volume 3

Capítulo 3: A Noite Azul do Céu Distante Que Lembraremos Um Dia

 

Estávamos na parte de trás do Shirasagi, sendo balançados de um lado para o outro.

 

O Shirasagi é um trem rápido especial que conecta Kanazawa, Fukui e Nagoya, meio que como a resposta dos fukuianos ao Thunderbird.

 

Daqui a alguns anos, parece que vão estender a linha Hokuriku Shinkansen, mas até agora, o Shinkansen ainda não passa por Fukui.

 

Se você quer ir para Tóquio, tem que pegar o trem rápido especial até a Estação Kanazawa em Ishikawa, depois descer e trocar para o Hokuriku Shinkansen. A outra opção é pegá-lo até a Estação Maibara em Shiga, depois pegar o Tokaido Shinkansen.

 

Qualquer rota teria sido boa, mas ouvi dizer que o Hokuriku Shinkansen passa por muitos túneis, então optei pelo Tokaido Shinkansen para podermos aproveitar a vista.

 

Poderíamos até ter pegado um avião se quiséssemos, mas o aeroporto de Fukui é usado principalmente para aviões particulares, e há poucos voos comerciais programados. Se você quer ir para Tóquio de avião, tem que ir ao aeroporto de Komatsu na Prefeitura de Ishikawa, então na verdade é mais rápido pegar o trem rápido especial e o Shinkansen.

 

A propósito, lá no parque, Asuka entrou em pânico por não ter dinheiro para a passagem do Shinkansen até que eu disse a ela: "Já comprei, então pode me pagar de volta quando quiser."

 

Foi ideia minha arrastá-la para Tóquio, afinal, e eu raramente gasto meu dinheiro, então tinha bastante de sobra. Se eu dissesse que era meu presente, porém, não pareceria justo para meus pais ou para a própria Asuka, então me abstive.

 

Já que obviamente não tínhamos tomado café da manhã, paramos no Imajo Soba dentro da Estação Fukui. Pedi soba* quente com ameixa e algas marinhas e dois bolinhos de arroz, e Asuka pediu soba quente com inhame ralado.

 

N/R: Soba é um tipo de macarrão feito de trigo-sarraceno, popular no Japão e em outros países orientais (em sua maioria).

 

A propósito, mesmo sendo este Imajo Soba do tipo estreito onde você fica em pé para comer, é bastante popular entre os locais, então algumas pessoas até vêm à estação só para comer lá. Não é nada muito sofisticado ou refinado, mas é o tipo de comida reconfortante e tranquilizadora que faz você querer comer imediatamente sempre que pensa nela.

 

Saímos de Fukui e passamos por estações em Sabae e Takefu, atravessando a prefeitura.

 

Asuka encostou a cabeça no meu ombro e cochilou como uma criança.

 

Eu não podia culpá-la, não depois de eu tê-la acordado de madrugada e então ter lançado essa viagem inesperada sobre ela.

 

De vez em quando, em ritmo com sua respiração sonolenta, seu cabelo fazia cócegas na minha clavícula.

 

Eu podia sentir um cheiro de lavanda, e não era só minha clavícula que estava recebendo cócegas.

 

Olhei para ela e fiquei surpreso com a inocência em seu rosto, uma inocência difícil de imaginar quando você pensa na beleza digna habitual de Asuka.

 

Ela estava encostada em mim, o que fazia o decote de seu vestido abrir um pouco, e já que ela tinha as mãos dobradas nos joelhos, os montículos macios de seu peito estavam pronunciados.

 

Percebi uma pequena pinta lá e rapidamente desviei meus olhos para olhar pela janela do trem.

 

Eu podia ver campos de arroz encharcados de água, pequenas montanhas e colinas contornando os arredores, e um céu sem fim acima. Seu cenário típico do interior.

 

Lembrei das férias em família de muito tempo atrás.

 

A primeira vez que andei de ônibus noturno.

 

Havia vários casais sentados perto que pareciam poder ser estudantes universitários, rostos próximos e sussurrando felizes. Havia até alguns enrolados juntos sob cobertores, e eu me lembro de pensar como eles pareciam adultos.

 

Eu me perguntava se algum dia faria uma viagem assim com alguém especial.

 

Estranho para uma criança imaginar um futuro tão distante para si mesmo.

 

Senti um peso no meu ombro, e logo outro peso foi colocado sobre ele, e comecei a adormecer também.

 

Talvez um dia eu olharia para trás para este momento com saudade.

 

O trem sacudiu e chacoalhou, levando os dois sonhadores para a cidade distante.

 

"Hora de ir, Asuka! Tenho que dizer, você estava dormindo pesado."

 

"Hã? Satsukigase?"

 

"Não, não o doce amado de Fukui! Droga, não é hora de ser fofa!"

 

Agarrei uma Asuka ainda sonolenta pela mão, e saímos do trem, segurando nossas bolsas.

 

Asuka estava bocejando. "Desculpa, erro meu. Acho que adormeci completamente."

 

"Você até babou no meu ombro."

 

"Espera, sério?!"

 

"Não!"

 

"Ah, você é péssimo!"

 

Descemos as escadas e nos juntamos à multidão se alinhando para o portão de transferência.

 

Eu liderei o caminho, mas então ouvi um som de campainha atrás, e me virei para ver que Asuka tinha ficado presa no portão e estava estendendo a mão para mim com desespero.

 

"Espera! Não me deixe para trás!"

[TMAS:Dramática, achou que seria abandonada]

 

"Calma, Asuka. Parece que você precisa colocar todas as três passagens no portão de uma vez."

 

Passamos pelo portão sem mais incidentes, compramos bebidas na máquina de venda automática, depois fomos em busca de nossos assentos designados.

 

Coloquei minha mochila e a bolsa Boston de couro retrô na prateleira de bagagem superior, e então Asuka exclamou, soando empolgada.

 

"Qual assento você quer?"

 

Ah sim, perdemos essa típica conversa de viagem de trem de ida e volta mais cedo. Acabou que Asuka pegou o assento da janela e eu sentei no corredor.

 

Eu não hesitei em responder.

 

"Assento da janela."

 

"Vamos fazer pedra-papel-tesoura..."

 

"Você não vai me dar minha vez?"

 

"Vamos lá, juro que vou jogar pedra."

 

"Faz um tempo desde que me envolvi em uma guerra psicológica relacionada a pedra-papel-tesoura!"

 

"...Um!"

 

Eu joguei tesoura, e Asuka jogou pedra.

 

"Ah, eu te disse que ia jogar pedra. Você tentou me antecipar."

 

"Ah, cale a boca!"

 

No final, Asuka acabou pegando o assento da janela novamente, e eu sentei no corredor.

 

"Ah, quase esqueci! Você poderia pegar minha bolsa para mim? Desculpa, sei que você acabou de colocá-la lá."

 

Fiz como ela pediu, e ela vasculhou dentro antes de puxar uma sacola plástica de conveniência.

 

"Petiscos!"

 

"De repente, sua bolsa parece muito menos sofisticada."

 

"Mas não é emocionante ter coisas assim em uma viagem?"

 

"Você se certificou de manter o limite de gastos de quinhentos ienes, não é?"

 

"Claro!"

 

Enquanto conversávamos para frente e para trás, decidi trazer à tona algo que estava em minha mente.

 

"Asuka, sua mãe e seu pai..."

 

"Deixei um bilhete. Dizia: 'Fique calmo e não tente me encontrar.'"

 

"Eles não iriam reportar você como desaparecida ou algo assim, iriam...?"

 

Asuka riu. "Brincadeira. Odeio mentiras. Escrevi: 'Vou ver Tóquio e estarei de volta amanhã.'"

 

Eu tinha planejado voltar no mesmo dia, mas não disse nada naquele momento.

 

"Você disse com quem estava?"

 

"Não. De jeito nenhum."

 

Expirei um suspiro de alívio.

 

Eu tinha me preparado para perguntar diretamente ao pai dela se fosse pego quando fui acordar Asuka. Mas para ser honesto, fiquei realmente aliviado por ter conseguido sem encontrá-lo.

 

Se eu tivesse que enfrentar o pai dela, tinha a sensação de que as coisas ficariam bem difíceis.

 

"Sabe, é um pouco tarde para estar trazendo isso à tona, mas..." Fiz uma pausa. "Desculpa por... toda essa loucura."

 

Asuka inclinou a cabeça para um lado e sorriu calorosamente para mim. "Você captou os sinais de 'venha me ajudar' que eu estava transmitindo, certo?"

 

"Com certeza captei."

 

"Quem poderia condenar um vizinho por regar uma planta no jardim de seu vizinho se fosse óbvio que aquela planta ia murchar e morrer sem água?"

 

Olhei para o lado. "Mas agora já fiz tudo o que posso fazer por você," eu disse baixinho. "Mesmo depois de visitar Tóquio, a situação permanecerá inalterada. Acho que esse tempo fora, do que se trata, é deixar você finalmente se enfrentar, Asuka."

 

Asuka colocou a mão gentilmente sobre a minha. "Obrigada. A versão de mim que você fala sobre... Vou tentar encontrá-la por mim mesma desta vez."

 

Enquanto olhávamos para o cenário passando pela janela, pensei sobre coisas mundanas.

 

Aquela casa antiga aninhada nas montanhas. Deve estar tão cheia das memórias de alguém. Mas não podemos apreciar seu valor enquanto passamos por ela na fração de um segundo.

 

Onde existe a balança na qual os sonhos podem ser pesados?

 

Quem decide qual deve ser o peso do contrapeso?

 

O cenário continuava passando pela janela.

Então, logo depois das dez da manhã, chegamos à Estação de Tóquio.

 

Na viagem, lembro de nos sentirmos empolgados por ver o Monte Fuji de verdade. Até tiramos fotos.

 

Mas assim que passamos pela Estação Shin-Yokohama, começamos a ver todos esses prédios enormes de apartamentos por toda parte, do tipo que você nunca veria em Fukui, e começamos a murmurar um para o outro: "Uau, é realmente a capital." E então começamos a ver arranha-céus de verdade, alguns empilhados três juntos, e ficamos pasmos.

 

Então, quando passamos pela Estação Shinagawa, os prédios enormes pareciam tocar o céu, mais altos do que qualquer coisa que já tínhamos visto, e nós dois pressionamos nossos narizes contra o vidro como um par de caipiras. "Uau," dissemos, várias vezes.

 

Enquanto o trem corria sobre uma seção elevada de trilhos, olhei para Tóquio, chocado com o quão densamente compactado tudo estava.

 

Mal havia espaço entre as casas, ou entre os blocos de apartamentos. Estavam perto o suficiente para os moradores olharem direto para as casas de seus vizinhos.

 

Nada parecia completamente real; na verdade, parecia algum tipo de cidade em miniatura.

 

Descemos do Shinkansen juntos, tremendo um pouco, e Asuka falou primeiro.

 

"Há algum tipo de evento acontecendo hoje?"

 

"Entendo completamente o que você quer dizer, mas acho que não é isso."

 

Eu sabia que esta era a última parada e tudo, mas o Shinkansen parecia vomitar um número inacreditável de passageiros.

 

Nenhum de nós tinha ideia de onde era a saída, então por enquanto, decidimos nos juntar ao fluxo da multidão e descemos a escada rolante.

 

Passamos pelo portão marcado como TRANSFERÊNCIAS, e então todo um oceano de pessoas apareceu das plataformas.

 

O ar parecia fino, misturado com cheiros não identificáveis.

 

"Asuka, você realmente vai morar em um lugar assim?"

 

Asuka estava balançando a cabeça, segurando meu braço fracamente.

 

"Acho que posso ver pelo que seu pai estava tão preocupado agora."

 

Mas mesmo assim, eu não tinha ideia de por onde começar, para onde ir.

 

"Pode ser um pouco tarde para pensar nisso agora," eu disse.

 

Aceno, aceno.

 

"Mas por que não fizemos um plano durante a viagem de Shinkansen?"

 

Aceno, aceno.

 

"Ahn, ei?"

 

Não tinha como chegar até ela?

 

De qualquer forma, precisávamos decidir o que fazer a seguir, ou não chegaríamos a lugar nenhum.

 

Puxando uma Asuka congelada, tentei encontrar um lugar menos lotado. Você tinha que caminhar para frente com vontade, ou acabaria ficando preso na multidão e esbarrando nas pessoas.

 

E por que todos esses toquiotas andavam tão rápido?

N/T: Pesquisei e o gentílico de Tóquio é toquiota mesmo. | N/R: E não é que é mesmo…

 

Não era como se todos estivessem atrasados para um trem, mas eu não conseguia descobrir por que todos estavam andando em tal velocidade. Eu estava ficando agitado e sem fôlego, como se estivesse fugindo de alguma organização maligna com a protagonista feminina ao meu lado.

 

Justo quando eu tinha desistido de chegar ao lado, avistei uma livraria escondida perto das escadas rolantes. Havia uma placa do lado de fora anunciando curry, de todas as coisas.

 

Aparentemente, era algum tipo de livraria/café.

 

Entrei lá pois precisava de um lugar para recuperar o fôlego, e foi quando a boca de Asuka começou a funcionar novamente.

 

"Uau, isso é incrível. Você pode trazer livros que ainda nem comprou para o café para ler, aparentemente."

 

"Eles não estão preocupados com as pessoas espalhando curry neles?"

 

"Certo? Eu não me sentiria segura fazendo isso."

 

O cheiro picante nos convidava, mas ainda era um pouco cedo demais para o almoço, então pedi um café gelado, e Asuka pediu um chá gelado.

 

O interior do restaurante parecia um pouco apertado de uma perspectiva de Fukui, mas conseguimos encontrar uma mesa vazia e finalmente sentar e relaxar um pouco.

 

Asuka tomou um gole de seu chá gelado e então exalou lentamente.

 

"De alguma forma já me sinto exausta..."

 

"E ainda nem saímos da estação."

 

"Mal chegamos ao T de Tóquio, hein."

 

"Exatamente." Acenei. "Viemos aqui por impulso, mas o que devemos realmente fazer agora?"

 

"Honestamente, eu só gostaria de andar por Tóquio e absorver a atmosfera. Acho que isso seria mais do que suficiente. Só que..." Asuka começou a vasculhar dentro de sua bolsa, puxando um livro vermelho. "Acho que gostaria de ir aqui."

 

A capa do livro estava estampada com o nome de uma universidade privada extremamente famosa, um nome que todo colegial do país conhecia.

 

"Então essa é sua faculdade de primeira escolha em Tóquio?"

 

Asuka acenou um pouco hesitante. "Ouvi dizer que tem boas perspectivas de emprego para trabalho em mídia. E é conhecida por seus clubes estudantis, aqueles centrados em literatura. Muitos dos meus romancistas favoritos saíram de lá."

 

"Tudo bem, então vamos conferir."

 

Pesquisei como chegar à universidade usando meu telefone. Os nomes de estações que eu nunca tinha ouvido falar apareceram. Eu não tinha motivo para usar um em Fukui, mas na noite passada baixei um aplicativo que ajuda a guiá-lo por Tóquio pela rede ferroviária. Procurei a melhor rota da Estação de Tóquio até a estação que queríamos, e várias escolhas diferentes apareceram para as mesmas duas estações. Minha cabeça girou.

 

"Você acha que conseguimos lidar com o metrô?"

 

Asuka balançou a cabeça ansiosamente.

 

"Acha que conseguimos fazer baldeações entre linhas?"

 

Balança, balança.

 

"Então a única escolha é essa Linha Yamanote. Podemos ir lá sem precisar trocar de linhas, aparentemente. Depois temos que andar um pouco para chegar à universidade. Parece certo pra você?"

 

Aceno, aceno.

 

Aparentemente, isso parecia certo.

 

Seria mais fácil caminhar e confiar no GPS do que enfrentar um metrô desconhecido.

 

"Pegamos uma passagem de volta do portão, certo? Diz que podemos ir a qualquer lugar em Tóquio com isso, certo?"

 

Balança, balança. Sim, está certo.

 

Verifiquei, e aparentemente podíamos usar esta passagem para chegar em Takada Baba.

 

Terminamos nossas bebidas, rapidamente localizamos a Linha Yamanote indo para Ueno, e embarcamos.

 

Os assentos já estavam cheios. Na verdade, havia tantas pessoas que nem podíamos ver assentos.

 

A pressão das pessoas embarcando atrás nos impulsionou para frente, e tanto Asuka quanto eu nos vimos sendo empurrados para o meio.

 

Mesmo as alças já tinham sido todas reivindicadas, então agarrei o poste.

 

Não dava pra colocar nossas mochilas nas prateleiras, então coloquei a minha entre minhas pernas para evitar incomodar outras pessoas. Asuka seguiu o exemplo.

 

*Estamos perto demais um do outro*, pensei.

 

Eu tinha completos estranhos pressionados contra meu peito e costas, e tentei me afastar um pouco, me sentia desconfortável e me desculpava, mas as outras pessoas não pareciam se importar ou sequer notar.

 

Estar tão perto de alguém em um espaço público—nem mesmo um parceiro romântico, mas um completo estranho—era impensável em Fukui. Você tinha mais espaço pessoal na Lpa em um feriado nacional.

 

Apertados nesta caixa minúscula, jovens e velhos, homens e mulheres, todos jogados e misturados juntos.

 

E Asuka ia morar em uma cidade assim?

 

Dei uma olhada de relance para o lado.

 

Havia um cara bonito na minha frente e um ao lado.

 

Justo então o trem partiu com um solavanco, e Asuka de repente perdeu o equilíbrio.

 

Segurando o poste com minha mão direita, passei meu braço livre ao redor de sua cintura sem pensar e a puxei para mim.

 

Segurei-a firme, como você seguraria alguém realmente importante para você. Como se implorando para ela não ir embora e ir para longe.

 

"Desculpa, Asuka. Foi só um reflexo."

