Volume 2
Capítulo 20: Bálsamo e Trevo-Azedo
Uma velha lembrança voltou à sua mente. Tantas cenas em preto e branco, apenas esta ostentava um tênue traço de vermelho. Parecia que ele tinha dificuldade em enxergar coisas que os outros viam com facilidade, mas esta, em especial, brilhava vívida e clara.
Vermelho. Vermelhos eram os dedos que seguravam as pedras de Go ou as peças de shogi.
Seus músculos definidos e salientes teriam sido motivo de inveja para qualquer um. Apenas uma pessoa parecia não se impressionar com eles: aquela grande dama, a estimada cortesã Fengxian.
Às vezes ele era obrigado a visitar bordéis quando saía socialmente com outras pessoas, mas, sendo franco, eles pouco lhe interessavam. Ele não podia beber álcool, e danças ou apresentações de erhu não o empolgavam. Não importava o quão belamente uma mulher se vestisse, para ele ela não passava de uma simples pedra branca de Go.
Ele era assim há muito tempo: não conseguia distinguir um rosto humano de outro. Ainda assim, isso já representava uma melhora. Confundir a própria mãe com a ama de leite já era ruim o bastante, mas ele sequer conseguia diferenciar homens de mulheres.
Seu pai, sentindo que nada podia fazer por aquela criança, começou a se encontrar com uma jovem amante. Sua mãe, por sua vez, passou a tramar para reconquistar o marido, embora ele tivesse abandonado o próprio filho justamente porque o menino não conseguia reconhecer o rosto do próprio pai!
Assim, apesar de ter nascido como o filho mais velho de uma família proeminente, Lakan viveu sua vida com um grau incomum de liberdade, uma bênção, ao menos do ponto de vista dele. Ele se perdia em partidas de Go e shogi, que aprendeu jogando partida após partida; mantinha os ouvidos atentos aos rumores e, de vez em quando, aprontava alguma travessura.
Aquela vez em que fez rosas azuis florescerem no palácio? Foi algo que ele tentou depois de ouvir o tio falar sobre isso. Seu tio nem sempre era a pessoa mais agradável, mas, aos olhos do jovem, era o único que realmente o compreendia. Foi seu tio quem lhe disse para não focar nos rostos das pessoas, mas em suas vozes, em sua linguagem corporal, em suas silhuetas. A vida se tornou um pouco mais fácil quando ele passou a atribuir peças de shogi às pessoas de quem era mais próximo; com o tempo, chegou a um ponto em que apenas aqueles por quem não tinha interesse algum permaneciam como pedras de Go, enquanto aqueles com quem começava a criar intimidade surgiam como peças de shogi.
Quando seu tio passou a aparecer um rei-dragão, uma torre promovida, o jovem soube, sem sombra de dúvida, que ele era alguém de grandes feitos.
Para ele, Go e shogi eram apenas jogos, extensões de seu lazer. Jamais imaginou que as peças revelariam suas verdadeiras aptidões. Sua origem familiar ainda lhe trouxe outro golpe de sorte: embora não tivesse talentos marciais especiais, foi prontamente nomeado capitão. Ele sabia que não precisava ser forte ou poderoso; se usasse bem seus subordinados, os resultados viriam. Shogi com peças humanas era o jogo mais interessante de todos.
Ele seguiu invicto tanto em seus jogos quanto em seu trabalho até que um colega rancoroso o apresentou à famosa cortesã. Fengxian nunca havia perdido para ninguém em seu bordel, e ele jamais perdera para alguém no exército.
Qualquer que fosse o lado a ter sua sequência quebrada naquela partida, os espectadores se divertiriam.
Foi então que ele descobriu ter sido como um sapo vivendo no fundo de um poço. Fengxian praticamente o quebrou sobre os próprios joelhos. Mesmo jogando com as pedras brancas, o que significava a desvantagem de começar em segundo, ela conquistou uma quantidade esmagadora de território. Com os dedos delicadamente pintados, pegava as pedras e o reduzia metodicamente ao seu devido tamanho.
Ele mal conseguia se lembrar da última vez em que perdeu uma partida. Não sentia tanta raiva, mas uma espécie de admiração diante da ferida implacável que ela lhe infligira. Fengxian se ressentiu por ele tê-la subestimado; ele deduziu isso pelo modo como ela não disse uma única palavra, pelo modo como até seus movimentos eram desdenhosos, como se o jogo mal merecesse sua atenção.
Sem qualquer intenção consciente, ele começou a rir, riu tanto que teve de segurar a própria barriga. Os observadores murmuraram; achavam que ele havia enlouquecido. Ele riu até os olhos se embaçarem de lágrimas, mas, quando voltou a encarar a cortesã impiedosa, não viu a habitual pedra branca de Go, e sim o rosto de uma mulher de humor azedo. O olhar em seus olhos não permitia que ninguém se aproximasse. Como a flor que lhe dava nome, o bálsamo, Fengxian parecia prestes a explodir ao menor toque.
