Diários de uma Apotecária Japonesa

Tradução: noelletokito

Revisão: Kessel


Volume 1

Capítulo 6: A Provadora de Venenos

Jinshi achou essa reviravolta muito agradável. A estranha garota que ele descobriu por acaso agora o ajudaria a resolver alguns dos muitos problemas que ele tinha. 

A Lady Gyokuyou, a concubina favorita do Imperador, era servida atualmente por apenas quatro damas de companhia. Isso poderia ser suficiente para uma concubina de pouca importância, mas para uma concubina de escalão tão alto como ela, parecia ser muito pouco. Mas as suas damas de companhia insistiam que as quatro conseguiam realizar perfeitamente o trabalho, e a própria Gyokuyou parecia inclinada a não pressionar por mais servas. 

Mas Jinshi compreendia perfeitamente por que isso acontecia. A concubina Gyokuyou era uma pessoa muito alegre, geralmente muito tranquila, mas também era uma pessoa muito inteligente e cuidadosa. No jardim das mulheres do palácio interno, uma mulher que recebia o favor imperial e não suspeitava dos outros, corria perigo mortal. De fato, já aconteceram algumas tentativas anteriores contra a vida da concubina Gyokuyou. O mais notável deles foi quando ela ficou grávida de sua filha, a princesa Lingli. E embora ela tivesse dez damas de companhia quando chegou ao palácio, agora tinha menos da metade disso. Normalmente uma concubina só traz seus próprios servos quando chega ao palácio interno, mas Gyokuyou invocou seus privilégios especiais para trazer aquela ama de leite. Ela nunca aceitaria uma serva anônima de algum canto aleatório como uma de suas damas de companhia. Mas mesmo assim ela tinha que pensar como uma concubina de posição alta e aceitar pelo menos mais uma mulher. 

E foi assim que a garota de sardas entrou no jogo. Ela havia salvado a filha de Gyokuyou; certamente a concubina não seria contrária a ela. Além disso, a garota sabia algo sobre venenos, isso poderia ser muito útil. Claro, sempre poderia ter a possibilidade de que a garota sardenta utilizasse os seus conhecimentos para fins malignos, mas se ela tentasse algo, eles simplesmente colocariam ela em um lugar onde não pudesse fazer nada prejudicial para ninguém. Era tudo muito simples. 

Se tudo falhasse, pensou Jinshi com um sorriso, ele simplesmente utilizaria os seus encantos na garota. Sim, ele achava muito repugnante como todos os outros também estão dispostos a tirar proveito de alguém com sua beleza celestial. Mas ele não tinha intenção de mudar os seus hábitos. Na verdade, sua aparência sempre foi bem mais valorizada do que tudo na vida de Jinshi. 

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Quando alguém se tornava serva de uma concubina específica, especialmente se essa fosse a concubina favorita do Imperador, até a forma como essa serva era tratada melhorava, percebeu Maomao. Ela, que até então estava na base mais inferior do palácio, de repente se viu na escala intermediária de tratamento. Disseram-lhe que ela teria um aumento de salário significativo, embora vinte por cento do seu salário fosse para a sua “família”, ou seja, os sequestradores que venderam ela para o palácio. Um acordo bem desagradável na opinião dela. Um sistema feito para que funcionários gananciosos pudessem encher os seus bolsos. 

Ela também ganhou o seu próprio quarto, apertado, mas muito diferente das acomodações superlotadas que ela estava compartilhando antes. De uma esteira de palha e um único lençol para dormir, ela agora tinha uma cama de verdade. É verdade que a cama ocupava metade do quarto, mas Maomao estava bem feliz por poder acordar de manhã sem pisar nas colegas de trabalho. 

Ela tinha mais um motivo para comemorar, mas só saberia dele mais tarde. 

