Mininovel – A Cordilheira de Âmbar

Parte 1: O Vale dos Mortos



ANO 1371

 

A névoa cinzenta corria sob o casco do encouraçado enquanto as velas de propulsão pulsavam acima do convés, enormes membranas negras abrindo e fechando como brânquias de um animal colossal. Cada batida empurrava vento pelos dutos internos do navio, espalhando um brilho rosado pelas grades do piso e pelas placas metálicas do casco.

As velas direcionais giraram durante a descida, inclinando lentamente o aeroplano entre as nuvens carregadas. Muito abaixo, pontas de pedra começavam a surgir na escuridão.

No casco da embarcação, letras douradas apareciam entre correntes e lampiões mágicos:

Marauder IV.

Os outros cinco encouraçados atravessavam a névoa logo atrás, fortalezas voadoras de madeira escura descendo em formação sobre a cordilheira.

Três batidas secas ecoaram na porta da cabine do capitão.

— Quem é?

A voz veio firme e baixa, áspera como metal esfregado.

— Capitã Lane. Sou eu, Ian.

A fechadura girou.

Ian entrou antes da permissão terminar.

A cabine cheirava a couro molhado, perfume leve e papel antigo. Tudo ali permanecia preso por tiras e correntes: mapas enrolados, bússolas, bestas de repetição e ferramentas náuticas espalhadas sobre a mesa larga no centro do aposento. Entre os papéis, o selo da Casa Mercante de Vhal aparecia estampado em tinta escura.

Atrás da mesa, dedos metálicos repousavam sobre um mapa aberto. A camisa escura deixava parte do pescoço exposto, enquanto alguns fios grisalhos escapavam do cabelo preso às pressas perto da nuca.

— Você bateu na porta e entrou antes da resposta. Sua guilda não ensina boas maneiras?

— Tecnicamente, você disse “entre”.

— Tecnicamente, eu ainda estava decidindo se deixava.

Ele puxou uma cadeira sem ser convidado.

O maxilar dela travou só um pouco.

Um caderno cheio de anotações surgiu sobre a mesa.

— Já começamos a descer?

— Já faz tempo. Ainda não percebeu?

Ela apontou com o queixo para a janela.

As nuvens rareavam abaixo deles. Pontas de pedra atravessavam a névoa como dentes rompendo carne. Agulhas negras surgiam entre montanhas tortas e ruínas agarradas às encostas, enquanto luzes azuladas pulsavam muito abaixo, pequenas demais para serem vilas.

— Olha esse lugar. Está cheio de portais.

Mesmo daquela altura, vultos se moviam entre as pedras.

— E o que tem? Isso é horrível.

— Fascinante.

As velas de propulsão bateram acima da cabine, e a madeira vibrou sob os pés dos dois.

— Ainda acho precipitado destruir tudo sem avaliação.

Ela soltou o ar pelo nariz.

— A Casa Mercante de Vhal não contratou especialistas pra admirar paisagem.

— Dependendo da paisagem, isso também pode gerar lucro.

Dessa vez os olhos vieram por completo.

— Seu trabalho é decidir se existe algo aqui que vale mais inteiro… ou depois que minha esquadra transformar tudo em ruína fumegante.

Um sorriso curto apareceu no rosto dele.

— Isso ficou quase poético.

— Não foi intencional.

O relatório deslizou pela mesa.

— Faz trinta dias que as forças de Jillar expulsaram os druidas daqui. Agora só restou uma cordilheira infestada de mortos-vivos.

Ian folheou os papéis sem pressa.

— Ainda assim, isso aqui tem estruturas da época do império de A.R.T.H.U.R.

Ela apoiou o rosto na mão.

— Vai deixar esses mortos correndo risco de alcançar cidades só porque esse lugar pertenceu a um império morto?

— Essas montanhas tinham fortalezas de pesquisa isoladas. Dizem que os experimentos daqui eram extremos demais até pros padrões deles.

— E?

Ele apontou para as ruínas desenhadas no mapa.

— Se pesquisavam coisas desse tipo aqui, pode existir tecnologia preservada.

— Isso faz quase quinhentos anos.

— E mesmo assim os portais continuam ativos.

Um clarão azulado iluminou as nuvens abaixo da esquadra.

Alguma coisa enorme se moveu entre as encostas.

Os dedos metálicos apertaram devagar a borda da mesa.

— Sabe o que eu acho engraçado?

— O quê?

Ela virou o rosto para a janela.

A cordilheira aparecia inteira agora: montanhas colossais escondidas sob nuvens eternas, trilhos antigos cruzando precipícios e torres quebradas surgindo das pedras. Estruturas metálicas enferrujadas pendiam das encostas como esqueletos abandonados.

— Melhor nem comentar.

O silêncio durou só alguns segundos.

— Você tem até o nascer do sol de amanhã.

— Um dia inteiro?

— Talvez menos. Vai depender do meu humor.

Ela abriu uma gaveta lateral e tirou um cilindro metálico, colocando-o sobre a mesa.

Uma esfera de cristal se abriu sozinha entre os dois. Runas rosadas acenderam no interior da peça.

