volume 3

Capítulo 2: Ilusões, Derrubadas

No domingo, após meu primeiro encontro com Asuka, fui ao Lpa, o shopping que todos amavam, com Kaito, Yuuko e Haru. Era um elenco de personagens bastante incomum.

 

Haru só tinha treino de clube pela manhã e já tinha terminado, e foi ela quem iniciou esse encontro em grupo quando disse que queria tentar acertar algumas bolas desta vez. Sugeri uma ida ao centro de rebatidas ou algo assim, mas Yuuko de alguma forma descobriu os planos e pulou: "Eu também quero um encontro com o Saku!" E então Kaito, que estava nas proximidades, também embarcou.

 

Então por que todos fomos ao Lpa? Bem, Yuuko disse que queria fazer umas comprinhas. Haru não parecia tão interessada, mas também não disse não.

 

Quando Yuuko apareceu no ponto de encontro, ela usava uma jaqueta xadrez de aparência cara com um par de shorts combinando. Hoje, seu cabelo longo estava preso em uma trança que fluía sobre a frente do ombro.

 

Haru usava um moletom largo da Champions. Era em um tom vibrante de azul aqua com uma bainha que cobria apenas metade de suas coxas. Suas pernas de aparência saudável se estendiam sob a bainha. Quando perguntei a ela, sem pensar, "Você tem certeza de que pode se mover assim?" ela mostrou a língua e respondeu: "Duh, estou usando shorts curtos por baixo, é claro."

 

Certamente não esperava uma visão dessas quando apareci.

 

Então nos refrescamos dentro do Lpa, e agora estávamos acompanhando Yuuko enquanto ela olhava roupas. Bem, nós dois rapazes estávamos ficando para trás sem realmente ter nada para fazer.

 

Yuuko pegou um vestido com estampa floral e olhou em volta. "Haru, você sempre usa roupas tão casuais?"

 

"É. Gosto de coisas que são fáceis de se mover."

 

"O quê? Você deveria realmente tentar usar algo assim! Juro que ficaria tão bem em você!"

 

"Essas são roupas para garotas femininas como você, Yuuko. Embora eu ache que Yuzuki também ficaria perfeita nelas."

 

"Não, isso não é verdade! Vou provar! Sei que você tem seu estilo, então não estou dizendo que você tem que usar isso todo dia, mas você deveria ter pelo menos um conjunto assim para dias especiais!"

 

"Dias especiais?"

 

"Como quando você tem um encontro com um cara que você gosta."

 

"Não, não, não, não. Yuuko, o que exatamente você pensa de mim?"

 

"Acho que você é uma garota fofa, por quê?"

 

"Não aja tão inexpressiva sobre isso!"

 

Pensando melhor, essas duas eram uma dupla meio incomum de se ver juntas.

 

Acho que essa pode ser a primeira vez que vejo as duas terem uma conversa.

 

Yuuko se virou lentamente para mim. "Ei. Saku, Kaito, o que vocês dois acham?"

 

Kaito colocou a mão atrás da cabeça, dedos entrelaçados, enquanto respondia. "Hmm, sei não. É da Haru de quem estamos falando."

 

"O que você acabou de dizer, hã?!!" Haru pulou na ofensiva, mas parecia meio aliviada ao fazê-lo.

 

Eu a observei, os cantos da minha boca se curvando para cima.

 

Quero dizer, mesmo que você saiba algo sobre si mesma, ter outra pessoa apontando isso pode realmente te irritar. Haru disse isso, uma vez.

 

Haru se virou para mim, talvez interpretando mal meu sorriso.

 

"Sim, sim, tenho certeza de que o queridinho aqui tem a mesma opinião. Desculpe por não ser mais sexy."

 

"Não é isso..." Tossi um pouco antes de continuar. "Para ser honesto, acho que adoraria ver isso. Você, em roupas femininas."

 

"...O quê?"

 

Haru ficou vermelha e deu alguns passos cambaleantes para trás. Talvez tivesse sido melhor agir desinteressado na ideia.

 

"Escuta, você. Que tipo de vídeos adultos estranhos você tem assistido online? Você pegou alguns fetiches estranhos, ou o quê?"

 

"Ok. Você gostaria que eu cobrisse isso com mais algumas camadas de açúcar, Milady?"

 

Na verdade, eu estava falando do coração. Não estava tentando poupar seus sentimentos nem nada.

 

Para começar, Haru era o tipo de garota que, baseado estritamente na aparência, era perfeitamente adequada para fazer parte do Time Chitose. Ela tinha essa personalidade casual que a levava a ser tratada mais como um cara, só isso, mas não era como se estivesse sendo propositalmente autodepreciativa.

 

Ainda assim, se eu ficasse dizendo coisas assim, envergonharia a nós dois, então geralmente me continha. Então por que fui em frente e falei demais hoje, hein?

 

Falei novamente, casualmente, tentando reprimir sentimentos que eram demais para eu lidar.

 

"Então, Yuuko, por favor... Faça-a ficar linda!"

 

"Pode deixar!"

 

"E-ei! Espera aí!!!"

 

Haru tentou fugir, mas Yuuko a agarrou e a arrastou mais para dentro da loja.

 

[Moon: Receber um banho de Loja, mas ela não está a venda (referências akkak).]

"Sim, sim, atenção, por favor! Olha isso!"

 

As duas haviam entrado juntas no grande provador, mas foi Yuuko quem abriu um pouco a cortina e saiu. Aparentemente, ela também queria exibir uma roupa nova.

 

Ela fez uma pose de modelo.

 

Ao meu lado, Kaito fez: "Uau!"

 

Não eram exatamente shortinhos, mas ela estava usando um par de shorts jeans rasgados que mal cobriam as áreas importantes. E ela usava um moletom cinza largo por cima como o que Haru usava, mas este estava enfiado para dentro. Ela também estava usando um boné de beisebol azul-marinho puxado para baixo e óculos de sol redondos com lentes roxas profundas.

 

Era um estilo incomumente masculino para Yuuko, e o contraste era bastante atraente. Mas não era só isso. Suas coxas curvas e busto amplo contrastavam com a curva distinta de sua cintura, fazendo-a parecer uma estrela de cinema de Hollywood em seu dia de folga. Mesmo na roupa masculina, você podia ver sua forma feminina. Era sexy. Muito, muito sexy.

 

"O que você acha? Hein?" Yuuko balançou o bumbum como um cachorrinho animado.

 

Kaito jogou as mãos para o alto e gritou, sem perder o ritmo. "Uau! Incrível! Tão sexy! Tão fofa! Case comigo!!!"

 

"Heh-heh! Algo assim não é tão ruim de vez em quando, né?"

 

Ainda falando, ela se virou para conferir minha reação.

 

Dei a ela um joinha, e ela deixou seu rosto cair num sorriso bobo.

 

"Mas sabe, isso nem é o prato principal de hoje. Você vai ficar tão chocado! Haru, você está pronta?" Yuuko se virou e chamou de volta para o provador.

 

"Não!!!"

 

"Ótimo, contagem regressiva, então. Cinco, quatro..."

 

"Por que você perguntou então?!"

 

"Três, dois, um," contou Yuuko, antes de agarrar a cortina. "Zero!"

 

Ela puxou a cortina aberta com floreio.

 

...Nng. Engoli reflexivamente.

 

Haru usava um vestido azul semitransparente. Era bordado com flores minúsculas num esquema de cores complementar, e por alguma razão me fez pensar no verão que se aproximava. Seus ombros nus espiavam das alças ombro a ombro, as partes não transparentes do tecido abraçavam seu busto, e suas pernas nuas podiam ser vistas abaixo da parte da minissaia. A impressão geral era supremamente feminina.

 

Seu cabelo também tinha sido arrumado, no mesmo estilo trançado de Yuuko, só que o dela estava reunido num pequeno coque na nuca. Havia um lenço amarelo suave amarrado em volta de sua cabeça. Acho que ela também estava usando batom, num tom laranja.

 

Haru estava lá de braços cruzados e cabeça baixa, parecendo desconfortável.

 

"Não olhem tanto. É... constrangedor."

 

Kaito respondeu com descuido alegre. "Yuuko, você tem um toque mágico! É como se ela nem fosse mais a Haru. Ela é uma garota! Uma garota de verdade!"

 

[Moon: Não não, é um Dinossauro! Poxa Kaito… Namoral?]

Enfiei meu cotovelo nas costelas de Kaito, e Yuuko lhe deu um golpe de caratê no topo da cabeça.

 

"Por que fizeram isso?"

 

Haru me olhou apenas uma vez, antes de sorrir e responder a Kaito. "Hmm, sabe, eu realmente acho que roupas masculinas nas quais você pode se mover livremente funcionam bem para mim. Para ser honesta, até eu acho que pareço um pouco estranha."

 

"...Haru." Eu tinha que falar. "Você está realmente linda."

 

"Hã?! Como ousa ficar aí e zombar de mim?!"

 

Baseado em sua expressão, acho que consegui passar a mensagem. Haru estava vermelho-brilhante, enquanto apertava os lábios e virava as costas.

 

Yuuko sorriu suavemente, dando um tapinha nas minhas costas. São coisas assim que fazem Yuuko ser igualmente popular com meninos e meninas, pensei.

 

Continuei. "Não, esse visual realmente combina com você. Eu gosto muito do seu visual habitual, claro, mas às vezes é legal colocar um vestido assim, não é?"

 

Haru respondeu, ainda de costas para mim. "P-para... Estou falando sério... Chega disso."

 

Ao meu lado, Yuuko assumiu o comando.

 

"Você deveria comprar! Podemos ir escolher um batom novo juntas depois também!"

 

"Ugh..."

 

"Você não vai comprar?"

 

Haru se virou lentamente, deu uma espiada em mim, e imediatamente desviou o olhar. "...Vou comprar."

 

"Tem que comprar!"

 

Fiz contato visual com Yuuko, e nós dois sorrimos.

 

Kaito, que ainda estava tentando processar o que estava acontecendo, quase se viu completamente deixado para trás.

"Hyaagh!" SMACK. "Gyaah!" CLUNK. "Dane-se!" WHACK.

 

"Não desconte na bola, Haru."

 

Depois de terminarmos de fazer compras no Lpa, fomos para um centro de rebatidas localizado a cerca de dez minutos de bicicleta.

 

Yuuko tinha sido deixada no shopping pelos pais de carro, então ela andou em dupla na bicicleta de Kaito. No estilo dela, ela ficou de pé no cubo da roda e martelou nas costas de Kaito, gritando, "Anda logo, lentinho!" Kaito continuava dizendo "Para com isso!" mas estava sorrindo e obviamente querendo que as pessoas o vissem, o que realmente me embrulhou o estômago. Me dá um tempo, cara.

 

Dei às garotas uma lição simples sobre os básicos do rebatimento.

 

Incapaz de esperar, Haru já havia subido para rebater. Ela rapidamente pegou o jeito, e logo estava conseguindo acertar bolas de setenta km/h.

 

A propósito, ela tinha sua roupa nova numa sacola de compras e havia voltado para seus shorts e moletom iniciais para facilitar o movimento. Seu cabelo estava de volta ao rabo de cavalo curto habitual. Ah, e ela havia limpado o batom no banheiro também.

 

"Ah, me sinto muito melhor. O centro de rebatidas é incrível, Chitose."

 

"Tch, sua maníaca dos esportes. Você arruinou meu plano de me exibir sendo legal. Você deveria ter errado todas as rebatidas."

 

"Você queria se exibir na frente da Haru, é?♡"

 

"Em retribuição por você me mostrar algo bom, ok?"

 

"Mais alguma gracinha fofa e vou balançar este taco em você agora.♡"

 

"Esqueci de te ensinar uma coisa muito importante... Você nunca balança o taco num ser humano, ok?"

[TMAS: Tem que balançar o taco do cara, não o taco no cara | Moon: QUE ISSO, AI NÃO… O VAR!!!]

 

Enquanto estávamos brincando, Yuuko e Kaito voltaram trazendo bebidas da máquina de venda automática para todos nós. Kaito jogou duas garrafas de Pocari Sweat para nós, e Haru e eu pegamos ambas com uma mão.

 

"Saku, você não vai rebater?"

 

"Estou me fazendo de técnico hoje. Yuuko, você quer acertar algumas?"

 

"Sim!"

 

Yuuko respondeu animadamente e pulou para a cabine do rebatedor. Sua roupa sofisticada não combinava com seu capacete de segurança vermelho-brilhante, o que parecia meio adorável. Segurando o taco de criança da escola primária pela cintura, ela quase parecia estar posando para uma foto de revista de moda.

 

A legenda seria algo como: "Num encontro com meu namorado, que está no clube de beisebol! Usando uma roupa sofisticada para um contraste fofo!♡"

 

A propósito, Haru estava balançando um taco de tamanho adulto que era emprestado de graça.

 

WHIRR. CLANK.

 

A alavanca da máquina de rebatida girou, cuspindo um monte de bolas.

 

"Hyup!"

 

Com um grunhido vigoroso, Yuuko balançou o taco e acertou apenas o ar, o que a fez girar até cair de bunda no chão. Seu capacete, que parecia um pouco grande demais para ela, caiu sobre seus olhos. Ela riu comicamente, coçando a bochecha.

 

A visão era tão adorável que não pude parar de rir.

 

"Agora escuta aqui, Haru. Para ser uma garota adequada..."

 

"Não diga. Estava pensando exatamente a mesma coisa."

 

Ao meu lado, Haru franziu a cara numa grande carranca.

 

Me virei para Yuuko.

