Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume III

Capítulo 52: Nas profundezas de Aldur'thal (parte IV)

Ele foi rápido, atirando a bola de fogo em uma área neutra, próxima ao centro dos tiabretes – aquelas criaturas escamosas.

Boom!

O chão tremeu sob os pés de Peppe. Pedaços de pedra assobiaram pelo ar, levantando poeira e espalhando a lama do chão. Um cheiro de terra queimada e ozônio invadiu a câmara.

As criaturas, no entanto, foram mais ágeis. Correram para as laterais, fugindo do ataque. 

Eram seis, equipadas com uma espécie de armadura de couro duro e metal.

Três delas atacaram quase que imediatamente. As outras três foram para trás, perto da gaiola onde Elara, Aylin e Iris estavam presas. O líder, que era o maior deles, uma cicatriz no olho brilhando sob o brilho das runas, apontou para Peppe com uma garra.

— Pelos flancos! Usem a barreira nele. Evitem a lança!

Os sussurros ecoaram pela câmara, uma linguagem gutural e sibilante que quase não dava pra entender. De longe, parecia que estavam bolando algum tipo de estratagema.

Partículas escuras brotaram das mãos dos dois tiabretes na retaguarda, girando como um enxame minúsculo antes de desenharem símbolos no ar. Uma barreira translúcida e negra começou a se formar ao redor do rapaz, fechando-se como uma jaula invisível.

— Esses porras sabem magia?!

A barreira não era sólida. 

Através dela, via-se a batalha. Os sons ecoavam abafados, como se vindos de dentro d'água. Mas quando tentou atravessá-la, uma onda de choque o empurrou para trás, fazendo seus dentes rangerem.

Magia antiga, do tipo que não ensinavam na Academia. Efeito: selamento.

Os três tiabretes da linha de frente avançaram em formação de cunha, com o maior deles no centro, os outros dois nas laterais, cobrindo os ângulos cegos. Suas garras brilhavam com um tom azulado, claramente cheias de veneno.

Peppe ergueu a lança.

A arma vibrou em suas mãos. Ansiosa. Não deu tempo de pensar, só de agir.

O primeiro golpe veio de cima, a garra do tiabrete central tentando abrir seu crânio. Peppe desviou com um movimento curto, rolando o ombro para trás. 

Contra-atacou com a haste da lança, acertando o inimigo no joelho.

O tiabrete gemeu, mas não caiu. A armadura de couro absorveu parte do impacto.

O segundo atacou pela esquerda, baixo, visando suas pernas. 

O rapaz pulou. Usou a lança como apoio para um salto mortal. Aterrissou atrás do inimigo. Tudo em milésimos.

A ponta da lança perfurou a nuca do tiabrete antes que ele pudesse se virar.

"Um caiu".

As criaturas hesitaram por um momento, como se não acreditassem. Os outros dois recuaram, reorganizando-se. Seus olhos vermelhos brilhavam com fúria, mas também com cautela.

Aquela lança era perigosa.

— Atravessem a barreira! — gritou o líder tiabrete para os tiabretes feiticeiros. — Prendam os braços dele!

As runas no chão brilharam mais intensamente. 

Cordas de sombra dispararam do chão, enrolando-se nos pulsos do rapaz. Ele tentou se soltar, mas as cordas eram fortes demais. Incrivelmente fortes, mais do que tudo que vira até então.

— Não adianta, humano! Essas amarras usam a sua própria força contra você. Kekekeke!

A lança caiu de suas mãos. Bateu no chão com um som metálico.

Thiiim...

— Petrus! — Elara se jogou contra as grades da gaiola, mas as cordas encantadas a impediam de sair. — Larga ele! Suas... criaturas imundas!

Os tiabretes riram.

O líder se aproximou, olhos vermelhos fixos na lança caída.

— Humano burro. Acha que pode enfrentar sozinho os servos do subterrâneo?

Ele se abaixou para pegar a arma.

A lança brilhou.

Uma luz dourada e intensa explodiu de sua superfície, tão forte que o tiabrete recuou, protegendo os olhos com as garras. Peppe sentiu as cordas de sombra se afrouxarem. P

Puxou os pulsos com força e libertou-se. Contudo escondeu bem esse fato. 

