Contra o Mundo Brasileira

Autor(a): Petter Royal


Volume II

Capítulo 39: Moção escrita

Peppe acabou aceitando a ajuda da condessa de Rosa Vermelha e agora era oficialmente seu campeão. Isso significava que não teria mais que se preocupar com dinheiro, moradia ou comida, nem com a segurança de Sara. 

Apesar disso, a confusão da noite anterior lhe deixou apreensivo. 

Querendo ou não, tentaram sequestrar Sara para chantageá-lo. Por sorte, não deu certo. Porém se ele tivesse sido um minuto sequer mais lento em fugir da armadilha, uma tragédia poderia ter acontecido. 

Qualquer fosse o caso, com o passar do tempo, o incidente ficou um tanto mais claro. 

A resposta oficial foi que os eventos da noite anterior eram uma espécie de "limpeza", executada por um grupo de elite enviado a mando do Congresso de Rochedo, que era uma espécie de Poder Executivo que comandava o poder de ataque. 

Evelyn era do Conselho Arcano, que funcionava como uma espécie de órgão consultivo, responsável pelos assuntos envolvendo os magos e a magia de um modo geral. Dessa forma, não tinha como ela saber o que estava sendo orquestrado pelo Congresso. 

Confuso, e não querendo se distanciar de Sara enquanto ela se recuperava, Peppe matou dois dias seguidos de aula. 

Quando voltou para a Academia, na outra manhã, tudo aparentava estar normal. 

De um modo muito sútil, os alunos comentavam sobre os eventos. Rolava uma fofoca ali, outra aqui. Mas nada fora do que se esperava de jovens adultos que não faziam nada além de estudar e festejar. 

Naquele instante, um certo jovem comentava sobre seus feitos amorosos, logo após interromper uma explicação inventada de por que Peppe se ausentou por dois dias seguidos. 

— Por falar nisso, darei uma "festa" neste final de semana, meu caro Petrus. Gostaria de vir?

Sem jeito, e lembrando-se dos acontecimentos anteriores na mansão, Peppe pensou em formas de escapar daquele convite nada agradável. 

— Obrigado, Lux. Mas vou passar. Essa realmente não é a minha "praia". 

Sem entender o que ele havia dito, o rapaz de cabelos brancos apenas fez "cara de tacho", e continuou o seguindo até a Classe Especial. 

— Ainda precisamos ter aquela conversa, certo?

Peppe parou, em um corredor totalmente branco, a poucos metros da porta da sala. 

— Bom, sim. Tá certo, meu caro Petrus, me encontra depois da aula. Certo? 

Ele fez que sim, adentrando o recinto. Logo após Lux foi junto. A primeira aula seria sobre Fundamentos Intermediários da Piromancia, e o professor Iggy Feldspar não costumava atrasar. 

— A propósito, tem outra coisa que eu queria discutir. Quer dizer, tem uns boatos rolando sobre você e...

Quando entraram, Lux acabou interrompendo a própria fala. 

Peppe logo notou que algo estava diferente.

Praticamente todos os demais alunos os encararam. Não que isso fosse incomum. Afinal, Peppe era muito atraente, tinha uma beleza angelical. E Lux não era muito pior, com um rosto um pouco andrógeno que poderia atrair a atenção tanto de mulheres quanto de homens. Era só que o olhar que lhes eram lançados não eram de desejo.    

O clima na sala 0000 era denso, carregado de sussurros cortados no ar. 

Reparando bem, aquelas faces não estavam mais apenas cheias da habitual arrogância ou competição acadêmica. Agora, misturavam-se com curiosidade mal disfarçada, desdém renovado e, em alguns casos, um frio cálculo político. Todos os olhos se voltaram para eles quando cruzaram a porta.

— Você ficou sabendo... 

— Sim. 

Sem saber o que fazer, Peppe só sentou-se normal, aguardando a aula começar. 

Ao menos era a ideia, mas uma garota loira, esguia e de olhos castanhos veio em sua direção. 

— Por que você não me disse antes? 

Peppe a encarou de volta, estranhando. Até olhou para os lados, para ver se falava mesmo consigo. 

— Como assim?

— Por que não falou antes?

Peppe fez cara de "ãn?!", sem reação.

— Alteza Elara? O que caralhos eu não te falei antes? Você tá é muito maluca, sua doida. 

Fazendo um "humpf", ela se virou para o próprio assento, retribuindo a ofensa residual com um gesto de frieza. 

"Aqui só tem maluco hoje, mas que caralho", pensou. 

"E o mundo não é assim todos os dias, jovem humano?"

O despertar de Floquinho tirou de Peppe a tranquilidade mental e a liberdade de pensamento. O que não lhe fazia muita diferença, aparentemente.  

Quando Iggy entrou, Peppe enfim teve sua confirmação de que as coisas não estavam, de fato, normais. Isso porque ele foi acompanhado por outros dois magos, estes vestidos com o mesmo uniforme branco que viu no dia do Exame de Ferro. 

