Caminho do Fim Brasileira

Autor(a): Quiceath


Volume 1

Capítulo 11: Palavras que Ferem

Que dor de cabeça… sinto como se um cavalo tivesse me atingido.

Eu estava deitado em um lugar que nunca havia visto antes. Olhei ao redor e notei flores por todos os cantos: sobre mesas, cadeiras, perto da janela e até algumas presas ao teto.

Uma garota de longos cabelos verdes estava sentada, aparentemente distraída. Seu uniforme era vermelho, o que me levou a acreditar que fosse do terceiro ano. Decidi chamar sua atenção.

— Com licença… onde estou?

Ela interrompeu o que fazia imediatamente e voltou o olhar para mim. Sua expressão era gentil.

— Oh, você acordou. Como está se sentindo?

Ela ignorou minha pergunta e fez outra no lugar. Sentei-me na cama e olhei pela janela; parecia já ser o fim da tarde. Voltei a encará-la antes de responder.

— Minha cabeça dói… não consigo lembrar o que aconteceu.

— Entendo. Vou pegar um remédio para você — disse, levantando-se. — Sofia te carregou até aqui e nos contou que você sofreu um acidente, então cuidamos de você.

Lembrei-me então do ocorrido. Sofia havia me acertado com uma joelhada durante o treino. Não era de se admirar que minha cabeça estivesse latejando daquele jeito.

Ela parou diante de um armário, procurando algo. Após alguns instantes, virou-se e caminhou até mim, sentando-se em uma cadeira ao lado da cama. Pude ver melhor seus olhos verdes, grandes e carregados de gentileza. Havia uma bela presilha dourada em formato de flor presa aos seus cabelos.

— Aqui, Gindo. Beba isto, vai te fazer sentir melhor. Não ligue muito para o gosto; os melhores remédios costumam ser amargos — disse, estendendo-me uma xícara, com uma serenidade contagiante no olhar.

— Obrigado… argh!

O gosto era realmente horrível. Acabei deixando escapar um pouco. A garota observou em silêncio enquanto eu lutava contra o gosto amargo. Em seguida, tirou um lenço do bolso e me ofereceu.

— É forte, né? — comentou, com um leve sorriso.

— Obrigado de novo… e me desculpe.

— Não tem problema. Beba devagar. Vou te explicar o que aconteceu.

Ela começou a relatar os acontecimentos. Disse que Sofia havia me feito desmaiar durante o treino, quando seu joelho acertou em cheio minha testa. Sem esperar por aquilo, Sofia me carregou até o segundo andar, trazendo-me para essa sala, que pertencia ao clube de jardinagem. Ali, os membros do clube cuidaram de mim.

Perguntei por que Sofia não havia me levado à enfermaria. Ela explicou que, para evitar um sermão, preferiu me trazer ao clube, onde havia alguém capaz de me tratar.

— Meu nome é Vaelira Alderwyn. Sou a líder do clube de jardinagem. No momento, os outros integrantes estão ocupados com suas tarefas.

— Entendi. Muito obrigado por cuidar de mim! — levantei-me da cama, curvando-me levemente em sinal de gratidão.

— Não há problema — Vaelira olhou para o relógio antes de voltar sua atenção para mim. — Gindo, a última aula da tarde está prestes a terminar. Talvez seja melhor você ir para o dormitório descansar.

Endireitei-me e conferi o horário. Faltava pouco mais de uma hora para o fim das aulas. Fiquei surpreso com o tempo que havia passado inconsciente, mas esse pensamento foi interrompido pelo som alto do meu estômago roncando. Eu não comia nada desde a manhã.

— Temos alguns biscoitos do clube, se quiser — disse Vaelira, mantendo o sorriso gentil.

— Não, não! Seria incômodo demais. Muito obrigado pela gentileza, Vaelira!

Ela respondeu apenas com um sorriso. Lembrei-me então das duas garotas que havia visto mais cedo no campus. A imagem da outra, que usava uma presilha prateada e havia me encarado, ainda estava vívida em minha mente. Caminhei até a porta e, quando coloquei a mão na maçaneta, Vaelira chamou minha atenção.