 

Ela olhou para mim, seus lindos olhos brilhando. "Está… Tudo muito bem."

 

"Hum, devo soltar?"

 

"Podemos simplesmente ficar—? Quer dizer, está tudo bem ficar assim. Me sinto mais confortável sabendo que você me pegou."

 

Suas palavras me fizeram apertar mais meu abraço nela.

 

Estávamos ali confusos, mas havia muitos outros passageiros que pareciam se mover e balançar confortavelmente com o movimento, mesmo sem uma alça ou poste para se segurar.

 

*Claramente não somos daqui*, pensei.

 

Este era apenas outro fim de semana normal para essas pessoas. Os únicos sobrecarregados e fora de lugar éramos nós dois.

 

"Ei, olhe lá fora." Asuka acenou para as janelas.

 

A vista lá fora era como algum tipo de mundo de ficção científica.

 

Para onde quer que você olhasse, havia prédios enormes. Se algum desses prédios existisse em Fukui, seriam marcos importantes conhecidos por todos na prefeitura. E as ruas estavam lotadas de pessoas; se houvesse tantas pessoas em Fukui, você ficaria tipo: "Uh, há algum grande evento acontecendo hoje ou algo assim?"

 

Quantas pessoas viviam nesta cidade, afinal?

 

E todas com seus próprios sonhos, vivendo-os ou correndo atrás deles, ou lidando com os pedaços quebrados deles.

 

"É difícil acreditar que isso está no mesmo país que Fukui."

 

"Mas todos estão apenas olhando para seus telefones," Asuka murmurou.

 

"Esse cenário incrível se tornou insignificante para eles. Isso é Tóquio, eu acho."

[Moon: É o mundo moderno mesmo… Ninguém mais aproveita o redor…]

 

Asuka agarrou minha camiseta. "Acho que estou... realmente empolgada."

 

"Eu... Acho que sei o que você quer dizer."

 

Eu não queria admitir completamente para mim mesmo, mas estava sentindo isso também.

 

Esta cidade tinha que estar cheia de todos os tipos de experiências que você nunca poderia ter em Fukui, apenas esperando para serem descobertas.

 

Enquanto olhava pela janela do trem, chegamos à Estação Akihabara.

 

Havia garotas em cosplay passeando pela plataforma, e meus olhos se arregalaram.

 

Quando Asuka falou sobre querer experimentar todos os tipos de coisas para se tornar uma editora, concordei com ela que era necessário. Mas eu não entendia verdadeiramente o que ela queria dizer.

 

Eu tinha pensado: mas você não poderia ter todos os tipos de experiências em Fukui também?

 

No entanto, enquanto observava as garotas em fantasias de empregada passeando, senti como se estivesse em um país completamente diferente.

 

Eu ainda estava pensando nisso quando senti uma beliscada afiada no meu lado.

 

"Ai! Para, para, juro que não estava olhando para as garotas de cosplay com seios grandes."

 

Asuka me olhou com suspeita enquanto deixei meus pensamentos continuarem a correr livremente.

 

Sendo ou não Asuka capaz de convencer seus pais, eu sabia que até o final de nossa breve viagem, Asuka teria tomado sua decisão de viver nesta cidade.

 

Uma pessoa como ela, que mergulhava em romances buscando mundos e vidas desconhecidas para ela—uma pessoa que queria estar por dentro ajudando a tornar essas histórias uma realidade—de jeito nenhum ela não iria querer mergulhar e se imergir nesta cidade incrível.

 

O que significaria que nossas oportunidades de passar longas quantidades de tempo juntos assim—essas oportunidades logo se iriam para sempre.

 

Apertei minha mão forte no poste, determinado a não deixar meus sentimentos de tristeza e solidão arruinarem este dia para Asuka.

Takada Baba tinha uma escala pequena de um jeito reconfortante quando comparada à Estação de Tóquio, mas estava tão lotada quanto todos os outros lugares que tínhamos visto até agora. Embora, parecia haver uma proporção bastante alta de pessoas em idade universitária.

 

A propósito, quando vi a placa do nome da estação, percebi que não se lia TAKADA BABA como eu tinha pensado, mas TAKADANOBABA, aparentemente. De onde veio o *no*? Estavam zombando de caipiras com esse nome que soa como interior ou algo assim?

 

Saímos da estação, e minha primeira impressão foi: *Isso é um circo?*

 

Outdoors e anúncios coloridos disputavam atenção. Meus olhos deslizaram sobre eles. Pessoas e carros estavam indo para todos os lados. Me senti nervoso e fora do meu alcance.

 

Asuka parecia estar sentindo o mesmo, e estava piscando rapidamente para tudo ao nosso redor.

 

Acionei meu aplicativo de mapa e inseri nosso destino. Não parecia uma rota tão complicada, o que ajudou a me tranquilizar um pouco.

 

"Então parece que descemos esta rua grande e seguimos em frente."

 

Aceno, aceno.

 

"Vamos tentar nos acostumar, ok?"

 

Começamos a andar, e embora houvesse muitas lojas de conveniência e redes de restaurantes que também tínhamos em Fukui, também havia muitos estabelecimentos dos quais nunca tinha ouvido falar antes, todos amontoados juntos e alinhando a estrada.

 

Havia um Yoshinoya e um Matsuya quase lado a lado, ambos restaurantes fast-food de tigela de carne—havia apenas uma outra loja espremida entre eles. Como sobreviviam à competição direta quando estavam tão próximos um do outro? Me perguntei.

 

"Asuka, o que é esse lugar Hidakaya? É uma loja de ramen? Comida chinesa? Gosto da lanterna pendurada do lado de fora; é meio legal."

 

"Ah sim! Me pergunto se é um estabelecimento de longa data? Vamos adicioná-lo à lista de candidatos para almoço!"

 

"E por que todos esses restaurantes são tão pequenos?! Sem estacionamento também. Os Matsuyas e Yoshinoyas de Fukui são muito maiores."

 

"Você está certo. Fukui aguenta o tranco." (Tradução: De fato. Fukui certamente pode se manter firme.)

 

"Oh olha, há um Starbucks também! Essa é a cidade grande."

 

"Uau! Você pode pegar café para viagem a caminho das aulas!"

 

"A propósito, não há muitas lojas de conveniência por aqui? Há um 7-Eleven bem aqui—e depois outro logo ali."

 

"Os toquiotas devem estar ocupados demais para atravessar a rua, eu acho?"

 

"Achei que todos esses restaurantes pudessem ter sido concentrados perto da estação, mas eles simplesmente continuam ao longo da estrada."

 

"Com todas essas escolhas, me sinto mal por não experimentar cada uma delas."

 

"Ah, pelo jeito viramos aqui. Asuka, olha, há uma loja legal de roupas vintage aqui! Aposto que é muito popular! Vamos dar uma olhada dentro?"

 

"Sim!"

 

...E isso é toda a conversa empolgada de dois novatos de Tóquio que você vai ter de mim.

 

Entramos na pequena rua lateral, falando empolgadamente juntos, e entramos na loja.

 

O cheiro de roupas antigas estava no ar.

 

Isso me lembrou dos verões passados visitando a casa da minha avó, um cheiro que na verdade eu meio que gosto.

 

A loja era minúscula. Alguns passos dentro era tudo o que era necessário para chegar à parede dos fundos. Não tinha prateleiras aleatórias de roupas antigas, mas sim seleções cuidadosamente curadas arranjadas artisticamente.

 

Parecia haver muitas blusas retrô e vestidos para mulheres, e pensei que esse estilo de roupa ficaria realmente bom em Asuka.

 

Olhei para a seleção por um momento, depois peguei um vestido fofo.

 

"O que acha deste?"

 

Era um número de manga curta com um pequeno laço no pescoço, em um azul cobalto de verão com pequenas bolinhas.

 

Eu não sei muito sobre moda feminina, mas parecia o tipo de coisa que você esperaria ver em garotas que apareciam em filmes antigos, como *American Graffiti* e *De Volta para o Futuro*.

 

"Ah, que fofo!"

 

"Por que você não experimenta?"

 

Asuka foi perguntar ao lojista nos fundos, depois foi para o provador.

 

Esperei do lado de fora do provador, pensando.

 

Ela estava trocando de um vestido para outro vestido...

 

Lembrei do lampejo de cor turquesa que tinha visto quando jogamos bilhar e me afastei do provador com pressa.

 

Eu não pensei duas vezes quando estava esperando do lado de fora dos provadores para Yuuko e Haru. Talvez fosse porque Asuka e eu estávamos sozinhos em uma viagem juntos assim.

 

Afastando os pensamentos que continuavam puxando os cantos da minha mente, folheei as prateleiras de roupas masculinas.

 

Claro, a única coisa que pensei sobre elas era que, sim, essas eram de fato roupas.

 

Depois de fazer isso por um tempo, a porta do provador se abriu.

 

"O que você acha?"

 

Era Asuka, um pouco de constrangimento em sua voz.

 

"É ótimo. Você parece Ingrid Bergman em *Casablanca*."

 

"Isso é um elogio? Ou você está dizendo que é antiquado demais?"

 

"Estou dizendo que você parece que poderia ter saído de um filme preto e branco."

 

"Isso não responde minha pergunta, sabe?"

 

Eu estava brincando porque me sentia desconfortável dando a ela dois elogios diretos em um dia, mas é claro que ficava bem nela.

 

Asuka fez bico e continuou.

 

"Vou usar isso da próxima vez, e vamos ter um encontro um pouco mais chique, ok?"

 

"...Vamos sim."

 

Vendo seu sorriso tímido, fiquei feliz por ter sugerido parar nesta loja.

 

"Ok, agora é minha vez de escolher roupas para você. Podemos dá-las um ao outro como presentes; que tal?"

 

"Estou bem, obrigado. Esse tipo de roupa estilosa realmente não funciona para mim."

 

"Apenas deixe tudo com a Irmã Mais Velha Asuka. Vou fazer você parecer exatamente como Humphrey Bogart em *Casablanca*."

 

"O que isso significa?"

 

"Um bom egoísta à moda antiga que faz as mulheres chorarem."

 

"Ei! E o que você quer dizer com isso?"

 

No final, concordei em deixar Asuka usar suas habilidades para escolher algumas coisas para eu experimentar.

Depois de comprar roupas um para o outro, saímos de volta e seguimos pela rua estreita.

 

Eu estava interessado em um sebo que ficava perto da loja de roupas retrô, mas já tínhamos usado mais tempo do que eu tinha calculado, então decidi priorizar ir ao nosso destino principal.

 

Tínhamos entrado em uma área residencial que era extremamente silenciosa comparada à agitação perto da estação. Havia algumas casas e prédios de apartamentos de aparência antiga. O tipo de cenário com o qual alguns garotos do interior como nós se sentiam mais confortáveis.

 

Andando ao meu lado, Asuka comentou: "É bom ver que até Tóquio tem esses tipos de bairros, hein?"

 

"É meio reconfortante. É tipo: uau, as pessoas realmente vivem aqui."

 

Não precisava ser dito, talvez, mas expressei esse pensamento de qualquer forma.

 

"Está quase meio-dia," ela disse. "Sente esse cheiro? Curry. Romances de light novel e filmes sempre focam nas partes de grande cidade de Tóquio, mas também há esses bairros residenciais onde as pessoas estão apenas vivendo vidas normais."

 

"Nós, caipiras do interior, crescemos pensando que Tóquio era fria e impessoal. Acho que fomos doutrinados."

 

Asuka riu disso.

 

Depois de andar por um tempo, voltamos para a rua grande.

 

Havia um prédio à frente que parecia fazer parte de um campus universitário. Aparentemente, estávamos perto de nosso destino.

 

Andamos pela rua principal, eu verificando meu mapa no telefone, e então finalmente chegamos ao campus universitário... exceto que os portões principais estavam fechados.

 

"Ah, cara. É sério isso...?"

 

"Ah, droga."

[TMAS: Não foram ver se estava aberto a universidade antes de ir, pô Chitose, mancada]

 

Eu sabia que era fim de semana e tudo, mas exceto pelas faculdades só para mulheres, achei que era conhecimento comum que os campi ficavam abertos até nos fins de semana para qualquer um entrar.

 

Eu não podia acreditar que tínhamos vindo todo o caminho até Tóquio apenas para acabar incapazes de visitar nosso destino número um. Estava envergonhado com minha falta de preparação também.

 

"Desculpa, Asuka. Eu deveria ter verificado antes."

 

"Não, eu sou quem deveria estar se desculpando. Mas é suficiente apenas poder vê-la por fora."

 

Enquanto estávamos ali perplexos—

 

"Ei. Vocês estão visitando?"

 

—alguém estava falando conosco.

 

Nos viramos para ver um homem idoso sorrindo para nós com um Shiba Inu. Ele parecia ter uns setenta anos e tinha boa postura. Seu cabelo branco estava bem cortado, e ele de alguma forma me fez pensar em um gerente de mercado de peixes.

 

"Olá." Asuka abaixou a cabeça educadamente.

 

"Olá, olá," o homem respondeu.

 

"Posso acariciar seu cachorro?"

 

"Vá em frente, vá em frente."

 

Asuka se agachou, e o Shiba colocou suas patas dianteiras em suas coxas e lambeu seu rosto.

 

"Ei, uou! Você está fazendo cócegas em mim."

 

Vendo aquele rabo fofinho balançando para frente e para trás, eu queria gritar: "Abaixa!"

 

Depois de receber as afeições do cachorro, Asuka se levantou de volta. Perdendo sua fonte de atenção, o cachorro veio e cheirou minha perna antes de virar o nariz e correr de volta para seu dono.

 

*Aposto que você é um garoto, não é?*

 

"Viemos para ver esta faculdade, mas não podemos entrar já que é fim de semana, hein." A voz de Asuka estava cheia de decepção.

 

"Ah, você não pode entrar por aqui. Mas se for por lá tem o campus principal, dá pra entrar."

 

Deve ser o que eles chamam de dialeto de Tóquio. Era um pouco rápido e meio áspero, mas seu sotaque era meio gentil ao mesmo tempo.

 

"Sério?! Viemos de Fukui, na verdade, então realmente não sabemos nada."

 

"Fukui? Nunca estive lá. Vocês são estudantes?"

 

"Estamos no ensino médio agora."

 

"Vão fazer faculdade em Tóquio?"

 

"Ainda estou tentando decidir..."

 

"É um pouco lotado, com certeza, mas não é nada mal, por aqui."

 

Asuka sorriu um pouco. "Estava justamente pensando a mesma coisa."

 

Éramos os únicos que entendiam o significado de sua resposta.

 

O homem idoso deu um tapinha na cabeça do cachorro. Ele parecia ansioso, ou porque queria continuar seu passeio ou porque estava desesperado por mais atenção da jovem bonita.

 

"Vocês são irmãos?"

 

""O quêêê?""

 

Nós dois gritamos de surpresa. Em uníssono.

 

"Ah, estava errado? Só achei que vocês se pareciam."

 

Enquanto hesitavamos pensando no que dizer, o homem mais velho continuou.

 

"Bem, divirtam-se."

 

Achei que estávamos para uma longa conversa, mas o velho foi embora, acenando uma mão despreocupadamente.

 

Asuka e eu nos olhamos. Ela foi a primeira a falar.

 

"Irmãos."

 

"Não namorados, hein."

[Moon: Sweet Home Alabama! lkaaakak parei–]

 

Nós dois caímos na risada.

 

Parecia tão engraçado por algum motivo. Eu ri até engasgar.

 

"Nos parecemos?"

 

Asuka inclinou a cabeça para um lado, considerando. "Não, não nos parecemos."

 

Depois que ela disse isso, continuei.

 

"Estou surpreso. Tóquio é na verdade um lugar meio amigável."

 

"É amigável, não é? Tóquio."

 

Esperei, do fundo do meu coração, que o calor amigável de Tóquio abraçasse o futuro de Asuka como um cobertor quente e protetor.

Depois disso, fomos para o campus principal, usando o aplicativo de mapa para nos guiar.

 

Assim como o homem idoso tinha dito, podíamos entrar livremente pelos terrenos do campus daqui. Quando tentamos entrar pelos portões principais, avistei este prédio que parecia uma igreja.

 

Era um prédio universitário ou algo totalmente não relacionado? Se fosse o primeiro, então para que era usado? Eu não conseguia imaginar.

 

Quando entramos nos terrenos do campus, descobrimos que havia muitos estudantes por perto apesar de ser fim de semana. Alguns estavam sentados em bancos lendo e relaxando, segurando cafés, e outros estavam conversando animadamente.

 

Eu tinha pensado que uma universidade de Tóquio seria de alguma forma mais abafada e menos descontraída, mas era legal, com árvores altas pontilhadas aqui e ali e caminhos grandes e largos.

 

Alguns dos prédios eram de aparência tradicional, mas logo em frente a eles você encontraria prédios de aparência mais moderna em vidro e concreto. O contraste era bastante fascinante.

 

Asuka estava olhando em volta, seus olhos brilhando.

 

Sorri um pouco enquanto falava. "Parece muito mais descontraído do que eu pensava. Realmente parece um campus focado em literatura."

 

"Acho que poderia me ver vindo para cá." Asuka me chamou para um banco próximo. "Olha, tente imaginar."

 

Nos sentamos lado a lado e fechamos os olhos.

 

"Nós dois somos estudantes universitários. Estou usando o vestido que você me comprou, e você está usando a camisa que comprei para você. Talvez tenhamos tingido nosso cabelo. Mas essa parte eu não consigo realmente imaginar."

 

"Acho que você parece incrível como está, Asuka. Mas e eu? Talvez eu devesse tentar ficar loiro platinado?"

 

"Você pareceria um verdadeiro galã por fora também, sabe."

 

"Não diga isso em um tom tão sério. Vai ferir meus sentimentos."