"Magos Executores", como eram chamados. Lacaios do Congresso Arcano, pelo que o rapaz entendeu. 

— Acólito Moretti, acompanhe estes senhores, sim? — disse o professor, com a voz um pouco mais fria do que o habitual. 

Peppe encarou com franqueza, ainda assustado pela presença dos executores. 

— Iremos acompanhá-lo até a sala do Diretor Valerius, senhor Moretti — explicou — Ou talvez eu deva dizer "príncipe Petrus", da casa Pistorius de Tullis. 

"Ah, mas que caralho". 

"Mas que interessante. É agora que a galinha vai torcer a asa, garoto".

***

O caminho até o gabinete do Diretor foi uma procissão silenciosa.

Peppe achou aquilo um saco, mas manteve a cabeça erguida, os ombros para trás. Apesar de estar puto, a vida de modelo o preparou o suficiente para não deixar as emoções atrapalharem a maneira de andar. 

Alguns olhares eventuais eram lançados pelos outros alunos. O gabinete do diretor ficava no salão central, um pouco distante dali, em uma parte aberta e florida da Academia. 

Era o lugar preferido dos alunos matadores de aula e apreciadores de uma boa erva medicinal. 

Ao entrar no gabinete imponente de Valerius, os Executores ficaram do lado de fora. 

A porta se fechou com um baque solene. Valerius não estava sozinho. Em pé, ao lado da janela, com os braços cruzados e uma expressão que era uma tempestade contida, estava Lorde Ferrum. 

Seus olhos de aço cortaram Peppe como lâminas.

O Diretor Valerius, sentado atrás de sua mesa, tinha uma expressão inescrutável, mas a tensão no ar era palpável.

— Senhor Moretti. Ou, como parece ser o caso, Petrus Pistorius Magnus, Príncipe Herdeiro de Tullis — Valerius deu uma piscadela para Peppe, como quem dizia "mantenha o disfarce. Nós não nos conhecemos". — O senhor entende a gravidade de fornecer informações falsas em seu processo de admissão nesta Academia?

Peppe fez cara de "tacho", pegando a piscadela do diretor como uma deixa para a pilantragem. Eles teriam que manter um teatro para o membro do Conselho. 

Pensava em uma desculpa convincente o suficiente para enganar um articulador político poderoso, mas nada lhe vinha à mente, exceto...

— Diretor, com todo o respeito, mas esse negócio de aristocracia não é comigo. Você sabe, eu queria ser discreto, conquistar meu direito de entrada por mim mesmo. 

O diretor o encarou como quem dizia "mas que desculpa esfarrapada". 

Foi uma resposta audaciosa, quase desrespeitosa. Lorde Ferrum soltou um som baixo, de desdém. 

— Uma desculpa conveniente para um príncipe foragido se esconder atrás das saias da neutralidade da Academia. E agora, escondendo-se atrás das saias da Condessa Rosetta. Conveniente, não é?

— Lorde Ferrum — Valerius interviu, sua voz ganhando um tom de advertência. — Este é um assunto disciplinar interno da Academia.

— É um assunto de segurança do Conselho Arcano das Províncias Unidas — retrucou, virando-se para Valerius. — Um herdeiro real, de um reino em turbulência, infiltra-se em nossa mais preciosa instituição sob identidade falsa. Quem garante que ele não é uma turbulência ambulante? 

"Ele te pegou agora, garoto. Foi exatamente o que você fez", comentou Floquinho, divertido.

Peppe forçou-se a manter a calma. Mas sua cara revelava que havia sido pego "com a mão na cueca". 

— B-bom. Que turbulência? Tá tudo tranquilo em Tullis, pô. Mô paz. 

Ferrum pareceu um peixe fora d'água por um segundo, ainda sem crer na falta de indiscrição e na desculpa descarada do jovem acólito. 

Valerius, por um instante, pareceu esboçar o mais leve dos sorrisos no canto dos lábios, antes de recuperar a compostura.

— O ponto do Lorde Ferrum, embora expresso de forma veemente, tem mérito — disse Valerius, retomando o controle. — Sua falsa identidade cria uma névoa de desconfiança. No entanto, a Condessa Rosetta apresentou uma petição formal ao Conselho Arcano, assumindo seu patrocínio integral e responsabilizando-se por sua conduta. Ela argumenta, com certa razão, que seu talento arcano é um recurso valioso para Rochedo, independente de sua política doméstica.

Ferrum pareceu esboçar um pouco de desconforto. 

De fato, Evelyn havia ido para Rochedo fazia dois dias, na manhã seguinte ao incidente com Sara. Pelo visto, ela conseguiu se antecipar ao movimento de Ferrum, o que o deixou um tanto descomposturado. 

Lorde Ferrum — a voz de Valerius cortou o ar, e pela primeira vez, uma centelha de poder verdadeiro emanou dele, fazendo as velas tremularem. — A política do Conselho será discutida no Conselho. Na minha Academia, discuto a disciplina de meus alunos. A petição da Condessa foi aceita pela maioria simples. O Príncipe Petrus, Mago do 1º círculo atestado pelo Conselho, permanecerá como aluno desta Academia, no status de acólito.

