Volume 1
Capítulo 12: Tabuleiro em Movimento
Saímos da academia e seguimos até o dormitório, parando em frente ao quarto de Grennor. Ele tirou a chave do bolso, abriu a porta e fez um gesto, convidando-me a entrar. Avancei.
O quarto dele parecia apenas um pouco maior que o meu. Nas paredes, havia desenhos de garotas em poses de combate, como se fossem heroínas. Observei cada um deles até que uma, de cabelos castanhos, chamou minha atenção. Ela sorria alegremente, e sua aparência me lembrava Karen.
— Você gosta de desenhar? — perguntei.
— Sim, é meu passatempo nos fins de semana. Aqui, sente-se.
Ele colocou a sacola que carregava sobre a escrivaninha e me entregou uma almofada, acomodando-se em outra à minha frente. Mesmo havendo uma cadeira no quarto, preferiu sentar-se no chão comigo.
— Vou te passar algumas informações importantes para que você tenha uma vida mais tranquila na academia, então preste bastante atenção — começou Grennor, em um tom sério e firme.
— Certo.
— Você precisa se familiarizar com as facções da academia. Normalmente, elas não causam problemas para quem não se envolve, exceto por alguns alunos problemáticos, que acabam criando confusão.
Mantive-me em silêncio, atento, querendo garantir que nenhuma informação fosse esquecida.
— Existem cinco facções na academia. Não espero que você acompanhe todas, mas sim duas em especial: Lua Flamejante e Alvorecer de Cristal.
Repeti mentalmente “Lua Flamejante”, tentando lembrar de onde já tinha ouvido esse nome, até que recordei: a garota do refeitório havia mencionado pertencer a essa facção quando Knox a confrontou.
Talvez Knox tenha se metido em problemas.
— Algum problema? — Grennor percebeu minha distração.
— Ah, não… É que hoje de manhã, no refeitório, uma garota discutiu com um colega meu e disse fazer parte da Lua Flamejante.
Grennor ficou imóvel. Seu olhar desceu para o chão, e a preocupação tomou conta de sua expressão. Ele levou a mão à testa, demonstrando inquietação.
— Você teve algum envolvimento direto nessa discussão?
— Não, eu apenas assistia junto de Valkyrie. Até tentei impedir, ma—
— Ótimo — ele me interrompeu. — Fico mais tranquilo sabendo que você não foi marcado. Ouvi dizer que um aluno de cabelos brancos participou da briga e chegou a socar outros estudantes. Não duvido que ele comece a ser perseguido pelos membros da Lua Flamejante.
Pelo que ele dizia, Knox havia se envolvido em algo sério. Fiquei inquieto, imaginando que outras brigas poderiam surgir, então resolvi tentar encontrar uma solução com Grennor para ajudá-lo.
— Grennor, há algo que possamos fazer para ajudar Knox?
— Sem chances. A líder da Lua Flamejante não é alguém fácil de lidar. Foi ele quem causou essa confusão?
— Sim, mas ele não provocou a briga. Ele salvou uma garota que estava sendo atormentada pelos outros alunos! — corrigi, defendendo-o.
Grennor me encarou e levou a mão à testa novamente, como se refletisse profundamente — parecia ser um hábito seu. Permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de soltar um longo suspiro e voltar a me olhar.
— Ele salvou a garota, certo?
— Sim.
— Certo. Vou entrar em contato com minha líder e ver o que pode ser feito por ele.
— Sua líder? — perguntei, confuso.
— Esqueci de mencionar — disse ele, apontando para si mesmo —, faço parte da Fortaleza da Resistência.
Fiquei surpreso com a revelação. Comecei a perceber que membros das cinco facções poderiam estar espalhados por toda a academia. Olhei pela janela e notei que já estava escuro. Grennor percebeu.
— Não se preocupe com o horário. A academia não tem toque de recolher; você pode até dormir no corredor do dormitório que ninguém se importará. Mas, claro, é bom deixar espaço para os outros passarem. Caso contrário, não duvido que te empurrem para abrir caminho — disse, rindo. — Tem mais alguma dúvida sobre a academia?
Aquilo me tranquilizou. Voltei a pensar nas facções e no motivo de serem tão perigosas, então perguntei:
— Por que as facções são motivo de preocupação? Especialmente Lua Flamejante e Alvorecer de Cristal?
