Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: Noelle Tokito

Revisão: Kessel


Volume 2

Capítulo 13: A Erva-do-Diabo

Era uma sensação agradável, como se seu corpo estivesse sendo embalado suavemente. Um leve aroma de incenso refinado lhe roçava o nariz. O balanço fazia com que se sentisse como uma criança no berço, mas logo cessou, e ela percebeu que estava sendo deitada em algo macio.

Depois disso, o tempo passou, mas ela não sabia exatamente quanto.

Onde estou? Maomao pensou, ao despertar. Quando abriu os olhos, encontrou um dossel glorioso acima de sua cabeça. Reconheceu-o, afinal, tinha de limpá-lo todos os dias.

Sentiu novamente o incenso, o mais puro sândalo. Aquele era o quarto de Jinshi, e isso significava que Maomao estava deitada em sua cama.

— Ah, você acordou — disse uma voz calma e suave. Era de uma criada já na primeira fase da velhice, reclinada em um divã próximo. Ela se levantou, pegou uma jarra de água sobre uma mesa redonda e encheu generosamente um copo. — Foi o mestre Jinshi quem a trouxe aqui, sabia? Ele não suportou deixá-la repousar no consultório médico. — Suiren deu uma risadinha e entregou o copo a Maomao.

Maomao levou-o aos lábios. Estava com roupas de dormir. (Quando aquilo tinha acontecido?) Uma dor aguda latejou em sua cabeça, e ao mesmo tempo sua perna parecia prestes a se contrair em cãibra.

— Agora, não se esforce. Você precisou de quinze pontos.

Maomao afastou as cobertas e encontrou um curativo enrolado em sua perna esquerda. A dor surda indicava que haviam lhe dado algum tipo de analgésico. Tocou a própria cabeça: mais ataduras.

— Sinto muito perguntar isso logo após seu despertar, mas posso trazer os outros para vê-la agora? Podemos lhe dar alguns minutos, se quiser trocar de roupa.

Maomao viu que seu traje habitual estava dobrado cuidadosamente ao lado da cama. Assentiu em concordância.

Suiren conduziu Jinshi e Gaoshun, acompanhados de Basen. Maomao já havia conseguido vestir suas roupas; ela os recebeu, mas permaneceu sentada. Uma quebra de etiqueta, ela sabia, mas Suiren lhe dera permissão, e Maomao decidiu, nesse caso, aceitá-la.

Basen foi o primeiro a abrir a boca:

— O que diabos está acontecendo aqui? — Ele fitava Maomao diretamente, com uma raiva incomum.

— Basen — disse Gaoshun em tom severo. O soldado apenas estalou a língua e se sentou. Jinshi acomodou-se no divã, a expressão cuidadosamente neutra.

Seu senhor correra perigo considerável, afinal, pensou Maomao. Mas ela não fizera nada que justificasse ser repreendida, então apenas tomou sua água morna, com uma expressão tão fria quanto a bebida.

Jinshi olhou para Maomao, com as mãos recolhidas nas mangas.

— Gostaria que me explicasse algumas coisas. O que a levou àquele lugar, naquela hora? Como soube que a viga cairia? Diga-me.

— Muito bem, senhor. — Maomao pousou o copo e respirou fundo. — Antes de tudo, esses acontecimentos se encontram na confluência de uma série de coincidências. Quando coincidências demais se acumulam, pode-se suspeitar que não sejam acidentes, mas sim incidentes.

Maomao já conhecia vários casos relacionados. Havia a morte de Kounen no ano anterior. Depois, o incêndio que surgira no armazém, ao mesmo tempo em que instrumentos de rituais haviam sido roubados. Por fim, o próprio oficial que supervisionava tais objetos adoeceu repentinamente com intoxicação alimentar.

— Então você acredita que alguém causou deliberadamente todas essas coisas?

— Sim, senhor, acredito. E penso que há mais uma conexão, que antes eu havia negligenciado.

Maomao não sabia exatamente o que fora roubado, mas devia ser algo ligado à celebração de um ritual importante. Algo sem dúvida produzido por um mestre artesão. E, recentemente, ela ouvira falar de um...

— Você não está dizendo... a família do ferreiro? — Jinshi exclamou, surpreso.

Maomao sabia que ele era rápido.

— Exato — respondeu.

