mas considerando o que elas representavam, o momento era claramente cômico. O charlatão lançava olhares furtivos e constrangidos de vez em quando.

— Não com blocos de madeira, mas com placas de metal, pelo que entendi.

— Isso é realmente algo impressionante.

Era uma técnica ocidental. Maomao não sabia muito sobre como os livros eram feitos, mas para Jinshi dizer algo elogiando eles, deviam ser bastante incomuns.

— Já que finalmente consegui materiais de alta qualidade, achei que seria melhor divulgá-los mais amplamente — disse Maomao.

— Isso é outra questão — respondeu Jinshi prontamente. Ele continuou folheando o livro, porém, anotando cuidadosamente o conteúdo. Maomao, sem ter certeza se queria que ele olhasse muito de perto, voltou a encará-lo sem perceber, com ceticismo. Talvez Gaoshun tenha percebido, pois cutucou Jinshi de leve.

— Se lhe interessou, senhor, por que não fica com um para si? — disse Maomao.

— N-Não! Não me pegou em nada! — disse Jinshi, quase jogando o livro no chão. Maomao o pegou e alisou as páginas para garantir que não amassassem.  

— Não, de fato — disse Jinshi, desta vez com mais confiança. — Mas talvez eu possa fazer vista grossa desta vez. — De repente, ele soou um tanto presunçoso, mas, afinal, ele era importante, então talvez isso fosse inevitável.

— Tem certeza, senhor? — perguntou Maomao, com um brilho começando a surgir em seus olhos.

— Sim, mas gostaria que me informasse qual loja vende essas coisas.

A expressão de Maomao mudou imediatamente para uma de divertimento mal disfarçado. Gaoshun cutucou Jinshi novamente.

— O quê? Eu só quero saber mais sobre essa impressão primorosa — disse ele, parecendo um pouco atrapalhado. Essa conversa estava ficando cada vez mais estranha.

— Certamente — disse Maomao, ainda com um ar divertido, mas anotando o nome da loja em um caderno.

— É verdade!

— Claro, senhor.

Ela não achava que Jinshi precisasse recorrer a ilustrações; alguém como ele certamente conseguia ver a realidade o quanto quisesse. Não era possível que o papel fosse, às vezes, preferível à realidade, era? Maomao, com os pensamentos ameaçando se descontrolar, ponderou as possibilidades enquanto arrancava a página do caderno e a entregava a ele. Ao fazer isso, não pôde deixar de notar a excelente qualidade do papel do caderno do médico, exatamente o que se esperava.

Brincadeiras à parte, Maomao suspeitava que Jinshi pudesse estar planejando iniciar um novo empreendimento comercial. O verdadeiro truque da política era descobrir como arrecadar impostos da população sem desagradá-la indevidamente. Uma maneira era aumentar a renda das pessoas, e o primeiro passo para isso era investir o dinheiro dos impostos.

Eu não sei exatamente como ele pretende fazer isso, pensou Maomao, mas o importante agora era recolher os livros espalhados. Jinshi estava atraindo seu público habitual, e embora pudesse ser interessante descobrir como eles olhariam para o belo eunuco se soubessem que tipo de leitura ele estava fazendo, Maomao não era uma pessoa tão terrível a ponto de entregá-lo.

Enquanto Maomao estava ocupado limpando, a mão de Gaoshun roçou a caixa onde a encomenda havia chegado.

— O que foi? — perguntou Maomao.

Gaoshun pareceu hesitante. — Eu estava pensando se algum deles precisaria de censura...

Ele estava falando, é claro, sobre o conteúdo dos materiais. Vários deles eram, digamos, bastante explícitos. Era a preferência pessoal de Sua Majestade. E que preferência!

— Disseram-me que o nosso leitor mais importante sentiu falta de algo no material anterior.

— De jeito nenhum — disse Gaoshun. E depois de ter convencido a madame a escolher a dedo as melhores peças, ela lhe entregou, a contragosto, o material mais sensacionalista.

Cerca de dez dias depois, Maomao estava perambulando pela área da lavanderia.

— Eu me pergunto o que será que está enterrado lá embaixo — disse Xiaolan inocentemente, encostando-se na parede com um cesto de roupa suja nos braços.

O tempo estava excelente hoje, então a lavanderia estava movimentada. Os eunucos lavavam as roupas tão rápido quanto a água chegava. Os uniformes das criadas eram lavados sendo pisoteados em uma mistura forte de soda cáustica, enquanto as roupas das concubinas eram lavadas à mão com sabão artesanal.

— Eu não sei — disse Maomao. Ela tirou um doce assado embrulhado na casca de um broto de bambu e entregou a Xiaolan, que o aceitou com um sorriso.

