Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle Tokito

Revisão: Kessel


Volume 2

Epílogo

Vários dias depois de Maomao retornar ao palácio interno, chegou uma carta da Meimei, acompanhada de um pacote. A carta explicava exatamente de quem o contrato havia sido comprado e por quem. Devia estar chovendo ou algo do tipo quando ela escreveu, pois a página estava marcada por rastros de gotas.

No pequeno estojo que acompanhava a carta havia um belo lenço do tipo que as cortesãs usavam em ocasiões comemorativas. Maomao estava prestes a fechar o estojo novamente, mas reconsiderou. Em vez disso, foi até um baú de roupas, um dos poucos móveis de seu pequeno quarto, e começou a vasculhar algo bem no fundo.

As luzes do distrito do prazer cintilavam à distância. Maomao achou que elas pareciam ainda mais brilhantes e numerosas do que de costume. Do ponto em que estava, sobre a muralha externa do palácio interno, ela podia ouvir o tilintar de sinos, cortesãs dançando com seus lenços. Elas vestiriam seus trajes mais belos, agitariam longos tecidos esvoaçantes e espalhariam pétalas de flores.

Ter o contrato comprado era motivo de celebração. Quando toda a cidade florescia por causa de uma única mulher, as outras flores dançavam para se despedir dela. Haveria vinho e banquetes, canto e dança. O distrito do prazer nunca dormia, então a farra continuaria a noite inteira.

Quanto a Maomao, ela tinha o lenço de seda que Meimei lhe enviou envolto em torno dos ombros. Ela o segurou com os dedos. Sua perna esquerda ainda não estava em seu melhor estado, mas ela achava que conseguiria. Ela retirou o manto e deu leves batidas de batom nos lábios. Aquilo também havia sido enviado por Meimei.

Parece algum tipo de piada. Maomao pensou na Princesa Fuyou, que havia sido dada em casamento a um oficial militar no ano anterior, uma velha amiga dela. Será que já tinha esquecido completamente seus dias no palácio interno? Ou será que às vezes se lembrava de como dançava sobre aqueles muros, noite após noite?

Agora Maomao faria a mesma coisa que a princesa. Vestida com o belo traje que suas irmãs haviam praticamente lhe imposto, trouxe à memória os primeiros passos da dança que lhe ensinaram há muito tempo. O batom que recebeu de sua irmã Meimei estava em seus lábios. Pequenos sinos estavam presos às mangas, de modo que ela tilintava a cada movimento. Pequenas pedras haviam sido costuradas à saia longa para que ela se abrisse sempre que Maomao girasse.

Sua saia girava ao seu redor, seu lenço desenhava um arco, e as mangas cortavam o ar. Naquela noite, ela deixou o cabelo solto, adornando-o com uma única rosa, uma pequena flor tingida de azul.

O lenço dançava; a saia se erguia no ritmo; mangas e cabelos esvoaçavam juntos.

Não pensei que isso voltaria a mim com tanta facilidade, refletiu, surpresa ao perceber que a dança que a velha lhe ensinara ainda permanecia dentro dela.

O lenço voltou a inflar, e então Maomao se viu olhando diretamente para uma companhia extremamente indesejada. Foi nesse momento que ela tropeçou na própria saia.

Ela caiu de cara no chão e, ao tentar se proteger de bater o nariz no chão, rolou, diretamente em direção à beira do muro. Ela conseguiu se segurar por pouco, e alguém a puxou para cima.

— O-o que você está fazendo aqui? — perguntou o visitante inesperado, ofegante. 

Seu cabelo, que havia sido cuidadosamente preso, estava agora todo desarrumado.

— Eu é que deveria lhe fazer a mesma pergunta, Mestre Jinshi — disse Maomao, sacudindo a poeira do vestido. — Por que você está aqui?

Ele a fitou com uma expressão exasperada. Ela já estava em segurança, afastada da borda do muro, mas por algum motivo ele ainda segurava a mão dela.

— Onde mais eu deveria estar? Quando recebi a notícia de que uma mulher estranha estava dançando no muro outra vez, tive de vir resolver a situação.

Hã, e eu achando que tinha passado despercebida. Pensando bem, porém, talvez não fosse tão surpreendente que tivesse sido notada. Ainda assim, isso significava que os guardas ainda acreditavam em fantasmas?

— Eu agradeceria se você não aumentasse minha carga de trabalho — disse Jinshi, pousando a mão sobre a cabeça de Maomao.

— Certamente você não precisava ter vindo pessoalmente, Mestre Jinshi. Não poderia ter mandado outra pessoa? — Ela deslizou a cabeça para o lado, afastando-se da mão dele.

— Um guarda muito gentil reconheceu seu rosto e entrou em contato comigo diretamente — disse Jinshi.

Maomao tocou o próprio rosto.