Ela tinha uma boa ideia do que matara o velho artesão. Suspeitava de envenenamento por chumbo. Seria fácil descartar como risco ocupacional, mas havia sempre a possibilidade de algo mais. Era concebível que até isso tivesse sido intencional. Oferecer-lhe vinho em uma taça de chumbo, depois esperar que ele definhasse. Esse seria um método; havia outros.

— O velho não ensinou pessoalmente aos seus aprendizes, seus filhos, sobre sua descoberta mais secreta. Era possível que a arte tivesse ido com ele para o túmulo, um enigma que ninguém mais resolveria. Alguém pode ter achado isso bastante conveniente.

Isso implicava que quem quer que fosse já entendia a técnica em questão. Não precisava conhecer exatamente o processo, apenas o efeito.

— Então acredita que os instrumentos roubados foram produzidos pelo artesão morto? — perguntou Jinshi, mas Maomao balançou a cabeça.

— Não, senhor. Na verdade, acredito no oposto: que os implementos roubados foram substituídos por algo produzido por esse artesão.

Maomao pegou papel e pincel e desenhou rapidamente. No centro, um grande altar acompanhado por um braseiro de ferro, enquanto uma viga pendia do teto. Cordas estavam presas a cada extremidade da viga, passando por roldanas no teto e fixadas ao chão por grampos de metal.

— Se vários instrumentos de rituais desapareceram, talvez possamos presumir que outras partes também se foram. Peças elaboradas, eu diria.

— Parece uma possibilidade razoável — comentou Gaoshun, embora não soasse totalmente convencido. Provavelmente não tinha todas as informações, afinal, aquilo estava fora da jurisdição de Jinshi.

— Pelo que me lembro, os fios que sustentavam a viga passavam bem ao lado do braseiro. Suponha que os grampos que os mantinham no lugar tenham sido feitos para ceder quando aquecidos...

— Ridículo — resmungou Basen. — Já saberíamos disso há muito tempo. Jamais usariam algo que pudesse pegar fogo perto do altar.

— E, no entanto, a viga caiu — retrucou Maomao. — Justamente porque os grampos se romperam.

Jinshi concordou com Basen:

— Eles não deveriam se romper, não importa o calor. Foram feitos para resistir a altas temperaturas!

— Romperam-se — reiterou Maomao. — Ou, mais especificamente, derreteram.

Todos a olharam.

Maomao decidiu revelar o que descobrira sobre a arte secreta do falecido artesão.

— Muitos metais, sozinhos, derretem apenas em temperaturas elevadas. Mas, misturados, acredite ou não, é possível criar uma substância que funde em temperaturas mais baixas.

A técnica já existia há muito tempo, mas tais ligas ainda exigiam calor considerável. Esse era o ponto crucial da descoberta do velho: a proporção que aperfeiçoara derretia o metal a uma temperatura bem mais baixa que o normal. Seria suficiente, por exemplo, se o metal estivesse perto de um braseiro aceso...

O silêncio caiu sobre o aposento. O único som vinha de Suiren, que preparava o chá com naturalidade.

Os construtores do altar deviam ter jurado que a viga jamais cairia. Do contrário, uma estrutura assim nunca teria sido aprovada. Afinal, pessoas importantes ficavam debaixo dela para realizar cerimônias. Se Maomao não tivesse ligado os pontos, havia uma chance real de que Jinshi estivesse morto agora. Não que ela tivesse esperado encontrar justamente ele em pé ali.

Quem é esse cara? Perguntou-se. Mas sentia que sua posição estava longe de ser alta o bastante para verbalizar aquilo; preferiu calar. Além disso, suspeitava que conhecer a resposta só traria mais problemas.

Parecia-lhe mais razoável assumir que havia alguma ligação, direta ou indireta, entre todos esses eventos. Alguém estava puxando os fios.

— Já disse tudo o que eu podia dizer — declarou. Agora que tinham a informação, presumia que Jinshi e os outros iriam atrás dos envolvidos. Havia chance de Lihaku já estar trabalhando nisso.

A imagem da mulher alta passou pela mente de Maomao.

Não tem nada a ver comigo, pensou, balançando a cabeça devagar e baixando os olhos ao chão. Ainda assim, não conseguia se livrar da lembrança da expressão distante da mulher: como se já não importasse o que acontecesse, contanto que algo acontecesse. Também a incomodava o que ela lhe dissera naquele pequeno jardim.

Um remédio para ressuscitar os mortos...