Era assim que os rostos humanos se pareciam?
Foi a primeira vez que ele experimentou algo que outras pessoas consideravam normal.
Fengxian murmurou algo para uma aprendiz que a acompanhava. A garotinha saiu correndo e voltou trazendo um tabuleiro de shogi. A cortesã, tão altiva que sequer permitia que um homem ouvisse sua voz no primeiro encontro, estava desafiando-o para outra partida.

Desta vez, ele não perderia.
Arregaçou as mangas e começou a dispor suas peças no tabuleiro.
A mulher chamada Fengxian tinha, se nada mais, seu orgulho como cortesã. Talvez fosse porque havia nascido em um bordel. Às vezes, ela dizia que não tinha mãe, apenas uma mulher que a havia dado à luz, pois, no distrito do prazer, cortesãs não podiam ser mães.
O relacionamento entre eles se estendeu por muitos e muitos anos e, durante seus encontros, concentravam-se em apenas uma coisa: jogar Go ou shogi.
Com o tempo, porém, passaram a se ver com menos frequência. À medida que cortesãs talentosas se tornavam mais populares, também se tornavam mais relutantes em aceitar clientes, e Fengxian não era exceção.
Fengxian era inteligente, mas dura e inflexível; isso talvez não agradasse à maioria das pessoas, mas havia um pequeno grupo de admiradores obstinados que adorava isso. Gosto não se discute.
Seu preço continuou subindo, até que tudo o que ele conseguia era vê-la uma vez a cada poucos meses.
Certa vez, quando foi ao bordel vê-la após uma longa ausência, encontrou-a pintando as unhas, tão desinteressada como sempre. Flores vermelhas de bálsamo e um pouco de grama fina estavam dispostas em um prato à sua frente. Quando ele perguntou o que era a segunda coisa, ela respondeu:
— É pata-de-gato.
Era uma planta com propriedades medicinais, ao que parecia, útil para neutralizar picadas de insetos e alguns venenos.
Curiosamente, o bálsamo e a pata-de-gato compartilham uma característica incomum: bastava tocar nas vagens maduras para que elas se rompessem e espalhassem sementes por toda parte. Ele pegou uma das flores amarelas, pensando que talvez tentasse tocar uma daquelas na próxima oportunidade, apenas para ver o que aconteceria, quando Fengxian disse:
— Quando você virá da próxima vez?
Que estranho, vindo da mulher que sempre lhe enviava apenas avisos impessoais para lembrá-lo de que seus serviços estavam disponíveis.
— Daqui a mais três meses.
— Muito bem.
Fengxian mandou uma aprendiz guardar os utensílios de manicure e então começou a preparar uma partida de shogi.
Foi mais ou menos nessa época que ele ouviu, pela primeira vez, comentários sobre a compra do contrato de Fengxian. Às vezes, o preço tinha pouco a ver com o valor percebido de uma cortesã: algumas pessoas inflavam a quantia simplesmente porque não gostavam de um dos outros concorrentes.
Ele havia conseguido algumas promoções no exército, mas, enquanto isso, sua posição como herdeiro da fortuna da família tinha sido usurpada por um meio-irmão mais novo, e a disputa acabou se tornando impossível de acompanhar.
Então, o que fazer?
Uma ideia terrível lhe ocorreu, mas ele a extinguiu de imediato. Seria impensável realmente levá-la adiante.
Mais três meses se passaram, mais uma visita ao bordel, e agora Fengxian sentava-se diante dele com dois tabuleiros prontos para jogar, um de Go e outro de shogi.
As primeiras palavras que saíram de sua boca foram:
— Talvez uma aposta hoje?
Se você vencer, eu lhe darei qualquer coisa que quiser. E, se eu vencer, tomarei algo que desejo.
— Escolha o jogo.
Era no shogi que ele tinha vantagem, mas ainda assim, quando se sentou, foi diante do tabuleiro de Go.
Fengxian dispensou sua aprendiz, dizendo que desejava se concentrar no jogo.
Ele não sabia qual dos dois havia vencido, mas, quando percebeu, suas mãos estavam entrelaçadas. Não houve palavras doces por parte de Fengxian. Tampouco ele sentiu necessidade de oferecer frases vazias de sentimentalismo. Nesse aspecto, talvez fossem semelhantes.
Ele ouviu Fengxian, aninhada em seus braços, sussurrar:
— Quero jogar Go.
Pessoalmente, ele vinha pensando em shogi.