 

Asuka riu. "Você vai entrar no departamento de literatura também, não é. Vamos sentar lado a lado assim e conversar sobre quais aulas vamos fazer."

 

"Temos que escolher um clube da faculdade também."

 

"Você não vai querer se separar de mim, então vai se juntar a qualquer clube que eu me juntar."

 

"Para que eu não acabe sendo levada para casa por senhoras famintas depois das saídas noturnas do clube."

 

"Você não é tão inocente aos modos do mundo." Ela bateu na minha coxa. "Espero conseguir um emprego de meio período em uma editora."

 

"O que vou fazer? Me tornar um anfitrião de clube obscuro?"

 

"Sua irmã mais velha nunca permitiria."

 

Uma brisa fresca passou.

 

As manchas pontilhadas de luz do sol oscilaram com o ritmo.

 

"Nos fins de semana... Vejamos. Vamos andar pela cidade juntos como acabamos de fazer e praticar nossa culinária terrível em uma cozinha minúscula."

 

"Só para apontar, na verdade sou um cozinheiro bem decente, sabia?"

 

"...Primeiro, vamos começar com algo como ensopado de carne e batata."

 

"Não finja que não me ouviu."

 

Mas Asuka continuou: "Esse tipo de futuro não vai acontecer. Porque estou um ano à sua frente na escola."

 

Eu tive que concordar. "Mesmo se eu escolhesse a mesma universidade que você. Quando eu entrar, você já terá escolhido seu departamento, estará ocupada com estudos e seu emprego de meio período na editora, e terá feito todos os novos amigos em seu clube da faculdade. Você até terá dominado cozinhar ensopado de carne e batata. Você pode até ter um namorado então."

 

"Não estaríamos no mesmo lugar, estaríamos?"

 

"Estaríamos a quilômetros de distância."

 

Asuka tocou seu dedo mindinho no meu. "Mesmo que agora, estejamos tão perto assim."

 

Um ano era muito tempo para nós colegiais.

 

Nesse meio tempo, tantas coisas mudariam. Mudariam demais.

 

Asuka entrelaçou seu dedo mindinho com o meu, como se fazendo uma promessa.

 

"Mas tenho que encarar para frente e continuar. Ou não conseguirei acompanhar."

 

Acompanhar o quê? Mas não perguntei.

 

Talvez ainda fosse apenas um sonho meio formado. O ponteiro de um relógio que você não pode parar de fazer tique-taque. Um fantasma, uma ilusão de uma pessoa que você construiu e idolatrou.

 

Todos nós, estamos apenas seguindo em frente todos os dias, vivendo uma juventude que nunca, nunca voltará.

 

Asuka disse que queria ir a Jinbocho.

 

Até eu tinha ouvido falar disso, mas aparentemente é uma área onde há muitas editoras e livrarias, uma espécie de Meca para bibliófilos.

 

Pesquisei no meu telefone e percebi que era bem longe. Realmente deveríamos ter ido lá primeiro. Ainda assim, embarcamos nesta viagem sem nenhum plano, então não dava pra evitar.

 

Se andássemos de uma estação chamada Kanda, poderíamos evitar ter que trocar de trens. Nesse caso, tudo o que teríamos que fazer era pegar o trem que viemos, mas na direção oposta.

 

Eu queria dar a Asuka a chance de ver diferentes áreas de Tóquio, então decidi enfrentar o desafio do metrô e trocar várias linhas de trem.

 

Foi um inferno total.

 

Tentei procurar grandes prédios que pudessem ser estações, mas por algum motivo todas as entradas do metrô eram minúsculas.

 

E trocar de linhas de trem no metrô era absolutamente confuso.

 

Além disso, eu não tinha ideia de como você deveria comprar passagens.

 

Acabei tendo que pedir ajuda aos assistentes da estação pelo menos cinco vezes, mas finalmente conseguimos chegar a Jinbocho.

 

Escolhemos uma das muitas saídas e emergimos na superfície. Senti como se tivéssemos atravessado uma enorme masmorra de videogame, e a sensação de completude me fez sentir ligeiramente choroso.

 

"Tóquio é assustadoramente aterrorizante. Nem consigo."

 

Aceno, aceno.

 

"Com fome pra caramba. Preciso de comida."

 

Aceno, aceno.

 

E assim nos encontramos na casa de curry mais bem avaliada de Jinbocho.

 

A propósito, este lugar também era um serial-killer de caipiras.

 

Mesmo depois de chegarmos ao local indicado no aplicativo de mapa, não havia entrada à vista. Andamos por todos os lados, e eventualmente tivemos que pedir ajuda a alguém que estava passando.

 

Como íamos saber que você tinha que ir pelos fundos do prédio para encontrar a entrada?

 

Além disso, mesmo sendo mais de duas da tarde, e o pico do almoço já ter passado há muito tempo, ainda havia cerca de dez pessoas esperando na fila à nossa frente.

 

Finalmente, fomos mostrados ao nosso assento de sofá, e ligeiramente frustrado, pedi um grande curry de carne, extra picante. Asuka pediu um curry de frango, picância média.

 

Depois de esperar por um tempo, recebemos cada um duas batatas assadas escorrendo manteiga.

 

Asuka e eu trocamos olhares.

 

"Asuka, o que devemos fazer com isso?"

 

"Bem, tem manteiga nelas, então acho que devemos apenas comer? Sabe, como as batatas assadas que você compra nas barracas de festival."

 

Olhamos em volta, tentando não parecer muito com um par de caipiras. Algumas pessoas estavam comendo as batatas como estavam, enquanto outras as estavam misturando com seu curry.

 

"Parece que você pode fazer qualquer um dos dois," eu disse.

 

Asuka sorriu ironicamente.

 

"Sabe, você e eu realmente somos apenas caipiras. Ninguém está nos impedindo de comer isso da maneira que quisermos."

 

"Engraçado pensar que uma garota que pula em um rio sujo sem se importar com quem está assistindo ficaria estressada sobre a maneira correta de comer uma batata."

 

"Ah, lá vem você de novo, sendo todo sarcástico."

 

Asuka tentou cortar sua batata ao meio usando o garfo, mas estava fazendo um trabalho ruim nisso. Eventualmente, ela desistiu e a pegou com a mão. Com dedos tremendo, tentou mas falhou em dividi-la, então pulei para ajudá-la e consegui dividi-la com meu garfo. Asuka sorriu com prazer.

 

Pegando metade da batata, ela mergulhou na manteiga e então falou.

 

"Mas sabe, você não percebeu, quando estávamos andando por aí? Ninguém aqui parece prestar muita atenção um ao outro. E eles também não prestaram atenção em nós."

 

"Com certeza. Avistei algumas pessoas andando por aí em roupas bem extravagantes, e até aquele cara tocando uma gaita na rua. Mas ninguém parecia se importar ou dizer nada."

 

Sacudi um pouco de sal na minha batata e mordi. Oh, cara. Quente fumegante e super deliciosa.

 

"O lugar onde moramos está indo bem, para Fukui, mas ainda é bem do interior, não é?"

 

"Você quer dizer como todo mundo sabe o que acontece com todo mundo?"

 

Você costuma ouvir que cidades pequenas têm sociedades de vigilância bem firmes.

 

Agora, a Cidade de Fukui não é exatamente uma pequena aldeia ou nada assim, mas mesmo sendo o lugar mais próspero da prefeitura, ainda tem aquela sensação de vigilância de cidade pequena.

 

Pegue por exemplo quando meus pais se divorciaram, por exemplo. A notícia se espalhou pela vizinhança como um raio. Então, quando foi decidido que eu moraria sozinho, me vi tendo que lidar com as simpatias exageradas de todos ao meu redor.

 

Asuka continuou. "Mas sabe, isso na verdade é uma das coisas legais sobre Fukui, é o que tenho pensado."

 

"Você quer dizer como quando aquele velho nos ajudou a encontrar nosso caminho mais cedo?"

 

"Sim. Às vezes é uma grande ajuda quando outras pessoas notam você. É o lado bom, eu acho."

 

Talvez ela estivesse correlacionando isso com sua própria experiência de ser negada por seus pais.

 

Se ninguém nunca te diz não, você pode ir direto para seu sonho sem hesitar.

 

Mas se você não tem ninguém lá fora tentando pará-lo, pode acabar cometendo erros terríveis que nunca pode voltar atrás.

 

Eu ainda estava pensando nisso quando nossos pedidos de curry foram entregues à nossa mesa.

 

Havia queijo em cima do arroz e então, por algum motivo, um acompanhamento de ameixas crocantes e picles. O curry de Asuka foi servido em uma panela de curry chique, mas o meu foi servido em um prato fundo separado.

 

Fizemos contato visual e então ambos rimos.

 

Eu tinha certeza de que Asuka estava prestes a dizer: "Então devemos despejar isso no arroz antes de comer, ou...?"

 

Dando de ombros, Asuka pegou a panela e deixou o molho de curry escorrer sobre o arroz.

 

Fiz a mesma coisa.

 

Nós dois demos uma mordida ao mesmo tempo, e então...

 

""TÃO bom!""

 

Nossas caras estavam cheias de felicidade.

 

Era seu curry básico de estilo europeu, mas havia uma profundidade picante que eu não conseguia identificar, e era espesso com um toque de doçura.

 

A carne estava tão macia que eu podia cortá-la com uma colher, e derretia na minha boca.

 

Coloquei minha batata sobrando no molho e picotei com uma colher antes de comer. A intensidade picante do molho ficou muito mais suave. Não estava ruim.

 

"Vou morar em Tóquio!" Asuka anunciou.

 

"Sim, eu sei," respondi.

 

"Ei, posso ter um pouco da sua carne?"

 

"As únicas coisas que são divisíveis em encontros são picolés Chupets e picolés Papico em um dia de verão, certo?"

 

"Bem, faço uma exceção especial para curry!"

 

Rolei meus olhos e ri enquanto Asuka segurava uma colherada de seu curry para mim. "O que é isso?"

 

"Acredito que chamam isso de momento 'Abre bem a boca!', jovem senhor."

 

"Por que você está falando toda antiquada assim?"

 

"É tudo questão de experiência, veja. A juventude é curta, como dizem."

 

Ela estava agindo convencida, mas suas bochechas estavam vermelho-vivo.

 

Me inclinei e abri a boca, e com uma mão tremendo, Asuka trouxe a colherada de curry aos meus lábios.

 

Era como aquela parte durante casamentos onde os casais se alimentam um ao outro com a primeira mordida do bolo. Agarrei seu pulso e trouxe a colher à minha boca.

 

"Mmn. O frango está realmente suculento."

 

"...Não assim. Tente de novo."

 

"De jeito nenhum. Você vai queimar minha língua."

 

Cortei um pedaço de carne e carreguei minha própria colher, juntando um pouco de arroz e molho também.

 

"Aqui, vou te alimentar. Abre bem."

 

Quando disse isso, Asuka virou-se para mim e abriu a boca.

 

*Ei, por que você está fechando os olhos? Não é um beijo que você está recebendo, sabe.*

 

Seus pequenos lábios pareciam tão carnudos e macios, e apenas um pouco brilhantes.

 

"Ei. Anda logo e me dá."

 

*Desculpa, Asuka. Não estava te provocando. É só que minha mão está tremendo.*

 

Segurando meu pulso firme com minha outra mão, consegui levar a colher até sua boca.

 

Enquanto chegava aos seus lábios, Asuka alcançou minha mão com os olhos ainda fechados, e segurando-a com as duas mãos, ela devorou o curry da colher.

 

Depois de mastigar por alguns momentos, ela lambeu um pouco de molho que ameaçava escorrer do canto de sua boca.

 

...*Olha, tudo o que fiz foi alimentar ela com uma colherada de curry, tudo bem?*

 

"Gostoso."

 

Enquanto estávamos ambos delirando sobre o curry—

 

Bam!

 

—um dos dois homens sentados de frente um para o outro na mesa ao lado bateu seu punho contra o tampo da mesa.

 

Olhamos surpresos, e eu podia ver que havia um maço de papel na mesa entre eles, rabiscado com notas em caneta vermelha.

 

O jovem que tinha batido na mesa—ele devia estar na casa dos vinte anos—então falou.

 

"São quantas rejeições agora?! Você está mesmo disposto a ir em frente com o plano? A última submissão, passamos todo o trabalho estudando títulos de grande sucesso anteriores e as tendências atuais do mercado, sabe?"

 

{Moon: Eu pensei que ele ia falar deles estando de namorico em público}

 

O homem sentado em frente estava na casa dos trinta anos, usando óculos.

 

"É verdade que há muitas histórias de amadurecimento semelhantes."

 

"Certo! Por exemplo..."

 

O homem mais jovem começou a listar títulos que me lembrei de ter ouvido falar. Eu até tinha alguns deles nas minhas estantes em casa.

 

Olhei para Asuka, meus olhos arregalados.

 

Asuka me encarou de volta com a mesma expressão de surpresa em seu rosto.

 

*Será possível?* Estávamos testemunhando uma reunião entre um romancista de verdade e seu editor?

 

Esta era a casa de curry mais bem avaliada em Jinbocho, uma área conhecida por suas editoras. Não era muito descabido pensar que negócios de publicação eram realizados aqui.

 

Tentamos não encarar muito enquanto ouvíamos atentamente a mesa vizinha.

 

O homem de óculos estava respondendo. "É verdade que há muitos romancistas de grande sucesso que produzem bestsellers depois de estudar tendências de mercado e trabalhos similares. Mas você não é esse tipo."

 

"...Simplesmente não consigo pensar em nada. Meu romance de estreia, só escrevi sobre o trabalho que por acaso estava fazendo na época e acidentalmente tive sorte com um grande sucesso. Mas não tenho o talento para inventar algo do nada. Não posso escrever a menos que eu mesmo tenha experimentado."

 

Então o romancista agarrou as páginas na frente dele e as amassou.

 

"Pensei que poderia me virar para escrever algo sobre juventude, mas honestamente levei uma vida muito chata. Acho que as crianças de hoje me chamariam de um dos impopulares? Eu sempre estava sentado no canto da sala de aula, invejando as outras crianças que tinham algo especial nelas. Não sou o tipo de pessoa que pode se tornar um romancista de verdade."

 

"Não diga ao seu editor o que você pode e não pode fazer. Sou eu quem decide isso." O homem de óculos bateu sua caneta vermelha na mesa. "Não te procurei para ser seu editor depois que você ganhou o prêmio de estreante pela sua rara e incomum amplitude de experiência de vida. De qualquer forma, seu trabalho não era tão incomum assim. Seu talento está em retratar a solidão cotidiana, em colocar as sutilezas da vida em palavras. Então esta sua proposta? É um não de mim."

 

"...Se você pensa assim, por que você não—?"

 

O editor bateu sua caneta vermelha na mesa novamente, forte, como se já soubesse o que o romancista ia dizer em seguida.

 

"Você está sentado aí como romancista, sugerindo que eu, o editor, escreva em vez de você? Claro, posso te dar algumas dicas, alguma orientação ao longo do caminho. Mas você é o escritor aqui, não eu."

 

"Mas..."

 

O editor continuou, sua expressão mais suave. "Olha, por que você não tenta me contar sobre essa sua juventude 'chata'? Não esta... esta história batida que você pode ler absolutamente em qualquer lugar."

 

O jovem rangeu os dentes e franziu a testa, então se recompôs e, com um grande suspiro, começou a contar sua própria história.

 

“…”

 

“…?”

 

“…”

 

“…!”

 

Foi uma visão incomum.

 

A história do romancista estava, de fato, cheia de experiências pessoais interessantes.

 

Mas o editor respondeu a tudo o que ele disse com: "Mas por quê?" e "E como isso te fez sentir na época?" e "É coisa boa; então o que aconteceu?" e "É possível que a outra pessoa envolvida tenha sentido assim?" e assim por diante, e me vi sendo sugado pela história, mesmo que tudo o que o romancista estava fazendo era respondendo às perguntas direcionadas do editor.

 

Tinha dor, tristeza, luta, tumulto...

 

E percebi que era uma história completa e pessoal.

 

Quando fizeram uma pausa para respirar, o editor estava sorrindo.

 

"Pronto, agora. Não é exatamente o tipo de história que você deveria escrever? Eu leria um livro assim, com certeza."

 

O romancista olhou para o mar de tinta vermelha na frente dele e murmurou.

 

"...Não acredito o suficiente em mim." Ele levantou os olhos rapidamente, seus olhos brilhando. "Minhas palavrinhas bobas... este tipo de história cotidiana... Isso ressoaria com alguém que vive uma vida pequena como a minha, você acha? Se eu pudesse fazer algo para ajudar outros que estão sentindo essa dor, se eu pudesse estar com eles através de suas lágrimas, se eu pudesse ajudar a trazer apenas um pouco de luz para as vidas de outras pessoas..."

 

"...Se você escrever com tudo o que tem, então tenho certeza de que pode."

 

O editor não estava medindo palavras.

 

"Não apenas pego histórias incríveis e as polimento. Eu as extraio. E juntos, nós as trazemos para as pessoas. Porque... é isso que um editor faz."

 

O romancista alisou as páginas amassadas.

 

"Eu... Vou escrever. Vou tentar."

 

O editor sorriu gentilmente. "Não se preocupe. Acredito em você. Tudo o que você tem que fazer é acreditar no poder de suas palavras."

 

Então os dois guardaram suas ferramentas de trabalho e começaram a falar sobre coisas comuns da vida cotidiana, como se nada incrível tivesse acabado de acontecer.

"Isso foi… algo bem grande, hein?" Eu disse quando saímos do restaurante de curry.

 

"Sim. É meio insano termos testemunhado uma cena assim na única vez que viemos a Tóquio."

 

Asuka sorriu.

 

"Então o que você achou? Vendo uma reunião real entre um romancista e seu editor?"

