Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 7: Galho

As quatro damas de companhia que sempre acompanhavam a concubina Gyokuyou eram excepcionalmente trabalhadoras. O Pavilhão Jade não era o lugar mais espaçoso, mas as quatro conseguiam manter tudo em ordem. As servas do “Shangqin”, que são o Serviço de Limpeza do palácio interno, eram encarregadas de manter os quartos limpos nas vezes que vinham, mas na maior parte do tempo, eram as quatro damas de companhia que cuidavam de toda a limpeza e organização. É preciso dar ênfase nisso pois não é um trabalho que as damas de companhia são normalmente designadas a realizar. 

Dessa forma, tudo isso significava que não havia muito o que Maomao precisasse realizar além de provar comidas. Nenhuma das outras damas pediu para que Maomao realizasse nada no palácio, exceto Hongniang. Talvez elas se sentissem mal por Maomao ter ficado com um trabalho tão desagradável, ou talvez simplesmente não quisessem que ela invadisse o seu território. Independentemente do motivo, mesmo quando Maomao se oferecia para ajudá-las, gentilmente recusavam com um: — Ah, não se preocupe com isso — e a incentivavam a voltar para o seu quarto. 

Como eu vou me adaptar aqui?

Dentro de seu quarto ela era chamada duas vezes por dia para as refeições, uma vez para o chá da tarde e, a cada poucos dias, para experimentar banquetes refinados oferecidos ao Imperador quando ele vinha visitar a sua concubina. Isso era tudo. Hongniang tinha a gentileza de tentar encontrar pequenas tarefas para Maomao realizar, mas elas nunca eram difíceis e não ocupavam muito de seu tempo. 

Além do seu trabalho de provar alimentos, ela percebeu que sua própria alimentação havia melhorado: as refeições estavam mais elaboradas. Eram oferecidos doces no chá, e quando havia sobras elas eram enviadas a Maomao. E como ela não trabalhava mais como uma formiga como antes, todos aqueles nutrientes ficaram parados no seu corpo, ou seja, ela engordou. 

Me sinto igual a um tipo de gado.

Sua nova função como provadora de alimentos trouxe consigo uma coisa que Maomao não gostava muito. Ela sempre foi bastante magra, mas isso significava que o veneno a faria definhar mais rapidamente, seria mais difícil de detectar. Além disso, a dosagem de toxicidade de um veneno é proporcional ao tamanho do corpo. Um pouco de peso extra poderia aumentar as suas chances de sobrevivência. 

Na mente de Maomao não teria uma forma de ela deixar passar um veneno tão poderoso que a fizesse definhar, e, ao mesmo tempo, ela estava confiante de que poderia sobreviver a uma dose normalmente fatal de muitas toxinas. Mas ninguém ao seu redor parecia compartilhar do seu otimismo. Eles só conseguiam enxergar uma garota pequena e delicada sendo tratada como peão descartável, e tinham pena dela por isso. E assim, eles a alimentavam com mingau mesmo depois que ela já estava satisfeita, e sempre lhe davam uma porção extra de vegetais. 

Elas me lembram as garotas do bordel. Maomao podia ser considerada fria, reservada e pouco sentimental, mas por alguma razão as mulheres sempre adoravam ela. Elas sempre tinham um petisco extra para oferecer para ela. 

Embora Maomao não percebesse, havia uma razão para as pessoas serem tão gentis com ela. Ao longo do seu braço esquerdo havia diversas cicatrizes. Cortes, facadas, queimaduras e perfurações repetidas que pareciam de agulha. Assim, para as pessoas, Maomao parecia uma garota pequena e magra demais, com feridas no braço. Seus braços estavam frequentemente enfaixados, seu rosto às vezes pálido, e de vez em quando ela desmaiava. As pessoas simplesmente assumiam, com lágrimas nos olhos, que sua frieza e reticência eram resultados naturais do abuso que havia sofrido até aquele momento de sua vida. Ela havia sido abusada, eles tinham certeza. Mas estavam errados, Maomao havia feito tudo isso em si mesma. 

Ela estava muito interessada em descobrir os efeitos de diversos medicamentos, analgésicos e outras misturas em primeira mão. Ela ingeria pequenas doses de veneno para se acostumar a eles, e era conhecida por deixar que cobras venenosas lhe mordessem. Quanto aos desmaios, bem, ela nem sempre acertava nas dosagens. Era por isso que as feridas se concentravam em seu braço esquerdo: ela preferia usá-lo do que utilizar o seu braço dominante, o direito. 

Nada disso tinha surgido por alguma tendência masoquista pela dor, isso foi alimentado inteiramente pelo interesse de uma menina cuja curiosidade intelectual se inclinava um pouco para a direção de medicamentos e venenos. Tinha sido difícil para o seu pai lidar com ela durante toda a sua vida. Sim, foi ele que ensinou Maomao a ler e a escrever, além de iniciá-la na medicina, na esperança de que ela encontrasse um caminho na vida além da prostituição, mesmo tendo sido obrigado a criá-la nos arredores do Distrito da Luz Vermelha. Quando descobriu que tinha uma aluna muito aplicada em suas mãos, já era tarde demais, as calúnias sobre ele já tinham começado a se espalhar. Havia algumas pessoas que compreendiam, mas apenas algumas; a maioria lançava olhares frios e duros ao pai de Maomao. Nunca imaginaram, nem por um momento, que uma menina da idade dela pudesse se automutilar em nome de seus experimentos. 

E assim a história parecia estar completa: depois de sofrer longos anos de abusos nas mãos de seu pai, essa pobre criança foi vendida para o palácio interno, onde agora seria sacrificada para descobrir veneno na comida da concubina. Uma história realmente triste.