— Comunicação direta comigo. Posso te ver e ouvir.

Ian pegou a esfera.

Os dedos quase tocaram.

Ela puxou a mão primeiro.

— Você vai descer sozinho?

— Meu construto vai comigo. Tem formato de cachorro. Deve conseguir me manter vivo enquanto eu vago por lá.

O canto da boca dela subiu por menos de um segundo, envelhecendo ainda mais o sorriso breve.

— Não se anima. Isso não foi simpatia.

— Claro.

O braço metálico repousou sobre a mesa. A luz rosada que atravessava as grades do piso subia pelo metal e alcançava parte do rosto dela.

— Escuta com atenção, garoto. Eu não me importo com relíquias antigas. Nem com o quanto você acha essas montanhas fascinantes.

Ela apontou para a janela.

— Se esse lugar não tiver nada além desses portais malditos vomitando mortos… eu transformo essa cordilheira numa bela planície desolada.

Ian sustentou o olhar por um instante.

Então fechou o caderno devagar.

— Tudo bem. Tenho um dia pra encontrar algo valioso. Animal, vegetal ou mineral.

Guardou a esfera no bolso.

— Estou indo.

Ian subiu as escadas em direção ao convés enquanto as velas de propulsão batiam ao lado do Marauder IV, enormes membranas negras empurrando vento pelos dutos internos do encouraçado.

A voz de Lane atravessou a esfera guardada no bolso do casaco dele:

— Ainda dá tempo de desistir.

Ian ignorou. Fez um gesto com dois dedos, murmurou algumas palavras e saltou do navio.

O vento rasgou o sobretudo durante a queda.

As montanhas subiam depressa enquanto a esquadra sobrevoava abaixo das nuvens, gigantes escuros pairando entre névoa e lampiões mágicos. As velas direcionais giravam lentamente durante a descida dos encouraçados.

— Você costuma se jogar de aeroplanos sem pensar? — perguntou Lane.

Um sorriso curto apareceu no rosto dele.

— Quem disse que eu não tô pensando?

As encostas da cordilheira cresceram abaixo: pedra escura, trilhos antigos atravessando precipícios e restos de carroças espalhados perto de ossadas meio enterradas na lama.

O chão veio rápido.

Dois dedos se ergueram.

Inscrições azuladas atravessaram o braço dele, desacelerando a queda poucos metros antes do impacto. As botas tocaram a pedra molhada, e o corpo deslizou encosta abaixo até parar perto de um trilho enferrujado.

Lama escorreu do casaco enquanto ele se levantava.

— Confesso que preferia uma chegada menos violenta.

— Pode subir de volta se quiser. Eu não vou reclamar de voltar cedo pra casa.

Ele começou a caminhar pela encosta.

— E a senhora tem alguém esperando?

— Isso não é da sua conta. Nunca lhe dei essa intimidade.

A névoa se moveu adiante.

Três esqueletos surgiram primeiro. Atrás deles vinham cadáveres inchados usando restos de armaduras apodrecidas, arrastando espadas tortas pela pedra.

A esfera de comunicação pairou ao lado do ombro dele.

— Desculpa. Não achei que fosse incomodar tanto a senhora.

— E para de me chamar de senhora.

Os mortos-vivos avançaram tropeçando pelas pedras, lentos no começo, erráticos logo depois.

Então um dos esqueletos disparou encosta abaixo numa velocidade absurda.

— Malditos...

A caixa metálica presa ao cinto se abriu com um estalo, revelando dezenas de bastões escuros alinhados lado a lado.

— Ainda bem que eu trouxe Paus de Fogo Primo.

O bastão cresceu na mão dele até alcançar quase o comprimento do braço.

O esqueleto veio primeiro.

A arma ergueu.

O estampido atravessou a encosta.

A essência mágica explodiu no peito do morto-vivo, espalhando costelas pela lama.

— Se tivesse pedido pelos meus canhões, isso já teria acabado. E eles podem não estar disponíveis quando você realmente precisar.

Outro bastão surgiu na mão dele.

— Calma, capitã. Ainda nem comecei.

Os outros mortos avançaram logo atrás.

Uma esfera metálica caiu no chão e se abriu antes mesmo de parar. Placas de ferro se desdobraram para fora enquanto patas articuladas tocavam a pedra molhada.

O construto latiu uma única vez.

Outro disparo.

A cabeça de um zumbi explodiu numa nuvem escura.

Mais um estampido atravessou a neblina, abrindo o torso do segundo esqueleto enquanto o último cadáver avançava mancando pela lama.

— Pega ele.

O construto saltou contra o morto-vivo, interrompendo a investida.

Os bastões gastos deslizaram montanha abaixo enquanto outros dois apareciam entre os dedos dele.

— Nunca vi alguém carregar tanta porcaria nos bolsos — resmungou Lane.

— Não precisa continuar acompanhando, capitã. Imagino que tenha coisas mais importantes pra fazer na esquadra.

A resposta demorou alguns segundos.

— Acho melhor você falar menos enquanto trabalha.

Dois disparos ecoaram pela encosta.

O primeiro zumbi perdeu parte do pescoço.