A desgraça começou depois disso. O tio de quem ele era tão próximo foi demitido de seu cargo. O homem nunca soube jogar o jogo, e o pai de Lakan declarou o tio uma vergonha para a família. Na verdade, o infortúnio do tio não havia causado qualquer dano à família, mas Lakan passou a ser persona non grata por ter sido próximo demais dele; disseram-lhe que fizesse uma longa viagem e não voltasse por algum tempo.
Ele poderia ter ignorado isso, mas só lhe traria dores de cabeça mais adiante. Seu pai também era militar, o que o tornava não apenas um pai, mas um oficial superior. Por fim, ele escreveu ao bordel dizendo que retornaria dentro de meio ano. Isso foi depois de receber uma carta informando que a compra do contrato havia fracassado.
Assim, por algum tempo, ele viveu sob a impressão de que tudo ficaria bem.
Ele mal podia imaginar que levaria cerca de três anos até que retornasse.
Quando finalmente voltou para casa, encontrou uma montanha de cartas jogadas descuidadamente em seu quarto coberto de poeira. Os galhos amarrados a elas estavam ressecados e murchos, tornando a passagem do tempo dolorosamente evidente.
Seu olhar pousou em uma carta que mostrava sinais de ter sido aberta. Estava repleta de banalidades familiares, mas, em um canto da carta, havia uma mancha vermelho-escura. Ele espiou a pequena bolsa meio aberta ao lado da carta. Ela também estava manchada.
Abriu a bolsa e encontrou algo que parecia dois pequenos galhos, ou talvez torrões de barro. Um deles era minúsculo; parecia frágil o suficiente para ser esmagado em sua mão.
Demorou a perceber o que eram: ele próprio tinha dez daqueles. Aquilo dava um novo significado à expressão “promessa de mindinho”.
Ele embrulhou os dois galhos e os enfiou de volta na bolsa, então disparou em direção ao distrito do prazer o mais rápido que seu cavalo pôde levá-lo.
Quando chegou ao bordel, que lhe pareceu consideravelmente mais arruinado do que da última vez em que o vira, só havia pedras de Go ali.
Não havia ninguém que lembrasse o bálsamo, embora uma mulher viesse em sua direção com uma vassoura. Era a velha madame; ele reconheceu pela voz.
Fengxian não estava mais ali: foi a única coisa que a madame lhe disse. Uma cortesã abandonada por dois clientes importantes, que arrastara o nome de seu estabelecimento pela lama e já não era digna da confiança de ninguém, não tinha escolha senão se prostituir como uma meretriz comum. Ele não compreendia o que acontecia com mulheres assim?
Um pouco de reflexão poderia ter revelado a resposta, mas sua cabeça estava cheia apenas de Go e shogi, e ele foi incapaz de alcançar a verdade. Atirar-se ao chão e chorar, ignorando os olhares alheios, não faria o tempo voltar.
A culpa era toda dele por ter sido tão impulsivo. Tudo.
Lakan sentou-se bruscamente na cama, segurando a cabeça ainda latejante. Reconheceu o quarto em que estava. Um lugar com incenso perfumado, mas não excessivo.
— O senhor já acordou? — disse alguém com suavidade.
Um rosto como uma pedra branca de Go surgiu diante dele. Ele a reconheceu pela voz.
— O que estou fazendo aqui, Meimei?
Sim, ele conhecia aquela cortesã da Casa Verdigris. Ela tinha sido aprendiz de Fengxian há muito tempo; aquela que Fengxian havia mandado sair do quarto, se ele se lembrava corretamente. Ele a vira, quando aprendiz, brincar timidamente com pedras de Go de vez em quando e, por isso, a agradara com partidas ocasionais. Ela sempre ficava constrangida quando ele lhe dizia que ela era uma jogadora bastante competente.
— Um mensageiro de algum nobre trouxe você até aqui e foi embora. Minha nossa, mas você estava um desastre. Não sei dizer se o seu rosto estava mais vermelho ou mais azul!
Meimei era mais ou menos a única cortesã da Casa Verdigris que o entretinha. Era sempre no quarto dela que ele era conduzido em suas visitas.
— Eu realmente não achei que acabaria desse jeito.
Ele presumiu que, se a filha dele bebia aquilo, o álcool não poderia ser tão forte. Ainda assim, Lakan nunca foi muito versado nos diferentes tipos de bebida alcoólica. Um único gole daquela coisa tinha sido suficiente para fazer sua garganta pegar fogo.
Ele agarrou uma jarra de água ao lado da cama e bebeu avidamente.
Um gosto amargo se espalhou por sua boca, e ele cuspiu a água antes mesmo de perceber o que estava fazendo.
— O... o que é essa porcaria?!
— Maomao preparou — disse Meimei. Ele presumiu que ela estivesse sorrindo, pois cobriu a boca com a manga. A bebida provavelmente foi feita como um remédio para ressaca, mas a forma como lhe foi entregue sugeria um toque de malícia. Seria estranho que, mesmo assim, ele não conseguisse conter um sorriso?