Não demorou para receberem notícias de Lihaku. Como Maomao previra, sua mensagem dizia respeito à dama Suirei.

Suirei, ao que parecia, havia ingerido veneno e morrido.

Maomao ficou atônita com o fim abrupto da vida daquela mulher; de algum modo, não fazia sentido para ela. Quando o Conselho da Justiça, os oficiais responsáveis por fazer cumprir a lei, reuniu as provas e irrompeu no quarto de Suirei, encontraram-na caída em sua cama. Um cálice de vinho virado fora confirmado como contendo veneno. O médico foi chamado para realizar o inquérito e atestou oficialmente a morte.

Como criminosa, Suirei seria punida no caixão, já que não podia sê-lo em vida. Após um dia e uma noite, seria queimada, isto é, cremada. No momento, aguardava sua punição no mesmo local destinado aos que morriam na prisão.

Maomao não sabia se o Conselho conseguira agir tão rápido porque Lihaku havia reunido provas de forma exemplar, ou se já vinham investigando o caso havia algum tempo. Mas, no fim, apenas Suirei foi nomeada como conspiradora. Isso a deixou intrigada: teria ela arquitetado um plano tão elaborado sozinha? A ideia não parecia muito convincente.

Talvez ela tenha sido apenas um bode expiatório? Talvez. Mas havia algo mais básico que incomodava Maomao. Será que Suirei realmente aceitaria aquilo? Elas não haviam se conhecido muito bem. Maomao não era tão boa leitora de pessoas a ponto de entender quem alguém realmente era em tão pouco tempo de convivência. Sempre era possível que a apatia de Suirei tivesse origem numa falta de vontade de viver.

Ainda assim, algo martelava na mente de Maomao. Era o tom que Suirei adotara ao falar, como se estivesse testando Maomao. Não, não posso me guiar apenas pela intuição. Preciso ter certeza. Mas Maomao não tinha como ter certeza; tudo o que podia fazer era voltar em silêncio às suas tarefas diárias. Tal qual era o destino de uma criada.

Pelo menos em teoria...

Mas sua curiosidade falou mais alto.

— Mestre Jinshi, tenho um favor a lhe pedir. — Essa foi sua jogada inicial. — Gostaria de falar com o médico que realizou a autópsia. De preferência, no necrotério.

Para a perplexidade de Jinshi, o rosto de Maomao, ao dizer isso, quase se transformou em um sorriso.

O necrotério era sombrio, impregnado pelo fedor da morte. Pela lei do país, ninguém que morresse na prisão podia ser enterrado; devia ser cremado. Vários caixões estavam empilhados em um canto, guardando criminosos à espera de seu destino. O caixão de Suirei estava um pouco afastado dos demais, com uma etiqueta preta e branca pendurada nele.

Jinshi e Gaoshun estavam presentes. Gaoshun parecia não gostar da presença de Jinshi no necrotério, mas se ele desejava estar ali, Gaoshun não podia impedi-lo.

O médico, ao ser chamado, trazia no rosto uma expressão tão sombria quanto o próprio necrotério. Maomao não o culpava: uma dama com quem ele tivera boas relações estava morta, e ainda tratada como criminosa. Mas será que era só isso? Maomao refletiu. Se ele fora o responsável pela autópsia, talvez soubesse de algo que ninguém mais sabia. E Maomao tinha um palpite do que poderia ser.

Ela foi direto ao ponto:

— O veneno que aquela mulher tomou. Entre os ingredientes, por acaso havia estramônio?

[N/T: Essa planta venenosa possui diversos nomes, sendo os mais comuns: estramônio, erva-do-diabo (o nome do capítulo) ou trombeta-do-diabo. O nome científico da espécie é: Datura stramonium, só que mais adiante, vocês lerão ainda um outro nome usado na obra, o glória-da-manhã sombria.]

Ela observava o médico da cadeira onde estava sentada; Gaoshun a preparou para ela, por conta da perna ferida. Um enxadão se apoiava na parede ao lado do médico. Isso também havia sido providenciado por Gaoshun a pedido de Maomao. Jinshi não parava de lançar olhares curiosos para a ferramenta, como se quisesse saber sua utilidade, mas seria trabalhoso demais explicar, então Maomao o ignorou.

O médico empalideceu quase antes de conseguir responder. Ainda assim, recusou-se a ser explícito, apenas balançando a cabeça.