 

"Segure seu taco um pouco mais alto e balança de cima do ombro. Você precisa acertá-lo mais como uma bola de tênis e girar todo o seu corpo."

 

"Entendido!"

 

A comparação com tênis pareceu ter ajudado Yuuko a entender um pouco melhor as coisas, e ela fez uma melhora vasta.

 

WHIRR. CLANK.

 

SMACK.

 

Uma falta ricocheteou do taco e voou para trás dela.

 

N/T: Quando o rebatedor rebate errado e a bola não vai meio pra frente (como você vê nos filmes ou séries) é considerado falta e conta nos três strikes para sair

 

"Acertei! Acertei!"

 

"Ótimo! Maravilhoso. Você foi só um toque rápido demais no taco. Tente acertar um pouco mais alto?"

 

"Sim, senhor!"

 

WHIRR. CLANK.

 

CLONK.

 

Desta vez, ela acertou a bola lindamente e a enviou voando alto sobre a cabeça da máquina.

 

"Consegui! Viu, Saku?"

 

"Perfeito."

 

"Hee-hee, o poder do amor."

 

Assisti Yuuko, que estava me dando um sorriso brilhante e um sinal de paz, e então me virei para Haru ao meu lado novamente.

 

"Agora escuta aqui, Haru..."

 

"Agh! Cala a boca, cala a boca!"

 

Irritada e fazendo beicinho, Haru saiu pisando forte para a cabine de oitenta km/h desta vez, que era mais rápida que a anterior.

 

...Mas eu só tava apontando o óbvio?

 

Depois de curtir um jogo de arremesso juntos no centro de rebatidas, todos fomos para a loja de ramen Hachiban nas proximidades para comer um jantar um pouco cedo. É o quanto nós fukuianos amamos Hachiban; nunca comemos em outro lugar.

 

Pedi meu macarrão picante habitual com macarrão extra e cebolinha verde e uma porção dupla de gyoza Hachiban. Yuuko pediu ramen de legumes com sabor de sal e manteiga, e Haru pediu ramen de legumes em caldo de porco e uma porção de arroz frito. Kaito pediu o conjunto C, ramen chashu de legumes em caldo de porco com bastante chashu e um acompanhamento de frango frito.

 

Originalmente eu estava planejando pedir apenas uma porção de tamanho normal de gyoza, mas depois de ouvir os pedidos de Haru e Kaito, mudei. Sabia que ambos estariam atrás de alguns dos meus.

 

Uma vez que todos os nossos pedidos foram entregues, conversamos sobre isso e aquilo enquanto comíamos. E como eu esperava, Haru e Kaito roubaram três dos meus gyoza cada um.

 

"Então, a propósito," Haru comentou. "Você está a fim da Nishino, ou o quê?"

 

""O quêêê?!""

 

SPLORT.

 

"Gack, cack, agh."

 

Eu não estava esperando uma pergunta assim de uma pessoa como Haru, e acabei cuspindo a golfada de água que estava bebendo por toda a mesa.

 

"Eca, nojento! Olha, limpa isso, tá?" Haru enfiou uma toalha molhada no meu rosto e começou a esfregar.

 

"Você pode parar com isso? Está agindo como se estivesse esfregando sujeira com um pano de prato molhado."

 

"Então, qual é?"

 

"Você está um pouco persistente demais."

 

Agora que tinha chegado a esse ponto, os outros dois dificilmente poderiam ficar em silêncio.

 

"O que é isso tudo? Não ouvi nada sobre isso." Yuuko se inclinou para frente no assento ao lado de Haru.

 

Kaito, que estava sentado ao meu lado, olhou para Yuuko e então estreitou os olhos e aproximou seu rosto do meu.

 

"Você. Está falando sério sobre isso, Saku?"

 

"Vocês que estão agindo todos sérios aqui. Se acalmem. Eu nem disse nada ainda."

 

Dei mais um gole de água e então falei com Haru, uma vez que recuperei minha compostura.

 

"Por que você está trazendo algo assim de repente?"

 

Haru mergulhou um dos gyoza que ela havia roubado de mim no molho enquanto respondia. "É só um palpite. Só me pareceu estranho que houvesse essa garota mais velha e bonita que você aparentemente conhece bem na nossa frente, e você conseguiu se abster de fazer uma única piada terrível o tempo todo."

 

"Você não precisa dizer que são terríveis, sabe."

 

"Além disso, te vi várias vezes desde o ano passado. Depois da aula, perto da margem do rio, conversando todo amigável. Nunca vejo você fazer uma cara assim em nenhum outro momento."

 

Ah, é só isso? Hmm, bem, não é como se estivéssemos nos encontrando em segredo ou algo assim. Não era tão estranho termos sido vistos.

 

Yuuko, que estava inclinada para frente, deixou seus ombros caírem.

 

Kaito virou a cabeça para me olhar. "Escuta. Saku."

 

"...Você fica quieto. Você só vai complicar ainda mais as coisas."

 

Ainda assim, talvez fosse hora. Eu havia causado preocupação suficiente para esses caras.

 

"Ano passado, a conheci por completa coincidência depois de sair do clube de beisebol. Vocês todos têm tentado poupar meus sentimentos não me perguntando sobre o motivo de eu ter saído, certo?"

 

Yuuko finalmente olhou para cima quando ouviu isso. Kaito viu isso e pareceu um pouco aliviado, e foi talvez por isso que ele se endireitou e respondeu.

 

"É, porque você estava irradiando essa aura de 'Não me pergunte sobre isso'."

 

"Você está absolutamente certo. Eu só não queria que vocês vissem meu lado fraco, acho. Mesmo sem eu dizer nada, você parecia que ia ter um colapso todo dia que te via, Yuuko."

 

Pensar nisso me fez rir, mas Yuuko fez beicinho.

 

"Quer dizer...! Você não era você mesmo naquela época, Saku. E você não nos contaria nada. Eu não tinha ideia de como deveria te abordar..."

 

"Eu sei, eu sei. Agradeço sua gentileza. E, além disso, acho que se vocês tivessem perguntado, eu teria apenas me isolado. Para mim, vocês eram a parte reconfortante da minha vida cotidiana. Mas havia uma parte de mim que só queria gritar que 'o rei tem orelhas de burro', sabe?"

N/T: Referência a uma história de um rei Coreano que não achei equivalente em português para a expressão, então mantive a do tradutor automático que é uma tradução bem literal.

 

Embaixo da mesa, Haru chutou com o dedo do pé contra meus Stan Smiths. "Então você está dizendo que Nishino foi com quem você pôde se abrir?"

 

"A coisa sobre ela é que ela representa as partes não-cotidianas da minha vida. Parte disso é que ela é mais velha que nós, talvez. Com ela, posso ser uma criança novamente, pelo menos um pouco."

 

Em outras palavras, ela me mima.

[Moon: Minha colega de outra turma me mima demais…]

 

Posso falar com ela sobre qualquer coisa, e ela ouve cuidadosamente tudo, pensa sobre isso e oferece suas próprias conclusões.

 

Haru murmurou para si mesma, olhando pela janela com uma expressão meio triste. "Ah, entendo."

 

Ao lado dela, Yuuko parecia conflituosa. "Meio que não gosto, mas acho que é graças à Nishino que você conseguiu se animar, certo, Saku? Eu deveria ser grata a ela, acho."

 

Todos pareciam satisfeitos com isso, e consegui retomar a sopa do meu macarrão picante.

A mãe de Yuuko estava buscando ela de carro numa loja de conveniência próxima, então todos nos separamos do lado de fora do Hachiban.

 

Haru estava indo para casa na direção oposta, então nos despedimos dela, e então Kaito e eu seguimos, empurrando nossas bicicletas lado a lado.

 

Após um período de silêncio, Kaito falou primeiro. "Desculpa, Saku. Fiquei um pouco esquentado ali."

 

"Você está sempre se esquentando com uma coisa ou outra."

 

"Ai, cara!"

 

"Escuta, Kaito..." Fiz uma pausa para dar ênfase. "É melhor para mim fingir que não sei de nada, até que você traga isso à tona, certo?"

 

Houve uma pausa enquanto Kaito processava o que eu quis dizer, e então ele olhou para o céu distante tingido de vermelho e falou entre os dentes.

 

"Você não sabe, Saku? Você não pode começar a corrida até que alguém diga 'Preparar, apontar, vai' e dispare a pistola."

 

"Se você não está na linha de partida, não pode começar a correr mesmo que o sinal venha."

 

"Você não é o único que tem o direito de correr esta corrida direto desde o início, sabe."


"Você é bom em ficar irritado, certo?"

 

 

"Caras irritadinhos não são populares hoje em dia."

 

Estávamos nos aproximando de nossos caminhos separados agora. Só um pouco mais adiante, e ambos estaríamos dizendo "Até mais" e indo em direções opostas.

 

Limpei a garganta. Queria deixar as coisas claras. "Bancar o cara bom o tempo todo vai fazer de você alguém que apenas vai com a maré."

 

"Se alguém acha que pode me tratar desse jeito... então vou dar um soco nele até a semana que vem."

 

"Uh-huh. Escolhi as palavras erradas antes."

 

"Entendo que você escolheu essas palavras por mim, não por mais ninguém."

 

"Escuta, Kaito. Você realmente me ama, não é?"

 

"Eu amo todos vocês."

 

"Eca, nojento."

 

"Hã?"

 

Então nós dois rimos como se fôssemos arrebentar a barriga.

 

"Até mais, Saku."

 

"Até mais, Kaito."

 

Viramos as costas um para o outro na junção em T e nunca nos viramos.

 

O caminho de onde viemos. Meu caminho. O caminho de Kaito. Eles se encontrariam novamente? Colidiriam novamente? Decidi não pensar mais sobre isso.

 

Na segunda-feira de manhã depois da aula, eu não tinha nada em particular planejado, então subi para o telhado.

 

Eu não tinha muito o que fazer lá em cima também, mas tinha a sensação de que se eu me deitasse de costas olhando para o céu azul, o tipo de céu que flutua inchadamente sobre o oceano, então talvez a poeira na minha alma fosse lavada um pouco. Ou algo assim.

 

Estava deixando meus pensamentos vagarem enquanto girava a maçaneta e descobri que não estava trancada. Evidentemente, alguém mais já estava aqui em cima.

 

Talvez Kura — ou até Asuka.

 

Abri a porta cheio de expectativa e descobri que a resposta eram ambos.

 

Kura estava em cima da caixa de ventilação do telhado fumando um cigarro, e ao lado dele, Asuka estava sentada balançando as pernas ociosamente. Eu sabia que ele tinha sido professor titular dela no primeiro ano, mas esta era minha primeira vez vendo os dois conversando assim.

 

Asuka me notou e acenou, um pouco constrangida.

 

Kura era seu Kura habitual, descontraído.

 

"E aí, Zelador do Telhado de Segunda Geração?"

 

"Interrompi algo importante? Porque se sim, posso ir."

 

"Não, já estávamos praticamente terminando. Sobe aí."

 

Fiz o que ele pediu e subi, sentando ao lado de Asuka.

 

Kura apagou seu cigarro no cinzeiro.

 

Então ele puxou um maço amassado de Lucky Strikes do bolso imediatamente e acendeu outro. Depois disso, começou a murmurar como se não fosse grande coisa.

 

"Temos a reunião de pais e mestres amanhã, é claro, mas parece que Fukui é negócio fechado, hein?"

 

Por um momento, não pude dar sentido à sua frase.

 

Enquanto eu ainda estava perdido, Asuka respondeu. "Ei! Kura!"

 

"Ele vai descobrir mais cedo ou mais tarde," Kura disse. "Ou é o tipo de escolha que você não quer que seu pequeno colega de classe que olha tanto para você ouça?"

 

"...Não é isso."

 

O vai e vem deles fez algo se encaixar. Asuka havia escolhido Fukui em vez de Tóquio para seu futuro, certo?

 

Kura continuou. "Ela vai ser professora de japonês. Não é uma má escolha se você vai viver sua vida em Fukui."

 

"Hmm, um baita conselho de um professor de japonês que não é nada além de uma coleção de más escolhas em forma humana," eu disse, mantendo leve por enquanto.

 

Por que Kura estava falando sobre isso? Por que Asuka estava tão silenciosa? Como eles esperavam que eu reagisse a isso? Não tinha ideia.

 

"Chitose, o que você ouviu?"

 

Dei uma espiadinha em Asuka, que estava olhando para baixo. Seu cabelo estava caído sobre o rosto, tornando impossível ler sua expressão.

 

Lembrando daquela conversa que tivemos sobre sonhos, me perguntei o que diabos estava acontecendo.

 

Está permitido para mim falar livremente sobre a vida de Asuka?

 

Normalmente, você pensaria que não. Era para Asuka escolher se discutir isso com Kura, embora, e talvez os sentimentos que ela havia gentilmente me entregue devessem ficar entre nós.

 

E ainda assim...

 

Se esse fosse o caso, então por que Asuka não havia tentado impedir que essa pergunta fosse levantada? Ela não era o tipo de encolher diante de um professor, muito menos Kura, com quem ela tinha uma associação tão longa.

 

E por que Kura estava me fazendo essa pergunta despretensiosamente? Ele era um velho louco, com certeza, mas ele absolutamente não era o tipo de cara que desconsideraria os sentimentos de seus alunos.

 

Minha melhor suposição era que Asuka e Kura estavam em algum tipo de impasse, com nenhum dos dois capaz de dar o próximo passo adiante.

 

Nesse caso, o que eles queriam que eu dissesse era: "Você quer ir para Tóquio, certo? Para se tornar uma editora de romances."

 

...Certo?