— Cada facção segue uma ideologia. Vou usar a minha como exemplo: nosso líder não tolera discriminação contra plebeus nem injustiças, então não somos vistos como agressivos — ele franziu o cenho antes de continuar. — Por outro lado, a Lua Flamejante é o oposto. Eles não acreditam que plebeus e nobres devam estar em igualdade. A líder deles pertence à renomada casa Velmora: Seraphina.
O sobrenome Velmora era o mesmo de Floy, o que sugeria alguma relação familiar com Seraphina — talvez irmãs ou primas. Ainda assim, não conseguia imaginar Floy como alguém ruim, já que, em nosso primeiro encontro, fui tratado com respeito.
— Quanto ao Alvorecer de Cristal, eles valorizam os fortes e habilidosos, desprezando não apenas os sem talento, mas também os plebeus.
— Mesmo que algum plebeu seja muito forte? — perguntei.
— Sim. Nesse caso, o desprezo seria ainda maior. A maioria deles possui sangue nobre puro. Além disso, o próprio príncipe faz parte dessa facção… — notei Grennor cerrar o punho, mas logo se acalmou e continuou. — As facções Sentinelas da Fera e Mar de Saberes não causam problemas relacionados à discriminação, então não se preocupe com elas.
Assenti. Pensei em perguntar sobre os líderes das facções, mas o som do meu estômago roncando interrompeu meus pensamentos. Eu não havia comido nada desde a manhã e tinha me esquecido de passar no refeitório mais cedo.
— Haha, ninguém é de ferro. Ei, você pegou sua janta no refeitório? — perguntou Grennor.
— Hã? Podemos pegar jantar lá?
— Claro, não temos cozinha nos quartos. Ou você pretendia ir à cidade todos os dias comprar comida?
Não fiquei surpreso com sua lógica; era a única alternativa além de receber as refeições no refeitório.
— Não sabia que precisávamos pegar o jantar lá…
Grennor se levantou da almofada, foi até a escrivaninha, abriu a sacola e pegou um pão recheado embalado, entregando-me em seguida.
— Não, não posso aceitar.
— Relaxa, eu sempre pego dois.
Sem motivos para insistir, aceitei o gesto. Ele olhou para o relógio na parede; acompanhei seu olhar e vi que já eram quase oito horas.
— Já está ficando tarde. O mais importante eu já te contei, então tome cuidado daqui em diante.
Desde que encontrei Grennor, ele vinha me ajudando constantemente. Senti que lhe devia gratidão, mas uma dúvida surgiu: por que ele me ajudava tanto? Buscando uma resposta, decidi perguntar.
— Obrigado, mas Grennor… por que você ajuda um plebeu? Não acho que ganharia algo com isso…
Ele pareceu confuso por um instante, mas respondeu com firmeza:
— E por que não ajudaria? Não é porque você é plebeu que deixa de ser humano. Todos têm o mesmo valor; não se diminua por causa da opinião dos outros, seu idiota!
Suas palavras iluminaram meus pensamentos. Sua expressão era de raiva, mas não parecia direcionada a mim. Senti-me mal por ter questionado.
— Você tem razão, desculpe.
— Na Fortaleza da Resistência todos pensamos assim. Agora é melhor você ir para o seu quarto. Mesmo sem toque de recolher, é importante dormir cedo para encarar as aulas exaustivas de amanhã. Sobre o caso de Knox, vou pedir ajuda ao líder da minha facção.
Ele estendeu a mão, e eu a segurei para me levantar. Caminhamos até a porta e, de relance, notei um retrato sobre a escrivaninha. Nele, duas crianças — um garoto de cabelos alaranjados e uma garota de cabelos castanho-escuros — estavam lado a lado, com os braços sobre os ombros um do outro, sorrindo.
Não havia dúvida de que eram Grennor e Karen.
Caminhei de volta ao meu quarto enquanto comia o pão, o sabor era levemente picante.
Ela odiava coisas picantes…
Já de volta ao meu quarto, após um longo dia, joguei-me na cama, observando o teto sem graça. As palavras de Grennor me trouxeram confiança; com alguém experiente e confiável ajudando no problema de Knox, certamente tudo seria resolvido.
Retirei o pingente do bolso, segurando-o com força enquanto estendia a mão em direção ao teto distante.
— Ainda fraco… parece que nada mudou desde aquela época.
Fechei os olhos, permitindo que memórias que preferia evitar retornassem. Por mais preciosas que fossem, também eram uma maldição. O único fio de esperança que eu tinha… perdido por minha própria fraqueza.