— O veneno continha diversos ingredientes, e é difícil determinar quais exatamente. Pelo estado do corpo, eu diria que a possibilidade é clara, mas não posso afirmar com certeza.

A resposta foi surpreendentemente firme e lúcida, considerando o quanto ele empalidecera diante da sugestão. E, até onde ia, dizia a verdade, concluiu Maomao. Ela própria não soubera os ingredientes envolvidos quando avaliara o caso.

— Atrás dos estábulos, em uma colina, há um campo, como você deve saber. Não há estramônio plantado lá? Talvez não esteja em época agora, mas não posso imaginar que a farmácia não tenha algum em estoque.

O estramônio era altamente venenoso, mas em dose controlada podia agir como anestésico. Suponha que Suirei tenha pegado um pouco no consultório do médico.

O homem permaneceu em silêncio. Era um excelente médico, Maomao concluíra. Mas não um bom mentiroso.

O estramônio tinha outro nome: glória-da-manhã sombria. Maomao se lembrou da fala apática de Suirei, quando lhe dissera que plantava glórias-da-manhã naquele campo.

— Então, vamos confirmar se esse veneno em particular estava envolvido. — disse isso, pegou o enxadão e avançou em direção ao caixão com a etiqueta preta e branca.

— O que pensa que está fazendo?

— Isto!

Ela cravou o enxadão sob a tampa do caixão e pressionou o cabo. Um dos pregos que selavam a tampa se soltou. Os outros assistiram, atônitos, enquanto Maomao trabalhava. Quando todos os pregos haviam sido removidos, levantaram a tampa e revelaram o corpo de uma mulher. Parecia alguma infeliz andarilha noturna que morrera sob uma ponte.

— Não é... Suirei? — disse o médico, inclinando-se sobre o caixão. Estava visivelmente abalado; sua mão tremia ao tocar a madeira.

Se está fingindo surpresa, então é um ator de primeira, pensou Maomao.

— Essa mulher, Suirei... tem certeza de que estava morta?

— Sim. O mais inexperiente dos amadores teria percebido. Ela estava tão bela quanto em vida. Mas o coração por trás daquela beleza já não batia. — O rosto do médico continuava pálido. Maomao suspeitava que ele tivesse tratado o corpo de Suirei com cuidado. E suspeitava também que Suirei contara com isso. Sabia que ele não sentiria a necessidade de abri-la para descobrir exatamente qual veneno tomara.

— Em outras palavras, doutor, ela o usou.

O médico passou de pálido a furioso. Quando parecia prestes a perder o controle e investir contra Maomao, Gaoshun o segurou por trás.

Suirei havia usado estramônio no veneno. E ela também tinha acesso a muitos outros medicamentos, se quisesse. Se conferissem os estoques do consultório, provavelmente encontrariam discrepâncias com o inventário. O pior de que poderiam acusar o médico era de não vigiar bem seus suprimentos, supôs Maomao.

— Explique isso — disse Jinshi, estreitando os olhos. — Por que não é o corpo da condenada que está ali?

— Porque as pessoas achariam estranho se não houvesse nada no caixão, mesmo que fosse para ser queimado — disse Maomao.

Haviam vários caixões no necrotério. Alguns, sem dúvida, continham corpos destinados à cremação, assim como supostamente seria o de Suirei. Caixões novos viriam juntos, naturalmente. Havia movimento suficiente para que um corpo substituto fosse preparado e os dois trocados.

— Então, o que aconteceu com o corpo de Suirei? Não poderia ter sido carregado para fora; alguém teria notado.

— Não precisava ser carregado. Ela saiu com as próprias pernas.

O choque silenciou a plateia de Maomao.

— Você poderia me ajudar a verificar aqueles caixões? — disse ela a Gaoshun. Teria feito isso sozinha, mas sua perna latejava. Gaoshun não vacilou. Atento, percebeu algo estranho em um dos caixões. Retirou o de cima para liberar o suspeito. Normalmente seriam necessários ao menos dois homens para movê-lo, mas Gaoshun era forte o bastante para empurrá-lo sozinho.

Maomao aproximou-se do caixão que Gaoshun havia liberado, arrastando a perna.

— Veja aqui a marca do prego. Suspeito que este tenha sido o caixão de Suirei. Ela ficou deitada aqui, à espera do resgate.