 

"Me fez pensar sobre como realmente não sei nada." Ela se alongou e continuou. "É meio constrangedor. Pensei que o trabalho de um editor era meio que bajular romancistas. Pegar os manuscritos deles e dizer: 'Obrigado por seu manuscrito, maestro!' Aquele editor logo antes—ele bajulou um pouco, mas também o desafiou, até discutiu com ele e ficou todo empolgado com isso."

 

Senti exatamente o mesmo.

 

Pensei que o trabalho de um editor era cutucar escritores sobre prazos e verificar manuscritos quando já estavam prontos.

 

Acenei encorajadoramente. "É incrível, certo? Se aquele editor simplesmente aceitasse quando o romancista disse que sua história sobre sua juventude era chata, ou se tivesse ouvido e depois disse: 'Sim, é meio médio', então teria sido o fim, certo? E ninguém teria conseguido ouvir aquela história incrível. Ela teria simplesmente... desaparecido no nada."

 

Asuka continuou empolgadamente.

 

"Encontrar histórias que ainda estão enterradas profundamente e trazê-las para outros experimentarem—aqueles dois estavam ambos tão sérios e apaixonados por isso. É como, tal dedicação ao que é real..."

 

Asuka parou de falar e fez uma pausa antes de continuar, uma expressão inocente e genuinamente feliz em seu rosto.

 

"Não sou a única que ama histórias tanto assim, né?"

 

Acho que ela estava lidando com algumas ansiedades sérias.

 

Ela tinha esse sonho de querer trazer palavras para outros como editora, sendo uma amante de livros, enquanto vivia na pequena Fukui do interior, e no entanto não tinha ninguém para realmente confiar...

 

Agora, pela primeira vez, ela tinha encontrado seu povo.

 

Aquele sonho indistinto dela estava rapidamente se tornando mais real.

 

Asuka correu à minha frente alguns passos e então girou, sorrindo para mim o suficiente para mostrar os dentes.

 

"Quero me tornar uma editora, afinal."

 

Eu me pergunto por quê.

 

Naquele momento, eu poderia vividamente imaginar Asuka tendo uma discussão acalorada com um romancista teimoso bem aqui nesta cidade—seu cabelo um pouco mais longo do que era agora, usando um terno confortável.

 

No restaurante de curry de agora, com mais paixão do que aquele editor de logo antes, transmitindo seu ponto de vista com absoluta determinação.

 

E então em meu coração, decidi que teria que começar a me preparar para dizer adeus.

Enquanto andávamos por Jinbocho, percebi que realmente era uma cidade de livros, mais do que eu poderia ter imaginado.

 

Não precisei usar meu telefone para procurar nada. Havia tantas livrarias aqui quanto havia restaurantes em Takadanobaba. Havia livrarias de grandes redes da área, claro, mas também parecia haver sebos especializados vendendo mistérios, livros sobre música, carros, motos, tudo o que você pudesse imaginar.

 

Até a livraria mais minúscula parecia ter pelo menos um cliente hardcore folheando as páginas de seus livros. Era difícil acreditar que havia tantos leitores dedicados no mundo.

 

Eu não era tão interessado em leitura quanto Asuka, mas também gostava de livros, e então nós dois mergulhamos em uma livraria que parecia interessante e acabamos comprando vários volumes cada.

 

Ficamos tão absortos, de fato, que antes de percebermos, já eram quatro e meia.

 

Me virei para Asuka, que estava pulando ao meu lado, e falei.

 

"Há mais alguma coisa que você quer ver?"

 

"Hum... talvez Shinjuku e Shibuya? Gostaria de andar por alguns dos lugares conhecidos, acho."

 

Pesquisei no meu telefone, e aparentemente havia uma estação chamada Shinsen-Shinjuku apenas uma parada de distância no metrô. Eu não tinha certeza qual era a diferença entre Shinjuku e Shinsen-Shinjuku, mas se tinha Shinjuku no nome, provavelmente nos levaria aonde queríamos ir.

 

Usando a experiência que tínhamos ganhado mais cedo, compramos passagens e pegamos o metrô. Depois de cerca de dez minutos, chegamos. Pensei sobre como era difícil avaliar as distâncias exatas entre lugares na cidade quando você podia simplesmente pular no metrô.

 

Subimos a longa escada rolante, passamos pelos portões de passagem, e seguimos as placas para a saída sul por enquanto.

 

Subimos mais dois conjuntos de escadas rolantes, e então...

 

"O que diabos...?"

 

Meus olhos quase saltaram da minha cabeça.

 

Pessoas, pessoas, pessoas, todas atravessando para frente e para trás.

 

A Estação de Tóquio tinha sido um choque grande o suficiente por si só, mas isso era magnitudes maiores do que aquilo, pensei.

[TMAS: Maluco está experienciando a Sé no horário de pico, força ai. | Moon: Por aqui seria a Central!]

 

Isso não era como uma onda de pessoas. Isso era um oceano de pessoas.

 

Sem brincadeira, eu não tinha certeza por onde andar ou mesmo em qual direção deveríamos começar.

 

Mas nenhuma das pessoas nunca esbarrava uma na outra. Elas se moviam suavemente, cada uma indo pelo seu próprio caminho.

 

Não preciso mencionar que, ao meu lado, Asuka tinha congelado completamente. Ela era como um filhote de cervo recém-nascido.

 

No trem, ela disse que queria ver a livraria Kinokuniya, e isso parecia estar na direção da saída leste quando pesquisei. Mas como íamos sequer sair?

 

Puxei Asuka pela mão e comecei a andar, imaginando que pegaríamos o jeito se apenas mergulhássemos.

 

As pessoas na nossa frente se afastaram suavemente.

 

Parecia que, contanto que evitássemos as pessoas andando com os narizes enterrados em seus telefones, poderíamos seguir o fluxo geral para chegar onde queríamos.

 

Depois de continuar por um tempo, avistei algo que parecia uma saída, então rapidamente cortei pelo fluxo de pessoas, e finalmente, estávamos fora.

 

Havia uma rua bem larga do lado de fora com muitas pessoas por perto, embora não tantas quanto havia na estação.

 

Asuka soava sem fôlego enquanto falava.

 

"Ouvi dizer que o número de pessoas que passam pela Estação Shinjuku em um dia é o mais alto de qualquer lugar do mundo."

 

"Percebi isso, enquanto você estava ocupada agindo como uma estátua congelada. Essas pessoas todas têm treinamento especial? São ninjas?"

 

Pesquisei o caminho para chegar à Kinokuniya, e então continuamos, ficando perto das paredes.

 

Descemos um lance de escadas e chegamos a uma rua lateral com quase nenhum carro passando.

 

Mas mesmo assim, as ruas estavam cheias de tantas pessoas. Você só veria tantas pessoas em Fukui uma vez por ano para o grande festival.

 

Asuka estava murmurando algo. "O céu parece tão estreito."

 

Olhei para cima também. Estávamos cercados por prédios dos dois lados, e o céu azul parecia uma linha artificial desenhada entre eles.

 

Depois de um dia andando por Tóquio, meus sentidos tinham entorpecido um pouco, mas a altura dos prédios em suas fileiras era algo que eu nunca tinha visto em Fukui.

 

A percepção de sua verdadeira altura me atingiu, e pareceu estranhamente opressiva.

 

Era mais marcante do que nunca, parado ali em Shinjuku, com os cheiros de escapamento de carro e comida dos muitos restaurantes todos misturados no ar. Parecia errado de alguma forma.

 

Tínhamos vivido nossas vidas sob céus largos com nuvens suaves fluindo, tendo nossas conversas nas brisas frescas que cheiravam às estações, ouvindo os sons suaves de água borbulhante. E no entanto, eu nunca tinha realmente percebido o que significava estar tão cercado pela natureza.

 

Nesse sentido, esta cidade realmente era exatamente o que um caipira teria imaginado, pensei.

 

Sentindo-se rapidamente sobrecarregados, nos apressamos para dentro da Kinokuniya e entramos no café de estilo japonês no primeiro andar, onde compramos um latte de matcha frio e um latte de hojicha* frio.

 

N/R: O hojicha é um chá verde torrado com sabor de nozes e caramelo, e baixíssimo teor de cafeína.

 

O lugar simplesmente aconteceu de chamar nossa atenção, mas enquanto trocávamos lattes para frente e para trás, a doçura sofisticada do chá japonês estava realmente deliciosa.

 

""Isso é tão Tóquio!""

 

Nós dois deliramos juntos, sentindo-se muito melhor, apenas um par de caipiras.

 

Depois disso, percorremos todos os sete andares da Kinokuniya, que estava em uma escala totalmente diferente das livrarias minúsculas de Jinbocho e um número múltiplas vezes maior de pessoas.

 

Vimos um prédio interessante que parecia ser algum tipo de colaboração entre Uniqlo e um fornecedor de eletrônicos. Entramos na loja de departamentos Isetan, um respiro de se sentir fora de lugar, e então aproveitamos algumas vitrines em outra loja de departamentos chamada Oi Oi.

 

N/T: O nome da loja é realmente Oi Oi (vi na versão inglesa e é Oi Oi lá)

 

A propósito, acontece que embora seja escrito Oi Oi, você na verdade pronúncia Marui. Isso é normal? Eles o nomearam assim apenas para zombar de crianças do interior que vêm a Tóquio pela primeira vez?

 

Enquanto andávamos sem rumo por aí, ficou escuro quase antes de estarmos sequer cientes disso.

 

Verifiquei meu relógio. Era depois das sete da noite.

 

"Ei, agora quero andar por aquela área conhecida chamada Kabukicho."

 

Asuka, que estava andando à minha frente, se virou e sorriu.

 

"Mas..."

 

Hesitei.

 

"Temos que voltar para a Estação de Tóquio logo, ou vamos perder o último Shinkansen."

 

Na verdade, eu tinha planejado sair muito mais cedo.

 

Nesse ritmo, estaríamos pegando o último trem e não chegaríamos de volta a Fukui até pouco antes da meia-noite. E meia-noite era a linha que separava uma viagem de um dia de uma pernoite.

 

"Eu te disse, não disse? Deixei um bilhete dizendo que estaria de volta amanhã." Asuka me deu um sorriso travesso.

 

"Seus pais não tentaram entrar em contato?"

 

Asuka pegou seu telefone e olhou para ele. "Não!" ela respondeu despreocupadamente.

 

"Tem certeza de que não mexeu nas configurações?"

 

"Vamos lá, viemos todo o caminho até Tóquio! Essa chance não vai aparecer de novo. Tenho que absorver e experimentar o máximo que puder! Além disso..."

 

Ela abaixou a cabeça, parecendo triste enquanto continuava.

 

"Essa pode ser minha primeira e última viagem com você."

 

"Não diga isso. Não me olhe assim. Como posso negar você se você faz isso?"

 

"Quero ficar neste sonho um pouco mais. Você e eu nunca vamos ter viagens de classe juntos. Esta é nossa única chance de estar juntos assim."

 

*Neste sonho, hein?*

 

Eu sabia que não tinha forças para arrastar Asuka de volta para casa.

 

"Tudo bem, tudo bem! Afinal, sou eu quem fugiu com você para Tóquio. Acho que é meu dever ficar com você."

 

"Pode apostar que é!"

 

E ela agarrou minha mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

 

Eu queria manter aquele sorriso em seu rosto o maior tempo possível.

 

Se ao menos ela pudesse esquecer do conflito com seu pai, pelo menos pela duração desta viagem.

 

Eu estava apenas apertando a mão de Asuka de volta quando...

 

Ding-ding-ding-ding.

 

Meu telefone começou a tocar.

 

Olhei para a tela e vi o nome de Kura.

[TMAS: O amor da Mon tá ligando. | Moon: akkaakak sim sim!]

 

Ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding-ding.

 

Tive uma má sensação no estômago.

 

Aquele cara nunca tinha me ligado em um fim de semana, até agora.

 

E ele só me ligava em um dia de semana para cobrar alguma tarefa administrativa que eu deveria ter feito.

 

Ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding-ding.

 

Havia apenas um motivo pelo qual ele estaria me ligando neste exato momento.

 

Olhei para Asuka.

 

Seu lábio estava tremendo como uma criança—uma criança travessa que tinha acabado de ser pega fazendo algo errado.

 

Isso me disse tudo o que eu precisava saber.

 

Ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding-ding, ding-ding-ding

 

O barulho artificial não parava.

 

Respirei fundo, encolhi meu estômago e atendi o telefone.

 

"Alô."

 

"Chitose. Fim de jogo."

 

Eu pensei que sim.

 

"Do que você está falando? Não tenho outra tentativa?"

 

"Você realmente acha que posso te ajudar aqui? ...Ei, Nisshi, finalmente consegui falar."

 

Eu sabia duas coisas com certeza.

 

A verdade sobre Asuka estar aqui comigo já tinha sido descoberta.

 

E Kura estava tentando nos ajudar.

 

Afinal, esta foi a primeira ligação que recebi o dia todo. Ele provavelmente estava nos dando tempo até agora.

 

E com uma frase, ele queria que eu soubesse disso.

 

"Alô, aqui é o pai de Asuka. Pode colocar minha filha no telefone?"

 

Eu não estava falando com Kura mais.

 

Olhei para Asuka novamente.

 

Ela balançou a cabeça, seus olhos se enchendo de lágrimas, pronta para desmoronar a qualquer momento. Apertei meu estômago novamente.

 

A morte é melhor do que uma vida sem beleza.

 

Né? Sou um bom egoísta à moda antiga.

 

"Hã? Do que você está falando?" Respondi suavemente.

 

"Não adianta tentar se fazer de bobo. Asuka nunca faria algo assim sozinha. Você a arrastou com você, não foi? Agindo como algum tipo de coach de vida distorcido. Isso é óbvio."

 

"Sabe, isso é altamente inconveniente para mim. No momento estou em um encontro em Tóquio com uma garota fofa. Realmente não tenho tempo para uma longa conversa telefônica."

 

"Coloque sua namorada no telefone."

 

"Você acha que porque mencionei uma garota fofa tem que ser sua própria filha? Você age todo severo, mas, Sr. Nishino, parece que você está um pouco obcecado."

 

E eu quis dizer provocadoramente.

 

Se ele perdesse a calma, Chitose teria a vantagem.

 

Quando ouviu eu dizer "Sr. Nishino", Asuka empalideceu e se agarrou a mim.

 

Dei a ela uma piscadela atrevida.

 

"Você é um cara muito engraçado, não é? Você me lembra de um jovem Kura."

 

"Por favor, me poupe. Eu na verdade me organizo, muito obrigado."

 

"Ei, Chitose! Posso te ouvir. Você está no viva-voz."

 

Ah, ops. Isso foi rude.

 

"Então seu plano é continuar a negar tudo?"

 

Parecia que o Sr. Nishino não ia me deixar sair fácil.

 

"Não estou negando. Mas este é um argumento sem sentido. Estou te dizendo que Asuka não está aqui. Você pode continuar perguntando, mas isso não vai fazê-la aparecer de repente. Ok..."

 

Pesquisei os horários do Shinkansen no meu telefone.

 

"O trem Shirasagi de amanhã, aquele que chega ao meio-dia. Vamos voltar nele. Se você esperar pelos portões de passagem, serei capaz de te dar as respostas que você quer. Se descobrir que estou com Asuka, então sinta-se livre para deixar sua raiva transbordar então."

 

"Nada mal, mas ingênuo. Se Asuka realmente não estiver com você agora, então vou fazer um relatório imediato de pessoa desaparecida para a polícia."

 

*Ah droga*, pensei.

 

Ainda assim, isso era inevitável.

 

"Vamos supor que Asuka está comigo. Você vai ter problemas para nos rastrear na grande cidade de Tóquio antes do meio-dia de amanhã. E depois que voltarmos, acho que Asuka pode explicar à polícia que saiu por vontade própria facilmente o suficiente."

 

"Não importa se é por vontade própria, contanto que ela seja menor de idade. E há uma possibilidade de quem estiver com ela ser acusado como cúmplice."

 

Droga, ele me pegou.

 

Esquadri meu cérebro. "E se Asuka saiu para Tóquio por vontade própria, e eu por acaso também estava em Tóquio a negócios próprios. E então aconteceu de nos esbarrássemos um no outro. A possibilidade é pequena, mas você não seria capaz de provar o contrário, seria?"

 

"Suponho que as câmeras de segurança da Estação Fukui não por acaso teriam filmagem de vocês dois juntos, agora, teriam?"

 

"Digamos que esbarramos um no outro na estação. Coincidentemente acabamos sentando juntos. Parece algo saído de um mangá shoujo, mas é possível, não é?"

 

"Quem comprou as passagens? E quando?"

 

Ah cara, ele me encurralou. Mas eu ainda podia comprar tempo até amanhã.

 

"Comprei uma segunda passagem para a garota com quem planejava fazer minha viagem a Tóquio. Mas no último minuto tivemos uma briga por algo bobo, e eu tinha uma passagem extra. Então ouvi que Asuka estava procurando uma passagem. Essas câmeras de segurança não têm gravação de voz, não é?"

 

"Você tem saído com outra garota?"

 

"Eu te disse. Suponha que estou na verdade com Asuka. Chame de teoria de poltrona. Para fins de argumento."

 

"Entendo."

 

Eu podia ouvir o pai de Asuka suspirar.

 

"Embora possa ser ilógico, contanto que Asuka continue te apoiando, suponho que ir à polícia está fora de questão."

 

Eu não achei que ele estava falando sério sobre ir à polícia desde o início. Era nisso que eu estava apostando de qualquer forma. E contanto que essa fosse a situação, ele não poderia me tocar.

 

Pelo menos, contanto que ele pudesse confirmar que Asuka estava comigo, e que não tínhamos encontrado nenhum tipo de problema, então ele não faria um caso maior disso do que era necessário.

