Crônicas das Terras dos Portais Brasileira

Autor(a): Richard P.S


Mininovel – Vida Corrompida

Parte 1 - O Que Foi Deixado Para Trás

 

ANO 1376

 

— Que cara é essa, Kael? — perguntou a garota de cabelos escuros, passando à frente dele com um sorriso torto no canto da boca. Os olhos atentos surgiam sob a franja enquanto ela ajustava a mochila no ombro.

Kael chutou uma pedra para fora da estrada estreita.

— Eu ainda acho que dava pra vender aquela pele por mais.

A trilha seguia entre árvores altas, marcada por sulcos antigos e folhas úmidas grudadas na terra. O grupo caminhava sem pressa, armas soltas junto ao corpo e roupas ainda manchadas do último combate.

— Você tentou — respondeu a garota, sem olhar para trás. — Ninguém quis.

— Tudo porque o Eiran abriu a boca.

— Eu sou um caçador — retrucou Eiran enquanto ajustava o arco nas costas. — Se eu deixo você mentir, me levam por incompetente.

Um riso curto escapou atrás deles.

— Moirander, você não vai falar nada?

O homem de manto escuro continuou andando no mesmo ritmo, ajeitando a alça do grimório sem sequer erguer os olhos.

— Falei o suficiente quando disse pra não arrancar a pele daquele jeito.

Eiran virou o rosto, arqueando uma sobrancelha.

— Funcionou, não funcionou?

Kael puxou a gola da roupa e fez careta.

— Pensa bem. Isso é cheiro de vitória.

— Quero ver quantos banhos vamos precisar tomar pra essa “vitória” ir embora.

— Espera.

Kael franziu a testa no meio da frase.

Um grito cortou a conversa.

Rasgado. Distante.

Kael virou a cabeça primeiro.

— Vocês ouviram isso?

Outro veio logo depois, mais alto, mais perto dessa vez. Nyra já olhava para dentro das árvores antes mesmo de Eiran dar um passo à frente.

— Vem de lá.

— Não é um animal — disse o caçador.

Moirander apenas acompanhou o movimento.

— Vem.

Ninguém discutiu. Os quatro deixaram a trilha, empurrando galhos e afundando no terreno irregular enquanto o som ecoava entre as árvores em intervalos quebrados, falhando e voltando mais forte a cada vez.

Outro grito rasgou a mata.

Agora perto demais.

— Rápido!

Galhos estalaram sob os passos apressados. A trilha desapareceu atrás deles, substituída por raízes expostas e lama escura que prendia as botas a cada avanço.

Então a clareira surgiu.

O corpo estava caído perto de uma árvore.

Uma jovem permanecia recostada no tronco, as pernas cobertas de sangue enquanto o ventre contraía em espasmos violentos. As mãos cavavam a terra molhada como se tentassem escapar do próprio corpo.

— Me ajuda…

A voz saiu arranhada, falhando no fim.

Eiran já estava ao lado dela, largando o arco no chão antes de se ajoelhar.

— Segura — disse para Nyra.

Ela não respondeu. Apenas se posicionou, prendendo as pernas da jovem enquanto Eiran estendia a mão sem olhar para trás.

— Kael, você fica aqui. Se ela travar, segura os ombros.

Kael hesitou meio passo antes de largar o bastão no chão e se aproximar devagar.

— Isso é…?

— Sim. Ela está dando à luz.

A jovem agarrou o braço de Eiran com força. Os dedos cobertos de lama e sangue tremiam enquanto ela tentava respirar.

— Eu não vou conseguir… eu disse pra pararem… mas eles me seguraram… todos eles…

O corpo arqueou num grito que rasgou a garganta antes de quebrar em falta de ar.

Kael desviou o olhar.

— Desgraçados… fizeram isso com ela à força.

Eiran posicionou as mãos.

— Respira. Quando a dor vier, você força.

— Eu não quis…

— Fica comigo — disse ele, firme. — Olha pra mim.

Outra contração atravessou o corpo da jovem. Mais forte.

Nyra ajustou a posição das pernas.

— Vai.

Ela gritou outra vez, tremendo inteira enquanto empurrava sem controle. Eiran se inclinou para ajudar, mas parou no meio do movimento.

As mãos não avançaram.

— Espera.

Nyra ergueu os olhos imediatamente.

— O quê?

— Isso não tá certo.

Outra contração veio antes da resposta, violenta o bastante para arquear o corpo da jovem outra vez.