 

Os ombros de Asuka se contraíram, e Kura exalou, um suspiro misturado com fumaça arroxeada.

 

"Eu pensei que sim."

 

Kura apagou seu cigarro e se levantou, deslizando os pés nas sandálias de palha dos lugares aleatórios onde as havia deixado.

 

"Escuta aqui, Nishino. Eu não me intrometo quando meus alunos decidiram algo por si mesmos. Por si mesmos, entende? Lembra o que eu disse quando te dei a chave deste lugar? Estou te dando porque você é mais livre que qualquer outra pessoa, mas também mais restrita. Você deveria pensar sobre o que quis dizer com isso mais uma vez."

 

Asuka assentiu, e Kura me lançou um breve, mas carregado olhar antes de passear pelas escadas com um ar totalmente despreocupado.

 

Mais livre que qualquer um mas também mais restrita.

 

Poderia eu alcançar a verdade por trás dessa contradição?

 

Agora, tudo que eu podia fazer era colocar uma mão de apoio nas costas de Asuka enquanto o vento solitário soprava.

 

Asuka e eu estávamos sentados lado a lado na nossa margem habitual do rio, perto da mesma velha comporta.

 

Estávamos ouvindo música, os nossos clássicos favoritos, um fone de ouvido cada.

 

Tinha a sensação de que fazia um tempo desde que tínhamos passado tempo juntos aqui assim. Eu havia dito a Kaito e aos outros que Asuka representava as partes não-cotidianas da minha vida, mas em algum momento ela havia se misturado às partes regulares. Por um momento, esqueci a posição em que estava e refleti sobre essa percepção.

 

Era tão estranho mas também meio adorável. Não consegui me impedir de sorrir.

 

Asuka tirou seu fone de ouvido e me olhou, uma expressão intrigada no rosto.

 

"Por que você teve que dizer isso? Na frente do Kura, quero dizer."

 

"Você estava me implorando para dizer. Tanto você quanto Kura."

 

"Atrevido. Mas..." Ela arrancou meu fone de ouvido também. "...Mas estou feliz que você estava lá."

 

Fingi não notar o elemento de fraqueza em sua voz enquanto respondia.

 

"Então por que você estava falando com Kura?"

 

"Ele assumiu o papel de conselheiro de orientação para os alunos do terceiro ano assim como seu professor titular."

 

"Ele não é um cara tão ruim, apesar de... tudo. Quando olho para Kura, fico pensando que não importa qual caminho eu eventualmente escolha, posso fazer algo divertido com ele."

 

Asuka abriu um sorriso largo.

 

Senti como se estivesse assistindo a uma performance. E uma péssima ainda.

 

"É. Sinto como se estivesse aqui lutando para escolher faculdades..."

 

"Sim, mas —"

 

Não deixei ela continuar. "Mas Kura está sendo assim porque ele está realmente seguindo o caminho que escolheu para si mesmo, certo? Acho que o cara realmente gosta de ensinar, e está dando tudo de si."

 

"...É."

 

"Tem algo sobre o que você gostaria de falar comigo?"

 

"...É. Já que acho que você já perguntou." Asuka esticou os braços bem para cima. "Para dizer claramente, meus pais — principalmente meu pai — são contra."

 

"Contra você ir para a faculdade em Tóquio?"

 

"É. Lembra o que te contei? Minha casa é, na verdade, bem rígida. Eles não gostam da ideia de uma garota morando sozinha, ou planejando se tornar uma editora, ou deixar Fukui para começar."

 

Quando ela disse isso, percebi que você ouve esse tipo de coisa muito.

 

É por isso que é uma questão tão difícil.

 

No final, todos ainda somos crianças, e é impossível para nós simplesmente ignorarmos as opiniões dos nossos pais quando tomamos decisões.

 

"O que é que você quer, Asuka?"

 

"Acho que você sabe, certo?"

 

Sabia. Ninguém pode se opor aos seus planos até que você os expresse em voz alta. Asuka continuou, apenas jogando para fora.

 

"Não há nada a fazer sobre isso. Devo a eles por me criarem, e, além disso, eles são realmente teimosos. Se discutir sobre isso não vai me levar a lugar nenhum, acho que deveria apenas aceitar e começar a ajustar minha atitude. E ei, se eu ficar em Fukui, então você e eu podemos sair em mais encontros a qualquer hora."

 

Suspirei. Ela estava se esforçando para ser alegre.

 

"Eu não seria pego morto num encontro sob essas circunstâncias. Não sou algum prêmio de consolação que você ganha por desistir dos seus sonhos. Você não está sendo você mesma, Asuka."

 

Quando disse isso, Asuka pareceu um pouco desanimada. "Não sendo eu mesma?" ela disse baixinho. "O que isso significa? Isso é só você colocando suas expectativas em mim."

 

Asuka se levantou, como se estivesse tentando colocar distância entre nós.

 

Ela deu vários passos à frente e olhou fixamente para o rio.

 

Não sendo você mesma. O que eu quis dizer?

 

Era verdade que eu estava provavelmente colocando meus próprios ideais nela de algumas maneiras.

 

Ela sempre agia muito mais madura do que eu e até seu nome indicava liberdade, gentileza e força.

 

Mas a verdadeira Asuka agonizava sobre coisas, se sentia perdida e ficava desanimada. Ela era apenas uma garota do ensino médio.

 

"Eu te disse: Você me romantiza demais. A verdadeira Asuka Nishino é muito mais comum. Como um castelo feito de papel machê. Em casa, sou sua típica menina boa que nunca discorda do pai. Eu tinha a sensação de que este dia estava chegando, e se você vai apenas ficar desapontado comigo, então..."

 

Mas agora eu estava convencido.

 

Me levantei e suavemente me aproximei de Asuka antes que ela pudesse dizer mais.

 

Olhei para suas costas. Tão frágeis, passíveis de quebrar ou desaparecer a qualquer momento, costas efêmeras e bonitas que eu vinha observando por tanto tempo, querendo ser mais como ela. E então...

 

Dei um chute forte nela.

[TMAS: Chitose bate em mulher, cacete.]

 

"Agh!"

 

Splash.

 

Com um grito feminino, e um enorme baque de água deslocada, Asuka mergulhou no rio.

 

Não era fundo o suficiente para ela afundar, mas o choque disso pareceu mandá-la ao modo pânico. Ela se debateu por alguns momentos, mas eventualmente conseguiu se arrastar para ficar de pé, embora estivesse encharcada até os ossos.

 

"O quê? Que que é isso?"

 

Asuka olhou para mim, uma expressão de completa incompreensão no rosto.

 

Respirei fundo antes de falar. "O que é toda essa irritaçãozinha?! Você está dizendo que eu te romantizo? Para de ficar indo e voltando; está me dando dor de cabeça! Vá em frente e se transforme numa bruxa afogada do rio, vai!"

 

Asuka respondeu, sua voz mostrando raiva clara. Muito, muito incomum para ela.

 

"O quê? Você é quem ficou dizendo que eu era tipo sua mulher dos sonhos ou algo assim! Empurrando seus ideais em mim, me colocando num pedestal, e agora está agindo todo desiludido comigo?! Achei que você odiava quando as pessoas faziam isso!"

 

"...Você está errada." Falei nitidamente.

 

Sim, agora eu sabia com certeza.

 

"Primeiro, fui cativado pela visão de você fazendo aquela criança encharcada e intimidada sorrir bem aqui neste rio. Sim, idolatrei você, mas foi baseado na realidade desde o início."

 

"Aquilo foi só uma coisa aleatória que aconteceu..."

 

"Certo — aleatório, e, portanto, não aleatório. Se eu estivesse lá para testemunhar ou não, se eu estivesse por perto para idolatrar você ou não, desde o início você estava vivendo do seu jeito. Livre. Gentil. E forte."

 

"Você está errado. A única razão pela qual pude ser assim é..."

 

"Não me importo com suas razões. Pense naquelas palavras preciosas que você me deu. Você preencheu o buraco aberto no meu coração. Não fique jogando palavras por aí descuidadamente agora."

 

"...Ou a vida vai ficar monocromática, hein?"

 

Sorri.

 

"Ainda honestamente não sei a diferença entre admirar alguém e colocá-lo num pedestal. A única coisa que sei é que posso dizer muito mais do que é bom sobre você do que você poderia." A encarei e estendi minha mão enquanto falava. "Isso não é permitido?"

 

Seus olhos surpresos estavam fixos em mim, enquanto um sorriso se espalhava pelo rosto dela como uma flor lentamente florescendo. Ela enxugou os olhos, que estavam escorrendo ou como resultado da água do rio ou emoção repentina, e então deu uma pequena respiração, se preparando para falar.

 

"Acho que você realmente é meio que meu herói, não é?"

 

"Não seja ridícula. Você é minha heroína, Asuka."

 

Ela agarrou firmemente a mão que estendi para ela, e então — "Hyah!"

 

Ela me puxou para baixo com toda a sua força.

 

"Whoa!"

 

Splash.

 

Caí de cabeça no rio também.

 

"Agora, escuta aqui..."

 

"Cuidado! É perigoso abrir a boca agora!"

 

Então ela começou a me espirrar com água.

 

"Glub! Urgh, isso é nojento!"

 

"Bem, eu te avisei."

 

"Diz isso antes de começar a espirrar, então!"

 

"Seus reflexos são meio lentos, não são?"

 

"Tudo bem, não se mexa. Ou vou realmente me tornar a bruxa do rio e ser adicionada às Sete Maravilhas da Fuji (nome oficial a definir)."

 

Depois disso, nós dois começamos a espirrar um no outro ao mesmo tempo.

 

Splash-splash. Splosh-splosh.

 

Splash-splash. Splosh-splosh.

 

Estávamos brincando e nos perseguindo como crianças.

 

O espirro da água refratava a luz do sol, imbuído de cor neste momento cintilante.

 

Como se para nos guiar para casa naquele dia. Como se para nos guiar para amanhã.

 

"Ei!"

 

Asuka sorriu para mim enquanto falava.

 

"Posso te abraçar agora?"

 

"Hã?"

 

Mas não tive tempo de dizer nada de volta. Antes que eu soubesse, ela me agarrou num abraço frontal completo. Não os abraços românticos que adultos compartilham, mas o abraço de urso inocente que uma menina poderia dar ao pai ao pular em seus braços.

 

E então me senti obrigado a dar um tapinha na cabeça dela.

 

Pude detectar um fedor de peixe, o cheiro de procurar lagostins de rio quando criança.

 

"Asuka, você fede."

 

"Fala por você, senhor."

 

"Tem alguma roupa de ginástica?"

 

"Nada!"

 

"Eu também não. Como vamos voltar para casa?"

 

"Deixamos o vento nos levar."

 

"Hmm, bem, isso não é uma má ideia."

 

Forcei Asuka a se separar mim, já que ela não mostrava inclinação de me deixar ir, e seu sorriso era brilhante e deslumbrante — e de alguma forma recentemente descarregado.

 

"A morte é melhor que uma vida sem beleza, certo? Vou tentar viver como você. Como uma bola de gude, flutuando numa garrafa de refrigerante Ramune."

[Moon: Oh my… “In the Ramune bottle” we go.]

 

"Você não precisa ser como eu. Apenas seja como Asuka, a Asuka que você sempre foi. Se você quer fazer um trabalho que envolva trazer palavras significativas para as vidas das pessoas, então você precisa começar usando-as para contar isso ao seu pai."

 

Depois disso, voltamos para casa andando, ambos pingando água.

 

Atrás de nós, deixamos um rastro, como Joãozinho e Maria.

As pessoas indo para a cidade todas se viraram e olharam para nós com expressões estranhas, mas nem Asuka nem eu nos importávamos com isso. Apenas continuamos rindo.

 

Enquanto a observava atravessar sua própria porta da frente com uma expressão refrescada, sabia que ela ficaria bem.

 

Podia simplesmente sentir.

[TMAS: Se preparem para um diálogo absurdo]

 

"...Espera um segundo. O que você quer dizer com isso?!"

 

No dia seguinte, depois da aula, passei pela sala dos professores para devolver alguns questionários que eu estava encarregado de recolher no meu papel de presidente de classe.

 

Já eram 18h. Eu tinha esquecido totalmente do prazo para os questionários, então você poderia dizer que foi minha culpa, mas uma vez que me lembrei, também tive que perseguir os membros dos clubes esportivos que haviam relaxado em entregá-los, e isso me tomou uma quantidade considerável de tempo.

 

Kura não estava lá, então deixei as coisas na mesa dele e estava apenas virando para sair quando o avistei sentado no pequeno alcova usado para receber visitantes. Se ele não parecesse muito ocupado, planejava dar um oi, então fui até lá, e foi quando ouvi uma conversa.

 

[Moon: Alcova é tipo um nicho ou um cantinho aconchegante usado com constância…]

 

"Já decidimos que Asuka vai para a Universidade de Fukui e depois se tornar funcionária pública."

 

Quem quer que estivesse falando soava irritado.

 

Havia três pessoas sentadas na alcova, e todos estavam olhando para mim. Num dos dois sofás de frente sentava-se Kura, e no outro sentavam Asuka e um homem de terno elegante.

 

N/T: Alcova é um espaço sobressalente na parede onde colocamos coisas como estantes, camas entre outros, é um buraco bem grande por onde você pode entrar em um mini cômodo.
[Moon: Ah… Me driblaram e eu não vi]

 

Ele era magro e bem musculoso, sua gravata meticulosamente feita sem um traço de folga. Ele parecia um cara capaz, com mentalidade de negócios.