Ele olhou diretamente para Peppe, fazendo uma pausa e retirando uma pena da mesa. Escreveu algo, rubricou, depois entregou a Ferrum. 

— No entanto, há consequências. Primeiro: uma reprimenda grave será permanentemente anexada ao seu registro. Segundo: sua identidade será retificada. Você é, a partir de agora, Petrus Pistorius, sob patrocínio da Casa Rosetta. O disfarce acabou. Terceiro, e isto é uma ordem direta: você está proibido de se envolver em qualquer atividade que possa ser interpretada como interferência nos assuntos políticos de Rochedo ou em conflitos entre facções do Conselho enquanto estiver sob a proteção desta Academia. Isso inclui, mas não se limita a, vinganças pessoais, encontros clandestinos com agentes de qualquer reino, ou ações que possam provocar incidentes diplomáticos ou a qualquer outra situação que esta Diretoria ou o Conselho possam interpretar como evasivas. Você está aqui para aprender magia, não para jogar xadrez!

Era uma jaula de regras, ao que parecia. E Valerius fez questão de soar grave, deixando transparecer sua sinceridade. 

Com aquela fala, estava claramente tentando protegê-lo do pior — e talvez proteger a Academia do caos que ele carregava.

— Compreendo, Diretor — Peppe disse, contendo um suspiro.

— Há mais — Lorde Ferrum falou, sua voz agora um silvo controlado. — Dada a natureza delicada de sua situação, e para garantir a transparência, os Executores do Congresso terão permissão para monitorar seus movimentos dentro dos limites da cidade quando você não estiver em aula ou nos aposentos da Condessa. Para sua própria "proteção", é claro. E para a nossa tranquilidade. É o que diz esta moção escrita, Diretor?

Aquilo sim surpreendeu o rapaz. 

"Como assim, caralho de moção escrita?".

Isso sim era um golpe baixo. 

Vigilância constante. Tornaria impossível qualquer ação noturna, qualquer encontro com Derik, qualquer tentativa de "coletar" as almas que Floquinho exigia para lhe entregar conhecimento e poder.

Embora a Mão Sombria possivelmente tivesse sido exterminada, ele ainda queria ir lá se encontrar com Derik e o velho Jasper e ver se estavam bem. 

Antes que Peppe pudesse protestar, Valerius falou novamente, seu olhar perfurando Ferrum. 

— Apenas para lembrar, a Academia não é uma extensão do aparato de segurança do Congresso e nem do Conselho, Lorde Ferrum. Monitoramento interno constante de um aluno é uma violação de nossa autonomia. No entanto... — Ele voltou-se para Peppe. — ...dada a excepcionalidade do caso, a moção permite que seus Executores façam verificações periódicas de presença nos portões à noite e também que façam um acompanhamento discreto em suas atividades extracurriculares oficiais, como missões e tarefas da Academia e do Conselho. Nada mais.

Foi uma concessão, mas menor do que Ferrum queria. O Lorde Conservador apertou os maxilares, mas pareceu entender que era o máximo que conseguiria. 

— Muito bem. Mas que fique claro: qualquer passo em falso, qualquer conexão com elementos subversivos remanescentes da "limpeza", e essa proteção acadêmica desaparecerá instantaneamente.

A reunião terminou com uma demissão fria. 

Peppe foi conduzido para fora, mas agora eles pareciam mais como escoltas do que como guardas. Para manter o combinado entre o Diretor e o Lorde Ferrum, eles se dispersaram logo em seguida. 

Aparentemente, acompanhariam Peppe há algumas dezenas de metros de distância. 

Ele era um príncipe desmascarado, um peão de Rosetta, um alvo de Ferrum, e agora tinha uma vigilância parcial sobre si. E, pairando sobre tudo, a dívida de cem almas para um espírito faminto que não aceitaria desculpas burocráticas.

Ao se aproximar do pátio central, na tentativa de pagar a parte prática da aula de Iggy, uma figura surgiu de uma alcova. Lux, com seu sorriso habitual ausente.

— Então, era sobre sua identidade? — questionou Lux, seu tom sério. 

— Você soube rápido — Peppe murmurou, olhando ao redor para os Executores que estacionaram a uma distância "discreta".

— Era o que diziam os boatos. Escute — Lux baixou a voz. — Sobre o nosso outro assunto, você...

— Espere — interrompeu o rapaz, piscando e fazendo um gesto para que o amigo olhasse para uma das pilastras laterais. — Não é bom falarmos disso aqui. Agora eu tô sendo seguido por esses filhos da puta o dia todo.  

Lux entendeu. Piscou de volta, dizendo:

— Bom, o convite para minha festa ainda está de pé. Apareça lá, daí podemos ficar "mais à vontade", se é que me entende.  

O jogo em Celestia tinha novas regras. E Peppe teria que aprender a jogar com as mãos amarradas.

 

 

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