E da qual a protagonista não tinha a menor ideia.

Nesse ritmo vou ficar gorda! Quando Maomao começou a se preocupar com essa possibilidade, suas angústias foram agravadas por uma visita indesejada.

— Está bastante tarde para você estar aqui — disse a concubina Gyokuyou quando um recém-chegado entrou na sala. 

O visitante era o eunuco que parecia uma ninfa celestial, desta vez acompanhado por um dos seus companheiros. O lindo jovem evidentemente fazia visitas de rotina aos aposentos das concubinas superiores. Maomao provou os doces que o eunuco companheiro trouxe para verificar se estavam envenenados, e, em seguida, retirou-se discretamente para trás da concubina Gyokuyou que estava reclinada em uma longa poltrona. Maomao estava substituindo Hongniang, que tinha ido trocar a fralda da princesa. Esses homens até podiam ser eunucos, mas ainda assim não tinham permissão para se apresentar à concubina sem a presença de uma dama de companhia. 

— Sim, há rumores de que as tribos de bárbaros foram subjugadas com sucesso.

— É mesmo? E o que irá acontecer agora? — Os olhos de Gyokuyou brilhavam de curiosidade, este assunto era mais do que suficiente para despertar o interesse de um pássaro na gaiola que era o palácio interno. Mesmo sendo a favorita do Imperador, Gyokuyou ainda era jovem, não mais do que dois ou três anos mais velha que a Maomao, pelo que a Maomao sabia. 

— Não tenho certeza se é apropriado discutir isso na frente de uma Lady como você.... 

— Eu não estaria aqui se não pudesse suportar tanto o belo quanto o terrível deste mundo — disse Gyokuyou com ousadia. 

Jinshi olhou para Maomao avaliando de forma rápida. Ele insistiu que não havia nada de interessante no assunto, mas continuou falando do mundo fora da gaiola. 

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Alguns dias antes, um grupo de guerreiros tinha sido enviado com a informação de que uma tribo estava tramando algo de ruim novamente. Este país em sua grande maioria é pacífico, mas questões como essa às vezes perturbavam a tranquilidade. 

Os guerreiros conseguiram repelir os bárbaros que se aventuraram no território, quase sem nenhuma baixa. O problema começou mesmo no caminho de volta para casa. A comida do acampamento estava contaminada e quase uma dúzia de homens teve intoxicação alimentar. Muitos outros ficaram terrivelmente desmoralizados. Eles tinham obtido os mantimentos em uma aldeia próxima pouco antes de se depararem com os bárbaros. As aldeias nesta área eram tecnicamente parte da nação de Maomao, mas historicamente, ainda possuíam laços distantes com as tribos bárbaras.

Um dos soldados armados prendeu o chefe da aldeia. Diversos aldeões que tentaram resistir foram mortos no local por conspirarem com bárbaros. O restante dos aldeões descobriria seus destinos após a decisão do que aconteceria com o seu chefe. 

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Depois de Jinshi contar o resumo dos acontecimentos, Jinshi tomou um gole de chá. 

Isso é um absurdo. Maomao queria agarrar a cabeça com as mãos. Ela desejava nunca ter ouvido a história. Havia tantas coisas no mundo que seria melhor não saber. O eunuco percebeu a ruga em sua testa e voltou o seu belo rosto para ela. 

Não olhe para mim.

Ah, se os desejos fizessem as coisas acontecerem.

Os lábios de Jinshi formaram um arco suave ao perceber a expressão de Maomao. Ele parecia estar quase a testando com o seu sorriso. — Alguma coisa em mente?

Era como se fosse quase uma ordem para ela dizer alguma coisa, então ela teve que encontrar algo para falar. 

Será que isso vai fazer alguma diferença? Ela se perguntou. Mas uma coisa era certa: se ela não dissesse nada, pelo menos uma vila desapareceria do mapa da fronteira. 

— Só estou dando minha opinião pessoal — disse Maomao pegando um galho de um vaso próximo no qual algumas flores estavam organizadas. Esse galho, que não tinha flores, era de um rododendro. O mesmo tipo de galho no qual Maomao havia deixado a sua mensagem. Ela arrancou uma folha e colocou na boca. 

— É saboroso? — Perguntou a concubina Gyokuyou, mas Maomao balançou a cabeça. 

— Não senhora. Tocá-lo pode causar náuseas e dificuldade para respirar. 

— E mesmo assim você acabou de colocá-lo na boca — disse Jinshi com um olhar profundo. 

— Não se preocupe — disse Maomao ao eunuco, colocando o galho sobre a mesa.  — Veja bem, existem diversas plantas aqui nos jardins do palácio interno que são venenosas. O veneno do rododendro está nas folhas, mas outras podem possuir toxinas nos seus troncos e raízes. Algumas liberam veneno simplesmente se você queimar. — Maomao suspeitava que essas dicas seriam suficientes para levar os eunucos e a inteligente Gyokuyou aonde ela queria que eles fossem. 

Apesar de duvidar que fosse necessário, ela continuou: — Quando os soldados acampam, eles fazem seus hashis e suas fogueiras com materiais locais, não é verdade? 

— Ah — disse Jinshi. 

— Mas isso... — acrescentou Gyokuyou. 

Isso significava que os aldeões tinham sido punidos injustamente. 

Maomao observou Jinshi esfregar o queixo pensativamente. 

Não sei o quão importante é esse Jinshi… 

Mas ela esperava que ele pudesse ajudar de alguma forma, por menor que fosse. Hongniang retornou para a sala com a princesa Lingli e então Maomao se retirou da sala.

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