A pergunta sobre o que estava "enterrado lá embaixo", segundo a conclusão de Maomao, era uma frase de um romance. Romances eram a grande moda no palácio interno atualmente.

— O que devo procurar embaixo dessas flores encantadoras? — perguntou Xiaolan, com os olhos brilhando. Ela era uma garota do campo e não sabia ler; devia haver alguém lendo a história para ela. — Eu me pergunto o que poderia ser — disse ela com a boca cheia de comida. Suas bochechas estavam inchadas como as de um esquilo.

— Talvez bosta de cavalo? — Maomao arriscou, arrancando um resmungo de Xiaolan. A menina conseguiu não se engasgar, mas lançou um olhar furioso para Maomao, com os olhos marejados. Maomao trouxe um pouco de água da fonte e ajudou Xiaolan a beber, massageando suas costas.

— Você não deveria comer tão rápido.

— A culpa foi sua!

O que Maomao dissera não era mentira. Cultivar bons vegetais exigia mais do que apenas água. O solo pobre produziria frutos fracos; para isso que servia o fertilizante. Com flores bonitas era a mesma coisa: quanto mais bonitas, mais potente devia ser o fertilizante. Mas uma jovem apaixonada por uma história romântica provavelmente não queria que sua atenção fosse desviada para detalhes tão vulgares. Maomao resolveu ser mais cuidadosa no futuro.

Não demorou muito para que chegasse a vez delas de lavar roupa.

Os romances que tanto encantavam Xiaolan estavam circulando pelos aposentos do palácio interno, e o Pavilhão de Jade não era exceção. Quando Maomao voltou, aliás, encontrou três jovens conversando e rindo baixinho sobre um livro rústico.

— Oi, Maomao — disse Guiyuan, calma e gentil. As outras duas, Yinghua e Ailan, estavam absortas demais no livro para cumprimentá-la. Guiyuan tinha a página entre os dedos, e as mulheres puxavam sua manga, insistindo para que ela se apressasse e virasse a página. Maomao se inclinou para olhar a capa, que tinha a ilustração de uma árvore com uma profusão de flores e uma figura em pé embaixo dela. Ela supôs que era o mesmo livro sobre o qual Xiaolan havia falado.

— Você quer ler mais tarde, Maomao? — Guiyuan parecia ler rápido, mais rápido que as outras duas, e tinha tempo para uma pequena conversa.

— Não, obrigada. Por que todo mundo está tão empolgado com esse livro, afinal? — perguntou Maomao.

— Foi enviado por Sua Majestade. É ótimo, acredite ou não.

Sua Majestade: então a notícia partiu do próprio Imperador. O surpreendente era que ele soubesse disso; a alta sociedade tendia a menosprezar os romances, considerando-os pouco refinados. Acreditavam que a realidade era mais edificante que a ficção.

— Aparentemente, ele os deu a todas as concubinas e disse para que os compartilhassem quando terminassem de ler — disse Guiyuan, embora parecesse um pouco desapontada por a Concubina Gyokuyou não ter sido a única a receber esse presente especial.

— Ora, ora — disse Maomao, olhando mais atentamente para a capa. Ela percebeu que reconhecia a marca. Era o selo da livraria que ela havia indicado a Jinshi outro dia.

Ah, agora tudo faz sentido. Ela finalmente entendeu por que ele havia se interessado tanto por seus... quer dizer, seus materiais de referência. Quando Jinshi viu a qualidade do papel, percebeu que seria adequado para um presente do Imperador. Se os livros realmente tivessem sido dados a todas as concubinas, isso significava que pelo menos cem exemplares haviam sido impressos. Se conseguissem fazer cópias dos livros, poderiam produzir ainda mais. E se lançassem uma edição popular em papel um pouco mais barato, o lucro seria ainda maior. Maomao começou a achar que deveria ter pedido uma taxa de intermediação ao impressor.

Ela tinha certeza de que Jinshi devia ter plantado a ideia na cabeça do Imperador. Eu devia ter imaginado que ele estava tramando alguma coisa.

Romances de ficção, de fácil leitura, porém pouco sofisticados, estavam sendo distribuídos às concubinas. Normalmente, qualquer presente de Sua Majestade seria apreciado e valorizado, mas, ao presentear todas as suas damas com livros, cada um perderia valor. Além disso, o presente não passava de literatura de qualidade duvidosa. Provavelmente haveria algumas concubinas desobedientes escandalizadas só de pensar em tocar no livro.

Além de tudo isso, havia a ordem de compartilhar os livros com outras pessoas. Algumas das concubinas poderiam ter a ideia de pedir às suas damas de companhia que lessem o livro para elas, em vez de se darem ao trabalho de lê-lo elas mesmas.

Hum...

