Mininovel – Vida Corrompida
Parte 1 - O Que Foi Deixado Para Trás

ANO 1376
— Que cara é essa, Kael? — perguntou a garota de cabelos escuros, passando à frente dele com um sorriso torto no canto da boca. Os olhos atentos surgiam sob a franja enquanto ela ajustava a mochila no ombro.
Kael chutou uma pedra para fora da estrada estreita.
— Eu ainda acho que dava pra vender aquela pele por mais.
A trilha seguia entre árvores altas, marcada por sulcos antigos e folhas úmidas grudadas na terra. O grupo caminhava sem pressa, armas soltas junto ao corpo e roupas ainda manchadas do último combate.
— Você tentou — respondeu a garota, sem olhar para trás. — Ninguém quis.
— Tudo porque o Eiran abriu a boca.
— Eu sou um caçador — retrucou Eiran enquanto ajustava o arco nas costas. — Se eu deixo você mentir, me levam por incompetente.
Um riso curto escapou atrás deles.
— Moirander, você não vai falar nada?
O homem de manto escuro continuou andando no mesmo ritmo, ajeitando a alça do grimório sem sequer erguer os olhos.
— Falei o suficiente quando disse pra não arrancar a pele daquele jeito.
Eiran virou o rosto, arqueando uma sobrancelha.
— Funcionou, não funcionou?
Kael puxou a gola da roupa e fez careta.
— Pensa bem. Isso é cheiro de vitória.
— Quero ver quantos banhos vamos precisar tomar pra essa “vitória” ir embora.
— Espera.
Kael franziu a testa no meio da frase.
Um grito cortou a conversa.
Rasgado. Distante.
Kael virou a cabeça primeiro.
— Vocês ouviram isso?
Outro veio logo depois, mais alto, mais perto dessa vez. Nyra já olhava para dentro das árvores antes mesmo de Eiran dar um passo à frente.
— Vem de lá.
— Não é um animal — disse o caçador.
Moirander apenas acompanhou o movimento.
— Vem.
Ninguém discutiu. Os quatro deixaram a trilha, empurrando galhos e afundando no terreno irregular enquanto o som ecoava entre as árvores em intervalos quebrados, falhando e voltando mais forte a cada vez.
Outro grito rasgou a mata.
Agora perto demais.
— Rápido!
Galhos estalaram sob os passos apressados. A trilha desapareceu atrás deles, substituída por raízes expostas e lama escura que prendia as botas a cada avanço.
Então a clareira surgiu.
O corpo estava caído perto de uma árvore.
Uma jovem permanecia recostada no tronco, as pernas cobertas de sangue enquanto o ventre contraía em espasmos violentos. As mãos cavavam a terra molhada como se tentassem escapar do próprio corpo.
— Me ajuda…
A voz saiu arranhada, falhando no fim.
Eiran já estava ao lado dela, largando o arco no chão antes de se ajoelhar.
— Segura — disse para Nyra.
Ela não respondeu. Apenas se posicionou, prendendo as pernas da jovem enquanto Eiran estendia a mão sem olhar para trás.
— Kael, você fica aqui. Se ela travar, segura os ombros.
Kael hesitou meio passo antes de largar o bastão no chão e se aproximar devagar.
— Isso é…?
— Sim. Ela está dando à luz.
A jovem agarrou o braço de Eiran com força. Os dedos cobertos de lama e sangue tremiam enquanto ela tentava respirar.
— Eu não vou conseguir… eu disse pra pararem… mas eles me seguraram… todos eles…
O corpo arqueou num grito que rasgou a garganta antes de quebrar em falta de ar.
Kael desviou o olhar.
— Desgraçados… fizeram isso com ela à força.
Eiran posicionou as mãos.
— Respira. Quando a dor vier, você força.
— Eu não quis…
— Fica comigo — disse ele, firme. — Olha pra mim.
Outra contração atravessou o corpo da jovem. Mais forte.
Nyra ajustou a posição das pernas.
— Vai.
Ela gritou outra vez, tremendo inteira enquanto empurrava sem controle. Eiran se inclinou para ajudar, mas parou no meio do movimento.
As mãos não avançaram.
— Espera.
Nyra ergueu os olhos imediatamente.
— O quê?
— Isso não tá certo.
Outra contração veio antes da resposta, violenta o bastante para arquear o corpo da jovem outra vez.
— Eu… eu não aguento mais… por favor…
Eiran avançou mesmo assim.
