Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle Tokito

Revisão: Kessel


Volume 2

Capítulo 15: Retornando ao Palácio Interno

Eu costumava achar que não gostava daquele lugar, mas pelo visto, estava enganada, pensou Maomao, surpresa. Agora que finalmente estava de volta, descobria que a vida no palácio interno lhe era bastante agradável. Crescera em um lugar cheio de mulheres, então talvez simplesmente tivesse afinidade com o palácio.

Seus dias, mais uma vez, consistiam em provar comida, misturar remédios e dar pequenos passeios. Sua perna ainda não estava curada, e ela havia recebido instruções explícitas para não sair demais; mas, em sua opinião, estava bem, contanto que evitasse qualquer esforço que pudesse reabrir o ferimento. Para falar a verdade, seu braço esquerdo já provava que ela não era nem de longe tão frágil assim.

A questão da possível gravidez de Gyokuyou ainda não estava definitivamente resolvida. Quando estivera grávida da princesa Lingli, não sofrera de enjoos matinais severos e seus gostos alimentares mal haviam mudado. Além do atraso na menstruação, não havia qualquer outra evidência que confirmasse ou negasse.

Ainda assim, foi imposto silêncio absoluto no Pavilhão de Jade, para não correr riscos. Se houvesse alguém que não desejasse ver a Concubina Gyokuyou com um filho, certamente agiria logo no início, quando a gravidez está mais vulnerável. O veneno era apenas uma das muitas preocupações.

Para garantir, o velho tarado (isto é, o imperador) foi desaconselhado a manter atividades noturnas no Pavilhão de Jade por enquanto. Normalmente, isso não seria problema, mas desde que a Gyokuyou começou a colocar em prática as lições aprendidas no seminário das concubinas, o “normal” deixou de se aplicar. Não havia como prever o que poderia acontecer.

Talvez eu devesse ter pegado mais leve nas aulas, pensou Maomao. Mas, não. Então Gyokuyou e até o imperador acabariam insatisfeitos. Mesmo que o resultado de sua abordagem tivesse aterrorizado a Concubina Lishu e feito com que as mulheres da Concubina Lihua passassem a vê-la ainda mais como um monstro.

Naturalmente, Maomao hesitou em levantar o assunto com o próprio Imperador, dificilmente seria algo para uma criada mencionar a Sua Majestade, então comunicou-se por meio de Jinshi. Embora não pudesse sugerir aquilo de forma explícita, sua esperança era que o governante continuasse visitando Gyokuyou exatamente na mesma frequência de antes, nem mais, nem menos. Afinal, embora Gyokuyou não fosse a única concubina de Sua Majestade, se ele passasse a visitá-la menos de repente, algum observador perspicaz poderia farejar a verdade.

Para sua surpresa, o imperador continuou a visitá-la tão fielmente quanto antes, brincando com a adorável filha e passando o tempo em conversas casuais com Gyokuyou. Maomao se lembrou, assim como ouvira na história de Ah-Duo, que talvez não devesse simplesmente reduzir o imperador a um velho tarado. Ou, talvez, Sua Majestade compreendesse melhor as implicações de suas ações do que ela imaginava. Havia quem considerasse o atual governante uma espécie de rei sábio e, embora parte dessa reputação se devesse ao fato de que quase qualquer um pareceria competente depois do bufão que fora o imperador anterior, Maomao acreditava que o governante atual era realmente inteligente.

Não que isso importe para mim, pensou. Enquanto permitisse que a vida seguisse e não impusesse impostos absurdos, ela estava satisfeita. Alguns diziam que a diferença real entre um governante tolo e um brilhante era que o tolo acreditava que o povo era inesgotável, enquanto o brilhante compreendia que havia limites. Se fosse assim, então o imperador atual certamente seria do segundo tipo. Ainda assim, Maomao percebia as expressões solitárias que ele às vezes fazia e decidiu repassar a ele o restante de seu material de ensino. Serviriam para ajudá-lo a passar o tempo, no mínimo. (Nem era preciso dizer que tipo de material era esse.) Ela se certificou de ter à mão diversos livros diferentes, só por precaução, mas infelizmente nenhuma das damas de companhia se interessara por eles.

Ele vai ter que se contentar com duas dimensões... Maomao deixou os materiais em um lugar discreto, mas visível, e, felizmente, parece que o imperador os encontrou.

Alguns dias depois, quando recebeu a ordem de preparar mais desses “materiais”, decidiu que talvez “obcecado por sexo” fosse mesmo a melhor forma de descrevê-lo afinal.

