Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 40: O acordo

O interior da mansão de Lux era um tanto "espalhafatosa" demais, até para Peppe. O salão de festas, no centro, estava todo ornamentado com flores e luzes. Orbes de todas as cores infestavam a vista, contrastando com o chão simples de madeira trabalhado com verniz. 

O ar, denso e quente, carregava um perfume intoxicante de incenso e álcool. 

Peppe vestia um traje de seda azul-escura que lhe apertava o pescoço, causando-lhe um certo desconforto. Ele já tinha alguma experiência com trajes de luxo, apesar de preferir aqueles com menos camadas. 

Notando bem, muitos outros jovens estavam ali. A maioria nobres e ricos que estudavam na Academia. 

Cada olhar que pousava nele era um cálculo. 

Ele agora não chamava a atenção apenas pela altivez ou pela boa aparência. Agora, Peppe não era "Giuseppe", primo de um príncipe fantoche, e sim "Petrus Pistorius", o "príncipe foragido". 

"Se você continuar com essa expressão de quem mastigou limão, vão pensar que o vinho de Lux está envenenado", a voz de Floquinho ecoou em sua mente, um sussurro carregado de diversão perversa. "O que, devo admitir, eu realmente gostaria de provar".

"É só sair e pegar, Floquinho", pensou Peppe em resposta, ajustando o colarinho com um gesto brusco. "Tem vinho pra caralho aqui".

"Eu adoraria, garoto. Mas se eu fizer isso vou acabar com a surpresa". 

Peppe não entendeu, porém, quando estava prestes a questionar, um outro assunto no mundo exterior acabou chamando-lhe a atenção.

Numa alcova lateral, um poeta declamava versos lascivos para uma nobre que bocejava atrás do leque. Reparando bem, os trajes que usava...

— Espera! Esse corno tá sem calça?

Noutro canto, outros dois jovens, despidos da parte de cima das vestes, seguiam uma mulher alta e de curvas finas para um quartinho lateral. Sons estranhos seguiram dali. 

Aquilo despertou uma memória negativa de Peppe. 

— Mas que... — Ele estava incrédulo. — Isso aqui é uma suruba?!

Olhando no centro do turbilhão, deslocando-se com a fluidez de uma serpente num rio, estava Lux. O jovem duque parecia absorver a atenção da sala, redireccionando-a com um sorriso ou um gesto. 

Estava acompanhado de ao menos sete mulheres de belas curvas e seios fartos. "Mulheres" do mesmo estilo de Valerie. 

Quando os seus olhos finalmente encontraram os de Peppe, não houve surpresa, apenas um reconhecimento carregado de cumplicidade. 

Lux desprendeu-se de seu harém de milfs protuberantes e aproximou-se.

— Príncipe Petrus! Que bom vê-lo — disse Lux, a voz um fio de seda cortante. O sorriso era perfeito, mas os seus olhos, por uma fracção de segundo, cintilavam com um brilho não natural, uma cor de ameixa madura sob a luz. — Aqui tá um pouco agitado, em? Bom, o verdadeiro licor e os whiskys caros estão no meu escritório. Venha! Vamos beber um pouco. 

O tom altivo e sugestivo de Lux chamou a atenção de alguns presentes. 

Não demoraria muito para conjecturarem se por acaso o príncipe herdeiro de Tullis e o duque de Amoris não eram amigos íntimos, ou talvez "mais do que isso". O que parecia ser a intenção de Lux. 

Peppe percebeu a jogada e apenas "entrou na onda". 

***

O escritório de Lux era o antípoda do salão. Sútil, com acabamentos sólidos e minimalistas.

A porta maciça de carvalho fechou-se, abafando instantaneamente a algazarra. 

Aqui, o silêncio era uma entidade física, fria e austera. As estantes de livros raros e mapas antigos pareciam absorver o som. A única luz vinha de uma única lâmpada arcana sobre a enorme mesa de madeira escura.

Lux despiu a máscara do anfitrião despreocupado como se tirasse um manto. Os seus ombros, antes descontraídos, endireitaram-se. A frivolidade evaporou-se dos seus olhos, substituída por uma inteligência afiada e cansada.