 

"Amanhã ao meio-dia. O Shirasagi, correto?" disse o pai de Asuka.

 

"Sim."

 

"Parece que preciso ter uma conversa séria com você também, não é?"

 

"Que tal eu trazer alguns bolos de souvenir Tokyo Banana, e consideramos resolvido?"

 

"Eu odeio bananas."

 

Com um bipe, ele encerrou a chamada.

 

"...Ha-ha."

 

[Moon: Tenso… Mas pera aí, QUEM NÃO GOSTA DE BANANAS?]

 

Soltei o ar que estava segurando.

 

Eu não diria que lidei com isso tanto quanto me esgueirei para fora. Na verdade, foi mais como se eu tivesse sido capturado e então solto de volta na natureza.

 

Asuka ainda estava agarrada ao meu braço, olhando para mim, desesperadamente piscando para afastar as lágrimas.

 

Aparentemente, ela tinha captado a essência da conversa.

 

"Desculpa."

 

Sim, eu fui quem pediu desculpas.

 

“...”

 

Seus dedos se enterraram no meu braço, sua cabeça pendurada em derrota.  

 

"Parece que vou ter um inferno de tempo para casar com você agora," eu disse.

 

"...Hã?"

 

"Acho que seu pai odeia minhas entranhas."

 

"Então... então...?"

 

"Estamos em tempo emprestado. Até amanhã ao meio-dia."

 

Sua expressão era como uma flor florescendo.

 

"Mantenha seu telefone ligado. Se nos separarmos, nunca vamos nos encontrar novamente de outra forma."

 

Asuka riu e coçou a bochecha, depois pegou minha mão novamente.

 

O céu acima de nós era estreito de fato, e embora não pudéssemos realmente ver nenhuma estrela, a lua estava nos observando como sempre.

 

As ruas de Shinjuku, que eu tinha pensado como sórdidas, agora brilhavam com luzes de neon coloridas. Era como se realmente tivéssemos escorregado para um sonho.

 

Pela primeira vez, Tóquio parecia linda para mim.

Primeiro, precisávamos garantir acomodação para a noite, então nos sentamos na praça em frente ao Alta, e comecei a procurar hotéis de negócios na área no meu navegador.

 

N/T: Alta é o nome de algum lugar, aparentemente Tóquio adora nomes em português

 

Considerando nosso orçamento, precisaríamos ficar abaixo de dez mil ienes por pessoa, e havia na verdade um número surpreendente de lugares que se encaixavam nessa condição.

 

No entanto, mesmo que eu tenha tentado fazer várias ligações para garantir uma reserva, todos os lugares limpos e baratos pareciam estar cheios, e os que tinham espaço pareciam um pouco pobres demais para trazer uma garota. Mesmo que eu procurasse por lugares perto da Estação Shinjuku, acabava sendo uma estação diferente, e eu não conseguia encontrar nada.

 

Eu não me importaria com um hotel cápsula ou algo assim se fosse só eu, mas não podia exatamente trazer Asuka lá.

 

Não era como se não houvesse zero opções de lugares para ficar, mas eu queria lutar pela melhor opção pelo máximo que pudesse, até que nossa única outra escolha fosse dormir nas ruas.

 

Mesmo se tentássemos nos mudar para uma estação diferente, não conhecíamos a área, então não tínhamos ideia de para onde ir que pudesse ter hotéis de negócios baratos e limpos.

 

Para piorar, nós dois estávamos muito cansados.

 

*Estamos em uma verdadeira enrascada aqui*, pensei.

 

Tentei procurar hotéis usando o aplicativo de mapa.

 

Parecia haver algumas opções em Kabukicho, o lugar que Asuka disse que queria andar por perto.

 

"Vamos tentar andar por Kabukicho e perguntar em alguns hotéis diretamente?"

 

"Ok. Isso pode na verdade ser mais rápido. Eles podem ter alguns cancelamentos de última hora ou algo assim."

 

Depois de acenarmos um para o outro, começamos a nos mover.

 

Depois de andar pelo caminho ao lado do Alta por um tempo, atravessamos nos semáforos, e então havia uma grande loja Don Quixote. Depois disso, parecia ser a área de Kabukicho. Era bem grande, mas só pela aparência do prédio, era óbvio que as lojas Don Quixote em Fukui são muito maiores. Coisa estranha para ter um complexo de superioridade.

 

"Uau, é como se a cidade estivesse viva," disse Asuka. "Sinto que posso ouvir meu coração batendo."

 

Essas palavras ressoaram comigo também.

 

A rua com a Kinokuniya era incrível, mas da rua ao lado do Alta até aqui, havia muito mais luz de neon, e a enxurrada de restaurantes e drogarias e bares todos pareciam se fundir em um. Era como se toda essa área fosse alguma fera gigante viva.

 

Você poderia compará-la ao distrito de vida noturna Katamachi de Fukui que Kura frequenta, mas havia muito mais pessoas, muito mais estabelecimentos, e era tudo muito mais espalhafatoso.

 

"Sinto que estou entendendo por que eles chamam de Kabukicho agora."

 

Asuka sorriu ironicamente concordando. "Honestamente, estou apavorada."

 

"Eu também."

 

Andando ao nosso redor havia garotos louros de terno e mulheres jovens em vestidos vistosos com os seios meio de fora. Eles eram obviamente todos parte do comércio noturno.

 

Asuka continuou. "Mas também há colegiais normais andando por aí."

 

*Isso é verdade*, pensei.

 

Mesmo parecendo um mundo completamente adulto, havia garotas jovens em uniformes andando por aí com confiança.

 

"De qualquer forma, vamos continuar também."

 

Asuka acenou, mas ainda parecia um pouco assustada enquanto agarrava minha manga.

 

Enquanto andávamos mais para dentro de Kabukicho, podíamos ver lugares de karaokê e restaurantes de rede que eu também me lembrava de ver em Fukui, o que era um pouco reconfortante. Bem, misturados com aqueles havia alguns estabelecimentos inegavelmente de aparência adulta, e eu não tinha muita certeza de onde colocar meus olhos.

 

"Ei, olha. Diz que há um 'quiosque de informações de estabelecimento' ali. Devemos conferir?"

 

"Você está maluco?! Tão ignorante dos caminhos do mundo!"

 

Quero dizer, não é como se eu soubesse muito sobre isso também, mas obviamente não era o tipo de lugar onde você poderia esperar obter informações sobre pontos turísticos ou os melhores lugares para comer. Só olhe para todo aquele neon explodindo das placas.

 

Asuka pareceu perceber isso também e corou vermelho-vivo. Ela beliscou meu lado. "Ei, aquilo não foi culpa minha agora, sabe?"

 

Levantei minha cabeça, e bem na nossa frente estava um prédio enorme que parecia alcançar todo o caminho até o céu.

 

Desta distância, eu podia ver o que parecia Godzilla empoleirado no topo do prédio. Era provavelmente um cinema.

 

Ver esse tipo de configuração fazia a área parecer um pouco mais segura de alguma forma, e me senti relaxando, o que era estranho.

 

Viramos à direita sem motivo particular, e me virei para Asuka.

 

"Você se sente corajosa o suficiente para comer algo por aqui?"

 

"Na verdade não. Há placas por toda parte dizendo para ter cuidado com estabelecimentos fraudulentos."

[TMAS: Eles estão no bairro carioca de Tóquio.]

 

"Ah sim. Também não sinto vontade de comer de redes de fast-food. Podemos comer esse tipo de coisa em Fukui a qualquer hora."

 

Asuka suspirou um pouco. "Bem, agora tenho uma ideia muito boa de como é Kabukicho, e para ser honesta, estou me sentindo muito cansada. Ainda não decidimos um lugar para ficar também."

 

"É um pouco decepcionante estar fazendo isso em uma viagem, mas você só quer pegar alguma comida de loja de conveniência e comer no hotel?"

 

"Parece bom. Afinal, ainda somos colegiais."

 

Eu na verdade tinha acabado de avistar um prédio com um Family Mart à frente.

 

Havia uma placa de neon na parede dizendo Eu ♥ Kabukicho.

 

"Vou comprar algumas coisas. Quer vir junto?"

 

"Posso só deixar para você? Quero absorver a atmosfera aqui um pouco mais."

 

"Entendido. Que tipo de recheio você gosta nos seus bolinhos de arroz?"

 

"Ameixa em conserva!"

 

Asuka se encostou em um poste próximo, e eu saí para fazer algumas compras.

Comprei alguns bolinhos de arroz e acompanhamentos simples, paguei, e então quando saí da loja de conveniência, não havia sinal de Asuka no lugar onde ela tinha estado sentada.

 

Olhei por toda parte, e então, um pouco mais longe, a vi. Um cara loiro de terno segurando seu braço.

 

Antes que eu pudesse sequer pensar, tinha começado a correr.

 

"Vamos lá, vamos lá. Você seria super popular. Que tal um romance de livros?"

 

"Não vou! Me solte, agora!"

 

BAM.

 

Joguei meu ombro contra o cara.

 

Eu só quis chocar o cara, mas acabei acertando-o muito mais forte do que eu tinha planejado, e o cara tropeou para frente, caindo de joelhos.

 

"Droga. Asuka!" Agarrei-a e comecei a correr, puxando-a junto.

 

"Volte aqui, garoto! Vou te matar!"

 

Me virei para ver que o cara tinha se levantado e estava nos perseguindo, mas o ataque surpresa parecia ter o confundido, e tínhamos conseguido colocar mais distância entre nós do que eu esperava.

 

Já que não conhecíamos a área, fizemos curvas à esquerda e à direita aleatoriamente.

 

"Ei! Lá dentro!"

 

Asuka apontou para um prédio moderno se erguendo na frente, e mergulhamos na entrada.

 

...Conseguimos entrar antes que ele pudesse ver para onde fomos.

 

Ofegamos juntos para respirar no início; Asuka falou assim que nos acalmamos um pouco.

 

"Desculpa, não consegui lidar com ele sozinha. Eu provavelmente deveria ter sido mais firme ou simplesmente o ignorado desde o início, mas quando ele perguntou se eu tinha um minuto, pensei que ele ia me pedir direções."

 

Ah bem. Isso provavelmente era inevitável. Normalmente é sempre isso quando alguém te para na rua em Fukui.

 

"Ele estava tentando te recrutar para algo?"

 

"Algo sobre um girly bar ou um clube de anfitriãs... Ele perguntou... Ele perguntou se eu tinha algum interesse em fazer trabalho adulto. E ele disse que se eu não estivesse disposta para isso... poderíamos apenas ir para um hotel, e ele me pagaria..."

 

"Tudo bem! Vou jogar o corpo dele dos penhascos de Tojimbo. Só espere aí, querida.♡”

 

"Se acalme! Estamos em Tóquio!"

 

Foi tolo de minha parte deixar Asuka sozinha.

 

Eu sabia que tipo de lugar era Kabukicho antes de entrar, e não podia acreditar que deixei minha guarda baixar antes de termos passado sequer um dia completo na cidade.

 

Se estívéssemos mais acostumados com a área, poderíamos ter lidado melhor, mas—e eu odeio dizer isso—era tão óbvio que Asuka era um peixe fora d’água aqui.

 

A propósito, Tojimbo é um dos poucos pontos turísticos de Fukui. Você pode aproveitar a vista dos penhascos que se estendem ao longo do oceano, mas também é um ponto de suicídio notório. É o lugar onde o criminoso sempre é perseguido no final dos dramas de suspense de terça-feira.

 

"Desculpa também," eu disse. "Eu deveria apenas ter fingido ser seu namorado ou algo assim e simplesmente te puxado para longe... Mas acabei ficando bravo."

 

Asuka riu. "Foi uma oportunidade de ouro para ver você ficar tão empolgado por mim também."

 

Ela estava se referindo à coisa com Nanase, provavelmente.

 

"Obviamente. Você é incrivelmente importante para mim, Asuka."

 

"Foi assustador, mas também foi como uma cena de um romance. Os dois fugindo do vilão terrível..."

 

"Estive te puxando desde esta manhã com esse tipo de estado mental. Se isso fosse um romance, você teria que ser pega pelo menos uma vez, ou a história acabaria totalmente monótona."

 

"Hmpf. Acho que seria bom se você pudesse apenas ser o cara legal sem ter que fazer uma piada de tudo, sabe?" Asuka estalou a língua exasperada.

 

"Nem pensar. Eu morreria se não pudesse fazer piadas ruins. Mas mais importante..." Olhei em volta da entrada em que estávamos. "Asuka, acho que isso pode ser um daqueles love ho— Nguuu!"

 

Um par de mãos saiu e apertou minha boca.

 

"Não diga. Não diga a palavra. Eu vou derreter no chão." Asuka corou em vermelho-vivo e desviou o olhar enquanto continuava. "Aquele cara ainda pode estar vagando por aí, e originariamente estávamos procurando um lugar para ficar, certo? De qualquer jeito que você olhe, acho que ficar aqui pode ser a melhor opção."

 

Ela soltou seu aperto para que eu pudesse responder.

 

"Mas..."

 

"Você veio a Tóquio por mim, mas acabei nos colocando em problemas devido à minha ingenuidade. Não posso deixar você se colocar em mais perigo. Não temos ideia de que tipo de conexões aquele cara pode ter. Está tudo bem. Confio em você."

 

Verdade, aquele cara de antes parecia um delinquente, ou talvez um daqueles caras de clube de anfitriões. Possivelmente envolvido em algumas coisas realmente sombrias.

 

Ainda assim, esse é o tipo de cidade que era.

 

Ele pode ter parceiros. Eles podem até ser yakuza. Estaríamos em sérios problemas nesse caso.

 

Se algo acontecesse, eu não seria capaz de encarar o pai de Asuka ou o Kura. E além disso, eu não queria ver Asuka em nenhum perigo.

 

Amaldiçoando minha falta de previsão, reuni minha determinação.

 

"Asuka, prometo que não vou ser gentil."

 

"Hmph!"

 

Asuka cobriu o rosto com a mão e olhou para baixo envergonhada, antes de respirar fundo e soltar.

 

Então ela me olhou diretamente nos olhos.

 

"...Tudo bem. Não me importo se está errado, contanto que seja com você."

 

"Você é tentadora. Agora que você disse isso, quero aguentar a qualquer custo," respondi sem pausa, não querendo que ela visse como eu estava abalado.

 

Ela sorriu de forma madura.

 

"Viu? Sei que ficarei bem, porque você é exatamente esse tipo de cara."

 

Hum, com licença, senhorita futura editora. Talvez você pudesse pegar essa declaração e torná-la apenas um pouquinho mais clara?

 

Diante da confiança da garota mais velha, tudo o que eu podia fazer era aceitar sua declaração vaga pelo valor nominal.

Normalmente, esses tipos de lugares eram proibidos para menores de dezoito anos, mas isso era uma emergência, então esperei que eles fizessem uma exceção para nós. Seria triste demais se as duas crianças de Fukui chegassem todo o caminho até Tóquio apenas para acabar enroladas em esteiras de bambu e empurradas para a Baía de Tóquio, certo?

 

Internamente fazendo desculpas a uma pessoa sem nome, consegui nos registrar sem causar muita suspeita.

 

Na verdade, tudo o que fizemos foi selecionar nosso quarto em algum tipo de máquina, depois pagar em uma recepção com uma partição nos separando do atendente. Não tivemos que falar com nenhum funcionário ou sequer fazer com que eles vissem nossos rostos.

 

A propósito, eu só observei silenciosamente e depois copiei o que o casal na nossa frente fez.

 

A maioria dos quartos estava cheia, mas felizmente havia um quarto barato disponível, e cabia em nosso orçamento.

 

Perto da recepção havia uma mesa preparada com grandes garrafas de xampu e sabonetes corporais que você podia pegar emprestado de graça, então sugeri que Asuka escolhesse os que ela quisesse.

 

Quando chegamos ao nosso quarto, descobrimos que tudo dentro era basicamente branco. Havia uma grande cama de casal, um sofá, uma mesa baixa e uma TV. Era um espaço funcional e estiloso.

 

Me vi olhando em volta, olhos indo aqui e ali.

 

O quarto pouco iluminado tinha uma luz de neon azul na parede, e de vez em quando mudava de cor, alternando entre roxo e depois rosa, o que era um pouco irritante. O espaço não tinha uma vibração particularmente sexy, no entanto, o que veio como um alívio.

 

Sinto que, ultimamente, esses tipos de situações inesperadas continuam acontecendo comigo.

 

Aliviados da maior parte de nossa tensão, colocamos nossas bolsas no sofá por enquanto, e então...

 

"Tão cansado!" “Tão cansada!”

 

Nós dois mergulhamos na cama.

 

Deitados de bruços, nos esticamos, nos olhamos e sorrimos.

 

Através de seu cabelo bagunçado e partido, eu podia ver a pinta de lágrima abaixo de seu olho. Eu normalmente não a via neste ângulo, e ela era deslumbrante. Tentei reprimir uma onda de emoção, usando cada centímetro de lógica que possuía.

 

Sem notar, Asuka falou com uma voz estranhamente animada. "Ei, é inacredível! Estamos em Tóquio agora. Estamos tendo uma festa do pijama juntos."

 

Sorri ironicamente. "Eu certamente nunca teria acreditado na última parte."

 

"É como... Me sinto tão livre. O dia todo fomos como duas nuvens flutuando por aí, não fomos?"

 

Asuka remexeu seus braços e pernas como uma criança.

 

Ela parecia tão fofa que tive que engolir algum tipo de provocação como: "Acho que vai haver uma grande tempestade amanhã quando voltarmos, mas."

 

Asuka congelou, como se tivesse acabado de estar pensando em algo, e lentamente se virou para me olhar.

 

"Ei, você... Quer jantar? Quer tomar banho? Ou quer...?"

 

"Para com isso! Você não está acostumada a fazer piadas bregas! E estou com fome, então vamos comer! Ok? Ok!"