Havia uma tendência a fofocas no palácio interno, provavelmente fruto do tédio gerado pela rotina interminável e pela falta crônica do sexo oposto. Assim, quando as damas de companhia não tinham muito o que fazer, reuniam-se na cozinha para conversar. O lanche era os restos do chá da tarde mais recente, naquele dia, longxutang, um doce de fios delicados que derretiam na boca, conhecido como “barba de dragão”. Este em especial tinha folhas de chá misturadas, o que lhe dava um aroma suave.

— Eu não acreditei naquela roupa, você acreditou? — comentou Yinghua, uma das damas do Pavilhão de Jade, com a boca cheia de doce. Era uma mulher confiante, sempre disposta a dizer o que pensava.

— É verdade. Mas aquela que ela usou há pouco tempo, eu achei bonita. Roupas ocidentais é tão legal, não é? — disse Guiyuan em um tom brando. Ela sorria, feliz apenas por saborear a guloseima.

— Roupas assim escolhem suas próprias donas — observou Ailan. — Mas nela nunca ficam mal. — A dama alta e esguia não era fã de doces, limitando-se a beber um pouco de chá.

Yinghua, ferida pela falta de apoio das amigas, voltou-se para sua última esperança: Maomao.

— Sim, claro — disse Maomao, acenando com a cabeça, mas pensando em como detestava se meter naquelas disputas. E foi só até aí que se envolveu na conversa.

Desapontada com a falta de reforço, Yinghua inflou as bochechas.

— Bom, eu achei que a Concubina Ah-Duo era muito mais estilosa.

Ela tomou um gole irritado de chá sem desfazer a expressão emburrada. Guiyuan e Ailan sorriram uma para a outra.

— Ah! Então você sempre foi do time da Ah-Duo, Yinghua!

— E-eu não fui, não! — exclamou Yinghua.

Ailan apenas sorriu de canto.

— Não precisa esconder. Eu sei que servimos Lady Gyokuyou, mas ninguém a culparia por sentir isso.

— Eu não sinto nada disso!

Maomao escutava o papo das garotas enquanto terminava seu chá. Preferia petiscos salgados; o doce fibroso era açucarado demais para o seu gosto. Adoraria ter alguns biscoitinhos de arroz salgados para limpar o paladar.

Quanto à pessoa de quem Yinghua e as outras falavam, era a recém-chegada concubina Loulan. Ela tinha uma peculiaridade que bastava para inspirar comentários: suas roupas. Praticamente todas as vezes que aparecia, estava com um traje de estilo diferente. Em um dia, usava um vestido ocidental; no seguinte, parecia saída de uma tribo guerreira.

Gostaria de saber qual é a história dela, pensou Maomao. Talvez só tenha dinheiro demais. Se continuar mudando de roupa nesse ritmo, logo seu pavilhão estará abarrotado de vestes. O outrora austero Pavilhão de Granada já havia mudado a ponto de ficar irreconhecível, como se a nova moradora tivesse a intenção de banir de vez o espírito de Ah-Duo.

Era ao mesmo tempo o certo e o errado a se fazer. Por um lado, no palácio interno só se avançava chamando a atenção; por outro, o prego que sobressaía, como diziam, era o que levava martelada. Loulan poderia ter sido esse prego em circunstâncias normais, mas seu pai era um importante conselheiro desde os tempos do imperador anterior, então, por assim dizer, não havia martelo grande o bastante para abatê-la.

Isso explica muita coisa, pensou Maomao. É mais que suficiente para ter afastado a Ah-Duo. Considerando a idade de Loulan, talvez até tenha parecido um pouco tardio.

Então, Maomao teve outro pensamento: não teria sido até mais conveniente para o imperador se Ah-Duo tivesse permanecido no palácio? Como jamais poderia ser mãe do país, seu olhar era sempre direto; ela era tão perspicaz e inteligente que alguém poderia até desejar que tivesse nascido homem. E agora, de uma só vez, o imperador perdera uma excelente conselheira e ganhara uma jovem capaz de influenciar não apenas o palácio interno, mas também a própria corte. Talvez não lhe parecesse a troca mais vantajosa.

Ele não poderia simplesmente ignorá-la, mas também não seria necessariamente benéfico a ele aproximar-se demais de Loulan e fazê-la conceber um filho. Afinal, o poder de um apoiador de uma concubina só era relevante durante a menoridade da criança. Uma vez que o menino se tornasse imperador, ou tivesse um filho próprio, tal pessoa podia acabar se tornando totalmente descartável.

E o que isso significava, então? Maomao ponderava as possibilidades enquanto se servia de mais uma xícara de chá da pequena chaleira.


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Kessel: O "velho tarado" certamente agradeceu bastante aos céus pela chegada da Maomao... ela melhorou e muito a vida dele.

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