— Lyra.
Se alguém deveria ter morrido naquele dia… esse alguém era eu.
【 ☽ ─ ✧ ─ ☼ 】
Após uma boa noite de descanso, cheguei à escola para meu segundo dia de aula. Os corredores não estavam tão cheios quanto imaginei, considerando que a instituição possuía pelo menos duzentos alunos.
— Bom dia, Gindo!
— Bom dia, Karen!
Correndo pelo corredor de forma despreocupada, Karen balançava seus cabelos castanhos de um lado para o outro. Seu uniforme azul-marinho sempre avisando que ela pertencia ao segundo ano.
Por estar um ano à frente, sua força certamente seria algo surpreendente. Até agora, eu só conseguia vê-la como uma garota doce que ama seu noivo — embora, às vezes, talvez não fosse tão doce… pelo menos não com Grennor.
— Gindo, volta pra Terra!
Sem perceber, ela já havia se aproximado o suficiente para conversarmos normalmente. A cumprementei novamente e prossegui mencionando o Livro de Progresso.
— Ah, esse livro? Bem…
Ela ergueu a mão à minha frente e a abriu. De repente, um brilho azul começou a se formar, até que um pequeno livro de capa azul apareceu sobre sua palma.
— Aqui está. O que você queria saber sobre ele?
Karen perguntou, segurando o pequeno livro entre os dedos, lançando-me um olhar curioso com um dos olhos semicerrado.
— Uau! Ah… não, foco. Pode me dizer o que há nele?
— Heh… bem…
— Claro, se não houver problema — acrescentei.
Suas bochechas coraram levemente enquanto desviava o olhar. A primeira coisa que me veio à mente foi que o livro talvez contivesse informações constrangedoras.
— Acho que não tem problema.
Notei hesitação em suas palavras, mas ela abriu o livro e o segurou em frente de meu rosto. Observei a página que ela voluntariamente mostrou.
Isso é…
— Nome: Karen Jorn, idade: 19 anos, peso: 52 qui—
Interrompi a leitura quando o livro foi empurrado contra meu rosto. Acabei tropeçando e caindo de costas. Olhei para Karen, que estava vermelha como um tomate, encolhida de joelhos.
— Você não precisava ler em voz alta!
Hein? Mas não tinha nada demais.
De fato, além disso, havia outras informações, como altura e tipo sanguíneo.
— Vamos logo para nossas salas… e nada de comentar sobre o que viu, entendido?
Assenti ao pedido — ou melhor, à ordem — e seguimos pelo corredor. Vi Grennor logo à frente, esperando na porta da minha sala. Virei o rosto discretamente para observar Karen.
Sua expressão indiferente me fez pensar que a atitude do noivo talvez já tivesse sido esquecida.
— Você não presta — disse Karen.
— Um dia eu presto — brincou Grennor.
Os dois trocaram palavras como se nada tivesse acontecido. O sorriso confiante de Grennor, junto de sua resposta, tornava tudo ainda mais estranho.
— Não falte à aula ou vou te caçar. Até mais, Gindo — e não dê ouvidos demais a esse idiota.
Ela se despediu e seguiu pelo corredor sozinha.
— Então… vocês fizeram as pazes? — perguntei.
— Difícil seria não fazer — ele riu, antes de adotar uma expressão mais séria.
Estávamos em frente à minha sala, ele desencostou da parede e olhou em meus olhos.
— Já falei com minha líder. Ela vai te ajudar…
— Sério? Que ótimo, assi—
Fui interrompido antes que terminasse, o que me deixou inquieto. A ideia de que poderia haver um preço pela ajuda só aumentou essa inquietude.
— Não sei se “ajudar” é a palavra certa. Troca de favores é mais adequado. Você precisa nos ajudar primeiro; só assim ela concordou em te dar suporte.
Não era dinheiro, mas um favor. Esse resultado inesperado me deixou sem reação, então decidi pensar melhor antes de responder. Grennor aproveitou para continuar:
— Antes de me dar uma resposta, pense com calma. Preciso ir agora. Venha ao lado direito do ginásio depois, para nos dar sua decisão. O favor não é perigoso.
Concordei, preferindo refletir até o fim do dia. Grennor já se afastava quando parou e pediu que eu trouxesse Valkyrie comigo.
— Certo, vou falar com ela.
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