O Pavilhão Jade, onde Gyokuyou morava, era também o lar de outras quatro damas de companhia além de Maomao. Uma ama de leite tinha sido demitida recentemente, supostamente porque a princesa estava começando a ser desmamada, mas Maomao tinha ideia do verdadeiro motivo. O número de mulheres era muito pequeno, comparado à concubina Lihua que tinha mais de dez damas de companhia ao seu serviço. As damas de Gyokuyou ficaram mais do que um pouco surpresas ao descobrir que uma das pessoas menos importantes do palácio havia sido promovida a sua colega de forma tão repentina, mas elas nunca assediaram Maomao da forma como ela esperava. Na verdade, elas pareciam simpatizar com ela. 

Mas por quê? Ela pensou. 

Ela descobriria em breve. 

Uma refeição palaciana, repleta de ingredientes tradicionais considerados benéficos à saúde, estava diante de Maomao. Hongniang, chefe das damas de companhia de Gyokuyou, pegava um a um pires cheios de amostras da refeição e os colocava diante de Maomao. Gyokuyou observava a cena com um ar de desculpas, mas não dava sinais de que iria impedir o que estava acontecendo. As outras três damas de companhia assistiam com olhares de pena a situação. 

O local era o quarto de Gyokuyou. Era decorado com o estilo mais elevado, e era o lugar onde a concubina realizava suas refeições. Antes que a comida chegasse até ela, passava por muitas mãos, e sendo a favorita do Imperador, ela precisava considerar que uma ou mais dessas pessoas pudesse envenenar a sua refeição. 

Dessa forma, era necessário ter uma provadora de comida. Todos estavam nervosos devido ao que aconteceu com o jovem príncipe. Já havia rumores que a princesa poderia ter adoecido com o mesmo veneno que matou o bebê. As damas de companhia não foram informadas sobre qual substância tinha sido descoberta, então era compreensível que estivessem paranoicas, achando que poderia estar em qualquer coisa, ou até mesmo em tudo. 

Não seria estranho que eles vissem a humilde serva enviada até eles naquele momento especificamente, para ser a provadora de alimentos, como um peão descartável. Maomao não era só responsável em provar as refeições da concubina Gyokuyou como também os de sua filha. Além disso, quando o Imperador estava presente, ela também era responsável por provar os luxuosos alimentos oferecidos a ele. 

Depois que Gyokuyou soube da sua gravidez, Maomao soubera que houve duas tentativas de envenenamento. Em uma delas, a provadora saiu ilesa, mas na outra vez a provadora foi vítima de uma toxina nervosa que deixou seus braços e pernas paralisadas. As damas de companhia restantes que estavam provando as comidas com muito medo e tremor, então provavelmente estavam muito felizes e gratas pela chegada de Maomao. 

Maomao franziu a testa ao ver o prato em sua frente, ele era feito de cerâmica. Se eles têm tanto medo, deveriam utilizar a prata. Ela pegou o vegetal em conserva com os hashis e o examinou de forma crítica. E então cheirou, e, em seguida, colocou-o na língua verificando se causava alguma sensação de formigamento antes de engolir. 

Acho que não sou qualificada para provar venenos, ela refletiu. Agentes de ação rápida eram uma coisa, mas no que diz respeito a toxinas mais lentas, ela esperava que seria um tanto inútil. Em nome da ciência, Maomao acostumou o seu corpo a uma variedade de venenos por meio de uma exposição gradual, e suspeitava que restavam poucos venenos que teriam algum efeito sobre ela. Isso não fazia parte do seu trabalho como apotecária, era algo que fazia puramente para satisfazer sua curiosidade intelectual. Ela ouviu dizer que, no Ocidente, havia uma denominação para pesquisadores que faziam coisas que não tinha sentido para outras pessoas, eles eram chamados de cientistas loucos. Até mesmo o seu pai, que é médico e a ensinou a ser apotecária, ficava exasperado com seus pequenos experimentos. 