 

Atrás de seus óculos de armação quadrada de arame, seus olhos eram inteligentes, mas frios enquanto me olhava.

 

Asuka estava com a cabeça baixa, como se estivesse envergonhada.

 

"Ah, Chitose." Em contraste com o homem oposto a ele, Kura soava positivamente relaxado. "Valeu. Só coloca os questionários na mesa e vai para casa."

 

"Mas..."

 

"Eu te disse para ir para casa. Que direito você tem de se intrometer nesta conversa?"

 

Sua voz era firme e não permitia resposta contrária.

 

Além disso, Kura estava esmagadoramente certo.

 

De qualquer jeito que você cortasse, eu não tinha direito de dizer nem uma única palavra aqui.

 

Apertei meus lábios e estava prestes a me virar, quando...

 

"Entendo. Então é você, hein?"

 

O outro homem estava falando.

 

"Você é aquele que encheu a cabeça de Asuka com todas essas ideias malucas."

 

Ele empurrou os óculos para cima com um dedo indicador, me dando um olhar que era quase uma encarada.

 

"Tudo bem então, Iwanami. Por que não sentar, então, se você sentir vontade?"

 

"Pai."

 

Eu havia ouvido que uma reunião de pais e professores seria realizada hoje, então imaginei que era isso, mas agora Asuka me deu confirmação. Geralmente uma reunião assim aconteceria numa sala de aula vazia, mas talvez eles tenham passado do tempo, ou talvez houvesse alguma outra razão. De qualquer forma, não era relevante.

 

"Com licença. Sou um dos juniores de Asuka. Meu nome é Saku Chitose."

 

Sentei ao lado de Kura sem hesitar.

 

O homem oposto a mim ergueu as sobrancelhas enquanto me examinava.

 

Eu não conseguia fazer sentido do que ele havia dito momentos antes.

 

Asuka estava com a cabeça ainda mais baixa, parecendo cada vez mais envergonhada. Ao meu lado, Kura respirou um suspiro pesado e dramático. Ignorei ambos e olhei para o pai de Asuka.

 

Se eu tentasse desviar o olhar agora, tinha a sensação de que nunca teria uma chance de falar com este homem cara a cara novamente.

 

Kura suspirou novamente, depois limpou a garganta. "Vamos lá, Nisshi."

 

"Isso é Sr. Nishino para você. Não misture amizades e trabalho. Agora, você é o conselheiro de orientação de Asuka e um professor, nada mais."

 

"Tch, você sempre foi tão rigoroso com as regras. Beleza, Sr. Nishino. Então esta decisão foi tomada depois de ouvir minuciosamente o que sua filha tem a dizer, certo?"

 

"Não há necessidade de discutir. Conheço Asuka melhor que qualquer outra pessoa, e tomei minha decisão depois de primeiro discutir cuidadosamente o que a faria mais feliz na vida."

 

"...Pfft!"

 

Resfoleguei, e o pai de Asuka olhou para mim.

 

"Chitose, não é? Parece que você tem algo a dizer."

 

Tossi, depois respondi. "Com licença. Você perguntou a Asuka por que exatamente ela quer ir para Tóquio?"

 

"Aparentemente, ela quer se tornar uma editora literária."

 

"Você acha que ignorar esse sonho vai fazê-la feliz?"

 

Enquanto eu estava falando, Asuka continuava olhando para o chão.

 

Ela tinha as mãos descansando no colo, mas estavam fechadas em punhos, agarrando a bainha da saia.

 

O pai de Asuka respondeu num tom entediado.

 

"Seu sonho. Essa é uma palavra conveniente, não é? Vocês jovens acham que todas as suas escolhas podem ser justificadas alegando que estão seguindo seus sonhos. Você ouviu de Asuka, então? Sobre por que esse é o 'sonho' dela?"

 

"Ela disse que quer fazer um trabalho que envolva trazer palavras para as vidas das pessoas."

 

"Então deixe-me perguntar isto. Por que ela não pode simplesmente se tornar uma professora de japonês? Ou bibliotecária? Ambos envolvem trazer palavras para as vidas das pessoas. E ela pode tornar qualquer um desses dois caminhos de carreira uma realidade bem aqui em Fukui."

 

"Bem..."

 

Não consegui pensar numa refutação, e acabei ficando em silêncio.

 

[Moon: “Porque essa é a vida dela e não a sua, estando preocupado com o futuro da sua filha ou não, quem decide isso é ela, você já a ajudou até onde pôde… Quer que ela se torne alguém dependente das escolhas dos outros?” Isso calava a boca dele certeza, mas tbm é um conselho para você leitor…]

 

"Você sabe as chances de sucesso envolvidas em se tornar uma editora literária?"

 

"Imagino que sejam bem pequenas."

 

"Ainda mais se você está mirando entrar numa grande editora. Mais de mil recém-formados se candidatam e apenas alguns são aceitos. O mundo não é um lugar gentil, sabe. Você não pode ir adiante só porque é seu 'sonho'."

 

"...Talvez ela pudesse começar trabalhando em algum lugar menor e subir. Isso é possível, certo?"

 

"Você acha que os outros candidatos não estarão fazendo a mesma coisa? Há mais candidatos do que vagas em qualquer editora, muito mais. Para fazer os ideais de Asuka se tornarem realidade, ela vai precisar entrar num lugar com um bom departamento de publicação de romances. Isso é o mínimo. E não há editoras infinitas assim."

 

"Mesmo assim..."

 

"Você está dizendo que ainda valerá a pena para ela subir? Entrar numa pequena editora e destruir sua saúde mental e física trabalhando por um salário pequeno? Será tarde demais quando ela se ver encurralada e descobrir que não há chance de trocar de empresa. Você vai intervir e assumir responsabilidade quando isso acontecer, Chitose? Você vai ser quem vai cuidar de Asuka?"

 

Fiquei repentinamente, dolorosamente, ciente da minha própria ingenuidade.

 

Este homem não estava segurando Asuka porque estava exercendo seus direitos parentais. Ele estava dizendo a verdade quando disse que havia considerado cuidadosamente o que levaria a uma vida feliz para sua filha.

 

"Há uma razão pela qual dizem que você não deveria fazer de suas paixões sua carreira. Pode fazer você acabar odiando suas paixões. Acho que é muito melhor para Asuka continuar a apreciar literatura como hobby, como ela vem fazendo."

 

O pai de Asuka viu que eu não ia dizer nada em resposta, e continuou, num tom prático.

 

"Se ela ficar em Fukui, então terá a casa da familia por perto em caso de qualquer coisa acontecer. Ela terá a gente. O concurso público não será problema algum para uma garota como Asuka passar. Então tudo que ela tem que fazer é encontrar um homem legal e construir um lar, viver uma vida longa e feliz. É tão errado para um pai querer essas coisas para sua filha?"

 

Eu não podia recuar.

 

Se eu concedesse agora, então o futuro de Asuka estaria praticamente decidido.

 

Eu tinha que dizer algo, qualquer coisa, manter a conversa rolando.

 

"Quando eu estava afundando em desespero, e todo dia parecia sombrio e nublado para mim, foram as palavras que Asuka me trouxe que me salvaram. Acredito que ela tem o que é preciso para vencer as probabilidades, não importa quão empilhadas contra ela estejam."

 

"Quantos estudantes você acha que acabaram falhando em serem admitidos no Fuji depois de acreditar que tinham o que era preciso para vencer as probabilidades? E você não é aquele garoto de beisebol que pensou que ia virar profissional, só para acabar desistindo? Confiança sem base. Nada além de ilusão."

 

[TMAS: Esta doeu em mim. | Moon: Opa…]

 

"…"

 

Essas palavras me cortaram fundo.

 

Nesta época, no ano passado, eu estava cheio desta exata confiança. Nunca poderia ter sonhado que acabaria saindo do beisebol do jeito que fiz.

 

"Escuta aqui, Chitose. Se é dever de um pai respeitar os desejos do filho, então também é dever deles guiá-los pelo caminho certo. Já tive esta mesma conversa com Asuka que você e eu estamos tendo agora. Está feito. Nem você, nem Asuka conseguiram dizer nada para me influenciar."

 

O que esse cara estava dizendo, como pai, estava certo. Realmente pensei isso.

 

Mas não era a única opção correta.

 

Ele estava certo, do ponto de vista dele — mas quem decide quando há múltiplas respostas corretas?

 

Quem tem que viver com a responsabilidade pela escolha.

 

Eu poderia alinhar um monte de argumentos contra ele, mas isso só o faria dizer: "O que isso tem a ver com você de qualquer jeito?"

 

Que direito você tem de se intrometer nesta conversa?

 

"Você é um homem esperto," disse o pai de Asuka. "Acho que você viu como esta conversa vai terminar. Asuka sempre foi uma garota esperta também. Quando a lógica se alinha, ela não me desafiou nenhuma. É por isso que fiquei um pouco surpreso quando ela se manteve firme sobre isso. Acho que é sua influência, Chitose?"

 

Não, eu queria dizer.

 

Eu apenas dei a Asuka um pequeno empurrão. Um pequeno empurrão para os sentimentos que estavam ardendo dentro dela.

 

O pai de Asuka continuou. "Certo. Se uma conversa pudesse ter sido tida com você e seus pais também, então talvez você tivesse um pouco mais de perna para se apoiar."

 

Ele parou de falar então e olhou para Asuka, que havia estado silenciosa todo este tempo.

 

"Mas este é o futuro da minha filha de que estamos falando."

 

Eu não tinha mais nada a dizer.

 

Kura deu um tapinha no meu ombro.

 

"Então está decidido. Vamos em frente e provisoriamente anotar Universidade de Fukui  como a faculdade de primeira escolha de Asuka."

 

O pai de Asuka deixou o canto da boca tremer para cima. "Achei que havia te dito para colocar como sua decisão final."

 

"Você não deveria subestimar o quão rápido essas crianças crescem. Você deveria saber disso melhor que ninguém, Nisshi. Um dia eles são uma pequena crisálida, no próximo são um leão adulto."

 

"Aqui é Sr. Nishino para você, Kura. Você nunca muda, não é?"

 

"Bem, você mudou. Você se tornou um pai rigoroso e orientado pela lógica."

 

"Quando você for professor por tempo suficiente, vai entender um dia."

[Moon: E quando a sua filha nunca mais falar com você e estiver sozinho, você também vai entender…]

 

Então o pai de Asuka se levantou do sofá e saiu do alcôve.

 

Asuka seguiu, sussurrando "Sinto muito" ao passar por mim.

 

"Acho que a versão de mim que você viu realmente foi apenas um fantasma afinal."

 

Me dá um tempo.

 

Enquanto ouvia seus passos se afastando, essas palavras se repetiram na minha cabeça como um refrão.

 

Eu não parecia conseguir sair do sofá de alguma forma. Então Kura falou comigo.

 

"Chitose, você tem algum plano depois disso?"

 

"...Não, estou livre, mas por quê?"

 

"Venha tomar uma bebida, então."

 

"Hã?"

 

Pareceria ruim para mim ser visto entrando no carro de um professor nos terrenos da escola, é claro, então esperei por ele um pouco afastado.

 

Como se para refletir meu estado interior, a chuva úmida e deprimente que vinha caindo desde a manhã me encharcou até os ossos.

 

As gotas de água que pareciam tão bonitas para mim ontem agora pareciam tinta preta tentando manchar o mundo. Eu teria desistido se fosse um aguaceiro pesado, mas não estava realmente caindo tão forte. Carregar um guarda-chuva teria sido apenas um incômodo neste clima. O tipo de chuva que não conseguia se comprometer.

 

Uma buzina de carro buzinou estupidamente.

 

Olhei para o som e vi o Nissan Rasheen azul de Kura parado com as luzes de emergência ligadas.

 

Quando abri a porta do lado do passageiro, já havia uma sacola plástica de conveniência cheia de lixo sentada lá. Amarrei as alças e joguei na parte de trás. Fez um som de farfalhar abafado ao pousar entre uma pilha de outras sacolas similares.

 

"Você não pode ser menos desleixado? Talvez se endireitar e arranjar uma namorada?"

 

"Ainda tão ingênuo. Se eu pudesse conseguir uma namorada, meu carro não pareceria assim em primeiro lugar."

 

"Acho que talvez o fato de você ser um velho autodepreciativo que deixa uma zona de desastre como esta sem cuidados é a razão pela qual as damas não estão exatamente batendo à sua porta."

 

"Hmm. É um verdadeiro dilema da galinha ou do ovo."

 

"É um dilema de 'limpe seu maldito carro'!"

 

Kura soltou o freio de emergência, colocou na marcha, desligou as luzes de emergência e então saiu.

 

Ele havia customizado o carro, talvez? O interior era todo em azul, igual à pintura externa. Enquanto Kura pressionava o acelerador, a agulha se movia no tacômetro de estilo clássico.

 

Depois de dirigir por cerca de cinco minutos, Kura estacionou o carro de qualquer jeito num ponto de estacionamento medido em frente à Estação de Fukui. Segui enquanto ele vagueava, e luzes de néon azuis e lanternas vermelhas com logotipos familiares entraram em vista.

 

Falei sarcasticamente. "Você está levando um estudante ao Akiyoshi?"

 

"É o melhor lugar em Fukui para pegar uma bebida."

 

Akiyoshi é uma rede de espetinhos de frango grelhado, verdadeira comida do coração para os locais, lá em cima em popularidade com Hachiban Ramen, katsudon de molho e soba com rabanete ralado. De vez em quando, é relatado que Fukui tem o maior consumo de espetinhos de frango grelhado no Japão, e se isso é verdade, a presença de Akiyoshi é definitivamente significativa.