 

Droga. Eu só pensei em Yuuko, e por algum motivo estranho comecei a me sentir estranhamente culpado.

Depois disso, comemos a comida que eu tinha comprado na loja de conveniência.

 

Estávamos cansados depois de andar o dia todo, então decidi encher a banheira.

 

O banheiro era bem grande e extravagante, e por algum motivo, até a banheira parecia se iluminar com cores do arco-íris.

 

Quando Asuka percebeu isso, ficou toda empolgada e disse sem pensar: "Ei, poderíamos entrar juntos!"

 

"Claro, você quer que eu me junte a você? Lavar suas costas? Fazer uma pequena água-viva com uma toalha?"

 

"...P-poderíamos apertar o botão ADICIONAR MAIS ÁGUA juntos...?"

 

"Não tenho muita certeza do que você quer dizer com isso, mas se isso ajuda a cobrir seu constrangimento, então acho que sou a favor."

 

Enquanto estávamos terminando nossa comida, a banheira finalmente encheu.

 

Honestamente, ir primeiro não parecia certo, mas ir em segundo também não. Já que nenhuma opção parecia confortável, decidi optar por damas primeiro e sugerir que Asuka tomasse o primeiro banho.

 

Asuka vasculhou sua bolsa e se preparou para seu banho, depois desapareceu no banheiro.

 

Alguns minutos depois, eu podia ouvir o som do chuveiro correndo.

 

Eu estava feliz por ser o tipo de quarto onde o banheiro é separado. Se fosse um daqueles quartos onde o banho fica do outro lado de uma parede de vidro transparente, não sei o que eu faria.

 

Mesmo assim, pensei.

 

Quando Nanase passou a noite comigo, me senti mais confiante já que era meu próprio lugar. Mas aqui, tudo estava tão fora do comum e fora da minha zona de conforto. Se eu não me mantivesse firme, qualquer coisa poderia acontecer.

 

O dia parecia tão longo mas tão curto ao mesmo tempo, e eu tinha conseguido passar tempo com Asuka não como uma amiga de escola mas como uma garota. Sua presença vívida já tinha se feito conhecer o suficiente.

 

Phwoosh. Splash. Patter.

 

O som da água corrente refrescante ameaçava enviar minha mente para lugares, e eu tive que balançar minha cabeça forte.

 

Sentei no sofá e olhei para meu telefone, esperando me tranquilizar. Eu tinha apenas uma mensagem de texto curta.

 

Isso era estranho. Meus amigos normalmente só me enviavam mensagens pelo aplicativo LINE.

 

*Use camisinha.*

 

"Vá para o inferno!"

 

É claro que era do Kura.

 

Obrigado por isso, Kura! Agora voltei à realidade! Boa educação, seu idiota! Morra!

 

Verifiquei se tinha alguma mensagem de Yuuko e das outras, e fiquei aliviado ao ver que não tinha. Então senti um pouco de auto-ódio por esse alívio.

 

Enquanto matava o tempo fazendo isso e aquilo, o som da água corrente mudou, dando lugar ao barulho do secador de cabelo.

 

Finalmente, isso parou também, e a porta se abriu com um clique enquanto Asuka saía, vestida em um roupão branco puro.

 

—Um roupão?!

 

"Ah, que melhor. Obrigada por me deixar ir primeiro."

 

Ela devia ter secado o cabelo rapidamente, não querendo me fazer esperar muito. Seu cabelo ainda parecia ligeiramente úmido e alcançava seus ombros enquanto estava ali, casualmente esfregando-o com uma toalha.

O cordão do roupão estava bem amarrado, é claro, mas—e eu não sei se foi projetado assim ou o quê—eu podia ver a clavícula de Asuka e uma pequena pinta que estava claramente visível na parte superior de seu seio.

 

O material se estendia até logo acima de seus joelhos, mas quando Asuka deu um passo à frente, eu podia ver suas coxas brilhantes enquanto o roupão se abria.

 

Sua pele era branca como porcelana, com um tom de cor de flor de cerejeira.

 

"Pode ir?"

 

Percebi que estava encarando, enquanto Asuka sentou ao meu lado e me deu um olhar surpreso.

 

O cheiro do xampu desconhecido, condicionador e sabonete corporal parecia flutuar sobre mim.

 

"Não, não, Asuka, não se mexa. Posso ver tudo se você fizer isso."

 

"Hã? Hmm, eu sei, é um pouco constrangedor, mas garanto que amarrei o cordão bem apertado."

 

Hum, sim, sim você amarrou, mas um roupão não é nada além de uma toalha de formato estranho, não é? É muito mais solto e pendurado do que, digamos, um yukata de algodão em uma pousada tradicional.

 

Pode ser bom para descansar, mas você não pode exatamente dormir em algo assim sem acordar de manhã se encontrando em um estado e tanto.

 

O que o pobre Saku faria se seus olhos fossem assediados por tal imagem?

 

Asuka continuou. "Nunca pensei que ambos iríamos dormir no mesmo quarto. Pensei que poderia simplesmente vestir o que o hotel tivesse por aí."

 

*Quero dizer, eu entendo, mas... ainda assim!*

 

Eu certamente não podia dizer a uma garota para vestir de volta as roupas que ela tinha passado o dia todo andando, e o vestido de estilo vintage que compramos no brechó não era realmente o tipo de coisa que você poderia usar para dormir.

 

"Gostaria de ter sabido. Teria trazido alguns pijamas fofos comigo."

 

"Certo!" Eu me dirigi ao armário.

 

*Hotéis normais geralmente têm todos os tipos de comodidades preparadas para os hóspedes, certo? ... Aqui está!*

 

"Asuka, por favor, me faça um favor e vista isso."

 

O que encontrei foi um par de pijamas muito simples e de aparência normal que abotoavam na frente.

 

"Espera, eles tinham pijamas?"

 

Provavelmente era difícil para ela notar, já que os roupões foram apenas deixados à vista, mas você tinha que procurar pelos pijamas.

 

"Veja, eles têm azul-marinho e cores de flor de cerejeira, em conjuntos de pijamas combinando."

 

"...Isso não é um pouco constrangedor também?"

 

"...Sim, meio que é."

 

No final, Asuka trocou pelos pijamas, e então foi minha vez no banheiro.

 

A banheira realmente estava iluminada em cores do arco-íris, e me senti igualmente envergonhado e desconfortável enquanto tentava passar por isso.

 

O chão e o banquinho de banho estavam ambos molhados, e todo o banheiro cheirava ao mesmo xampu e condicionador que eu tinha cheirado há pouco.

 

*Pensar que há alguns momentos, Asuka estava aqui lavando seu corpo e mergulhando na banheira...* Era difícil não pensar nisso, mas me forcei a não pensar enquanto lavava rapidamente meu cabelo e corpo sob o spray.

 

...Eu posso ter colocado um pouco mais de esforço, para ficar impecavelmente limpo, do que normalmente faço.

 

Mergulhei na banheira, descansando minha cabeça na borda, e pensei de volta nos eventos do dia.

 

Parecia que muita coisa tinha acontecido desde que Nanase me deu o empurrão e a bronca que eu precisava para agir, mas na verdade tinha sido apenas um único dia.

 

Eu deveria mesmo ter feito isso? Era tarde demais agora, mas me vi me perguntando novamente de qualquer forma.

 

E se eu realmente tivesse chateado o pai de Asuka e arruinado o relacionamento entre eles? As coisas foram mais fáceis com Kenta e Nanase.

 

Eu tinha um cara que queria moldar, e eu tinha um valentão que precisava vencer. Mas o verdadeiro trabalho disso foi feito pelos próprios indivíduos.

 

Desta vez, foi diferente.

 

O pai de Asuka não era algum valentão que precisava de uma surra. E Asuka estava tentando se defender. Ela estava dando o melhor de si.

 

Tudo o que eu tinha feito, no entanto, era arrastar Asuka para Tóquio.

 

Aquela escolha realmente levaria a algum tipo de efeito positivo na situação?

 

Que direito você tem de se inserir nesta conversa?

 

Honestamente, eu não tinha respostas concretas desta vez. Eu não sabia o que poderia realmente fazer para ajudar Asuka.

 

Mergulhei até o topo da minha cabeça na água quente, bolhas vazando da minha boca. Então lembrei que Asuka tinha estado mergulhando nesta mesma água minutos antes, e saí da banheira, espirrando água por toda parte.

Sequei meu cabelo e saí do banheiro para encontrar Asuka relaxando no sofá no quarto escuro, iluminada pelo brilho de seu telefone.

 

Me perguntei se ela tinha recebido uma mensagem de seus pais ou algo assim, ou talvez ela estivesse preocupada porque não tínhamos ouvido nada depois disso.

 

Quando ela percebeu que eu estava lá, colocou seu telefone de volta em sua bolsa com pressa.

 

Encarando-me, ela riu.

 

"Acho que isso é um pouco constrangedor, hein? É como se estivéssemos morando juntos ou algo assim."

 

Pensei de volta na conversa que tivemos na universidade mais cedo enquanto respondia.

 

"Bem, de qualquer forma, sempre serei o primeiro cara com quem você usou pijamas combinando. Não importa quão distantes acabemos ficando no futuro."

 

Os olhos de Asuka se abriram, e ela parecia triste e animada ao mesmo tempo enquanto respondia. "Isso é algo que nunca esqueceremos, hein."

 

Enquanto a conversa se esgotava, foi substituída por um silêncio desconfortável.

 

Tínhamos jantado e tomado banho. O próximo passo lógico era ir para a cama, mas ainda eram apenas onze da noite. Estávamos cansados, com certeza, mas ainda era uma hora muito cedo para dois colegiais estarem encerrando o dia.

 

Tentei pensar em alguma conversa que pudesse preencher a lacuna, mas pela primeira vez minha mente me falhou, e não consegui pensar em nenhum comentário descontraído.

 

Meus olhos pousaram na cama. Entrei em pânico e rapidamente desviei o olhar, encontrando os olhos de Asuka enquanto ela também rapidamente desviou o olhar da cama.

 

Nós dois fizemos careta com o desconforto.

 

Então Asuka olhou ao redor do quarto um pouco inquieta, antes de parecer reunir sua coragem e se levantar.

 

"Vamos dar uma olhada no quarto, já que estamos aqui," ela disse de uma maneira inocente e descalculada.

 

"Uh, eu realmente acho que é melhor você não fazer isso..."

 

Mas era tarde demais para eu pará-la. Ela já tinha agarrado a gaveta mais próxima e a puxado para abrir.

 

"Ai!"

 

"Eu te disse para não fazer isso. Você esqueceu que tipo de hotel é este?"

 

Fui ficar ao lado dela, e foi quando vi as camisinhas e lubrificante organizados, junto com o vibrador rosa com o papel nele que educadamente anunciava que tinha sido higienizado.

 

Fechei a gaveta de novo com um punho cerrado.

 

Os lábios de Asuka se moveram sem som antes que ela dissesse: "Bem, você parece notavelmente calmo."

 

"Se você acha isso, deveria dar crédito ao anjo no ombro do pobrezinho Saku agora."

 

"Quase como se você estivesse acostumado com esse tipo de coisa."

 

"Enquanto você estava ali como uma estátua no lobby, eu estava observando o casal na fila à nossa frente. Ou você esqueceu?"

 

"Você realmente acha que sou alguma garota ingênua, não acha?"

 

"Sim! Desde esta manhã!"

 

Quando disse isso, Asuka suavemente colocou a mão na alça da gaveta que eu tinha acabado de fechar.

 

"...Estou no meu último ano do ensino médio, sabe. Eu sei sobre essas coisas. Sei como usar todas as coisas aqui, e sei exatamente em que tipo de lugar estamos."

 

Seu sorriso falso-maduro e transparente fez meu peito doer por um momento.

 

"Então quero dizer, se... Tipo, se chegar a isso, não vou ficar assustada ou chorar ou nada. Não sou tão iniciante assim... Acho. É verdade, sabe?"

 

Ela me olhou, hesitante, vasculhando meu rosto para minha resposta.

 

Mas eu sou meio mal, então sorri para ela. Foi um sorriso gentil, mas calculado, não traindo nada do que eu sentia por dentro.

 

"Mas sabe, esse tempo que passei com você... pelo menos para esta viagem... gostaria de passá-lo inocentemente, como antigamente... Como se fôssemos apenas crianças. É... é o que tenho pensado."

 

Quando Asuka terminou de dizer isso, seu tom tingido de ansiedade, olhei para ela, e...

 

É hora de parar com essa bobagem.

 

É o que pensei. E foi um pensamento poderoso.

 

Agarrei Asuka pelo braço e a joguei na cama.

 

Me apoiando nas mãos, aproximei meu rosto do dela, e...

 

"Hã? Hã?"

 

Perplexa, ela apertou os olhos.

 

E então eu—

 

"Hyah!"

 

—peguei um travesseiro e acertei aquele rosto lindo dela com ele.

 

"Guhhh!"

 

Ela gritou, um som indignado.

 

"Por que você fez isso?!" Asuka murmurou com a boca cheia de travesseiro enquanto eu procedi a amassá-lo contra seu rosto.

 

Respondi com frieza. "Exatamente como você queria. Estou te dando a experiência essencial de luta de travesseiros em viagem noturna de colegial."

 

"Hã? O quê? É realmente assim que estamos jogando isso?!"

 

"Agora. Você. Me. Escuta!"

 

Tuc, truck, trac. Assaltei-a ritmicamente com o travesseiro para pontuar cada palavra.

 

"Você tem alguma ideia de quão forte estou me agarrando ao meu anjo do ombro agora e tentando não pensar em certas coisas?! Você estava falando assim de propósito agora, Asuka? O que você é, algum tipo de demônio?!"

 

"Mas, mas... Ai, ei! Você é um cara, então pensei que deveria me preparar mentalmente para certas coisas..."

 

"Meu anjo e demônio internos já discutiram isso o suficiente sem sua ajuda! Não subestime a libido de um garoto no auge de sua juventude! Você quer pular os últimos três degraus na escadaria para a idade adulta, mesmo?!"

 

"...Er, hum..."

 

"Não! Vacile! Agora! Você! Tola!"

 

Fic, trac, tromp, plup.

 

"Se você quer ser uma editora, então pense sobre os fundamentos da história! Suba degrau por degrau! Controle as emoções borbulhantes dos leitores! Se eu tiver você agora, Asuka, eles vão entrar em chamas! Você quer morar em Tóquio, certo? Quer fazer uma vida nesta cidade, não é?"

 

Através do travesseiro, eu podia dizer que ela estava acenando.

 

"Então se organize. Não vá apenas com o fluxo. Foque em sua própria livre vontade, no que faz você ser Asuka. Veja os outros por quem eles realmente são. Foque no seu sonho! Você tem que ser você!"

 

Aceno, aceno, aceno, aceno.

 

"E se, no futuro, houver um futuro para nós juntos, e se estivermos ambos dispostos a nos manter em alta estima e unir nossos corpos... então, só então, daremos esses passos finais. Esse é o melhor jeito, não é? Sou um cara meio à moda antiga, veja."

 

"Hum, posso apenas—apenas dizer uma coisa?" Asuka murmurou baixinho.

 

Trac!

 

Ela atingiu-me com o segundo travesseiro, aquele que eu não tinha notado, e me acertou em cheio no rosto com ele.

 

"Pare de ficar falando sem parar! Entendo fundamentos de história! Entendo fluxo narrativo! Eu vejo os outros por quem eles realmente são, e não estou vacilando! Não fale como se soubesse tudo, seu homem maluco!"

 

"Isso não foi apenas uma coisa!"

 

Depois disso, embarcamos em uma luta de travesseiros ao estilo de viagem escolar.

 

"Nada mal, princesa esfarrapada! Vou te ensinar uma consciência da crueldade do mundo!"

 

"Ah é? Bem, pode vir! Tudo o que você pode fazer é tagarelar sem sentido quando uma mulher dá em cima de você!"

 

Era como aquele dia que conheci Asuka, com aquelas crianças.

 

"Droga! Vou pegar aquele BEEP de lá e BEEP você, seu BEEPing BEEP!"

 

"Você pode usar as palavras de verdade, sabe? Uma mulher madura como eu não precisa de um garotinho como você medindo palavras para ela!"

 

"Gostaria que você tivesse um toquinho dessa maturidade quando estávamos andando pelas ruas de Tóquio!"

 

Estávamos gritando e berrando e rindo juntos.

 

Pulando na cama, no sofá, batendo um no outro com travesseiros.

 

Um dia seremos adultos—na verdade, não temos escolha nisso.

 

Mas até lá, quero ser uma criança pelo maior tempo possível, pensei.

 

Se você não acerta em ser uma criança, não tem chance quando for um adulto.

 

E uma noite como esta é um ótimo momento para ser infantil.

Exaustos, caímos lado a lado na cama de casal, encarando o teto.

 

Planejei tentar dormir no sofá, como quando Nanase passou a noite, mas Asuka disse: "Isso é entediante demais."

 

Bem de qualquer forma, era óbvio que isso não ia acabar sendo uma verdadeira noite de garoto-garota.

 

"Cara, estou suando como um porco. E depois que eu já tinha tomado banho. Estou fedendo?"

 

Asuka enterrou o nariz no meu peito e bufou. "Está! Está fedendo!"

 

"Quer que eu cheire seu peito também?"

[TMAS: O cara é safado demais.]

 

Eram cerca de onze da noite.

 

O relógio no quarto era digital, mas na minha cabeça, eu podia praticamente ouvir o ponteiro de um relógio fazendo tique-taque o tempo restante, segundo por segundo.

 

"Vamos conversar sobre algo?" disse Asuka. "Esta é nossa viagem espetacular única na vida. Provavelmente nunca teremos a chance de fazer isso de novo. Precisamos discutir algo momentâneo. Para que mesmo se esquecermos o cheiro do xampu que ambos usamos, ainda possamos lembrar desta conversa."