Quando a ajuda chegou, Suirei já respirava novamente. Assim que foi libertada, trocaram os caixões e Suirei escapou do necrotério disfarçada como um dos homens encarregados de carregar os mortos. As pessoas evitavam ao máximo olhar para quem fazia esse trabalho impuro, e a incomumente alta Suirei poderia facilmente passar por um homem.

Agora Maomao perguntou ao médico:

— Sabia que existem medicamentos capazes de fazer uma pessoa parecer morta?

Ele abriu a boca, atônito, mas por fim respondeu:

— Já ouvi falar. Mas não faço ideia de como prepará-los.

Seria fácil descartar a ideia de uma “droga da ressurreição” como fantasia, mas isso não era totalmente verdade. Havia substâncias capazes de produzir um efeito muito semelhante ao de voltar da morte.

— Lamento ouvir isso — disse Maomao. — Eu mesma não conheço os detalhes. No entanto, ouvi dizer que os ingredientes incluem estramônio e veneno de baiacu.

Uma vez, apenas uma, seu velho lhe contara uma história. Em um país distante, dizia ele, havia um remédio capaz de matar uma pessoa e depois trazê-la de volta à vida. Exigia vários outros venenos além do estramônio e do veneno de baiacu. Essas substâncias, normalmente letais, de alguma forma se neutralizam, de modo que, após um breve período, o indivíduo voltava a respirar.

Naturalmente, o pai de Maomao jamais preparara a tal droga, e não tinha a menor intenção de ensinar-lhe como fazê-lo. O fato de ela saber do estramônio e do baiacu devia-se apenas a leituras secretas de um livro dele. Evidentemente, o velho nunca imaginara que ela pudesse ler a escrita daquele país estranho e distante. Fora culpa dele subestimá-la, ou, pelo menos, subestimar sua obsessão por venenos. Maomao convencera alguns clientes daquela terra a lhe ensinar, pouco a pouco, reunindo um conhecimento funcional da língua. Infelizmente, o pai descobrira a artimanha antes que ela terminasse a leitura e simplesmente queimara o livro.

— Acha mesmo que Suirei teria recorrido a um método tão incerto? — perguntou o médico.

— O que ela tinha a perder? Estava diante da pena de morte. Se eu estivesse em seu lugar, aceitaria essa aposta de bom grado.

— Acho que não seria preciso uma catástrofe iminente para fazê-la tentar. — Por que Jinshi parecia tão ansioso em se intrometer? Maomao o ignorou, antes que desviasse o rumo da conversa.

— O fato de não haver corpo aqui sugere que ela venceu a aposta. Se ninguém tivesse pensado em verificar antes da cremação, sua vitória teria sido completa.

Eu só não deixei que ela escapasse, pensou Maomao. Sorriu enquanto fitava o caixão. Dentro dele jazia uma mulher anônima, morta sabe-se lá de quê. Não parecia haver motivo para sorrir. Ela era descuidada. Maomao não era tola a ponto de lamentar a morte de uma completa estranha. Havia coisas mais importantes a considerar.

A risada brotou do fundo de seu ventre, heh heh heh. Algo crescia dentro dela, ameaçando tomar todo o seu corpo. — Se ela está viva, adoraria conhecê-la — disse Maomao, sem se dirigir a ninguém em particular. Não, não para prender a mulher. Por outro motivo totalmente diferente.

Era a astúcia que Suirei devia ter para fazer tantos casos parecerem acidentes, a coragem de levar o plano adiante. E, acima de tudo, o sangue-frio de apostar a própria vida na esperança de enganar a todos.

Que desperdício seria, concluiu Maomao, para uma pessoa assim simplesmente bater as botas. Sim, houveram vítimas por causa dela, mas Maomao não podia negar o que sentia.

A droga da ressurreição. Preciso saber como fazê-la!

O pensamento quase a dominou. Talvez foi por isso que começou a gargalhar. Os três homens no recinto a olharam com desconfiança.

Por fim, Maomao pigarreou e olhou para o médico.

— Perdoe-me, mas poderia costurar minha perna? Parece que a ferida abriu novamente. — Ela passou a mão pela perna como se não tivesse acabado de arrastá-la por todo lado. As bandagens estavam encharcadas de sangue.

— Avise isso antes de desaparecer em gargalhadas! Antes! — exclamou Jinshi, sua voz agitada ecoando pelo necrotério.


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Kessel: E então a Maomao visitou a cama do Jinshi... talvez não da forma que gostaríamos, mas tá valendo, hehe.

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