As peças começaram a se encaixar; Maomao começou a perceber o que Jinshi estava tramando. As damas de companhia que souberam da história a compartilharam com outras mulheres. Por isso, até Xiaolan conseguia citar o livro.

— Ah, já terminamos? — perguntou Yinghua, com a mesma expressão de desânimo de um cachorro que teve seu petisco negado. O livro estava fechado e Guiyuan e Ailan exibiam expressões semelhantes. — Mais! Quero ler mais! — exclamou Yinghua com todo o fervor de uma criança carente. As opções de entretenimento eram escassas no palácio interno, de modo que até mesmo um único romance era motivo de empolgação genuína.

— Segundo o Mestre Gaoshun, um novo livro está sendo impresso. Quando estiver pronto, ele disse que receberemos um exemplar — disse Guiyuan.

— Sim, eu sei, mas não posso esperar tanto tempo!

Guiyuan franziu a testa para Yinghua. Yinghua, por sua vez, estava com as bochechas estufadas como um baiacu.

Ailan, entretanto, tinha o livro nas mãos e o examinava atentamente.

— Está tudo bem? — perguntou Maomao.

— Sobre este livro… — começou Ailan.

Hongniang, a chefe das damas de companhia, cuidava da princesa Lingli enquanto as três jovens faziam sua pausa. Quando o intervalo terminava, elas trocavam de lugar, e Hongniang tinha a oportunidade de relaxar.

— Somos as únicas damas de companhia aqui, certo? E Lady Gyokuyou teve a gentileza de nos permitir ler isto. Não parece um desperdício se formos as únicas a poder desfrutar?

Maomao achava que entendia o que Ailan queria dizer. Quando você encontra algo interessante, quer compartilhar; é da natureza humana. Maomao, por exemplo, certa vez descobriu uma cobra muito rara que nunca tinha visto antes e saiu mostrando-a a todos que encontrava. (Eles não ficaram nada contentes.) Provavelmente foi esse mesmo impulso que motivou Ailan a querer que mais pessoas lessem o livro. As mulheres do Pavilhão de Jade tinham algumas conexões fora do ambiente de trabalho. Mas Yinghua pôs um fim a essa ideia.

— Espere — disse ela. — Acho que não devemos mostrar isso a nenhuma outra mulher do palácio. Temos que ter cuidado com isso.

— É verdade, elas podem surtar — acrescentou Guiyuan.

— É, acho que sim — disse Ailan, com um tom melancólico.

Hum. Maomao pegou o livro. O que ela estava prestes a sugerir normalmente não seria aceitável, mas considerando o que ela achava que Jinshi tinha em mente, decidiu que desta vez não haveria problema.

— E se você não lhes desse o livro de verdade — disse ela — mas fizesse uma cópia para elas?

Damas de posição inferior na hierarquia talvez não tivessem os meios para isso, mas Ailan era dama de companhia de uma concubina de alto escalão e deveria ser capaz de providenciar o papel, o pincel e outros utensílios necessários para copiar um texto. E se ela não quisesse dedicar tempo ou gastar dinheiro, bem, ela não precisava.

— O quê? — disse Ailan, completamente surpresa com a sugestão de Maomao.

— Imagino que reproduzir as ilustrações seria difícil, mas você tem uma caligrafia linda, então não acho que copiar o texto seria um problema para você.

Os produtores do livro certamente teriam ficado mais satisfeitos se as mulheres tivessem comprado outro exemplar, mas, como isso não foi possível, uma solução como essa era a única disponível. Embora talvez fosse pedir demais que Ailan ilustrasse o livro pessoalmente, ela poderia fornecer uma cópia perfeitamente legível do texto, que era tudo o que realmente importava.

— Entendi! Faz sentido! — Os olhos de Ailan começaram a brilhar com uma nova luz.

— Nossa! Você vai mesmo fazer todo esse trabalho?

— Yinghua, não diga isso — repreendeu Guiyuan.

Maomao colocou o livro cuidadosamente na frente de Ailan e resolveu voltar ao trabalho. O intervalo delas estava quase acabando, então todas precisavam se apressar ou Hongniang cairia sobre elas como um raio.

Maomao pensou que tudo aquilo era uma maneira muito indireta de Jinshi conseguir o que queria. Com livros de qualquer tipo circulando mais livremente no palácio interno, pelo menos algumas pessoas aprenderiam a ler.

Na época em que Maomao trabalhava diretamente para Jinshi, ela teve algumas oportunidades de ver a papelada que ele lidava em seu próprio trabalho. Ele pediu a opinião dela sobre um projeto, pura curiosidade, é claro. Ele queria saber como a taxa de alfabetização entre as mulheres do palácio interno poderia ser melhorada.