— Então, que segredo meu você sabe?

O jovem encarou, calmo e sereno, características que normalmente não se viam em Lux. Ele olhou os arredores, certificando-se que estavam sozinhos. 

— Dio. Acho que você pode sair agora — disse Lux, a voz agora plana, profissional.

Peppe estranhou.

Do ar ao lado de Lux, como se a realidade estivesse a desfiar-se, uma forma começou a coalescer. 

Não foi um aparecimento assustador, mas uma materialização graciosa e perturbadora, muito similar a algo que ele já presenciou antes, algumas vezes. 

Era uma figura humanóide, feminina, de curvas finas, com a altura de uma adolescente, mas com as proporções sinuosas e impossíveis de um sonho libertino. 

A pele era de um branco puro e aveludado, como a de um coelho. Longas orelhas felpudas erguiam-se acima de uma cabeça de traços finos e perversamente belos, com grandes olhos de um rubi profundo que brilhavam com inteligência milenar. Vestia o que só podia ser descrito como um arremedo provocador de um fato de cerimónia, feito de laços e sedas negras que destacavam a alvura do seu corpo.

— Um furry?!

Peppe estava incrédulo.

Finalmente! — A voz da criatura era melíflua, cada palavra uma carícia auditiva. — Eu odeio perfume barato. E por algum raio de motivo, vocês humanos adoram essas porcarias  — Os olhos rubis pousaram em Peppe, e um sorriso lento, cheio de dentes pequenos e perfeitos, esticou-se nos seus lábios. — A quanto tempo, Gal.

Peppe recuou instintivamente um passo, a mão esquerda a contrair-se num punho, a direita a procurar inútilmente o cabo de uma arma que não trazia.

— Que raio é isto? — a sua voz soou mais áspera do que pretendia.

— "Isto" é Dio — apresentou Lux, recostando-se na sua cadeira. — Achei que você saberia, afinal, também tem um, não?

Lux lançou um olhar significativo para Peppe. 

"Parece que fomos descobertos, garoto", respondeu Floquinho, de súpeto. 

A admiração foi substituída por uma cautela gelada. O segredo mais profundo de Peppe, a fonte de todo o seu poder e angústia, estava ali, exposto com a naturalidade com que se comenta o tempo.

Assim, a raposinha gananciosa saiu de seu hospedeiro, materializando-se no centro do escritório da mesma forma que a coelha humanóide fez. 

Não assuste meu campeão assim, Dio. Ele ainda está iniciando o processo, não sabe da existência de você e dos 'outros'.  

— Como? O que é você? — foi a única coisa que Peppe conseguiu dizer. 

Lux ignorou a pergunta, indo direto ao cerne. 

— Dio é o espírito ancestral da luxúria. Fizemos um pacto, igual ao que você e Gal devem ter também.

Floquinho encarou Dio, sem expressão. 

Em contrapartida, a coelhinha humanóide respondeu com um sorriso divertido. 

Lux quebrou o clima com uma resposta direta. 

— Preciso consolidar o poder em Amoris. Acabar com a rebelião da escória republicana e reestabelecer a ordem. Meu tio é um bom burocrata, mas horrível em comandar tropas. Já perdemos metade do exército até onde sei. E a única maneira de recuperar isso é com a sua ajuda.

Fez uma pausa, deixando as palavras pairarem.

— Em troca, te ajudo com Tullis. 

A imagem que Lux pintou era grandiosa. Tomar de volta o que roubaram deles. Petrus seria rei de Tullis, e Lux seria o verdadeiro governante de Amoris. Era exactamente o tipo de proposta que faria um ex-príncipe faminto por justiça salivar.

Mas Peppe não era apenas Petrus. Era Peppe. E Peppe, no fundo da sua alma cansada e cínica, via para além da glória.

— Quê? Lux, mesmo que eu quisesse retomar Tullis, por que caralhos eu deveria me meter na sua guerra? 