 

Passamos pelas portas automáticas, e o pessoal da loja nos cumprimentou com vozes animadas.

 

"Bem-vindo, Presidentes!"

 

A propósito, esta é uma peculiaridade do Akiyoshi. Eles se referem a todos os clientes masculinos, de alunos da escola primária a idosos, como Presidente (como em, presidente de empresa) e a todas as damas como Madame.

 

Kura e eu seguimos o garçom e sentamos no balcão.

 

"Kura, estou usando meu uniforme escolar."

 

"Relaxa. As pessoas vão pensar que somos irmãos."

 

"Mais como pai e filho, velhote."

 

Um cara com um peito grande que esticava sob seu uniforme de garçom pegou nosso pedido.

 

"O que vai ser?"

 

"Um copo de cerveja, e o que você vai beber?"

 

"Você é um professor. Você está dirigindo."

 

[TMAS: Não tem como ser mais irresponsável que o professor]

 

"Relaxa. Vou chamar um motorista designado."

 

"Então, me traz um ginger ale."

 

"Você é chato. Vamos ver, então, vamos começar com dez shiro de porco, dez kei de frango, dez fritos, dez cebolinha, dez piitoro de porco, e então repolho com sal, e..." Kura olhou para mim.

 

"Vou pegar um sortimento."

 

N/T Sortimento é uma coleção diversificada de itens, aqui de comida, que servem para mostrar os diferentes tipos de comida que um lugar serve.

 

"Pode deixar."

 

O garçom respondeu alegremente, virando para relatar nosso pedido para o pessoal lá atrás na grelha.

 

Agora, isso pode parecer muita comida, mas a coisa especial sobre os espetinhos de frango grelhado do Akiyoshi é que são pequenos o suficiente para comer numa mordida mesmo que sua boca não seja enorme, então é normal pedir várias unidades de dez espetinhos de uma vez.

 

A propósito, shiro é um tipo de miúdos de porco, kei é um tipo de frango com uma textura agradável, e piitoro é porco gorduroso. Repolho é literalmente apenas repolho cru espetado num palito; então você pode escolher tê-lo com sal, molho inglês ou maionese. Pedi um sortimento, que vem com molho inglês e maionese nele.

 

A cerveja, ginger ale e repolho foram entregues imediatamente, então batemos nossos copos juntos num brinde.

 

Kura engoliu seu caneco de cerveja, drenando metade dele como se nunca houvesse algo mais delicioso. Então ele fez "Ahhh" e acendeu um Lucky Strike.

 

"Então." Ele sugou uma bocada alegre de fumaça antes de falar novamente. "Como você está se sentindo? O pai da garota que você está atrás acabou de te dizer, 'Nunca vou te dar minha filha...'"

 

"Não percebi que estava lá pedindo a mão da filha dele."

 

"Bem, como você se sente? Depois de agir como o grande herói corajoso e ser derrotado?"

 

"...Não fui derrotado. Ainda não."

 

"Ah, esse é o espírito. Uma resposta corajosa." Kura mordiscou uma folha de repolho.

 

O garçom retornou, colocando dez palitos cada de shiro, kei e piitoro na chapa quente prateada do balcão.

 

Também recebemos pequenos pratos contendo vários tipos de molho e mostarda. Outra característica especial do Akiyoshi. Shiro e cebolinha vão bem com um tipo de molho, kei e piitoro, outro. Basicamente, você tem que emparelhar molhos com diferentes espetinhos em combinações que funcionam. Eu geralmente afogo tudo num molho, exceto os empanados e o piitoro.

 

Mergulhei meu shiro no molho que estava cheio de alho picado e dei uma mordida. São miúdos, mas não têm aquele fedor de viscera, e desce fácil. Alcancei meu segundo espetinho. Estava bem faminto. Provavelmente causado por toda aquela tensão lá atrás.

 

Eu costumava vir aqui de vez em quando com minha família, mas não é realmente o tipo de lugar que estudantes do ensino médio vêm comer. Deve ter feito três anos desde que comi aqui pela última vez.

 

Kura mergulhou seu kei em mostarda e começou a mordiscar.

 

Depois de comer um kei e um piitoro, limpei a garganta.

 

"Você concorda com o que o pai de Asuka... Sr. Nishino estava dizendo?"

 

"Parece que eu concordo com ele?"

 

"Quer dizer, parecia que vocês dois se conheciam."

 

Eu não achei que fosse a hora certa para trazer isso durante a conversa, mas os dois não pareciam apenas um pai e o professor do seu filho.

 

"Nisshi foi meu professor titular do ensino médio."

 

"Entendo. Então era isso."

 

Durante o torneio de beisebol do ensino médio de verão Koshien, Fukui sempre é apresentado como a prefeitura que tem o segundo menor número de escolas participantes no país. Neste tipo de lugar, não é tão incomum para um ex-professor titular reencontrar um de seus antigos alunos, crescido e agora professor também. Não é uma raridade que o professor titular da sua filha tenha sido um dos seus ex-alunos.

 

"Sou um professor numa escola preparatória para faculdade agora, mas durante meus próprios dias de ensino médio, eu era bem selvagem. Não era bem no nível de Yan, mas minha escola na época era bem baixa no ranking, muitos estudantes delinquentes. E acho que você poderia dizer que eu era um deles."

 

"É realmente patético para um velho ficar se gabando de ser um delinquente no ensino médio, sabe."

 

"Você disse algo, irmão?"

 

"Como eu disse, ninguém acreditaria que somos irmãos."

 

Era difícil imaginar, com o quão descontraído ele era, mas, por outro lado, ele facilmente conseguiu bloquear o chute de Yanashita quando vim até ele para ajudar com o incidente do perseguidor de Nanase. Ele estava provavelmente dizendo a verdade sobre ser um cara durão na juventude.

 

Mas estávamos saindo do assunto.

 

"Isso é só um palpite, mas talvez tenha sido o Sr. Nishino quem te virou por aí naquela época? Talvez naquela época ele costumava ser mais um educador apaixonado ou algo assim?"

 

"Você está certo sobre a primeira parte. Bem longe da segunda. É, ele é a razão pela qual me endireitei, mas Nisshi sempre foi o tipo de bloquear todas as rotas de fuga de alguém com a violência da razão."

 

"Achei que seria o início de negociações, mas é só como eu supus."

 

"No entanto..." Kura cobriu seu espetinho empanado frito com molho e mostarda enquanto continuava. "Ele nunca foi o tipo de cara de bloquear a decisão de outra pessoa com seu próprio raciocínio. Ele continuava me dizendo como minha vida seria miserável se eu continuasse do jeito que estava indo, mas ele também disse que no final a coisa mais importante é encontrar seu próprio caminho."

 

"Seu próprio caminho, hein."

 

"Nisshi ainda era um homem jovem naquela época. Não sei se os anos mudaram sua mentalidade, se ele é apenas superprotetor com sua filha, ou se há outra razão por trás disso..."

 

"Ainda assim, não acho que ele esteja errado no que está dizendo."

 

Quando disse isso, recebi um sorriso rápido em retorno.

 

"O nascimento de um jovem com um ponto de vista rapidamente se ampliando, hein. E aqui estava eu pensando que você ia dar um soco no homem. Hmm, mas eu teria que te jogar para fora pela orelha se isso acontecesse."

 

"Eu não poderia fazer isso. A coisa que ele disse sobre considerar a felicidade de sua filha primeiro — não tive a sensação de que ele estava mentindo."

 

"Concordo."

 

Kura chamou o garçom e acrescentou mais cinco palitos de shiro, cinco palitos de kei, cinco palitos de língua, cinco palitos de tripas, alguns pimentões shishito, um pouco de tofu frito com rabanete ralado, um shochu nas pedras e outro ginger ale. Então ele continuou.

 

"Ser professor é um trabalho difícil, sabe."

 

"Você não pode falar sobre isso em outro cenário, talvez? Um onde você soará um pouco mais convincente?"

 

"Só escuta."

 

Kura pegou o copo de shochu do garçom e o engoliu.

 

"Quando você pensa sobre isso, você não deveria ter que assumir responsabilidade por um monte de crianças que mal saíram do berço, a menos que seja seu próprio filho. Mas neste trabalho, todo ano, você tem que assumir centenas deles."

 

"Hmm, bem, isso é certamente verdade."

 

"Seria legal se todos pudessem se formar sem problemas e seguir para realizar seus sonhos, claro, mas o mundo não é feito assim. Na sombra das crianças que têm sucesso, você tem um número incontável de crianças sofrendo reveses, fracassos, arrependimentos... E neste trabalho, você tem que estar bem ali testemunhando tudo isso."

 

"Então você está dizendo que devemos apenas confiar no que quer que os professores digam?"

 

"Hah! De jeito nenhum." Kura bufou, depois drenou seu copo de shochu. "Há uma tonelada de professores, eu incluído, que não têm a experiência de vida ou habilidade necessária para guiar cada única criança. A coisa é que, assim como você e Nishino leem livros e ficam pensando que sabem como é viver todas essas vidas diferentes, professores veem seus alunos e ficam pensando que sabem como é para a humanidade."

 

Eu nunca normalmente admitiria, mas eu realmente confiava muito em Kura, e o respeitava também. Não há muitos professores por aí que realmente prestam atenção em seus alunos do jeito que ele faz.

 

Para ser honesto, as coisas que ele estava dizendo estavam realmente ressoando comigo agora.

 

Acabei expressando uma pergunta que estava na minha mente. "Kura, por que você decidiu se tornar um professor de ensino médio?"

 

"Porque eu sabia que viveria num tipo de paraíso, com garotas do ensino médio frescas como margaridas entregues a mim em lotes frescos todo ano."

 

"É melhor você não dizer algo assim de novo, ou não vai entrar no paraíso. Tch. Estou perguntando aqui se você foi influenciado pelo Sr. Nishino, sabe, tipo ele te ajudou a mudar sua vida, e então você começou a idolatrá-lo — algo assim."

 

"Gah." Kura acendeu outro Lucky Strike e riu um pouco. "Eu decidi me endireitar e voar direito, mas não é como se eu começasse a querer ser professor imediatamente ou algo assim. É mais como, Nisshi era o único modelo adulto decente que eu tinha para seguir."

 

"Algo assim, hein."

 

"Isso é a vida. Nem tudo se desenrola dramaticamente como uma peça."

 

"Você já teve momentos em que teve arrependimentos, como professor?"

 

"Claro. Quando tenho que lidar com moleques que não mostraram crescimento desde a escola primária apesar de serem cheios de inteligência e liderança, e quando tenho que lidar com moleques que têm talento, mas continuam se subestimando. Desperdiçando sua juventude, perseguindo suas caudas. Tolos."

 

"Esse primeiro não pode possivelmente ser uma referência velada a mim, certo?"

 

"Mas a coisa estranha é: nunca uma vez olhei para trás e desejei nunca ter me tornado um professor. Você escolheu seu caminho. Assuma responsabilidade por ele e siga em frente. Tipo isso."

 

Esse velho cara é realmente legal, pensei, não que eu jamais diria isso em voz alta.

 

Mesmo que ele estivesse bêbado e nem fosse se lembrar desta conversa amanhã.

 

"Tudo bem, Chitose. Estou me sentindo bem. Para nossa próxima parada de passeio pelos bares, vou te levar junto ao meu bar de tetas favorito, Não Me Faça Tirar Meu Blazer."

 

"Recentemente vi os seios nus de uma bela garota do ensino médio, então estou bem."

 

"Enfie um espetinho de frango grelhado na sua narina e morra."

 

"Cuidado com sua escolha de palavras, Professor de Língua Japonesa."

 

Depois disso, nos divertimos muito envolvidos em conversa obscena, e depois de terminar nossa refeição com alguns dos melhores bolinhos de arroz fritos crocantes do Akiyoshi e sopa de missô akadashi, deixamos o restaurante.

No dia seguinte, e no dia depois disso, não tive zero chances de falar com Asuka.

 

Procurei por ela na escola tanto quanto pude, e esperei por ela em nosso local habitual à beira do rio, lendo livros para passar o tempo, mas estava começando a parecer que ela estava me evitando intencionalmente.

 

Três dias haviam passado agora desde a reunião de pais e professores, e eu estava encostado no vidro da porta de entrada, do mesmo jeito que havia feito não faz muito tempo, lendo uma cópia de Aisazu ni wa Irarenai de Yoshinaga Fujita que peguei na livraria em frente à estação, esperando por Asuka.

 

O céu estava limpo lá fora, diferente daquele dia, e um toque de crepúsculo estava começando a se misturar com o ar.

 

Devo ter estado lá por perto de duas horas. Não era como se alguém estivesse me observando, então acho que não precisava me sentir constrangido sobre isso, mas ainda me sentia como um perseguidor.

 

"Chitose?"

 

Ouvindo meu nome, levantei meu queixo do meu livro para ver Nanase parada ali numa camiseta larga e shorts longos, sua roupa de treino, olhando para mim com uma expressão curiosa no rosto.

 

Seu cabelo estava despenteado, bochechas coradas, e ela estava usando roupas de treino suadas.

 

Era uma visão tão irreal que não pude deixar de olhar.

 

"O que você está fazendo, ficando por aqui?"

 

Deslizei um marcador entre as páginas do livro que estava lendo e o fechei antes de respondê-la despreocupadamente. "Só esperando alguém."

 

"Ah, é mesmo?"

 

"O que você está fazendo? Não é um pouco cedo para o treino acabar?"

 

"Perdi contra Haru, jogando um contra um, e a perdedora tinha que ir comprar bebidas esportivas."