O segundo caiu de costas perto do trilho enferrujado enquanto o último morto-vivo ainda tentava alcançar o tornozelo dele.

Os dentes de ferro do construto esmagaram o crânio do cadáver com uma mordida seca.

A névoa voltou a atravessar a encosta lentamente.

Corpos espalhados pela lama.

O construto retornou sozinho à forma esférica e rolou de volta até a mão dele.

— Realmente, capitã... esse lugar tá infestado.

Nenhuma resposta veio pela esfera.

Boa parte do dia desapareceu durante a descida pela cordilheira.

Trilhos quebrados sumiam entre cavernas abertas na montanha, enquanto estruturas metálicas antigas surgiam penduradas nos paredões de pedra. Em alguns pontos, símbolos corroídos da época de A.R.T.H.U.R. ainda permaneciam gravados nas vigas de metal negro.

A voz de Lane voltou muito depois:

— Encontrou alguma coisa útil?

Uma corrente enferrujada foi afastada do caminho.

— Acho que você estava certa, Lane. Até agora só encontrei ruínas inúteis e mortos-vivos.

— Que bom que concluiu isso. Suba pro aeroplano. Vou preparar as armas.

Outra poção desceu garganta abaixo sem que ele diminuísse o passo.

— Com todo respeito, Lane... ainda não terminei a análise dos recursos da região.

A esfera flutuou mais perto do rosto dele.

— Está me fazendo de boba? Você acabou de dizer que não existe nada útil aí embaixo.

— Eu disse que ainda não encontrei.

A resposta veio imediata:

— Você costuma flertar com a morte desse jeito com frequência?

A descida continuou.

— Não entendi.

Dessa vez o silêncio demorou um pouco mais.

— Continue descendo então.

Mais abaixo, a montanha se abria numa sequência de cavernas gigantescas atravessadas por trilhos e estruturas metálicas antigas. Guindastes enferrujados pendiam do teto natural enquanto correntes desapareciam na escuridão.

A esfera metálica caiu outra vez no chão.

— Vigie ao redor.

O construto voltou à forma de cão assim que tocou a pedra.

Uma fenda azulada pulsava entre duas rochas.

O ar parecia mais frio ali.

Do outro lado existia um céu escuro sem estrelas. Silhuetas atravessavam uma névoa azulada muito distante enquanto estruturas tortas surgiam no horizonte como espinhos atravessando carne.

Alguma coisa gritou lá dentro.

O olhar desviou primeiro.

— Lane. Estou diante de um portal.

Nenhuma resposta.

— Está confirmado. Essas montanhas fazem ligação com um plano inferior.

A voz dela voltou alguns segundos depois:

— Então é realmente um plano necrótico?

— Sim. Uma fronteira inferior inteira ligada à cordilheira.

— Ótimo. Agora me chama de “capitã” outra vez para não esquecer meu cargo. Se não, eu te explodo junto com esse lugar.

Um sorriso apareceu enquanto ele se abaixava perto da parede da caverna.

— Mas eu não esqueci seu cargo.

— Então para de me chamar de Lane. Não te dei essa intimidade.

Os dedos tocaram a rocha.

Pegajosa.

Quente.

Dourada.

O rosto se aproximou da superfície.

Fios de âmbar escorriam pelas estalactites muito acima, brilhando contra a pedra escura.

— Capitã...

— O que foi agora?

Os olhos subiram devagar.

As marcas douradas atravessavam o teto inteiro da caverna.

— Isso não pertence a nenhum ecossistema conhecido.

Ela soltou o ar pelo nariz.

— Era só o que faltava. Vai acabar querendo poupar esse lugar por causa de uma gosma brilhante.

Mais fundo na montanha, os rastros de âmbar atravessavam trilhos quebrados e pilares antigos marcados com símbolos corroídos da época de A.R.T.H.U.R.

Dois zumbis surgiram entre estruturas desabadas.

Uma poção saiu do bolso. A rolha foi arrancada com os dentes.

O corpo ficou leve imediatamente.

Ele disparou pela caverna.

Saltou sobre um desnível de pedra, depois outro. As botas tocaram a lateral de uma coluna caída antes do próximo impulso atravessar parte do precipício interno da montanha.

Os mortos-vivos ficaram para trás.

Lentos demais.

— Você parece animado pra alguém cercado de cadáveres.

Uma risada baixa escapou durante a corrida.

— Faz tempo que eu não encontro algo novo. Você também parece menos ríspida.

— Pareço? O que exatamente está querendo dizer com isso?

— Nada. Só achei diferente.

A resposta demorou um instante.

— Você é muito abusado.

Ele desacelerou perto da borda de um penhasco interno.

Uma delas se moveu lentamente dentro do âmbar.

A respiração embaçou a parede interna da cápsula.

A voz de Lane atravessou a esfera, baixa pela primeira vez:

— Ian...

Outra cápsula rachou acima deles.

Um estalo seco ecoou pela caverna.

Ian ergueu o roso lentamente.

— Capitã... achei alguma coisa.

Alguns segundos se passaram antes da resposta:

— O que diabos é isso?

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