No fundo de seu coração, algo balbuciava. Ele sequer tinha essa pretensão inicialmente. Só queria se livrar de Morius. Além de proteger a si mesmo e, mais recentemente, à Sara também. 

De uns tempos pra cá, contudo, alguns pensamentos diferentes começassem a inundá-lo. Pensamentos do tipo "ser rei deve ser legal", ou "preciso de poder", começaram a vir na mente. 

Além disso, o fato de estar em uma posição tão delicada o fazia um alvo ambulante. 

Cedo ou tarde, ele teria que resolver isso. E, mesmo que por um milagre fizesse as pazes com o conde, sabia que não seria deixado em paz. Possivelmente tentariam matá-lo outra vez. A solução, então, era voltar a Tullis e tomar de volta o governo, coroando-se como rei. 

A questão era que, para isso, precisaria de poder. E de um exército. Mas, pelo que Lux falou, ele estava na mesma situação. Portanto, como poderia ajudá-lo a retomar Tullis?

Mesmo que depois da guerra contra os rebeldes revolucionários ele de fato o ajudasse, seu exército, que já era fraco, estaria em frangalhos. Demoraria muito até que se reergueram a ponto de poder representar uma ameaça real às tropas de Tullis comandadas pelo Regente Morius. 

Aparentemente, ele não ganharia nada apoiando o duque. Só se arriscaria numa guerra que não era dele. Era um jogo de perde-perde para ele. 

Antes que Lux pudesse contra-argumentar, de modo a convencê-lo, algo aconteceu. 

O mundo na percepção de Peppe desfocou-se. A sala rica desapareceu, substituída pelo brilho âmbar e opressivo da Loja da Ganância. 

Peppe já experimentou isso antes, embora em uma situação diferente. 

A primeira coisa que reparou foi que as prateleiras ilusórias, antes vazias, agora estavam cheias de coisas. 

Eram espécies de tomos, livros, instrumentos borrados e conhecimentos e poderes com preços em almas, que tremelicavam. No centro, pairando no ar com as suas patinhas rosadas e peludinhas, estava Floquinho. 

Mas não estava divertido. Estava furioso.

— Aceite a proposta dele, garoto. 

Quê? Por quê? — Peppe perguntou. — Tipo, o que eu ganho com isso? 

— Poder — respondeu Floquinho. — Estar em uma guerra é o mesmo que ir em um banquete para você, rapaz. Vai poder matar livremente, conseguir almas em massa e trocá-las por poder. E é esse poder que vai manter você e a escrava seguros. Quanto mais matar, mais poder vai ter. 

Era um argumento assustadoramente convincente. Se ele participasse de duas guerras, eram duas vezes mais almas. 

Combinava a ameaça existencial com a solução prática para o seu próprio pacto demoníaco. A Ganância não estava a pedir-lhe para ser ambicioso por ambição; estava a mostrar-lhe que a ambição era a única ferramenta de sobrevivência.

— Ser rei vai ser somente a consequência do poder — explicou. — Se não gostar, faça um filho, arrume alguém para criá-lo e deixe-o tomando conta das coisas, ou então só arrume um regente, um primeiro ministro ou algo assim. Ser rei é uma coisa; governar, de fato, é outra completamente diferente. 

A criaturinha riu, despertando a curiosidade de Peppe. 

Até que você tem razão... 

Floquinho se apoio na almofada, cortanto as palavras do garoto:

— Além disso, tenho planos para você. E preciso que você seja rei para podermos pô-los em prática. 

A visão da Loja esvaneceu-se. A consciência do rapaz voltou ao escritório gelado, onde Lux observava com um interesse clínico, como se visse os engrenagens a girar dentro do seu crânio. Dio bocejava, examinando as unhas imaculadas.

Peppe respirou fundo.

— Está bem, Lux — disse, a voz surpreendentemente estável. — Temos um acordo. 

O ser místico feminino abriu um sorriso largo, genuinamente encantada. Virou seu olhar para os garotos, depois para Floquinho.  

Não acha isso excitante, irmão?

Não, Dio, eu não acho. Mas parece bem lucrativo. 

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