Sangue quente.
Movimento irregular.
— Força — disse, mais baixo.
O grito seguinte saiu mais alto, mais longo, até quebrar no meio. Então o som mudou.
Afinou.
Perdeu o ritmo.
Nyra travou por um instante e ergueu os olhos para Eiran.
— Você tá ouvindo isso? — perguntou, a voz mais baixa do que antes.
Kael recuou um passo.
— Isso não—
— Segura ela! — cortou Eiran.
A contração seguinte veio como um golpe.
O corpo inteiro tensionou.
Algo cedeu.
Um rasgo úmido atravessou a clareira, e o grito morreu na garganta da jovem. Por um instante restou apenas a respiração falha.
Então veio o choro.
Eiran puxou a criatura para fora — e finalmente viu o que estava segurando.
Chifres pequenos e curvados surgiram primeiro, cobertos de sangue escuro. A pele veio logo depois, escura demais para a lama ao redor, brilhando sob a luz filtrada entre as árvores. As mãos — garras pequenas — se abriram no ar enquanto o choro irregular persistia.
Ninguém se moveu.
Nyra soltou devagar as pernas da jovem. Kael recuou mais um passo, e Moirander finalmente se aproximou em silêncio.
A mulher tentou erguer a cabeça.
Os olhos encontraram aquilo que acabava de sair de dentro dela.
— Não deixa… isso chegar perto de mim…
O ar falhou antes do resto da frase, e o corpo cedeu de lado contra a terra úmida.
O sangue continuou escorrendo lentamente enquanto Eiran permanecia ajoelhado, a criatura nos braços. O choro persistia entre eles, baixo e irregular.
— Isso não é humano — murmurou Kael.
Moirander não desviou os olhos da criatura.
— Não.
Nyra permaneceu imóvel por um instante antes de perguntar:
— E agora?
— Vamos matar.
O choro falhou e voltou mais agudo.
Kael passou a mão no rosto.
— A gente não pode—
— Isso veio de algum plano inferior.
Eiran não se moveu. O olhar desceu para a criatura, depois para a jovem caída ao lado da árvore. Os olhos dela permaneciam abertos, vazios, enquanto o sangue continuava escorrendo devagar pela terra escura antes de voltar outra vez.
As mãos apertaram por um instante.
Nada aconteceu.
O choro preenchia o espaço entre eles.
Nyra foi a primeira a se levantar.
— Eu não consigo fazer isso.
Moirander virou as costas.
— E eu não vou carregar isso.
Kael lançou uma última olhada para a criatura antes de respirar fundo.
— Então vamos fazer o seguinte — disse Eiran, ainda ajoelhado. — Se sobreviver… sobrevive.
Ninguém respondeu.
Mesmo assim, um a um começaram a deixar a clareira.
Eiran ficou por um momento a mais, ouvindo o som persistente do choro, agora mais baixo. Ainda errático.
Então abaixou o olhar, puxou o corpo da jovem para perto e colocou a criatura nos braços dela. Ajustou os braços mortos ao redor do pequeno corpo como se ainda fossem capazes de protegê-lo.
Depois se levantou.
Deu as costas.
Dois passos.
Parou.
O choro ainda vinha atrás dele.
Fraco.
Insistente.
Quando o caçador alcançou o grupo outra vez, ninguém retomou a conversa. O som dos passos parecia pesado demais contra a lama úmida da floresta.
Então Moirander parou.
Os outros ainda deram dois passos antes de perceber. Kael foi o primeiro a virar.
— Que foi agora?
O conjurador ajustou devagar a alça do grimório.
— Não dá pra deixar aquilo lá.
O ar pareceu travar entre eles.
— A criança.
Nyra cruzou os braços.
— Sério? Você não foi o primeiro a querer matar?
— E continuo achando que é o mais seguro — respondeu ele. — Mas se eu fizer isso não serei melhor que eles em nada.
Eiran observou em silêncio.
— Então o que você vai fazer?
Moirander já tinha se virado.
— Resolver.
— Resolver como? — perguntou Kael.
Ele parou apenas o suficiente para responder:
— Como deveria ter sido feito desde o começo.
Ninguém tentou impedir.
Nyra desviou os olhos.
— Não demora.
Moirander desapareceu entre as árvores sem responder.
O grupo permaneceu parado em silêncio.
Então, algum tempo depois, o choro voltou a ecoar baixo pela floresta.
Só que dessa vez ele estava se afastando.
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