Maomao estava experimentando em primeira mão o quão bem o plano de Jinshi estava funcionando. Ela segurava um galho na mão, riscando os caracteres Xiaolan no chão. A própria Xiaolan observava atentamente e, em seguida, tentou imitá-la.

Xiaolan sempre pareceu mais interessada em lanches do que em qualquer outra coisa na vida; Maomao ficou surpresa quando ela a procurou pela primeira vez e pediu que a ensinasse a ler e escrever. Quando Maomao perguntou o porquê, Xiaolan disse que a mulher que lia histórias para ela havia parado. A voz da mulher finalmente falhou depois de ser incessantemente solicitada pelas mulheres analfabetas do palácio para que lesse para elas. Ela era uma mulher bondosa, no entanto, e concordou em fazer cópias do livro se as outras se esforçassem para aprender a lê-lo sozinhas.

Então havia alguém por aí pensando da mesma forma que Ailan. Foi uma oferta extremamente generosa, considerando o preço do papel.

Maomao sugeriu que ela poderia ler para Xiaolan, mas a outra mulher balançou a cabeça negativamente. 

— Ela foi gentil o suficiente para escrever para mim, então não posso trapacear assim.

Maomao bagunçou carinhosamente o cabelo de Xiaolan. Ela pensou que estava lhe dando um tapinha amigável, mas na verdade só conseguiu deixár ele todo desarrumado, o que lhe rendeu um olhar irritado de Xiaolan.

Assim, o tempo que geralmente dedicavam a fofocar foi convertido em aprendizado da escrita. Xiaolan segurava seu graveto com um olhar de intensa concentração. O caractere “Xiao”, que consistia em apenas alguns traços curtos lado a lado, ainda parecia um amontoado de insetos mortos, mas era simples o suficiente para que ela conseguisse reconhecê-lo. “Lan”, no entanto, era um caractere muito mais complicado e estava lhe dando bastante trabalho.

Maomao escreveu o caractere na terra novamente, grande e bonito. Desta vez, ela o dividiu em três radicais para facilitar a compreensão de Xiaolan. Acima, havia três traços simples representando a grama; abaixo deles, um caractere que, por si só, significava "portão", e dentro do portão estava o caractere para "leste". Maomao começou fazendo com que Xiaolan praticasse os caracteres individualmente.

— Eu nunca imaginei que meu nome fosse tão difícil… — Xiaolan foi aprovada no radical "grama", por pouco, mas sua professora insistiu que ela refizesse as partes "portão" e "leste".

A verdade é que Maomao não tinha certeza de quais eram os caracteres do nome de Xiaolan. Provavelmente, os próprios pais de Xiaolan eram analfabetos. Mas ela presumiu que seria apropriado usar os caracteres mais comuns para o nome. Quando Maomao aprendeu a ler, começou pelo próprio nome. Era importante, diziam-lhe, para ajudar a saber de onde vinha, mas, por outro lado, frequentemente lhe diziam que ela tinha todo o charme de um gato de rua.

— Se você aprender a escrever os caracteres, obviamente acabará aprendendo a lê-los, mas prefere se concentrar apenas na leitura por enquanto? — perguntou Maomao, mas Xiaolan balançou a cabeça negativamente.

— Se vamos perder tempo com isso, prefiro aprender a escrever elas. Isso só pode ajudar a longo prazo, certo?

Isso era verdade. A capacidade de ler e escrever abria muitas outras oportunidades de trabalho. Mesmo nos aposentos dos palácio interno, as mulheres alfabetizadas eram designadas a funções condizentes e recebiam um tratamento melhor do que lavadeiras facilmente substituíveis. Dizia-se até que uma mulher do palácio especialmente talentosa poderia ser transferida para funções administrativas fora dos aposentos do palácio interno.

— Vou ter que arranjar um emprego para mim mesma depois que sair daqui. É melhor aprender enquanto tenho a chance. 

Assim, Xiaolan tentava planejar o futuro, à sua maneira. Ela havia chegado ao palácio interno quase ao mesmo tempo que Maomao. Os contratos de trabalho duravam dois anos, então ela já estava na metade do seu. Dado que havia sido vendida para servir aos pais, parecia improvável que pudesse voltar para casa quando seu tempo acabasse.

— Entendo. Talvez precisemos intensificar um pouco as aulas, então — disse Maomao, e começou a escrever rapidamente na poeira.

— S-Sim, obrigada. Então, hum, o que está escrito aqui?

— Está escrito: dong chong xia cao. Fungo-lagarta.

— Hum, ok. E este?

— Mantuluo-hua. Estramônio.

— E... este?

— Gegen. Raiz de kudzu.

— Hum... Essas palavras aparecem com frequência?

Maomao não disse nada, apenas apagou relutantemente o vocabulário que havia escrito e o substituiu por termos mais comuns.


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