— Eu… eu não aguento mais… por favor…

Eiran avançou mesmo assim.

Sangue quente.
Movimento irregular.

— Força — disse, mais baixo.

O grito seguinte saiu mais alto, mais longo, até quebrar no meio. Então o som mudou.

Afinou.

Perdeu o ritmo.

Nyra travou por um instante e ergueu os olhos para Eiran.

— Você tá ouvindo isso? — perguntou, a voz mais baixa do que antes.

Kael recuou um passo.

— Isso não—

— Segura ela! — cortou Eiran.

A contração seguinte veio como um golpe.

O corpo inteiro tensionou.
Algo cedeu.

Um rasgo úmido atravessou a clareira, e o grito morreu na garganta da jovem. Por um instante restou apenas a respiração falha.

Então veio o choro.

Eiran puxou a criatura para fora — e finalmente viu o que estava segurando.

Chifres pequenos e curvados surgiram primeiro, cobertos de sangue escuro. A pele veio logo depois, escura demais para a lama ao redor, brilhando sob a luz filtrada entre as árvores. As mãos — garras pequenas — se abriram no ar enquanto o choro irregular persistia.

Ninguém se moveu.

Nyra soltou devagar as pernas da jovem. Kael recuou mais um passo, e Moirander finalmente se aproximou em silêncio.

A mulher tentou erguer a cabeça.

Os olhos encontraram aquilo que acabava de sair de dentro dela.

— Não deixa… isso chegar perto de mim…

O ar falhou antes do resto da frase, e o corpo cedeu de lado contra a terra úmida.

O sangue continuou escorrendo lentamente enquanto Eiran permanecia ajoelhado, a criatura nos braços. O choro persistia entre eles, baixo e irregular.

— Isso não é humano — murmurou Kael.

Moirander não desviou os olhos da criatura.

— Não.

Nyra permaneceu imóvel por um instante antes de perguntar:

— E agora?

— Vamos matar.

O choro falhou e voltou mais agudo.

Kael passou a mão no rosto.

— A gente não pode—

— Isso veio de algum plano inferior.

Eiran não se moveu. O olhar desceu para a criatura, depois para a jovem caída ao lado da árvore. Os olhos dela permaneciam abertos, vazios, enquanto o sangue continuava escorrendo devagar pela terra escura antes de voltar outra vez.

As mãos apertaram por um instante.

Nada aconteceu.

O choro preenchia o espaço entre eles.

Nyra foi a primeira a se levantar.

— Eu não consigo fazer isso.

Moirander virou as costas.

— E eu não vou carregar isso.

Kael lançou uma última olhada para a criatura antes de respirar fundo.

— Então vamos fazer o seguinte — disse Eiran, ainda ajoelhado. — Se sobreviver… sobrevive.

Ninguém respondeu.

Mesmo assim, um a um começaram a deixar a clareira.

Eiran ficou por um momento a mais, ouvindo o som persistente do choro, agora mais baixo. Ainda errático.

Então abaixou o olhar, puxou o corpo da jovem para perto e colocou a criatura nos braços dela. Ajustou os braços mortos ao redor do pequeno corpo como se ainda fossem capazes de protegê-lo.

Depois se levantou.

Deu as costas.

Dois passos.

Parou.

O choro ainda vinha atrás dele.

Fraco.
Insistente.

Quando o caçador alcançou o grupo outra vez, ninguém retomou a conversa. O som dos passos parecia pesado demais contra a lama úmida da floresta.

Então Moirander parou.

Os outros ainda deram dois passos antes de perceber. Kael foi o primeiro a virar.

— Que foi agora?

O conjurador ajustou devagar a alça do grimório.

— Não dá pra deixar aquilo lá.

O ar pareceu travar entre eles.

— A criança.

Nyra cruzou os braços.

— Sério? Você não foi o primeiro a querer matar?

— E continuo achando que é o mais seguro — respondeu ele. — Mas se eu fizer isso não serei melhor que eles em nada.

Eiran observou em silêncio.

— Então o que você vai fazer?

Moirander já tinha se virado.

— Resolver.

— Resolver como? — perguntou Kael.

Ele parou apenas o suficiente para responder:

— Como deveria ter sido feito desde o começo.

Ninguém tentou impedir.

Nyra desviou os olhos.

— Não demora.

Moirander desapareceu entre as árvores sem responder.

O grupo permaneceu parado em silêncio.

Então, algum tempo depois, o choro voltou a ecoar baixo pela floresta.

Só que dessa vez ele estava se afastando.

 

 

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