 

Ela estava segurando algumas sacolas plásticas da loja de conveniência, e eu podia ver as garrafas de 500ml de Pocari Sweat dentro.

 

"A Srta. Misaki é bem relaxada, hein, deixando vocês brincarem assim durante o treino do clube."

 

"Ela até defendeu. Disse que seria uma boa mudança de ritmo, deixar aquele espírito de rival rolar."

 

"É, mas você poderia ter só comprado duas ou três das garrafas grandes, sabe?"

 

"É pra ser uma punição... Maldita Haru."

 

Imaginei Haru mandando de forma autoritaria enquanto sorria, e bufei ar pelo nariz.

 

"Mesmo assim, acho que esse é o código de conduta dos esportistas. Perdedores não podem reclamar."

 

"Humph. Ela não vai me pegar da próxima vez. No instante em que ela baixar a guarda, ela não vai saber o que a atingiu."

 

"Você está falando sobre basquete, certo?"

 

Nanase veio se encostar na porta ao meu lado, colocando as sacolas no chão com um clunk pesado. Remexendo, ela agarrou uma das garrafas e a pressionou na minha bochecha. "Aqui. Compartilhe a riqueza, quer dizer."

 

"Você está me convidando para fazer um treino suado com você?"

 

"De jeito nenhum. Não quero ver meu ex-namorado chorando. Tenho uma compaixão de samurai, sabe."

 

"É assim que você vê as coisas?"

 

"Você e eu somos parecidos, lembra?"

 

Sorri ironicamente, lembrando de conversas similares que tivemos.

 

"Droga, nunca deveríamos ter terminado."

 

"Encare seus sentimentos. Eles são importantes. Assim, você não vai se revoltar em arrependimentos depois de acabar perdendo alguém. Essa é a lição."

 

Parecia que ela sabia tudo, via tudo.

 

"Sabe, Yuzuki, você realmente é um ótimo partido."

 

"Valeu, Saku."

 

Então Nanase levantou ambas as sacolas do chão e desapareceu na direção do ginásio.

 

Eu estava engolindo a garrafa de Pocari Sweat que ainda segurava, quando...

 

Clunk, clunk.

 

Alguém bateu no vidro atrás da minha cabeça.

 

Sabia sem me virar que era Asuka.

 

Mas quando me virei, ela parecia quase emburrada, diferente do que eu estava imaginando.

 

Olhando para longe, Asuka disse: "Não é sobre o que conversamos!"

 

"O que não é?!"

 

"Quando desci até os armários de sapatos, te vi de costas. Senti uma mistura de medo, melancolia, e também de alguma forma alívio... Imaginei indo assim."

 

"Toc-Toc."

 

"Asuka."

 

"Acho que não posso continuar fugindo de você, hein. Eu tenho pensado... Eu deveria realmente conversar as coisas com você mais uma vez. Vamos... ao nosso local habitual."

 

"Ou algo assim!"

 

"Como eu deveria saber?" retruquei, e ela fez beicinho ainda mais.

 

"Mas por quê? Você deveria estar esperando pela garota mais velha que admira, mas em vez disso te pego flertando com a garota fofa da sua classe com quem você tem história?! Fiquei tão atordoada que perdi minha chance de fazer escândalo, sabe?!"

 

"Se acalma, Asuka. Você não é assim de jeito nenhum."

 

Asuka tossiu alto, sua expressão ficando frágil. "Acho que não posso continuar fugindo de você, hein. Eu tenho pensado... Eu deveria realmente conversar as coisas com você mais uma vez. Vamos... ao nosso local habitual."

 

"É um pouco tarde para recomeçar agora, você não acha?"

 

Então, em nosso local habitual à beira do rio, Asuka começou a falar, com a cabeça baixa.

 

"Sinto muito por ter causado tanto problema para você."

 

"Foi minha escolha entrar. Você não deveria se sentir mal, Asuka." Mantive um olho nela enquanto continuava. "Na verdade, acho que sou eu quem deveria pedir desculpas. Para ser honesto, entrei naquela situação sem sequer estar realmente preparado."

 

"É por isso que você é tão maravilhoso."

 

"Não, de jeito nenhum. Seu pai te criou com muito amor, e eu não tinha direito de ficar lá e falar daquele jeito."

 

Asuka sorriu com algum constrangimento e baixou a cabeça novamente. "Ele não é... um cara ruim."

 

"Eu sei. Se ele fosse um cara ruim, eu nunca teria recuado do jeito que fiz. Seu pai é decente. Um bom pai."

 

"Se você diz, então deve ser verdade."

 

Tinha certeza de que Asuka já sabia que era verdade. Era por isso que ela estava traçando a linha.

 

Talvez ela tivesse sido mais feliz se pudesse ter permanecido uma criança honesta e aberta. Neste mundo, há muitas crianças que entram em situações e empurram por seus próprios caprichos egoístas pelas razões mais frívolas, e há um número igual de pais por aí que cedem e apenas aceitam.

 

Mas Asuka não era assim.

 

Ela era o tipo de se sentir endividada com seus pais por criá-la, o tipo de entender a lógica por trás do que seus pais estavam dizendo. O tipo de considerar seriamente questões da vida real como as financeiras.

 

"Mas sabe," eu disse, "você não pode simplesmente desistir dos seus sonhos."

 

Asuka olhou para mim, mas não falou.

 

"Acho que seu pai está certo no que está dizendo, claro. A maioria das pessoas encontra situações em suas vidas onde têm que desistir de coisas. Mas acho que é errado desistir só porque alguém mais está te fazendo fazer isso."

 

"Olha quem fala," ela murmurou.

 

Tentei sorrir tão gentilmente quanto podia. "Isso mesmo, Asuka. Olha quem fala."

 

Os olhos de Asuka se arregalaram de repente, e ela olhou para baixo, ainda murmurando. "Desculpa... Sou a pior."

 

[Moon: Não é não me amor… Não é não!]

 

Balancei minha cabeça lentamente. "Tá tudo bem. Acho que você deve estar um pouco cansada. Mas não se preocupe comigo agora. Se preocupe com você mesma."

 

"Achei que podia ser mais como você, só que..."

 

Me senti um pouco culpado.

 

Mais como eu. Era gentil dela dizer isso. Mas neste tipo de situação, meus pais certamente não estariam fazendo alarde. Eles eram o tipo de pais que estavam bem com seu filho em idade de ensino médio vivendo completamente sozinho. Enquanto eu tivesse uma boa razão por trás disso, eles aceitariam meus planos pós-ensino médio, quer eu quisesse ir para a Universidade de Fukui ou Tóquio, ou onde quer que fosse. Eles não comentariam. Apenas enviariam dinheiro, como se fosse conclusão inevitável.

 

Então eu realmente não podia compartilhar os problemas de Asuka com ela no mesmo nível.

 

Eu tinha uma sensação de liberdade ilimitada que ganhei ao desistir do meu próprio sonho. Pessoas que ainda estavam perseguindo os seus não tinham esse luxo.

 

De alguma forma, tive a sensação de que isso realmente não era justo. Mas todos temos que nadar nesse mar de injustiça. Todos nós.

 

Enquanto permaneci em silêncio, Asuka continuou. "Sabe, quando você se virou para mim naquela época, disse que admirava o jeito que eu vivo, que eu parecia tão livre. Fiquei tão feliz em te ouvir dizer isso. Sempre quis ser esse tipo de pessoa. Senti que tinha chegado um pouco mais perto de quem eu queria ser. Me senti validada."

 

Estava prestes a dizer algo, mas ela me cortou. "A coisa é, mesmo assim... Acho que ainda tenho um longo caminho pela frente. Do jeito que estou agora... não posso te mostrar nada melhor. Estou esgotada. Vi como você se levantou depois de uma experiência muito, muito mais dolorosa, e não quero te arrastar mais para isso... Não estava tentando ser como uma irmã mais velha para você só para terminar assim."

 

Com um sorriso infinitamente triste, Asuka se levantou.

 

O vento colorido de pôr do sol soprou.

 

Soprou longe demais, como se estivesse tentando soprar de volta para ontem. Ou talvez estivesse tentando soprar em direção ao amanhã. De qualquer forma, era um vento forte.

 

Asuka prendeu o cabelo atrás da orelha esquerda e falou.

 

"Então aqui é que eu me despeço de você."

 

"Asuka..."

 

"Não vou esquecer o tempo que passamos juntos. Nossas conversas à beira do rio, a música que ouvimos. Nosso primeiro e último encontro. Vou manter minha memória de você guardada no álbum de fotos do meu coração, e nunca vou esquecer aqueles momentos fugazes de juventude que compartilhei com aquele cara incrível um ano mais novo que eu."

 

Ela se virou e começou a se afastar, e olhei para suas costas. Sempre um passo à minha frente, sempre aquela que eu admirava.

 

Me dá um tempo.

 

As palavras continuaram se repetindo na minha cabeça como um refrão.

 

Senti uma dor aguda e desapertei os punhos que estava segurando enquanto me vi completamente perdido na noite.

No dia seguinte, me arrastei como um balão vazio e cheguei ao fim do dia de alguma forma.

 

Vislumbrei Asuka na sala da biblioteca uma vez, mas ela parecia estar estudando com o Okuno. Aquela visão me deixou ainda mais deprimido.

 

Haru e Yuuko, que estavam ao meu lado, continuavam perguntando se algo estava errado, mas não era o tipo de coisa pela qual eu poderia pedir conselhos aos meus amigos. Além disso, ainda não tinha certeza se deveria tentar fazer algo sobre isso ou não.

 

Até que a própria Asuka me pedisse para ajudá-la, sabia que tinha que ficar fora disso.

 

A única coisa que me restava eram os vestígios de uma pequena promessa que nem tinha certeza se ela se lembrava de fazer.

 

Depois da aula, queria encontrar algo, qualquer coisa para fazer e me resetar mentalmente. Foi quando avistei Kenta, se preparando para ir para casa com uma quantidade surpreendente de animação.

 

Me joguei sobre minha mesa e o chamei. "O que te deixou tão feliz? Você tem um encontro?"

 

Kenta se virou surpreso, depois veio até mim com uma mola no passo. "Não é um encontro, Rei! É muito mais sério! Estou falando de casamento! Vou buscar minha nova esposa!"

 

[TMAS: Kenta é rápido hein]

 

"Espera; você não está fazendo sentido."

 

"É a data de lançamento do volume mais novo do meu maior fandom de todos! E há até uma versão de edição limitada da Animate! Você leu também, Rei, lembra?"

 

Então ele disparou um título, uma daquelas séries de light novels das quais eu realmente possuía cópias. Quando estava tentando convencer Kenta a sair do quarto, li cada livro da série para poder construir algum terreno comum com ele. Para ser honesto, estava um pouco curioso para ver o que ia acontecer no próximo volume.

 

"O que eu tenho a perder?" Me peguei murmurando. "Talvez eu vá com você..."

 

Os olhos de Kenta se iluminaram.

 

"Você está falando sério?! Vamos, vamos! E há tantas séries ótimas que você ainda não leu, Rei; deixa eu te mostrar! Se você encontrar alguma série com ilustrações ótimas que realmente te atraiam, há uma boa chance de que eu possa te emprestar minhas próprias cópias! Fico feliz em fazer isso! Tenho backups! Sou como um missionário distribuindo textos vitais; é assim que me vejo! Droga, vou te dar um conjunto inteiro para ficar de graça se quiser!"

 

"Ah... Uh-huh."

 

Eu havia ouvido falar disso, o lendário despejo de informações otaku.

 

E estava começando a parecer que os rumores que ouvi sobre otakus comprando múltiplos conjuntos da mesma coisa não eram apenas uma lenda urbana. Aparentemente, eles compravam um conjunto para ler, um para preservar, um para exibir, e outro para distribuir para outros que queriam viciar na série. Eu não conseguia processar bem o conceito de comprar um conjunto separado para manter em exibição, muito menos qualquer uma das outras coisas.

 

[TMAS: Pior que eu tô nesse nível já de comprar para amigos para divulgar obras que eu amo, revisora que o diga que ganhou presente de aniversário na steam | Moon: Essa sou eu aliás akakak]

 

Enquanto eu cedia ao entusiasmo de Kenta, Kazuki apareceu, rindo de forma odiosa.

 

"Qual é a comoção? Sobre o que estão conversando?"

 

"Uh, Kenta está indo à Animate, aparentemente, então estava pensando em ir junto."

 

"Sério? Talvez eu vá também. Então depois, podemos pegar jantar no caminho de casa."

 

"Hã? Você não tem treino de clube?"

 

"O técnico tem algum negócio fora da escola hoje, então não."

 

Ele estava bem ali, ouvindo nossa conversa, olhos brilhando por todo lado novamente.

 

"Sério? Vamos, vamos, Mizushino, vamos! Agora, tenho a impressão de que você não costuma ler light novels, então vou te emprestar uma série que acredito que seria a melhor escolha para um iniciante! Mas acho que você deveria dar uma espiada nas obras de arte e nas sinopses de algumas séries também e ver o que fala com você; essa é a beleza disso, sabe, a descoberta, e —"

 

“"Tudo bem, tudo bem."”

 

Kazuki e eu demos um passo para trás enquanto Kenta começou a divagar apaixonadamente novamente.

 

E então nós três acabamos indo à Animate em frente à Estação de Fukui.

 

Eu já tinha vindo nessa área inúmeras vezes antes com o Kazuki e o Kaito, mas

geralmente íamos comer ou ao Loft dentro da loja de departamentos, ou à MUJI, ou a

uma das lojas de roupas chiques que o Kazuki gostava. Ou então, a gente ficava na

livraria aqui perto. Para ser sincero, eu nem tinha percebido que havia uma

Animate aqui antes.