Ao lado da jarra havia uma caixa de madeira de paulownia.
— Bem, mas veja só isso…
Ele a havia enviado junto com uma carta, há muito tempo, em tom de brincadeira, como se fosse um saque. Ao abri-la, encontrou uma única rosa seca. Ele não havia imaginado que ela conservaria tão bem a forma apesar de ter secado. Pensou em sua filha, que o lembrava a erva de são joão, a patinha-de-gato.
Depois daqueles acontecimentos de tanto tempo atrás, ele voltou a bater à porta da Casa Verdigris repetidas vezes, e todas as vezes era recebido pelas recriminações da dona. Não tem bebê nenhum aqui, vá embora para casa, ela gritava, enquanto o enxotava a vassouradas. Ela podia ser verdadeiramente assustadora.
Certa vez, enquanto estava sentado, exausto, com sangue escorrendo pela lateral da cabeça, notou uma criança vasculhando ali por perto. Havia ervas com algum tipo de flor amarela crescendo junto ao prédio. Quando perguntou à criança o que ela estava fazendo, ela respondeu que ia transformar a erva em remédio. Em vez da pedra de Go que ele esperava ver, percebeu um rosto sem emoção.
A menina saiu correndo com dois punhados de erva. Ela se dirigia a alguém que mancava como um velho. E o rosto dele, que se poderia esperar que parecesse uma pedra de Go, parecia, em vez disso, uma peça de Shogi.
E não apenas um peão ou um cavalo, mas um rei-dragão, uma peça poderosa e importante.
Agora ele sabia quem foi que abriu a única carta entre todas as que havia recebido, e a bolsa suja. Pois ali estava seu tio Luomen, que havia desaparecido após ser banido do palácio interno. A menina da patinha-de-gato ia trotando atrás dele; ele a chamava de Maomao.
Lakan puxou a bolsa suja. Ela estava ainda mais gasta do que antes, já que ele a carregava consigo o tempo todo. Sabia que os dois objetos semelhantes a gravetos ainda estariam dentro, embrulhados em papel.
A mão de Maomao parecia instável enquanto ela movia as peças. Em parte, isso podia ser porque ela não jogava muito. Mas em parte também porque estava jogando com a mão esquerda. Quando ele havia observado as pontas dos dedos avermelhadas, notou que o dedo mínimo daquela mão era deformado.
Ele não podia culpá-la por odiá-lo. Considerando tudo o que fizera.
Mas, ainda assim, ele queria se manter próximo dela. Estava cansado de uma vida feita apenas de pedras de Go e peças de Shogi. Aquilo lhe deu o incentivo de que precisava para recuperar seu direito de nascença, expulsar seu meio-irmão e adotar seu sobrinho como seu próprio filho. Depois disso, ao longo de muitas negociações com a velha dona e de cerca de dez anos, conseguiu pagar com sucesso uma quantia equivalente ao dobro das indenizações.
Deve ter sido mais ou menos nessa época que finalmente lhe permitiram voltar aos quartos. Meimei, naturalmente, assumiu o papel. Talvez ela estivesse lhe retribuindo por tê-la ensinado Shogi tantos anos antes.
Lakan continuou a visitar, vez após vez, porque a única coisa que desejava era estar com a filha. Infelizmente, um talento que Lakan definitivamente não possuía era a capacidade de compreender como as outras pessoas se sentiam, e, repetidas vezes, as coisas que fazia pareciam sair pela culatra.
Ele guardou a bolsa de volta entre as dobras do manto. Talvez fosse hora de desistir, ao menos desta vez. De algum modo, porém, chame de teimosia, ele não conseguia se obrigar a abandonar o assunto por completo.
E, além disso, ele não gostava do homem na companhia dela. Ele ficava perto demais, e, durante a partida, tocou nos ombros dela nada menos que três vezes. Lakan sentiu um prazer mesquinho ao ver a filha afastar a mão em todas elas.
Muito bem, como se sentir um pouco melhor? Lakan pegou a jarra e bebeu o remédio de gosto horrível. Por mais repugnante que fosse, foi a própria filha quem o preparou.
Talvez passasse algum tempo decidindo como arrancar o inseto de sua flor. Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu de repente com um estrondo.
— Finalmente, já dormiu o bastante, não é? — grasnou roucamente uma pedra de Go. Pela voz, ele soube que era a velha dona. — Então está querendo comprar uma das minhas meninas, é? Já devia saber que algumas milhares de prata não vão ser suficientes.
Continua pão-dura como sempre. Lakan segurou a cabeça latejante, mas um sorriso torto surgiu em seu rosto. Ele colocou o monóculo (que usava apenas para efeito).
— Que tal dez mil? E, se não for o bastante, que tal vinte ou trinta? Admito que cem talvez seja um pouco demais.