— Você pode achar que o que está fazendo é inofensivo, mas lembre-se de que não parecerá assim para quem a vir.

— Como quiser — respondeu Maomao. Um pouco envergonhada, coçou a bochecha. Tudo aquilo estava sendo mais difícil do que ela imaginava.

— Essa é a minha história — disse Jinshi. — Agora é a sua vez. O que você está fazendo aqui?

Depois de um momento, Maomao respondeu:

— No distrito do prazer, dançamos para nos despedir de uma cortesã cujo contrato foi comprado. Meu traje comemorativo chegou hoje mesmo.

Na verdade, ela desejava se despedir da cortesã que lhe dera aquelas roupas. Meimei havia permanecido ao lado de Maomao com lealdade enquanto lutava para aprender a dançar.

— Quero que você consiga dançar direito quando eu for embora — sua irmã sempre dizia.

Jinshi a observava atentamente.

— O que foi, senhor? — ela perguntou.

— Eu só não sabia que você sabia dançar.

— É uma matéria básica da educação de onde eu cresci. Não tinha como não aprender. Embora, admito, eu nunca tenha ficado boa o bastante para me apresentar para um cliente pagante.

Ainda assim, disse ela a ele, às vezes, ao celebrar a partida de uma mulher, o que importava era mais o número de dançarinas do que a qualidade. Quando ela disse isso, Jinshi voltou o olhar para as luzes distantes do distrito do prazer.

— Os rumores já estão começando para além destes muros. As histórias sobre como aquele excêntrico comprou o contrato de uma cortesã.

— Imagino que sim.

— Além disso, ele pediu licença. Pretende se ausentar por dez dias seguidos.

— Ele realmente sabe como causar problemas.

Maomao suspeitava que, no dia seguinte, outro novo boato também começaria. Ela não sabia quanto o velho excêntrico havia gasto nesse banquete, mas, a julgar pela quantidade de lanternas que conseguia ver de seu ponto no muro, aquilo superava em muito o que se gastaria com uma cortesã comum. A carta de Meimei fazia parecer que haveria comida e celebração suficientes para uma semana inteira. Assim, as línguas falariam: quem diria que não eram apenas as Três Princesas da Casa Verdigris? Que havia existido ali outra cortesã daquele nível?

Ainda acho que ele deveria ter levado Meimei, pensou Maomao. A mulher doente, devastada pela enfermidade, certamente não teria muito tempo de vida. Ela claramente não conservava as memórias daqueles dias longínquos; tudo o que sabia fazer era cantar canções infantis e alinhar pedras de Go lado a lado.

Mas aquele homem a encontrara, depois de a velha tê-la escondido por todos aqueles anos.

Eu queria que ele não tivesse feito isso, pensou Maomao. Assim, ele poderia ter escolhido sua maravilhosa irmã. Meimei transbordava talento e ainda era bela; teria sido uma excelente esposa. Mas ela é estranha à sua própria maneira.

Foi Meimei quem primeiro permitiu que o homem tão odiado pela madame entrasse em seu quarto. Talvez ela achasse que fosse a única coisa a fazer diante daquela pessoa estranha que continuava a aparecer em busca de Maomao. Uma vez com Meimei, ele não fizera nada além de falar interminavelmente sobre Maomao e sobre a mulher que a havia dado à luz. Às vezes, sentava-se diante de um tabuleiro de Go, mas eles nunca jogavam juntos. Em vez disso, o homem reproduzia, de memória, uma partida antiga após a outra.

Pelo menos era isso que Meimei lhe contara. Maomao não tinha como saber ao certo.

Talvez Meimei estivesse apenas sendo gentil com ela. Mas isso realmente não importava para Maomao. Ela teria ficado satisfeita o bastante em ver Meimei partir com aquele homem. Tirando sua personalidade, ao menos ele tinha muito dinheiro; sua irmã não teria passado necessidade alguma em sua vida. Maomao queria saber o que havia de errado em gostar de sua irmã.

— Não consigo deixar de me perguntar quem, neste mundo, ele comprou — disse Jinshi. Ele sabia da aposta, mas evidentemente não imaginara que as celebrações seriam tão grandiosas. Surpreendeu-se ao descobrir que o homem era ainda mais excêntrico do que havia pensado.

— Pois é, também me pergunto quem poderia ser. 

— Você sabe?

Em resposta, Maomao apenas fechou os olhos.

— Você sabe, não sabe?

— Nenhuma mulher que ele escolheu poderia ser mais deslumbrante do que você, Mestre Jinshi.

— Não foi isso que eu perguntei.

Ele não nega, pensou ela. Maomao suspeitava que Jinshi não fosse o único a se perguntar. Todo o palácio, provavelmente toda a capital, estaria fazendo a mesma pergunta. A cortesã por quem toda aquela comoção estava sendo feita devia estar vestida de forma esplêndida, mas jamais apareceria em público.