 

Certo, se for para ser sincero, eu lembrava sim de ter visto aquela fachada azul antes,
mas a única coisa que registrei sobre ela foi: "Certamente temos muitas
máquinas de gacha na frente daquela loja."

Eu esperava algo um pouco mais para o otaku hard-core, já que era o lugar que o Kenta estava nos levando, mas as prateleiras estavam, na verdade, cheias principalmente de mangás shounen normais, que tanto o Kazuki quanto eu lemos. Acabou que era mais uma livraria com forte ênfase em mangá, light novels e anime, em vez de algum tipo de paraíso otaku.

Havia até algumas garotas do ensino médio de aparência totalmente normal lá, que
não pareciam nem um pouco nerdolas.

Antes, quando eu procurava as light novels que o Kenta lia, precisei ir a quatro livrarias diferentes para encontrá-las todas, e foi uma verdadeira dor de cabeça. Mas esta loja tinha todas elas sob o mesmo teto.

Eu senti vontade de voltar no tempo e dar um peteleco na cabeça do culpado, dizendo: "Você devia ter me contado sobre este lugar antes!"

O Kenta do presente pareceu localizar rapidamente o livro que procurava, e então ele me arrastou para a seção de light novels e começou a catequizar.

Aliás, o Kazuki escapou depois de sentir o perigo e estava ocupado folheando as prévias gratuitas na seção de mangás.

"Rei, Rei, e que tal este aqui? Eu era um baita de um nerd enclausurado, mas agora estou saindo com a galera descolada?!"

[TMAS: Kenta tá escrevendo sua autobiografia.]

"Já chega do clichê do 'nerd que fica popular'", respondi cansado.


"Então que tal algo do ângulo oposto? Eu Comecei como um garoto popular superdotado e segui vivendo uma vida escolar inigualável cercado por gatinhas?"

[TMAS: O Chitose tá escrevendo sua autobiografia também. | Moon: Te falar que parecia peculiar…]

"Que tipo de título ridículo é esse? Quem leria algo assim?"

[Moon: QUEM NÃO É MESMO?]


"Acho que o autor não ficaria satisfeito em ouvir isso de alguém como você."

Acabei comprando dois livros que o Kenta recomendou, e então saímos da
loja.


"Quem quer comer?"

Fiz a pergunta enquanto guardava os livros na minha mochila, e o Kazuki respondeu.


"Hachiban ou katsudon?"


"Não é como se essas fossem as únicas duas opções disponíveis nesta cidade. Vamos comer algo diferente desta vez."

Kenta, que por algum motivo estava andando alguns passos atrás de nós, continuou.

"Que tal Burger King, então?"


"Hmm, nada mal. Afinal, só temos a chance de comê-lo perto da estação."

Kazuki topou, e eu não tinha motivo para objetar, então fomos para o shopping Happiring perto da estação.

Chegamos ao prédio, que tinha uma estranha estrutura esférica anexada que lembrava uma conhecida emissora de TV. Eu ainda não tinha ido lá, mas aparentemente a coisa esférica era algum tipo de planetário com resolução ultra-alta, 8K.

Um pensamento me ocorreu, de que este seria um ótimo lugar para vir
com a Asuka para nos divertirmos, mas o cortei. Primeiro, eu tinha que focar na
minha própria diversão.

Entramos no Burger King no segundo andar, e eu pedi um combo bacon
cheeseburger, enquanto o Kazuki pediu um combo double cheeseburger, e o Kenta
pediu um combo teriyaki Whopper Jr.

Havia alguns assentos junto à parede de vidro, que ofereciam uma visão completa da rotatória em frente à estação, então nos sentamos lá. Então todos começamos a comer.

Jogando uma batata frita na boca, Kazuki disse: "Grupo incomum que temos hoje, hein."


"Ei!"


Não fui eu quem respondeu, claro, mas Kenta.

Kazuki riu e continuou. "Quem diria que você acabaria comendo fast food em grupo depois da aula assim, Kenta."


"Quer dizer, você não está errado. Se eu ainda fosse o mesmo cara de antes do meu período
recluso, eu nem apareceria no seu radar, Mizushino."


"Nada disso. Eu teria notado você. Com desprezo, claro."

Eu intervim então. "Isso mesmo, Kenta. Este príncipe malvado de rosto angelical e
namorador secreto uma vez disse: 'Aquele garoto não é do tipo que pertence a um grupo como o nosso. Eu não discrimino, mas eu diferencio.'"

[TMAS: Primeiro volume, quem lembra, lembra.]


"Sério?! Mas quando eu tentei falar com ele pela primeira vez, achei que ele era um completo cavalheiro por dentro e por fora… Fiquei totalmente impressionado, droga!"

Kazuki acenou com a mão, indiferente. "Bem, eu me dou bem socialmente com qualquer um, contanto que eu me dê bem pessoalmente. Em termos de prioridades, coloco garotas fofas em primeiro lugar, depois meus amigos. Mas me pareceu um esforço inútil nos esforçarmos para adicionar um ex-recluso ao nosso círculo."


"Entendo."


"Não, você não entende."

Kenta estava assentindo compreensivamente, e eu tive que cutucá-lo um pouco.


"Mas sabe…" O cara com rosto de anjo ainda estava falando. "Agora, eu penso em você como meu amigo, Kenta. Gosto de pessoas que estão se esforçando para melhorar e seguir em frente."


"Heh… Eu também gosto de você.♡"


"Kenta, quer ir a algum lugar depois para ficarmos mais íntimos?"


"Topo.♡"


"Parem de se derreter por ele! Não caia nas armadilhas dele."

[TMAS: Romance gay aí, brotheragem]

Tive que intervir novamente, e então nós três explodimos em risadas.


Então me veio um pensamento, e mudei de assunto. "A propósito, Kazuki. Você já passou por um período rebelde?"


"Não. Não vale a pena."


"Isso faz sentido. Para você."


"Isso tem algo a ver com você estar emburrado o dia todo?"

Interpretando meu silêncio como um sim, Kazuki riu e continuou.


"A questão é, quando chegamos à nossa idade, somos capazes de considerar as coisas por
nós mesmos, agir por nós mesmos, e assim por diante. Talvez não tão capazes quanto
adultos, claro, mas somos capazes, e queremos fazer isso. Seus pais são meio incomuns, Saku, no sentido de que eles realmente respeitam isso. Mas muitos pais, a imagem que têm de seus filhos parece congelada na idade do ensino fundamental."

"Há uma enorme diferença entre um garoto do ensino fundamental e um do ensino médio."


"Certo. Você cresce pelos pubianos, aprende a se masturbar, alguns até começam a ter
relações sexuais. Mas para nossos pais, somos apenas crianças chatas que eles precisam controlar e guiar. Até encontrarmos uma maneira de preencher essa lacuna de perspectiva, não há como conversar com eles."

Kenta continuou, parecendo apologético. "Acho que quando você coloca dessa forma, eu certamente não posso negar. Eu aji  como a criança mais mimada que já precisou de orientação."


Ele está certo, pensei. "Isso me lembra, temos o garoto-propaganda do período rebelde bem aqui. Aposto que seus pais disseram: 'Volte para a escola' no início, hein? Mas você ficou trancado no seu quarto. Como foi isso?"


Quando perguntei isso, ele olhou para baixo, envergonhado, e limpou a garganta.

"O ponto principal era que eu simplesmente não queria ir, mas… agora, com o benefício da retrospectiva, posso ver que se meus pais tivessem realmente insistido para descobrir
o motivo, eu me sentiria muito isolado, como se fosse o único que realmente entendia como me sentia."


"Hmm, entendo."


"Um adulto poderia ter visto a resposta correta imediatamente, mas nós tendemos a sofrer em silêncio, debater o caminho certo a seguir e nos sentir muito mal com as coisas.  Podemos chegar à mesma conclusão no final, mas nenhum de nós quer pular a autoanálise e ter a resposta simplesmente jogada em nossas caras."


"É a idade em que a rejeição romântica mais simples parece o fim do mundo, afinal."

Kenta estava encolhendo em seu assento, mas não estávamos tentando tirar sarro
dele aqui.


Para ser honesto, o que ele estava dizendo realmente me deu um momento de insight.

Quando os pais olham para nós, eles veem o passado. Mas para nós, esse é o futuro. Acho
que essa é a chave aqui.


"Talvez esta seja uma opinião de quem já passou pela situação, mas…"


Kenta continuava.


"Mesmo se estivermos fazendo as coisas do jeito errado, precisamos atravessar nossos
sentimentos complicados e encarar a nós mesmos para sairmos do outro lado. Foi assim que acabei aqui, conhecendo você, Rei, e o resto do grupo. Para ser honesto, não tenho arrependimentos. Acho que no final, não importa que tipo de escolhas estão pela frente, contanto que você tenha certeza de que fez a escolha que verdadeiramente queria fazer, então é assim que você acaba construindo seu eu futuro… Sei lá, não estou me expressando bem."

"Parece que ser rejeitado e se enclausurar no quarto despertou o filósofo dentro de você."


"Queria não ter dito nada agora!"


Kazuki sorriu. "Você realmente é um cara engraçado, Kenta, não é? O Saku estava certo o tempo todo."


"Né?" Enquanto respondia, minha expressão ficou séria. "Sou muito mais inteligente
e perspicaz do que qualquer um de vocês dois."


"Dois? Não me misture com o Kenta."


"Você tem que traçar a linha cedo. Trace a linha aqui… Você provavelmente não vai ser um jogador profissional de beisebol. Você provavelmente não vai conseguir consertar o fato de ser um recluso a esta altura, então trace a linha aí. Mesmo se você se apaixonar por alguém, não há garantia de que ela vai gostar de você de volta. Trace outra linha. Dessa forma, você nunca vai se machucar emocionalmente; você nunca terá que se esforçar. Você vai se sentir confiante de que pode continuar vivendo bem no futuro também."


"Quando você não é do tipo que se empolga com nada."

Kazuki sorriu, um pouco triste. "Não acho que essa seja uma maneira tão ruim de ser. Eu gosto de ver outras pessoas se empolgando, mas não quero ser uma delas — o tipo de pessoa que fica tão empolgada que para de conseguir ver o chão sob seus pés. Em vez de um empreendimento de alto risco e alto retorno, prefiro um de baixo risco, baixo retorno que esteja por perto."

 

Pensei no pai da Asuka.


Ainda estava lidando com um sentimento persistente de irritação após a reunião de
pais e mestres, uma relutância em aceitar. Mas agora, ouvindo o mesmo tipo
de história de amigos que respeitava, foi meio que um soco no estômago.

Era como o Kura disse. Aquele cara, como professor, deve ter tido que supervisionar incontáveis alunos que tentaram morder porções de "alto risco" só para descobrir que não conseguiam mastigá-las.

Kazuki falou então, como se encerrando a conversa.


"Mas o estranho é que, neste mundo, há algumas pessoas que conseguem esses
altos retornos quando buscam algo de alto risco. Você pode dizer que essas
pessoas têm algo especial, mas uma coisa é certa: eu não tenho."

Não consegui pensar em nada para dizer em resposta. Apenas fixei o olhar na escura rotatória em frente à estação lá embaixo.


Os dinossauros animatrônicos iluminados estavam se movendo, exatamente como sempre faziam.

Naquela noite, eu tinha acabado de entrar na cama e estava planejando dormir quando recebi uma mensagem no aplicativo LINE.

 

*Você está livre amanhã à noite?*

 

*Sim. Posso ir à sua casa?*

 

*Claro.*

 

Ela enviou um adesivo de volta, mas fechei os olhos sem responder.

"E aí."

 

"Oi. Então por que você queria vir aqui?"

 

"Bem, por que você gostaria que eu viesse?"

 

"Como você fez isso soar tão sugestivo?"

 

Na noite seguinte, sexta-feira, Nanase apareceu no meu apartamento.

 

Ela deve ter vindo direto do treino do clube. Quando ela passou por mim entrando pela porta, peguei um cheiro de desodorante doce.

 

Ela colocou sua bolsa esportiva no canto do quarto e me lançou um olhar provocador. "Só achei melhor verificar se não há sinais reveladores de outra mulher por aqui."

 

"Não há sinais seus também."

 

Quando disse isso, ela riu e puxou uma sacola plástica amassada.

 

"Achei que poderíamos jantar juntos. Olha, um gyudon tamanho jumbo com muita cebolinha verde e um ovo por cima."

 

"É uma escolha incomumente masculina. Se você não pode preparar uma refeição caseira, pelo menos vá para algo como um prato de massa chique. Há muitas opções."

 

"Você já está recebendo refeições caseiras de certas damas que eu poderia mencionar. Além disso..." Ela parou então e olhou para mim com olhos lânguidos. "Caras gostam desse tipo de comida, não gostam?"

 

"Ah, não posso argumentar com você nisso!"

 

Picotei cenoura, rabanete e alho-poró e preparei uma sopa de missô simples, que trouxe à mesa.

 

Parecendo satisfeita, Nanase juntou as mãos. Sua expressão era radiante.

 

"Obrigada pela comida!"

 

"Obrigado."

 

Coloquei um pouco de molho na salada que ela havia comprado para acompanhar o gyudon e dei um gole na sopa de missô. Tinha um sabor um pouco mais leve que a sopa que Yua sempre fazia, mas não estava ruim.

 

"É tão bom! Está me aquecendo bem."

 

Nanase sorveu sua sopa também, enquanto falava.