Lakan se encolheu por dentro enquanto falava. Não eram quantias pequenas, mesmo na posição dele. Teria de pedir ajuda ao sobrinho por um tempo; o rapaz tinha alguns negócios paralelos.
— Muito bem, então. Venha por aqui, e seja rápido. Vou até deixar você escolher, a que quiser.
Ele deixou que a dona o conduzisse até o salão principal do bordel, onde havia toda uma fileira de pedras de Go vestidas de forma espalhafatosa. Até Meimei estava misturada entre elas.
— Oh, posso até escolher uma das Três Princesas?
— Eu disse a que você quiser, e falei sério — a dona praticamente cuspiu. — Mas pode esperar pagar por isso.
Mesmo com essa permissão para escolher livremente, Lakan enfrentava um problema único. Por mais luxuosos que fossem os vestidos das moças, para ele todas não passavam de pedras de Go. Ele praticamente conseguia ouvir as mulheres sorrindo. Podia sentir o perfume adocicado delas. E o caleidoscópio de cores de suas roupas quase o cegava. Mas era só isso. Ele não sentia nada além disso. Nenhuma delas tocava o coração de Lakan.
No entanto, ele tinha sido instruído a escolher, então tinha que escolher. Uma vez que comprasse a moça, poderia fazer o que quisesse com ela. Tinha dinheiro suficiente para manter uma dama, e, se ela não ficasse satisfeita com isso, então lhe daria algum dinheiro e a libertaria para fazer o que desejasse. Tudo bem; certamente isso seria bom.
Com isso em mente, voltou-se para Meimei. Supunha que fosse culpa que a levava a ser tão gentil com ele. Se ela não os tivesse deixado naquele dia, talvez nada disso tivesse acontecido. Seria justo, pensou, recompensar a decência dela.
Nesse momento, Meimei falou:
— Mestre Lakan.
Ele pôde ouvir um pequeno sorriso em sua voz.
— O senhor deve saber que eu tenho orgulho de uma cortesã. Se eu for o seu desejo, então não hesitarei.
Dizendo isso, ela caminhou até a grande janela que dava para o pátio e a abriu. A cortina esvoaçou, e algumas pétalas de flores soltas entraram no quarto.
— Mas, se o senhor vai escolher, então escolha com os olhos abertos.
— Meimei, eu não lhe dei permissão para abrir essa janela! — exclamou a dona, correndo para fechá-la novamente.
Mas Lakan já havia ouvido, ao longe. Risadas. Como o riso de uma cortesã, mas de algum modo mais inocente. Ele achou que captassem as palavras de uma canção infantil.
Seus olhos se arregalaram.
— O que é isso? — perguntou a dona, desconfiada.
Lakan fitou para fora da janela ornamentada. O canto chegava até eles em fragmentos.
— O que você está fazendo?! — cada vez mais agitada, ela tentou agarrar a mão dele.
Mas ela chegou tarde demais. Ele saltou pela janela e caiu no chão já correndo, disparando com obstinação em direção à origem da voz. Nunca lamentara tão amargamente a falta de exercícios quanto naquele momento. Ainda assim, continuou correndo, mesmo quando as pernas ameaçavam ceder sob ele.
Por todas as vezes que estivera na Casa Verdigris, nunca estivera naquela parte específica: um pequeno edifício, quase um depósito, afastado da casa principal. Ele podia ouvir o canto vindo de dentro.
Tentando impedir que o coração saltasse do peito, Lakan abriu a porta. Foi atingido por um odor característico de remédio.
Lá dentro havia uma mulher emagrecida. Os cabelos emolduravam-lhe a cabeça, mas sem brilho, e os braços repousavam sobre o corpo como galhos ressequidos. Ela exalava doença. E havia outra coisa: o dedo anelar esquerdo era deformado. Lakan só conseguiu encará-la, estupefato. Então percebeu que sentia algo em suas bochechas.
A dona veio correndo.
— O que você está fazendo? Este é um quarto de doente!
Ela agarrou a mão dele e tentou arrastá-lo para fora, mas Lakan não se moveu. Continuava fitando, fixamente, a mulher emagrecida.
— Vamos, saia daqui. Vá escolher uma das minhas meninas.
— Sim. Certo. Preciso escolher.
Lakan sentou-se devagar, sem fazer esforço algum para enxugar as gotas que transbordavam. A mulher não parecia notá-lo; apenas sorria e cantava sua canção. Não havia mais nenhum vestígio da postura imperiosa ou do olhar zombeteiro. O coração dela regredira ao de uma criança inocente. E, ainda assim, apesar do estado consumido, para Lakan ela parecia mais bela do que qualquer pessoa no mundo.
— Esta mulher, dona. Eu quero esta mulher.
— Não seja idiota. Volte lá para dentro e escolha.