 

Verdade, nunca teremos a chance de fazer uma viagem exatamente assim de novo, pensei.

 

Não era sobre com quem eu estava, ou o destino.

 

Era sobre este momento no tempo. Mergulhar em uma cidade desconhecida com a garota que eu tanto admirava.

 

Agora, éramos como personagens de um romance. Sem necessidade de apontar quem é o personagem principal, embora, é claro.

 

"Quero dizer..." Asuka continuou. "Me conte uma história sobre você?"

 

"Não tenho nenhuma história adequada para uma noite como esta."

 

"Não precisa ser nada sofisticado. Não preciso de drama ou romance. Só me conte como você se tornou quem é hoje?"

 

Pesando o significado por trás de suas palavras, olhei para aquele rosto.

 

Tão solene, tão gentil, um pouco transparente. Seus olhos pareciam que poderiam explodir em lágrimas a qualquer momento.

 

E então entendi o que ela estava me pedindo.

 

"Se eu falar sobre isso, vai acender ao menos uma vela no seu futuro, Asuka?"

 

"Preciso disso. Do jeito que estou agora, o fim desta viagem, esta noite. Me conte sobre você?"

 

Era uma história que nunca tinha contado a uma única pessoa.

 

Nem para Yuuko Hiiragi, nem para Yua Uchida, nem para Haru Aomi, nem para Yuzuki Nanase, nem para Kaito Asano, nem para Kazuki Mizushino, e nem para Kenta Yamazaki—bem, exceto por parte dela.

 

Porque...

 

"Tenho certeza de que não vai viver até suas expectativas. É um tipo de passado muito mundano e barato. Nada que valha a pena transformar em história."

 

Esse é o tipo de história que era.

 

Asuka pegou minha mão suavemente.

 

"Mesmo que seja uma história mundana e barata—como editora, vou torná-la uma história diferente de qualquer outra no mundo."

 

Ah, se for assim, posso relaxar.

 

Posso ser uma criança na frente dela, pelo menos um pouco.

 

Nesta noite única na vida, posso provavelmente escrever uma história única na vida.

 

Não posso fazer tão bem quanto você fez—não como as palavras que você trouxe para mim uma vez—mas posso contar a história trivial, chata e idiota de Saku Chitose.

"Desde pequeno, sempre fui do tipo que se destaca. Se quer saber quando começou, sei que, pelo menos desde o jardim de infância, muitas meninas gostavam de mim, e eu era sempre o vencedor nas corridas do dia do esporte."

 

"Mm."

 

"Nada mudou quando entrei no ensino fundamental. As meninas continuavam gostando de mim, e ninguém conseguia me vencer na educação física, no dia do esporte ou nos torneios de corrida. Eu tirava as melhores notas em todas as provas só de prestar atenção na aula."

 

"Mm."

 

Até este ponto, era exatamente a mesma história que eu tinha contado ao Kenta. Asuka continuava dizendo "Mm", mas cada vez que ela dizia, tinha uma entonação diferente. Isso me dizia que ela estava ouvindo com atenção, mas não ia interromper.

 

"A primeira vez que comecei a perceber que talvez eu fosse especial foi no quarto ano do ensino fundamental. Comecei a notar os outros e a perceber que nenhum deles conseguia fazer as coisas tão bem quanto eu."

 

"Mm."

 

"Mas não é como se eu menosprezasse as outras crianças. Eu me importava muito com meus amigos, pudessem eles correr rápido ou não, e muitas vezes fui colocado em posições de liderança. Eu só queria me dar bem com todos."

 

"Mm."

 

"Sei que soa mal falar assim de si mesmo, mas acho que, comparado com o que sou agora, pelo menos, eu era um cara muito decente. Nunca abandonaria meus amigos e sempre tentava ajudar quem estava com problemas."

 

"Mm."

 

"Eu me lembro disso até hoje. Havia uma garota na minha classe que todos meio que evitavam. Durante o intervalo do almoço, ela ficava sozinha, abraçada a si mesma, desenhando em silêncio. Todos diziam que ela era sombria e assustadora. Mas houve um evento em que tivemos que formar pares, menino-menina, e quando a vi sentada em silêncio com a cabeça baixa, perguntei: 'Quer fazer dupla comigo?'"

 

"Mm."

 

"Não é como se eu me achasse o tal por fazer dupla com uma garota sem amigos; na verdade, fiz a oferta com intenções puras. Mas às vezes você nem percebe no que está se metendo."

 

"Mm."

 

"Quando realmente conversei com ela, ela parecia totalmente normal, até meio interessante. Ela me mostrou alguns desenhos. Ela tinha desenhado uns personagens de mangá de que eu gostava, muito bem feito. Ela ficou toda animada e, no dia seguinte, me deu um de presente. Isso me deixou muito feliz."

 

"Mm."

 

"Então, depois disso, ela me disse que gostava de mim, e quando eu disse não, ela tentou me fazer sentir mal por isso. Disse um monte de coisas, tipo que eu nunca deveria ter sido legal com ela, que ela não queria que eu sentisse pena."

 

"Mm."

 

"Todos ao meu redor também me culparam. 'Ah, o Chitose fez uma garota chorar'."

 

"Mm."

"Eu não estava sentindo pena dela. Eu honestamente achava os desenhos dela legais. E era divertido conversar sobre mangá com ela. Achei que poderíamos ser amigos. Se eu fosse um cara mais normal, se para mim não tivesse sido um evento tão importante ter estendido a mão para ela, acho que ela não teria interpretado mal do jeito que interpretou."

 

"Mm."

 

"Normalmente, eram as outras pessoas que vinham até mim pedindo coisas. Eu basicamente nunca recusava ninguém que precisasse da minha ajuda. No começo, as pessoas eram muito gratas, tipo, 'Ah, muito obrigado'."

 

"Mm."

 

"Mas então elas se acostumaram. Começaram a dizer: 'Se for um saco fazer você mesmo, é só pedir ao Chitose. Ele cuida disso.' Fazer eles mesmos dava muito trabalho, mas ele consegue fazer com uma mão amarrada nas costas, então por que ele não deveria ser o único a fazer? Tipo isso."

 

"Mm."

 

"Então, sempre que eu tentava recusar pedidos, ou se os resultados que eu entregava não correspondiam ao que a pessoa esperava, eles ficavam decepcionados, e pior ainda, diziam: 'Por quê? Por que você não pode me ajudar só um pouquinho?' ou 'Você fez nas coxas, não fez?' e faziam todas essas reclamações para mim."

 

"Mm."

 

"E tudo isso começou a se acumular. A imagem do Chitose como 'o cara que pode fazer tudo, amigão de todo mundo' começou a se desgastar lentamente, e então todos começaram a me detonar muito mais do que eu merecia."

 

"Mm."

 

"Acho que foi nessa época que comecei a jogar beisebol juvenil. Rapidamente fiquei muito melhor no jogo do que as outras crianças que entraram comigo, e comecei a alcançar as crianças mais velhas em um ritmo acelerado."

 

"Mm."

 

"Mas, sabe, naquela idade, você não pode ser o melhor nos esportes ou nos estudos apenas confiando nos dons naturais com que nasceu. Eu não era o mais alto, e os outros caras estavam começando a ter estirões de crescimento."

 

"Mm."

 

"Eu comecei levando na flauta com meus dons naturais, então fiquei com medo. Percebi que seria ignorado e descartado se os outros me alcançassem e ultrapassassem. Afinal, eu só era popular porque era o Chitose, o cara que pode fazer tudo, amigão de todo mundo."

 

"Mm."

 

"Sinceramente, durante os primeiros anos do fundamental, havia muitas crianças que eram ótimas em esportes e estudos como eu, mas que gradualmente caíram para o meio do pelotão com o passar dos anos."

 

"Mm."

 

"Então, me esforcei ao máximo. Mesmo no ensino fundamental, eu estudava mais do que qualquer um antes das provas, e quando as competições de corrida estavam chegando, eu praticava correndo ao longo da margem do rio todos os dias. Até no beisebol. Eu praticava minhas rebatidas até a pele das minhas mãos descascar. Nem as crianças mais velhas faziam isso."

 

"Mm."

 

"Então, quando entrei no quinto ano, chegou ao ponto em que todos simplesmente achavam natural que eu pudesse fazer qualquer coisa. Ninguém imaginava que eu estava fazendo esforço em segredo. E eu nunca disse uma palavra sobre isso, claro. Eu achava que o que todos queriam era o Chitose que podia fazer tudo sem nem precisar suar a camisa."

 

"Mm."

 

"Não demorou muito para que eles começassem a procurar meus raros erros e fracassos, em vez das vitórias. Afinal, as vitórias eram chatas. Por exemplo, se eu tirava cem na prova, eles faziam caretas para mim, mas se eu tirava noventa, ficavam tão animados que começavam a bater palmas. 'O quê, o Chitose não tirou cem? Ele é burro ou algo assim?'"

 

"Mm."

 

"Eles não esperavam apenas pelos meus fracassos. Eles ativamente tentavam me fazer falhar. Ninguém passava a bola para mim quando jogávamos futebol na educação física. A lição de casa que eu pensei ter feito desaparecia da minha mesa. Colocavam um cheirinho de brincadeira nas minhas roupas de ginástica para deixá-las fedidas. Não havia limite para o que faziam."

 

"Mm."

 

"Então eles riam todos como se fosse a maior diversão. 'Não consegue fazer gol, hein? E a sua lição de casa, hein?' me provocando o tempo todo assim. Ha-ha-ha, como se fosse a piada mais engraçada que já tinham ouvido."

 

"Mm."

[Moon: Mm, Mm, MmmmMmmm, Mmmm…]

"Mas nenhum deles via aquilo como bullying. Incluindo eu. Eu sabia que se revidasse, isso não mudaria a forma como me viam. E depois da escola, as crianças que tinham me provocado ainda brincavam comigo, como amigos."

 

"Mm."

 

"Acho que todos eles estavam apenas tentando equilibrar as coisas do jeito que conseguiam."

 

"Mm."

 

"Quer dizer, já que eu nasci com tudo o que eles não tinham, e me destacava mais do que ninguém, eles achavam que eu podia levar uns tapas e ser jogado na lama. Como se quisessem me dar uma desvantagem, só um pouquinho. Como se crianças que são abençoadas com talento devessem esperar esse tipo de coisa."

 

"Mm."

 

"Mas na época, eu ainda era só uma criança. Doía, e me deixava triste. Tudo o que eu estava fazendo era tentar dar o meu melhor nas coisas, então por que eu tinha que sofrer esse abuso de crianças como elas, que nunca tentavam?"

 

"Mm."

 

"Então o garoto oprimido pensou: Se eu me tornar como os outros, eles vão parar de me provocar. Ele errava chutes de propósito nos jogos de futebol, deixava questões em branco nas provas mesmo sabendo a resposta, e quando seus amigos pediam ajuda, ele apenas os encarava com raiva e dizia não."

 

"Mm."

 

"Mas isso também não os deixou felizes. Eles já tinham colocado aquele cartaz em volta do meu pescoço, escrito 'Superdotado', e não havia nada que eu pudesse fazer para tirá-lo. Todos os meus esforços eram desconsiderados. Meus erros eram exagerados. Se eu deixava outros me vencerem na educação física, eles se gabavam. 'Chitose não é tudo isso que dizem', eles diziam."

 

"Mm."

 

"Eu era só uma criança, então não sabia o que fazer. Se eu tivesse sucesso, estava ferrado. Se eu falhasse, estava ferrado. Se tentasse agir de forma mediana, não funcionava por causa do meu histórico de ser excepcional. Eles só achavam que eu estava perdendo o jeito."

 

"Mm."

 

"Então um dos professores, que estava de olho em mim, disse algo."

 

Isso foi a mesma coisa que eu tinha contado ao Kenta.

 

"Um garoto como você, abençoado com todos esses dons, deveria estar na frente da classe servindo de exemplo para os outros. Você pode se perguntar por que é o único que tem que se esforçar tanto, mas as outras crianças — bem, elas estão se perguntando por que você é o único que tem todos esses dons... Então você tem que voar ainda mais alto. Tem que correr ainda mais rápido. Até se tornar um herói de verdade, do tipo que inspira os outros a seguirem atrás de você..."

 

De agora em diante, o resto era a verdade real, a parte que eu não tinha compartilhado.

 

"Eu entendi essas palavras de uma forma completamente diferente da que o professor pretendia."

 

"Mm."

 

"Pensei que tentar ser um garoto mediano só estava fazendo os outros quererem me arrastar para baixo com eles. Decidi que tinha que ser completamente perfeito, tão acima deles que nunca nem pensariam em se comparar a mim."

 

"Mm."

 

"Eu jurei ser o herói perfeito, não para ajudar os outros, mas para manter todos eles longe de mim."

 

"Mm."

 

"Tudo ficou muito mais fácil depois disso. Um por um, identifiquei minhas fraquezas, as rachaduras na armadura onde algo faltava, e selei-as firmemente."

 

"Mm."

 

"Quer dizer, se eu ajudasse um garoto que estava sofrendo bullying no ensino médio, ele passaria a me seguir por toda parte todos os dias depois disso. Acabava esperando do lado de fora da minha casa no fim de semana. Eu simplesmente não conseguia ver alguém sofrendo bullying e não ajudar — foi só isso — mas isso não significava que eu tinha que ser melhor amigo do cara a partir do dia seguinte, tinha? Mas quando eu dizia que eles estavam me incomodando, eles saíam e começavam uma campanha de difamação contra mim."

 

"Mm."

 

"Bem, nesse caso, eu nunca deveria ter me incomodado em ser legal em primeiro lugar. Eu deveria ter enfatizado que só estava ajudando por razões minhas. Não vá pensar que, porque eu ajudei, quero andar com você. Se eu fizesse isso, poderia ter evitado que as pessoas depositassem todas essas expectativas em mim e ficassem decepcionadas."

 

"Mm."

 

"Se eu confiasse nas pessoas que acreditava serem meus amigos quando estava com problemas, no dia seguinte elas estavam contando minhas fraquezas para todo mundo e rindo disso. Então, nesse caso, eu não deveria me incomodar em mostrar às pessoas o que estava dentro de mim. Precisava estabelecer uma linha firme com todos, não me envolver com ninguém e não deixar ninguém me conhecer muito bem."

 

"Mm."

 

"As garotas que criaram sentimentos por mim e acabaram sendo rejeitadas, e os caras que tinham crush nessas mesmas garotas, me chamavam de mulherengo e garanhão. Então pensei que deveria garantir que todos soubessem que eu não era confiável desde o início. Dessa forma, elas saberiam que eu não era o tipo de cara por quem se apaixonar seriamente em primeiro lugar."

 

"Mm."

 

"Se as pessoas iam acabar falando mal de mim de qualquer jeito, então pensei que deveria manter distância de todos desde o início e agir como um babaca arrogante total."

 

"Mm."

 

"Mas eu sabia que isso só iria irritar todo mundo se eu fosse sempre perfeito demais, então decidi começar a soltar umas piadas sem graça de vez em quando, só para aliviar um pouco a pressão."

 

"Mm."

 

Como quando uma garota que eu achava ser uma amiga preciosa confessou seus sentimentos por mim e eu a rejeitei friamente, e no dia seguinte ela afirmou que eu tinha namorado com ela por nada e depois a descartei.

 

Como quando houve um grupo de veteranos que começaram a se armar e vieram me empurrar, sabendo que eu não podia revidar porque não queria causar problemas para o time de beisebol.

 

Como quando um cara meteu na cabeça que eu tinha roubado a garota dele, e ele veio irrompendo na nossa sala de aula, causou um enorme auê por nada na frente de todos os meus colegas, e então jogou meu celular pela janela.

 

Como quando minhas boas notas levaram as pessoas a começar um boato de que eu estava recebendo "aulas extras" da professora jovem e atraente.

 

Como quando meus pais se divorciaram, e alguém escreveu todos os detalhes sórdidos no quadro-negro da sala de aula.

 

Como no primeiro ano, quando me tornei titular no time, e as pessoas começaram a me ignorar só porque os veteranos mandaram.

 

E então, no ensino médio—

 

"Quer dizer, eu poderia te contar sobre todos os tipos de incidentes em detalhes, mas não é como se uma coisa em particular tivesse se tornado um trauma. Mas o que estou dizendo é que todas essas pedrinhas que atiraram em mim foram me lascando até que o que sobrou foi o cara que sou hoje."

 

Viu? Eu disse que era uma história trivial, chata e idiota.

"... Acabou."

 

As interjeições repetidas de Asuka para me fazer saber que ela ainda estava ouvindo finalmente pararam. Eu hesitei em olhar para ela.

 

"Viu? É meio banal e monótono. Não há nenhuma grande história para ser encontrada aí."

Como não houve resposta, continuei.

 

"Naquele dia, eu pretendia alcançar a lua. Queria ser como uma bola de gude afundada dentro de uma garrafa de Ramune. Queria ser alguém que todos desejassem, algo tão valioso que ninguém pudesse tentar mudar."

 

A luz de neon ao longo da parede me iluminava no meu estado patético.

 

"Mas acho que posso ter estado errado sobre tudo desde o início. A bola de gude da garrafa de Ramune não é a lua no céu noturno. Ela está presa entre paredes duras, cercada, amedrontada. Tudo o que pode fazer é olhar para a lua de dentro de sua garrafa de vidro, seu brilho distante iluminando a escuridão. Ela não pode ir a lugar algum."

 

E eu nunca fui à lua. Eu era apenas uma bola de gude.

 

Esse é o tipo de história.

 

Eu tinha dito isso ao Kenta, em algum momento.

 

Estou confiante na minha filosofia, no meu modo de viver.