Quando ela se certificou de que não havia efeitos físicos indesejáveis e não detectou nenhum veneno que conhecesse, a refeição finalmente foi servida para a concubina Gyokuyou. 

Em seguida viria as comidas sem sabor para bebês. 

— Acho que seria melhor trocar os pratos de cerâmica pelos de prata — disse ela para a Hongniang, de forma mais direta possível. Ela tinha sido chamada ao quarto de Hongniang para reportar sobre o seu primeiro dia de trabalho. O quarto da senhora chefe era bem espaçoso, mas sem objetos levianos, revelando a personalidade prática de Hongniang.

Hongniang, uma mulher atraente, de cabelos negros com menos de trinta anos, soltou um suspiro: — Jinshi realmente tinha tudo planejado. — Ela confessou com algum desgosto que eles não tinham utilizado os talheres de prata seguindo as instruções do eunuco. 

Maomao também suspeitava que tinha sido Jinshi que havia ordenado que ela fosse nomeada a provadora de alimentos. Ela se esforçou para não deixar a sua expressão fria se transformar em repulsa ao ouvir Hongniang falar: — Não sei por que você decidiu esconder os seus conhecimentos, mas é incrível que você saiba tanto sobre remédios e medicina. Se tivesse dito isso a eles desde o início, poderia ter ganhado muito mais dinheiro. 

— Meu conhecimento vem da minha profissão, eu era uma apotecária. Até ser sequestrada e vendida para este lugar. Meus sequestradores recebem uma parte do meu salário até hoje. Só de pensar nisso, fico com náuseas. — Maomao estava irritada e suas palavras saíram de uma forma rápida, mas a chefe das damas de companhia não a repreendeu. 

— Quer dizer que você estava disposta a aceitar receber menos do que valia para garantir que eles bebessem uma taça a menos de vinho quando eles fossem festejar. — Hongniang, ao que parecia, era perspicaz o suficiente para compreender as motivações de Maomao. Maomao ficou aliviada por Hongniang não a repreender no que havia dito e disse: — Sem falar que as mulheres sem distinções especiais servem aqui por alguns anos e depois são dispensadas e seguem seus caminhos felizes. Existem muitas substitutas por aí. 

Ela não precisava entender tão bem assim. 

Hongniang pegou uma jarra da mesa e a entregou a Maomao. — O que é isso? — Perguntou Maomao, mas antes das palavras terminarem de sair da sua boca, uma dor percorreu seu pulso. Ela deixou cair a jarra no chão, em choque. Uma grande rachadura se espalhou pelo recipiente de cerâmica. 

— Ah, meu Deus, essa cerâmica é muito cara! Certamente não é algo que uma dama de companhia poderia comprar. Você não poderá mais enviar dinheiro para a sua família com isso pesando em sua cabeça. Na verdade, deveríamos cobrar deles. 

Maomao entendeu imediatamente o que Hongniang estava dizendo, e um leve sorriso irônico apareceu em seu rosto, que antes estava inexpressivo. 

— Minhas sinceras desculpas — disse ela. — Por favor, desconte do valor do meu salário que é enviado para minha família todos os meses. E se isso não for o suficiente, fique à vontade para tirar da minha parte também. 

— Obrigada, irei garantir que a Matrona das Servas saiba disso e faça dessa forma. E mais uma coisa. —  Hongniang colocou a garrafa quebrada de volta na mesa antes de pegar um rolo de madeira de uma gaveta e escrever nele com traços rápidos e curtos.  — Isso detalha seu salário adicional como provadora de alimentos. Pode-se chamar isso de adicional de risco. 

O valor era quase o dobro do que Maomao recebe atualmente, e, à medida que nada seria descontado para pagar seus sequestradores, Maomao saiu ganhando. 

Essa mulher sabe mesmo como recompensar as pessoas a seu favor, pensou Maomao enquanto fazia uma reverência profunda e saía do quarto de Hongniang.

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