Lakan, porém, levou a mão às dobras do manto, apalpando até encontrar uma bolsa pesada. Ele a retirou e a colocou na mão da mulher. Aquilo pareceu despertar seu interesse; ela a abriu e olhou dentro com movimentos rígidos e mecânicos. Com dedos trêmulos, tirou uma pedra de Go.
Talvez fosse apenas imaginação dele, mas Lakan achou ter visto um rubor momentâneo em seu rosto. Ele sorriu.
— É esta mulher que vou comprar, e não me importa quanto custe. Dez mil, vinte, tanto faz.
Não havia nada que a velha dona pudesse dizer diante disso. Meimei aproximou-se por trás dela, o vestido arrastando pelo chão enquanto entrava no quarto para se sentar diante da mulher doente. Ela tomou a mão ossuda da mulher.
— Se ao menos tivesse dito o que queria desde o começo, irmã mais velha. Por que não falou antes?
Meimei parecia estar chorando; ele percebeu quando ouviu o soluço.
— Por que não deixar que acabasse antes de eu começar a ter esperança?
Lakan não entendeu porque Meimei chorava. Estava ocupado observando a mulher, que olhava afavelmente para a pedra de Go.
Ela era tão bela quanto o bálsamo.
○●○
Estou tão cansada...
Maomao foi lembrada de como era exaustivo lidar com pessoas com quem não estava acostumada. Ela ajudou a levar o homem de olhos de raposa, completamente bêbado, até um quarto para dormir, e agora mal conseguia voltar para casa sem tropeçar. Ela já havia se separado de Jinshi e Gaoshun, que tinham assuntos próprios a tratar. Eles a haviam deixado com outro oficial, aquele que a acompanhou durante a investigação da intoxicação alimentar.
Basen, esse era o nome dele. Bastaram apenas algumas vezes para que ela começasse a se lembrar. Era fácil trabalhar com ele: ele não era efusivo, mas fazia seu trabalho de forma atenta e minuciosa. Era uma boa combinação para Maomao, que raramente sentia vontade de iniciar uma conversa se a outra pessoa não o fizesse primeiro.
Vê-lo novamente, porém, lembrou Maomao de que às vezes havia pessoas com quem você simplesmente não se dava bem. Coisas que você simplesmente não conseguia aceitar. Mesmo que a outra pessoa nunca tivesse tido qualquer malícia.
Enquanto caminhava arrastando os pés, Maomao avistou uma comitiva reluzente. No centro dela, acompanhada por uma dama do palácio que segurava uma sombrinha para ela, estava uma mulher com trajes luxuosos, a concubina Loulan.
Maomao ouviu alguém estalar a língua. Percebeu que Basen estava ao seu lado, observando o grupo com os olhos semicerrados. Ele não parecia gostar muito daquilo. Por um instante, Maomao se perguntou brevemente o por quê, mas então viu um oficial da corte corpulento parado à espera de Loulan. Ele estava ladeado por homens que pareciam assistentes, e havia uma comitiva de pessoas atrás dele.
Quando Loulan viu o homem corpulento, cobriu a boca com um leque dobrável e começou a falar com ele de maneira obviamente amistosa. Apesar de todas as damas de companhia presentes, Maomao se perguntou se era realmente apropriado que uma concubina falasse de forma tão íntima com um homem que não fosse Sua Majestade.
Um sussurro venenoso de Basen, porém, respondeu à sua pergunta.
— Malditos conspiradores, pai e filha.
Então aquele devia ser o pai de Loulan, o homem que pressionara para que ela fosse admitida no palácio interno. Maomao ouviu rumores de que ele foi um conselheiro influente do antigo imperador, mas que o governante atual, que preferia promover pessoas com base em mérito comprovado, o considerava com tanto apreço quanto um olho roxo.
Ainda assim, Maomao lançou um olhar a Basen. Ela desejava que ele não falasse mal de um alto oficial em voz alta, mesmo que só ela estivesse por perto. Se alguém por acaso os ouvisse, poderia pensar que ela concordava com a conversa.
Ele ainda é jovem, eu acho. Ao olhá-lo, ocorreu-lhe que ele não devia ser muito mais velho do que ela.
Ficou decidido que Maomao não voltaria ao palácio interno naquela noite, mas ficaria na residência de Jinshi.
— E eu que estava com a impressão de que você o desprezava — disse Jinshi lentamente, com os braços cruzados. Ele tinha chegado antes dela e a esperava.
Maomao tomava um pouco de mingau que Suiren havia preparado. Era falta de educação falar enquanto se comia, mas ela estava mais interessada em repor os nutrientes que perdera durante o tempo no Pavilhão de Cristal. Suiren, chocada ao ver Maomao tão magra quando reapareceu após o período afastada da residência de Jinshi, não se contentou com o mingau e começou a trazer um prato atrás do outro. Nisso também ela se parecia com as mulheres do Pavilhão de Jade, não poupando esforço algum por ser uma dama de companhia.