Haveria apenas rumores, e eles só cresceriam. As pessoas se perguntariam que mulher poderia ter capturado de tal forma o olhar de um homem como ele, o quão bela ela deveria ser.

E a velha madame deve estar satisfeita, pensou Maomao. As pessoas falarão da Casa Verdigris por um bom tempo ainda. Não poucos oficiais bateriam à porta, puramente por curiosidade, é claro.

O corpo inteiro de Maomao parecia quente. Talvez fosse porque ela não dançava há tanto tempo. Seus pés, em especial, formigavam, e quando ela olhou para baixo, viu que sua saia estava tingida de vermelho.

— Ah, merda — disse, agarrando a saia.

— O-o que você está fazendo?! — gritou Jinshi, a voz arranhada.

Maomao olhou para a perna e fez uma careta. O calor havia se transformado em dor.

Suas experiências com medicamentos haviam entorpecido sua percepção desse tipo de sensação. Ela estava convencida de que o ferimento na perna tinha cicatrizado muito bem, mas a dança o havia reaberto completamente.

— Hum, acho que abriu de novo… 

— Você fala como se isso tivesse acontecido sozinho!

— Não se preocupe, eu costuro de novo.

Maomao revirou suas vestes descartadas que havia largado ali e tirou de lá álcool desinfetante, além de agulha e linha.

— Por que você está tão preparada exatamente para essa situação?!

— Nunca se sabe.

Maomao estava prestes a dar o primeiro ponto quando Jinshi agarrou a agulha.

— Você não sabe costurar, senhor — disse ela.

— Não faça isso aqui!

Mal ele terminou de falar, ergueu Maomao nos braços e desceu o muro com destreza, sem sequer usar uma escada. Maomao ficou tão atônita que nem chegou a pensar em resistir. Quando alcançaram o chão, ela presumiu que ele a colocaria no chão, mas, em vez disso, ele continuou a carregá-la, apenas ajustando um pouco a posição em seus braços.

— Por que está fazendo isso? — ela perguntou. 

— Estava ficando difícil segurar você.

— Então me coloque no chão.

— E deixar você piorar ainda mais?

Jinshi franziu os lábios. Ele mantinha os braços em volta de Maomao, e ela achava extremamente desconfortável o quão perto o rosto dela estava do dele.

Como eu sempre acabo nessas situações? Pensou, mas disse:

— E se alguém nos vir, senhor?

— Ninguém vai nos ver. Está escuro demais. Além disso, ele a ergueu um pouco e ajustou o aperto para que ela não escorregasse, esta é a segunda vez que eu a seguro assim.

A segunda vez? Ah!

Devia ter sido no dia em que ela machucou a perna. Ela estava inconsciente; alguém a carregou para longe do local. Faria muito sentido se tivesse sido Jinshi. O que significaria que ele a pegou no colo na frente de todas as pessoas presentes na cerimônia...

Havia algo mais importante, porém, algo que ela estava esquecendo. Ela pretendia dizer isso há muito tempo e se arrependia profundamente de não ter dito antes. Pressionou um lenço contra o sangue que escorria por sua panturrilha.

— Mestre Jinshi — começou. — Eu sei que este não é exatamente o momento ideal, mas, se me permite, há algo que eu queria lhe dizer já faz bastante tempo.

— Por que tanta formalidade de repente? — perguntou Jinshi, um tanto confuso.

— Senhor, eu realmente preciso dizer isso.

— Então diga logo! — respondeu Jinshi.

— Muito bem — disse Maomao, encarando Jinshi diretamente. — Senhor... Por favor, me dê meu bezoar de boi.

A cabeça de Jinshi bateu na de Maomao com um tac, e ela viu estrelas.

Uma cabeçada! Assim, do nada! Passou-lhe pela mente que talvez ele só a tivesse enrolado o tempo todo.

— Senhor, não me diga... Você não o tem?

— Por favor. Certamente você tem um pouco mais de respeito por mim do que isso.

Enquanto Maomao o olhava de forma inquisitiva, o menor dos sorrisos cruzou o rosto de Jinshi.

A mudança rápida na expressão do eunuco, de irritação para diversão, lembrou-a de como ele podia parecer imaturo. Mas, por outro lado, achava mais fácil falar com ele daquele jeito, pensou, enquanto balançava em seus braços.

Ninguém sabia ao certo onde o rumor havia começado, mas corria a notícia de que algum nobre extravagante do grande país que ocupava o centro do continente estava comprando todo tipo de medicamento raro e incomum que conseguia encontrar. Foi durante um chá da tarde que Maomao ouviu pela primeira vez que o escritório de Jinshi estava tão cheio de flores com mensagens de melhoras  que mal dava para entrar. Ela apenas deu uma mordida em seu bolinho de pêssego e comentou:

— Hum.


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