— Magia reativa — murmurou um dos tiabretes, surpreso. — As partículas mágicas estão... A arma... ela está viva.

— Não interessa! Matem ele!

Os dois tiabretes restantes avançaram. 

Peppe anulou as cordas negras com um feitiço rápido. Rolou. Pegou a lança e levantou-se num movimento só.

O contra-ataque foi instantâneo.

O primeiro golpe, um corte horizontal, o inimigo desviou por pouco. O segundo foi uma estocada. Perfurou o ombro do segundo tiabrete.

A criatura gritou, recuando. 

Mas Peppe não deixou escapar. Avançou. Girou a lança em um movimento circular, algo que nunca imaginou ser capaz de fazer, e acertou a têmpora do inimigo com a base do cabo.

O tiabrete caiu desmaiado.

Dois caídos. Um ferido. Restavam três.

O líder rangia os dentes. Seus olhos vermelhos brilhavam com fúria.

— Seu verme...

— Seu nariz tá escorrendo — respondeu Peppe, um pouco ofegante.

O líder avançou.

Ele era mais rápido que os outros. Muito mais. Suas garras cortaram o ar numa sequência de golpes que Peppe mal conseguia bloquear com a haste da lança.

Pah! Shiin! Pah!

A cada impacto, seus braços doíam mais. Recuava um passo.

— Ele está cansado — disse um dos feiticeiros. — A barreira está drenando a mana dele.

— Continuem pressionando!

A barreira drenava suas forças. Mas não era só isso. A lança também o drenava. Partículas mágicas fluíam loucamente de seu pulso para o cabo da arma. Um fluxo que ele ainda não controlava. O cansaço tentava dominá-lo.

Os dois feiticeiros ergueram as mãos e novas cordas de sombra dispararam do chão. Peppe desviou da primeira. A segunda prendeu seu tornozelo.

Ele tropeçou. Caiu de joelhos.

O líder ergueu a garra para o golpe final.

— Petrus! — Elara gritou, de novo.

Peppe fechou os olhos.

A lança brilhou.

Ele então abriu os olhos de novo, sorrindo de canto e pensando: "Mas que otário!"

Quando a criatura pisou no chão, dez metros à sua frente, ele agiu.

Naquele momento, Peppe via cada gota de suor escorrendo pelo rosto do líder. Via as cordas de sombra se retorcendo no ar. Via o brilho das runas no chão, os padrões de mana se desfazendo, os pontos fracos da barreira.

"Agora!"

A lança perfurou o pulso do líder, desviando sua garra. Peppe girou. Usou o ímpeto para se levantar e com isso acertou o cotovelo do inimigo com a base da lança.

O osso quebrou com um som seco.

O líder gritou. Recuou.

Peppe não parou.

Não correu atrás dele – isso não interessava no momento. Avançou em direção aos feiticeiros. Eles ergueram as mãos para conjurar. Lentos demais.

A lança cortou o ar. O primeiro feiticeiro caiu com o peito aberto. O segundo tentou fugir. Peppe o alcançou com um salto. Aterrissou em suas costas. Enterrou a ponta da lança em sua nuca.

O último, o ferido que estava caído no chão, tentou se arrastar para longe.

Peppe se aproximou com a lança erguida.

— Por favor... — sussurrou a criatura. — Tenho filhos...

Ele parou.

— Tá de sacanagem?!

— N-não... eu sou uma fêmea. Estou grávida.

Silêncio.

Peppe olhou para a barriga da criatura. Havia uma protuberância ali. Inegável.

Olhou para Elara. Ela estava com a mesma cara de incrédula.

"E aí?!" , o olhar dele dizia.

Ela balançou a cabeça. Lenta.

Peppe suspirou. Baixou a lança.

— Puta merda! Some da minha frente — disse, a voz rouca. — Vai! Some antes que eu mude de ideia.

A tiabrete se arrastou para trás, virou-se e sumiu na escuridão do túnel. Peppe não a perseguiu.

Respirou fundo. Virou-se.

Lúrien e as outras estavam sobre o corpo do líder. A lança dela ainda enterrada no pescoço dele. O sangue escorria em poças escuras pelas runas do chão.

Já tinham acabado.

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