— Eu não o desprezo. É precisamente por ele ter feito o que fez, e com quem fez, que eu estou aqui.
— Com quem ele…?
Jinshi pareceu se perguntar se não havia uma forma mais delicada de dizer aquilo.
Não sei o que ele quer que eu diga, pensou Maomao. Ela estava apenas dizendo a verdade.
— Não sei como você imagina que o distrito do prazer funciona, mas nenhuma cortesã tem um filho a menos que queira.
Todas as cortesãs tomavam rotineiramente medicamentos contraceptivos e abortivos. Mesmo que uma criança fosse concebida, havia inúmeras formas de interromper a gravidez logo no início. Se davam à luz, era porque queriam.
— Na verdade, quase se poderia pensar que tinha sido planejado.
Prestando atenção ao ciclo menstrual de uma mulher, era simples fazer uma estimativa de quando ela provavelmente engravidaria. Bastava que uma cortesã enviasse uma carta mudando a visita do parceiro para um dia conveniente.
— Pelo comandante? — perguntou Jinshi, enquanto dava uma mordida em um lanche que Suiren lhe trouxera.
— Mulheres são criaturas astutas — respondeu Maomao.
Assim, quando seu objetivo deu errado, ela perdeu o controle de si mesma. Esteve tão fora de si que chegou até a estar disposta a ferir a si própria, e pior ainda...
Aquele sonho, outro dia.
Isso realmente havia acontecido. Não satisfeita em apenas decepar o próprio dedo, a cortesã que dera à luz Maomao cortara também o dedo da criança para acrescentá-lo à carta.
Ninguém no bordel jamais falou com Maomao sobre a cortesã que a gerara. Ela sabia muito bem que a velha madame ordenara a todos que permanecessem em silêncio sobre o assunto. Mas apenas a atmosfera do lugar, somada a um mínimo de curiosidade, já era suficiente para tornar a verdade evidente.
Maomao foi o motivo pelo qual a Casa Verdigris quase faliu. Ela também descobriu que seu pai era um homem excêntrico que amava Go e Shogi e que tudo o que aconteceu podia ser atribuído aos atos de uma única cortesã obstinada e egoísta.
Ela aprendeu ainda mais uma coisa: a identidade dessa mulher, de quem sempre lhe disseram que já não estava mais ali. A identidade da mulher que, até que a humilhação de perder o nariz a levou à loucura, sempre se recusava a chegar perto de Maomao.
Aquele homem idiota. Havia cortesãs melhores! Por que ele simplesmente não resgatou uma delas? Era isso que deveria ter feito...
— Mestre Jinshi, aquele homem alguma vez falou com o senhor fora do escritório?
Jinshi pensou por um instante.
— Agora que você mencionou, não, não fala.
O máximo que fazia, segundo Jinshi, era lhe dirigir um breve aceno de cabeça quando se cruzavam no corredor. A única vez em que o homem o encurralava com conversa era quando aparecia no escritório dele.
— De vez em quando — disse Maomao — você encontra alguém que não consegue discernir o rosto das pessoas. Aquele homem é um deles.
Era algo que o velho dela lhe contara. Ela própria acreditara nisso apenas pela metade, mas, quando ele lhe dissera que era assim, de algum modo aquilo fizera sentido.
— Não consegue discernir? — disse Jinshi. — O que você quer dizer?
— Exatamente o que eu disse. Eles não conseguem juntar os rostos. Sabem o que é um olho ou uma boca, conseguem perceber essas partes separadamente, mas não as registram em conjunto como rostos distintos.
O velho dela fora solene ao lhe contar isso. Estava lhe dizendo que até mesmo ele merecia compaixão, pois sofrera muito na vida por causa de algo que não podia controlar. Ainda assim, embora seu velho fosse compassivo, ele compreendia a situação de modo mais amplo e nunca tentou impedir a velha dona de enxotar o outro homem do bordel a vassouradas. Ele sabia que o errado era errado.
— Por algum motivo, ele parece me reconhecer, assim como ao meu pai adotivo. Acho que é daí que vem essa obsessão teimosa dele.
Certo dia, do nada, um homem estranho aparecera e tentou levá-la embora. A dona surgiu pouco depois e o espancou com uma vassoura, e a visão daquele homem machucado e ensanguentado despertou medo em seu jovem coração. Qualquer um ficaria assustado com um homem que estendia a mão sorrindo enquanto o sangue escorria de seu rosto.