 

Quero ser como uma bola de gude afundada dentro de uma garrafa de Ramune.

 

Essas palavras não eram mentiras.

 

Eu gosto do meu jeito de viver. E acho que combina comigo.

 

Mas de vez em quando, em noites como esta, por exemplo, eu fico pensando.

 

O que eu estava tentando alcançar naquele dia? E onde estou agora?

 

Asuka suspirou, um pequeno sopro de ar.

 

"Finalmente entendi. Você era como um herói que saltou de um mangá shounen. Efervescente, inocente, apaixonado, direto e gentil. Agora entendo como você se tornou assim."

 

Olhei para ela, incapaz de compreender o significado.

 

Asuka sorriu para mim, com gentileza — não, felicidade.

 

"Não é verdade que sua vida não contenha uma boa história. Ela contém tantas delas."

 

A mão dela afastou suavemente meu cabelo, e sua mão estava mais fria do que eu sentia.

 

"Normalmente, as pessoas tentariam transformar o que você experimentou em uma história. 'Adivinha o que aconteceu comigo — sofri tanto, fiquei tão triste, doeu tanto.' Elas simplesmente usam isso como desculpas para serem fracas."

 

A voz dela era infinitamente suave.

 

"Quando não conseguiam dar o seu melhor, quando desistiam, quando a vida não saía como queriam, arrastavam essas histórias para se sentirem melhor. 'Isso aconteceu comigo, então não foi minha culpa.' Então elas usam esse selo de terem sido magoadas pelo mundo e começam a tentar machucar outros que acham que o mundo ainda não magoou. Para usar uma expressão, elas tentam equilibrar as coisas."

 

"Mas você sabe...", Asuka continuou.

 

"Você se recusou a fazer do seu passado uma história. Você o descartou como uma dor trivial, chata, idiota. E está tentando o seu melhor para superá-la do seu próprio jeito."

 

Senti algo dentro do meu peito bater.

 

"Você não teve um herói como você mesmo que viesse te salvar, então você protegeu seu próprio modo de viver e seu próprio senso de razão. Para que pudesse viver uma vida bela."

 

"...Você está fazendo parecer muito mais dramático do que é."

 

"Você fez questão de minimizar; é por isso."

 

Seu sorriso caloroso me envolveu, e eu mordi o lábio para impedi-lo de tremer.

 

"Quer dizer, eu..."

 

— E então não consegui parar o fluxo de palavras.

 

"Eu queria ser como um herói de mangá shounen quando era mais jovem. Honesto e verdadeiro, enfrentando todos os tipos de coisas, me esforçando. Valorizando meus amigos, e quando via alguém em apuros, estendendo a mão para eles, sem questionar. Eu queria ser alguém assim..."

 

Mas, mas, mas.

 

"Mas ninguém queria isso de mim!!!"

 

Apertei a mão de Asuka com força.

 

Ah, cara. O que estou fazendo?

 

Eu não deveria ter dito tudo isso.

 

Estava furioso comigo mesmo, com a fraqueza que tinha deixado escapar.

 

Não sou a lua — mesmo agora, que tenho o dever de iluminar o caminho para esta garota.

 

Então, com sua unha suavemente arredondada e bem cortada, ela cutucou minha testa.

 

"Mas isso é você por completo."

 

Não tinha ideia do que ela queria dizer com aquilo

.

"Tudo bem, você pode ter feito isso de uma forma complicada e tortuosa, mas estendeu a mão pro Kenta e pra Nanase sem pensar duas vezes, e fez tudo o que pôde para enfrentar os problemas deles de frente e chegar a uma solução. Você se importava com eles como amigos."

 

"Isso não..."

 

"Sabe, eu realmente preferia deixar assim, com base no que vi de você até agora, para não acabar decepcionada mais tarde. Mais do que isso, prefiro não machucar alguém com minhas boas intenções."

 

"..."

 

"Você sempre se pinta como o vilão, sempre escolhendo opções egoístas. Mesmo se quiser ajudar alguém e estender a mão sinceramente, acaba com eles se decepcionando com você. Então você pensa: 'Se só vou me machucar, então tanto faz, estou acostumado.’"

"..."

 

Mordi o lábio novamente. Não queria ser tentado a buscar refúgio na bondade dela.

 

"Mas você está errado. Não é tão nobre assim. Yuuko, Yua, Nanase, Haru, Kazuki, Kaito, Kenta, até você, Asuka — todos vocês disseram coisas do tipo que acham que sou alguém especial. Mas o verdadeiro Saku Chitose tenta desistir o tempo todo, só que não consegue. Ele é apenas um garoto idiota que está se debatendo e falhando."

 

"É a isso que chamamos..."

 

Asuka fez uma pausa, sorrindo calorosamente para mim.

 

"...nosso herói."

 

Eu não sabia como responder, então ela olhou para mim e continuou.

 

"Ninguém conseguiria manter o que você faz. Ninguém conseguiria continuar estendendo a mão para longe, apesar de acreditar que nunca poderia. Então, quando você vê pessoas assim, pensa que é normal e que as outras pessoas são distorcidas. Se não fizesse isso, não poderia enganar a si mesmo acreditando que não é desesperadamente apaixonado pelas coisas."

 

Asuka tocou minha bochecha suavemente.

 

"Talvez seja a lua cheia que você queira se tornar, Saku. Mas seja você uma meia-lua, ou uma lua crescente, ou uma bola de gude afundada dentro de uma garrafa de Ramune — você ainda é um tesouro precioso para alguém."

 

Apertei a mão dela e fechei os olhos com força. Se não fizesse isso, tinha a sensação de que algo dentro de mim poderia quebrar.

 

"Ei. Toque em mim?"

 

A voz de Asuka era um sussurro enquanto ela acariciava minha mão com cada um de seus dedos, por sua vez.

 

"Minha testa, minha bochecha, meus lábios, meu ombro, meu braço. Até minha barriga... É um pouco embaraçoso, mas até minhas coxas, minhas panturrilhas, meus joelhos, meus dedos do pé."

 

Enquanto falava, ela guiava minha mão para cada área.

 

Diretamente, ou através do tecido fino, eu podia sentir o calor do corpo dela, sua suavidade, sua lisura, através dos meus dedos, e era enlouquecedor.

 

"Estou bem aqui, sabe?"

 

Asuka capturou minha mão e apertou-a com força novamente.

 

Sua expressão era tão cheia de gentileza que me senti sujo por ter abrigado pensamentos impuros.

[TMAS: Duvido que ela esteja sendo inocente aqui.]

"Posso atestar que o seu brilho iluminou a vida de pelo menos uma pessoa."

Seu sorriso, flutuando na noite azul, trazia à mente a lua que eu estive tentando alcançar todo esse tempo.

Depois disso, deitamos na cama e conversamos sobre todo tipo de coisas.


Os livros de que gostávamos, mangá, filmes, música.


As lendas urbanas em que acreditávamos quando crianças, os lugares secretos pela cidade que só nós conhecíamos, os brinquedos que amávamos, o que iria acontecer daqui em diante.


Era quase como se acordássemos de algum tipo de sonho se parássemos de conversar.


Eventualmente, Asuka foi ficando sem assunto, e logo começou a ressonar contente enquanto dormia.


Esta noite única na vida tinha finalmente terminado.


Olhei para Asuka.


Ela era como uma criança pequena, dormindo exausta de tanto brincar. Sua boca estava um pouco aberta.


Se chegasse um dia, daqui a dez anos, em que eu olhasse para trás e me lembrasse desta noite, imaginava quão adulto eu seria então.


E quem estaria ao meu lado?


Fechei os olhos, pensando nisso.


Do outro lado do sono, um menino e uma menina estavam correndo pela rua no verão.

No dia seguinte, acordamos às sete, nos aprontamos e saímos do hotel.


A cidade estava silenciosa e pacífica, como se toda a agitação da noite anterior tivesse sido apenas uma alucinação.


Quase não havia pessoas por perto, apenas corvos bicando sacos de lixo.


No Matsuya, uma mulher aparentando ter vinte e poucos anos, que parecia ser do ramo noturno, servia tigelas de carne. Aqui e ali, viam-se bêbados caídos felizes da vida nos esgotos.


Na Estação de Tóquio, compramos café e sanduíches, junto com algumas lembrancinhas simples, e embarcamos no Shinkansen.


Não falamos muito durante as três horas de viagem de volta. Em vez disso, ouvimos música, compartilhamos um fone de ouvido cada, e contemplamos a paisagem que passava pela janela.


No meu ouvido, "Bye Bye, Thank You" do Bump of Chicken tocava em repetição.


Acho que nossa viagem realmente terminou ontem à noite.


Asuka tinha aquela expressão no rosto como se um demônio tivesse passado por ela, e tinha certeza de que eu estava com o mesmo tipo de expressão.


Fui capaz de ajudá-la de alguma forma, através desta breve fuga?


Andar pela cidade onde um dia ela talvez morasse, ter experiências raras, conversar sobre coisas que normalmente não podíamos conversar. Talvez tenha sido só isso. Ou talvez tenha sido uma experiência transformadora.


Meu papel tinha terminado.


Agora só restava Asuka escrever sua própria história, a única do tipo no mundo.


Os arranha-céus de Tóquio logo ficaram para trás, e quando o Shinkansen chegou a Maibara, a paisagem já tinha mudado há muito para intermináveis campos de arroz.


Descemos do Shirasagi em Fukui, e a primeira coisa que me impressionou foi como o ar cheirava bem.


Pode ser clichê, talvez, mas eu podia sentir o cheiro vibrante e fresco da vegetação ao redor.


Estávamos nos preparando para descer as escadas para o catraca quando Asuka perguntou: "Podemos ir de mão dadas?"


Considerando quem eu sabia que estava nos esperando lá embaixo, não achei que fosse uma boa ideia, mas não disse nada e silenciosamente estendi minha mão.


Então juntos, passo a passo, descemos as escadas.

Pá!


No momento em que passamos pela catraca, que era bem menor que a da Estação de Tóquio, um tapa atingiu a bochecha de Asuka.


"Ei, se vai bater em alguém, que seja em mim. Fui eu quem levei Asuka", disse eu.


O pai de Asuka respondeu, sem expressão.


"Não consigo pensar numa razão pela qual precisaria te bater. Asuka foi quem tomou a decisão por si mesma e agiu de acordo."


Pude ver Kura parado a pouca distância.


Quando me adiantei para responder algo…


"Está tudo bem."


...Asuka me parou.


Então, com um sorriso claro e puro, ela disse:


"Pai, me desculpe por te preocupar." Ela fez uma reverência baixa, educadamente. "O que quer que pretenda fazer, por favor, faça."


"Oh, vou fazer sim."


Então Asuka olhou para Kura, que se aproximou arrastando seus surrados chinelos de madeira.


"Me desculpe por te preocupar também, Kura."


"Eu só estava preocupado com uma coisa."


Ele me lançou um sorriso cheio de segundas intenções.


Seu velho tarado. Se você fizer uma piada sobre isso aqui, agora, está morto.


"Tenho um pedido a fazer a ambos", disse Asuka. "Depois de amanhã, depois da escola. Podemos ter outra reunião de pais e mestres?"


Certo. Ela se decidiu, pensei.


O pai de Asuka soltou um enorme suspiro e então olhou para Kura.


"Eu não me importo. Não estou fazendo nada emocionante depois da escola."


"Obrigada. Pai?"


"...Acho que já está na hora de você começar a estudar a sério pensando em se inscrever na faculdade de primeira escolha. Considere esta reunião final a última vez que vamos discutir isso."


"Tudo bem. Eu entendo." Asuka sorriu, um sorriso leve e claro, e então olhou para mim. "E você. Amanhã depois da escola. Você vai sair em mais um encontro comigo."


"“Hã?”"


O pai de Asuka e eu grunhimos de surpresa ao mesmo tempo, e então ele me fulminou com o olhar.


"Tudo bem, então está decidido!" Asuka trotou levemente para frente.


Seu pai a seguiu relutantemente, parecendo meio atônito.


Eu o chamei. "Sr. Nishino. Aqui."


E entreguei a ele o saco de papel contendo os bolinhos Tokyo Banana que tinha comprado.


"Achei que tinha dito que odiava isso."


"Por isso que comprei."


Eu sorri, e o Sr. Nishino aceitou o saco com uma expressão enojada, mas resignada. Então ele pareceu se lembrar de algo. Abriu sua carteira e tirou três notas de dez mil ienes.


"A passagem de Shinkansen da Asuka. Obrigado por cuidar da minha filha."


Então ele se virou e saiu, e não olhou para trás desta vez.


Kura bateu a mão no meu ombro.


"Vocês dois estragaram meu fim de semana. Me devem um yakiniku."


"Não posso simplesmente te pagar um Hachiban?"


E com isso, nossa breve fuga terminou de verdade.

Depois de um sono profundo e sem sonhos, chegou a segunda-feira pós-escola.


Ainda tinha algum tempo até o encontro marcado com Asuka, então estava conversando com os membros do time Chitose antes de todos saírem para as atividades dos clubes.
Parecia um retorno ao mundo real. Este fim de semana tinha sido intenso, mentalmente, e finalmente me dei conta disso.


Então…


"Ei, amigo! Hora do nosso encontro."


Uma figura inesperada veio saltitando.


"Ah! Pensei que íamos nos encontrar no portão da escola."


Percebi o que tinha acabado de dizer, mas era tarde demais para retirar agora.


"Humf!"


"Sério?"


"Interessante."


"Hã!"


Essas foram Yuuko, Yua, Nanase e Haru falando, por sinal. Agora tinha confirmado que realmente tínhamos um encontro marcado, e não era só Asuka brincando.


Sorrindo com diversão, Asuka se juntou ao nosso círculo.


Pela expressão em seu rosto, pude ver que ela não tinha sofrido uma longa noite de brigas com o pai depois de chegar em casa, o que foi um certo alívio.


"Quer dizer, pensando bem, estudamos na mesma escola, então por que nos encontrar bem no limite do terreno? Além disso, há algo emocionante em ir a uma sala de aula de uma das séries iniciais para encontrar meu par!"


"Asuka, sua cabeça ou suas costas estão doendo? Tem muitas facas sendo lançadas em sua direção agora."


"Ah, acho que na verdade estão lançando em você."


"Sinto um certo formigamento."


Então Kaito entrou na conversa. "Você é algo mesmo, hein, Saku?! Nishino, tem certeza de que não consideraria namorar comigo?"


"Hmm, acho que não."


"Nãããooo!!!"


Asuka cutucou a própria bochecha brincando, enquanto Kenta dava tapinhas nas costas de Kaito de forma tranquilizadora.


Vendo isso, Kazuki disse: "Droga você, negligenciando nossas próprias princesas." Ele deu um sorriso cheio de segundas intenções para as quatro garotas.


"Grrr!"


Foi Yuuko quem finalmente reagiu. "Escuta aqui, Nishino. Saku e eu somos 'o casal final’, e Ucchi é a amante, entendeu? Contanto que esteja claro—não vejo problema aqui."

[TMAS: Yuuko já até aceitou amante.]


"Yuuko, por favor, não me arraste pra isso…" Yua sorriu com constrangimento.


Asuka percebeu a reação dela e pareceu pensar profundamente, murmurando, "Hmm… Então, posso ser a amiga de infância que virou noiva?"


"Para quê?" respondi com sarcasmo, sem realmente pensar.


Sério, que coisa para sugerir.


Nanase colocou ambas as mãos no ar como quem diz "Puxa". "Tudo bem, mas vocês nos devem uma, ok?"


Asuka sorriu marota.


"Quem você acha que tem que agradecer por ajudar esse cara aqui a saber como te ajudar, Nanase?"


Ela provavelmente estava se referindo mais à maneira como me ajudou a me reerguer depois que parei com o beisebol do que ao conselho que deu sobre o problema da Nanase.
Era incomum Asuka mencionar isso, mas talvez significasse que ela agora achava que tudo bem falar sobre.


"...Então vamos considerar isso quite?"


"Claro, podemos esquecer o troco."


O canto da boca de Nanase começou a tremer de irritação, o que realmente me divertiu.
Finalmente, Haru falou. "Honestamente, o que uma garota linda e descolada como você, Nishino, vê nesse mulherengo?"


"A resposta para isso…" Asuka fez uma pausa na porta, virando-se. "...Bem, acho que você já sabe, não sabe, Aomi?"


Eu me esquivei para fora do círculo, incapaz de suportar ficar por perto por mais tempo.

Depois disso, Asuka e eu pegamos um trem na Estação de Fukui.


Estávamos andando na linha local, mas ninguém nunca tinha motivo para usá-la, exceto os estudantes que moravam na direção oposta.


Todos os lugares onde estudantes do ensino médio saíam podiam ser alcançados de bicicleta, e se precisasse ir mais longe, por exemplo para um jogo-treino ou algo assim, podia pegar o ônibus ou uma carona no carro do pai.


Perguntei a ela porque estávamos pegando aquele trem, mas Asuka ficou se esquivando da pergunta.


Bem, eu descobriria quando chegássemos.


Foi o que disse a mim mesmo, e então, depois de cerca de vinte minutos, Asuka disse: "É aqui."


Desci na plataforma, sem realmente pensar muito, mas então…


Hã?


Minha mente parou.


Este lugar era familiar para mim. Estava cheio de memórias.


Uma coincidência? Seria possível?


Virei-me para Asuka.


Seus olhos estavam semicerrados, como se estivesse pensando no passado, e…


"Ei. Posso parar de ser a mais velha por um tempo?"


Ela disse.


Não consegui responder. Ela juntou as mãos, inclinou a cabeça para o lado e me fitou.


Então ela abriu um grande sorriso, como uma criança que não consegue suprimir sua felicidade.


"Quanto tempo, Saku."


"V-você é…"


Uma tênue ilusão, um menino e uma menina, se aproximando.

 

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