 

"Se eu morasse com você, Chitose, aposto que pararia de cozinhar completamente. Não seria bom."

 

"Não seria bom você falar de morar juntos tão casualmente assim em primeiro lugar."

 

Coloquei o ovo cozido e cebolinha verde em cima do prato de carne e misturei levemente.

 

"Você não disse nada quando tivemos aquela sessão sobre planos futuros, mas decidiu o que vai fazer depois do ensino médio, Chitose?"

 

"Para ser honesto, não pensei nem um pouco nisso," respondi.

 

Nanase pareceu um pouco surpresa, mas então assentiu como se entendesse.

 

"A coisa é, quando eu estava fazendo beisebol, eu só pensava, 'Tudo bem! Vou tentar entrar no torneio de beisebol do ensino médio Koshien!' e só isso. Achei que se fizesse isso, todos os olheiros profissionais iriam querer falar comigo. Esse era meu plano. Se não funcionasse, meu plano reserva era ir para uma faculdade com um bom time de beisebol e tentar ir adiante desse jeito."

 

Acho que, naquele dia, Asuka deve ter percebido que eu não gostaria de falar sobre isso, então ela suavemente desviou a conversa de mim.

 

Entrar no torneio Koshien num time de escola de cidade pequena, atrair atenção e me distinguir, depois ir profissional.

 

Você pode pensar que era infantil, mas eu honestamente acreditava que tinha uma chance de agarrar um sonho assim. O tipo de sonho sobre o qual você só lê em mangá.

 

"Ah, você ainda está de férias de verão, certo?"

 

"Hmm."

 

Essa é uma maneira estranha de colocar, pensei.

 

Depois que o beisebol deixou minha vida, me vi incapaz até de conseguir imaginar que tipo de futuro eu poderia ter.

 

Tinha a sensação de que este ano inteiro tinha sido só eu matando tempo até que o buraco na minha alma se preenchesse, mas recentemente sentia que ele ainda estava lá.

 

Dito isso, quando você descascava a capa fina, ainda havia um grande buraco aberto deixado para trás.

 

Provavelmente teria que encontrar algo mais para preenchê-lo em algum momento.

 

É por isso que eu não queria que Asuka tivesse que passar pela mesma coisa.

 

Nanase não me perguntou mais nada, então decidi virar a pergunta dela de volta. "Você disse que está planejando ir para a faculdade fora da prefeitura, certo?"

 

Nanase pausou e engoliu cuidadosamente sua bocada de carne antes de responder. "Isso mesmo."

 

"É há algum tipo de razão especial para isso?"

 

"Hmm, nada de muito importante, realmente. Lembra como te contei que não queria falar com meus pais sobre aquele incidente do perseguidor?"

 

"Sim."

 

Na época, não pensei muito sobre isso. Só coisas típicas de estudante do ensino médio, pensei.

 

"Acho que fiz um bom trabalho atendendo à maioria das expectativas dos meus pais. Não causei a eles nenhuma grande preocupação. Mas sabe, é um pouco sufocante ter que viver assim, não é? Pelo menos durante a faculdade, quero viver mais livremente, ter alguma independência, sabe. Acho que esse é meu pensamento."

 

"Acho isso razoável o suficiente para um caminho futuro."

 

Quando disse isso, Nanase franziu um pouco a testa.

 

"Ah, desculpa. Não quis dizer que era chato ou algo assim."

 

"Eu sei. Você não é o tipo de pessoa que diria algo assim, Chitose. Acho que acertei sobre a razão de você estar meio pra baixo ultimamente também."

 

Enquanto ela ainda estava falando, Nanase havia terminado de comer e estava amassando os recipientes de gyudon e salada. Então ela trouxe nossas tigelas de sopa para a pia e começou a lavá-las.

 

Depois de secá-las com uma toalha, ela parecia ter um pensamento repentino sobre algo, e então desligou as luzes do quarto.

 

Ela se aproximou, confiando na luz suave do seu telefone para guiá-la.

 

"Ei. Vem aqui."

 

Ela sussurrou no meu ouvido.

 

Sua respiração doce enviou um arrepio pela minha coluna.

 

Ela foi para o quarto, e eu a segui.

 

Ela abriu a porta e apontou a tela do telefone para dentro do quarto, depois com uma risadinha, ela ligou minha lâmpada em forma de lua crescente.

 

Então ela sentou na cama e deu um tapinha no espaço ao lado dela.

 

Iluminadas pela luz suave, suas coxas brancas estavam em total exibição.

 

Sentei ao lado dela, exatamente como ela me convidou, e ela gentilmente tocou meu pescoço.

 

Pude sentir um cheiro feminino, distinto do desodorante.

 

Nanase inclinou o rosto próximo ao meu, e então —

 

— ela apertou meu pescoço ameacadoramente.

 

"Vamos. Desembucha."

 

"Nanase, esse é o movimento especial da Yua. E do que você quer que eu fale?!"

 

"A coisa que tem estado na sua mente, Chitose, é isso."

 

"...Posso perguntar uma coisa?"

 

"Hmm?"

 

"O que foi toda aquela preparação sensual?"

 

"Achei que você se sentiria mais confortável cuspindo seus segredos em luz fraca."

 

"Vou te jogar na minha cama de novo se não tomar cuidado, mocinha."

 

"Ooh, não!♡"

 

Droga. Tive que ir e ficar todo animado, não foi?

Depois disso, falei sobre Asuka.

 

Sobre como não tinha certeza do que fazer, depois de tudo.

 

Nanase ouviu cuidadosamente, acenando solenemente.

 

Cheguei à parte onde Asuka disse adeus, e então suspirei.

 

"Então foi isso que aconteceu."

 

Quando olhei para trás na pequena visita de Nanase esta noite, percebi que ela já havia entendido tudo isso.

Ela claramente sabia que eu não desembucharia a menos que ela me manuseasse habilidosamente, com delicadeza.

 

"Sabe," Nanase disse, sua voz suave e gentil, "você é realmente um idiota muito maior do que percebe, Chitose."

 

Esquece isso.

 

"Você age esperto e sempre faz as coisas parecerem tão complicadas, mas se preocupa com coisas muito simples. Você agoniza, e então apenas varre tudo para o lado e banca o bobo."

 

"É melhor encerrar aí, ou o pobre Saku vai ter seus sentimentos machucados, sabe?"

 

"Eu, ou Mizushino, por exemplo. Somos melhores em esconder nossos sentimentos. Mas você não consegue, Chitose. É por isso que você é um idiota."

 

Entendeu? A garota bonita inclinou a cabeça para o lado, me observando.

 

"Há apenas uma coisa que você pode fazer, e é a mesma coisa que você sempre fez."

 

Então Nanase me agarrou pela frente da camisa, como se estivesse com vontade de brigar.

 

"Encare aquele muro que está na sua frente e derrube-o com tudo que você tem. Esmague-o."

 

Ela bateu a mão no meu rosto, quase com força suficiente para chamar de tapa, e então amassou minhas bochechas juntas.

 

"Você é um homem, não é, Saku Chitose?"


Levou cada centímetro de autocontrole que eu tinha para não jogar meus braços ao redor da garota sentada ao meu lado.

 

"Caso contrário" — Nanase lambeu o lábio lascivamente — "vou te jogar aqui mesmo e fazer o que quiser com você."

 

"Devoradora de homens."

 

"Quer ficar para dormir, Nanase?"

 

"Não coloque palavras na minha boca!"

 

Olhei para Nanase, que estava rachando de rir, e percebi que todos os pensamentos girando na minha cabeça pareciam ter se acalmado.

 

Nos olhos dos adultos, realmente somos todos apenas crianças, acho.

 

Então o que havia de errado em agir infantilmente? Ser um pouco selvagem e impulsivo?

 

"Obrigado, Nanase."

 

"Uh-huh."

 

Ela ainda estava levemente amassando minhas bochechas juntas. Sabia que parecia bizarro mas eu não me importava, apenas fiquei olhando seu belo rosto.

 

"Ah, parece que forneci munição pesada para a pessoa menos indicada..."

O suspiro quase inaudível de alguém se dissipou no céu noturno da cidade do interior.

Fwish. Clack.
Fwish. Clack.

No dia seguinte, sábado. Cinco da manhã, ainda cedo.

Banhado pela primeira luz do amanhecer, eu praticava arremessos.
Aquilo me lembrava os tempos de treino de beisebol. Claro, a gente não acordava tão cedo assim. Mas a memória era agradável.

Fwish. Clack.
Fwish. Clack.

Nos últimos minutos, eu vinha pegando pedrinhas minúsculas — nem davam para chamar de pedra — e arremessando-as contra meu alvo.

Fwish. Clack.
Fwish. Clack.

Eu estava contente por ser manhãzinha de fim de semana.
Se alguém me visse agora, poderia pensar que eu estava aprontando algo.

Fwish. Clack.
Fwish. Clack.

Já estava nisso há uns vinte minutos.
Mas finalmente, estava obtendo o resultado que queria.

A janela do segundo andar se abriu com um tinir.
Uma cabeça sonolenta surgiu, e quando a pessoa viu quem era, eu inspirei profundamente.

"Um novo diii-aaa raiou!"

Comecei a cantar a música que acompanha o exercício de ginástica que passava no rádio.

Asuka olhou para mim confusa por uns dez segundos, ainda tentando processar o que estava acontecendo. Então...

"Hã? ...Iii!"

Rapidamente alisando o cabelo despenteado, ela cruzou os braços protetores na frente de seu pijama de cetim e se abaixou abaixo do parapeito da janela.

Após mais uns dez segundos, sua cabeça reapareceu, e ela me espiou. Enquanto alisava o cabelo com a mão.
"O-o que você está fazendo?"

A manhã estava tão quieta, que nem um único carro tinha passado. Eu conseguia ouvir a Asuka perfeitamente sem que ela precisasse nem levantar a voz.
Ela ainda parecia estar em estado de pânico, e eu não pude evitar um riso sufocado.

"Eu te disse que este dia chegaria, certo? Disse que te convidaria para um encontro ficando debaixo da sua janela e cantando a música da ginástica do rádio."
"Mas... no outro dia... eu te disse..."
"Não levei a vida toda até agora para perceber que, quando uma garota diz adeus, o que ela realmente quer dizer é para você correr atrás dela." Eu me virei para a janela e estendi a mão.
"Desce, Asuka. Eu vim para te levar comigo."

Por um instante, Asuka pareceu que ia chorar, então pareceu engolir o choro. Ela baixou a cabeça por um momento, e então, como se reunisse sua coragem, encontrou meu olhar e o manteve.
"Meia hora! Ou pode demorar um pouco mais. Me espera no parque ali!"

Foi tudo o que ela disse, então fechou a janela rapidamente.
Eu comemorei silenciosamente com um soco no ar.

Quando a Asuka disse adeus naquela vez, ela colocou o cabelo para trás da orelha esquerda, sabe.

Comprei um café preto na máquina de venda automática e me sentei em um banco no parque próximo, de onde dava para ver a casa da Asuka.

Comecei a sorrir, me perguntando o que eu pensava que estava fazendo.
Achei que estava agindo de maneira infantil e impulsiva, mas talvez estivesse exagerando.

Ontem à noite, depois que me decidi a levar a Asuka para Tóquio, corri até a Estação de Fukui. Mas depois de comprar as passagens, lembrei que não sabia o endereço no LINE da Asuka nem o número de telefone dela.

Eu a tinha levado para casa muitas vezes, então sabia onde era sua casa e a localização aproximada de seu quarto. Mas não podia exatamente tocar a campainha e dizer:
"Com licença, só estou pegando sua filha emprestada um pouquinho."

Sobrou apenas o método antigo.

Ainda assim, o risco de ser descoberto era alto demais enquanto os pais dela estivessem acordados. Pior ainda, um vizinho poderia me ver e soar o alarme.

Leva cerca de três horas de trem para ir de Fukui a Tóquio de qualquer forma. Eu
queria deixar bastante tempo para voltar antes do anoitecer, então planejei sair
logo de manhã.

Puxei a anilha da lata de café e tomei um gole.

Acho que realmente sou um idiota, como a Nanase disse.

Não estava acostumado a acordar tão cedo, então não demorou muito para eu me pegar cochilando no banco.

"...Alô?"

Alguém bateu no meu ombro, me chamando.
Arrastei minhas pálpebras pesadas para abri-las, e...

"Bom dia."

... Uma linda garota estava ali, em um vestido branco puro, sorrindo ao meu lado.
"Asuka..."

Por um momento, senti que estava à beira de lembrar algo, mas a memória escapou, muito vaga e indistinta para ser agarrada.
"Bom dia. Você está ótima."

Asuka coçou a bochecha timidamente. "É demais? Talvez eu tenha exagerado."
"Nada disso. Você parece ter saído de um sonho."
"Sério?"
"Se não fosse pelo cabelo ainda um pouco despenteado, você estaria perfeita."
"O quê? Não! Mas eu pensei que tinha consertado?!"
"É brincadeira."
"Hmph!"

Ela estava usando uma espécie de vestido branco-antigo, do tipo que pode fazê-lo pensar, Sério? Neste ano? Mas ela ficou ótima nele, como algo saído de uma pintura antiga.

Aquele vestido fica incrível em você, como eu imaginava.

Lembrei-me de um fragmento de uma conversa que tivemos.

Asuka se levantou e ficou de frente para mim. Sua saia esvoaçou um pouquinho, como se pressagiasse a chegada de uma história de verão distante.

"Vai me levar agora?"

Ela estendeu a mão, sorrindo suavemente, e eu a peguei e apertei forte paranão perdê-la de vista.

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