Depois disso, ele passou a aparecer periodicamente, sempre fazendo algo inesperado antes de ser mandado embora em frangalhos. Aquilo lhe ensinou a não se surpreender com nada, ou, ao menos, com muito poucas coisas. O homem insistia em se chamar de pai dela, mas, para Maomao, seu pai era o “velho”, não aquele excêntrico delirante. No máximo, ele era o reprodutor que a gerou.
Ele tentava substituir o velho de Maomao, Luomen, e ser o pai dela em seu lugar, mas Maomao não aceitava isso de maneira alguma. Esse era um ponto em que ela não cederia. Todos no bordel lhe diziam que a mulher que a dera à luz não estava mais ali, dava menos trabalho assim. E, mesmo que estivesse viva, o que isso importava a Maomao? Maomao tinha seu velho; ela era filha de Luomen. E estava perfeitamente satisfeita assim.
Aquele homem não era o único responsável por ela. Na verdade, nesse aspecto, ela era grata a ele por isso. Ela não tinha lembranças da mãe, apenas de um demônio aterrorizante.
Quanto a como Maomao se sentia em relação a Lakan, talvez ela o odiasse, mas não guardava rancor. Ele era desajeitado em certas coisas, mas não era malicioso; ainda que, por vezes, fosse um tanto exagerado em suas reações. Se houvesse uma questão de perdão a ser resolvida, bem, havia pelo menos uma pessoa que tinha mais motivos para ressentir-se dele do que Maomao.
Talvez a madame já o tenha perdoado, pensou ela.
Ela se perguntou se o homem havia notado a carta dentro da caixa com a rosa. Aquela foi a maior concessão que Maomao foi capaz de fazer ao seu genitor. Bem, se ele nunca percebesse, tudo bem. Que ele comprasse a sua agradável cortesã irmã. Talvez isso fosse o melhor para todos.
— Não consigo deixar de pensar que certamente parecia que você o odiava.
— Isso é apenas porque o senhor ainda não o conhece muito bem, Mestre Jinshi.
Quando Maomao tentou entrar na cerimônia, foi Lakan quem a ajudou. Ela suspeitava que ele tivesse tido uma intuição de que algo iria acontecer. Ele nunca precisou olhar cenas ou reunir provas da maneira que Maomao fazia para prever acontecimentos iminentes. Ele parecia simplesmente ter um faro para isso. E seus palpites raramente estavam errados.
— Ele nunca o persuadiu a investigar um assunto que você normalmente não investigaria? — perguntou Maomao.
Jinshi ficou em silêncio diante disso, mas, pelo modo como então murmurou — Então era isso… — ela presumiu que tinha acertado. Talvez ele também fosse o motivo de Lihaku ter sido tão rápido em investigar Suirei, e de o Conselho de Justiça ter respondido de forma tão eficiente ao caso dela.
O único problema com aquele homem era que, por mais confusão que causasse aos outros, ele nunca parecia querer levantar um dedo para agir por conta própria. Só de imaginar o que poderia acontecer se ele estivesse disposto a se posicionar publicamente de vez em quando.
Talvez aquele remédio de ressurreição já estivesse ao alcance. O pensamento lhe causou uma dor profunda.
Ele não compreendia a genialidade com que havia sido abençoado. Em todo o país, havia pouquíssimas pessoas a quem o velho dela elogiaria de forma tão aberta e fervorosa. Maomao reconheceu esse sentimento: era inveja.
— Talvez seja impossível fazer dele um amigo, mas eu sugiro que o senhor também não faça dele um inimigo.
Ela quase cuspiu as palavras, então ergueu a mão esquerda e olhou para o dedo mínimo.
— Mestre Jinshi, o senhor sabe de uma coisa?
— O que foi?
— Se você corta a ponta de um dedo, ela cresce de novo.
— Você precisa mesmo dizer isso enquanto eu estou comendo?
Ele lançou um olhar severo, algo incomum nele, invertendo suas posições habituais.
— Mais uma coisa, então.
— Sim, o quê?
— Se aquele homem do monóculo algum dia lhe dissesse “Pode me chamar de papai”, como o senhor se sentiria?
Jinshi fez uma pausa e pareceu profundamente perturbado, outra expressão incomum nele.
— Minha nossa — disse Suiren, levando a mão à boca.
— Acho que eu teria vontade de arrancar aquele monóculo idiota do rosto dele e despedaçá-lo.
— Imagino que sim.
Jinshi pareceu entender onde Maomao queria chegar. Ele murmurou uma pergunta, algo sobre ser difícil ser pai. Ao lado dele, uma pontada de tristeza passou pelo rosto de Gaoshun. Talvez algo naquela conversa tivesse tocado um ponto sensível.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Maomao, e Gaoshun ergueu o olhar para o teto.
— Não. Apenas tenha em mente que nenhum pai no mundo deseja ser desprezado — disse ele suavemente.
Pois é, pensou Maomao, mas apenas levou a colher à boca, decidida a terminar o restante do mingau.
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