— Gindo, estamos no segundo andar. As escadas para o primeiro ficam à direita, no final do corredor. Por favor, vá direto para lá.

Seu olhar carregava uma preocupação estranha. Aquilo não soou como um simples pedido, mas quase como uma ordem. Lembrou-me de como uma mãe advertiria o filho para dormir cedo… embora eu sequer soubesse o que era ter uma mãe.

— Entendido.

Soltei um breve sorriso em resposta. Abri a porta e encarei o longo corredor antes de começar a caminhar em direção às escadas.

Sofia me carregou sozinha da sala de treinamento até o segundo andar… qual seria a força física daquela garota? Essa e outras perguntas surgiam em minha mente.

— Olá, olá! Estamos ao vivo com as notícias do fim da tarde!

Fui surpreendido pela imagem de uma garota, projetada abaixo do teto, no meio do corredor à minha frente. Era Sara Westar, a mesma que eu havia encontrado pela manhã.

— Faltam dois meses para o início do Torneio de Classificação do primeiro e segundo ano. Será que este ano os novatos vão conseguir surpreender os veteranos? No terceiro mês do ano, saberemos!

Observei enquanto ela tentava organizar várias folhas, mas algumas escapavam de suas mãos e caíam no chão.

— Problemas técnicos… estamos enfrentando problemas técnicos nessa chuva! — disse Sara, desculpando-se, embora não estivesse chovendo.

— Então, então… — continuou, fazendo-me pensar que talvez tivesse esquecido o roteiro — os novos alunos deste ano estão incríveis! O cão louco surpreendendo a todos com sua ferocidade descontrolada, e, na mesma sala dele, temos o anjo silencioso! Mas, com certeza, a favorita para o torneio deste ano é a dupla Chama de Gelo do primeiro ano A!

Chama de Gelo... ela certamente se referia a Floy e sua amiga Amanda. Aquelas duas são realmente muito fortes, embora, no dia do despertar da Arma da Alma, eu não as tenha visto entrar no salão. 

Perguntei-me que armas teriam despertado.

— Mudando de assunto, hoje tivemos declarações atrás da escola, onde do—

Ela se calou, olhando para algo que eu não pude ver, já que o espelho mágico mostrava apenas ela e o fundo.

— Do que está falando? Isso não é fofoca, é notícia! Ei, se afa—

O espelho mágico ficou branco. Em seguida, começou a oscilar, como se fosse se desfazer a qualquer momento, até que pareceu se estabilizar novamente. O garoto que encontrei junto a Sara pela manhã apareceu, substituindo-a.

— Boa tarde, pessoal. Peço perdão pelo inconveniente; o problema já foi resolvido. Vamos dar prosseguimento.

De repente, meu bolso começou a brilhar em um vermelho intenso, como sangue. Mesmo assustado, levei a mão até ele e encontrei a fonte da luz: meu pingente.

Já não ouvia mais as palavras do garoto no espelho flutuante. Minha atenção estava totalmente presa ao pingente, que pulsava como um coração.

O que está acontecendo?

Seu centro, antes azul, agora emitia um vermelho intenso. Aquilo me assustava, mas também despertava minha curiosidade. Uma determinação cresceu dentro de mim, então apontei a mão para o longo corredor e tentei reunir mana.

Tentei formar uma esfera de água, mas tudo o que saiu foram duas míseras gotas. Poderia ser chocante, mas eu já esperava algo assim.

Olhei novamente para o pingente, tentando analisá-lo com mais atenção. O vermelho era tão intenso que chegava a me causar enjoo. Comecei a pensar que talvez fosse uma reação a algo… talvez até um sinal de perigo.

Ainda estou no segundo andar…

Olhei ao redor. O corredor vazio e silencioso não parecia oferecer ameaça, mas talvez o perigo estivesse justamente em pensar assim.

Com esse pensamento, guardei o pingente no bolso e acelerei o passo. Lancei um olhar de relance ao espelho mágico, que pareceu reagir à minha presença, desaparecendo conforme eu me afastava.

***

Cheguei ao primeiro andar. O corredor já estava vazio; provavelmente a maioria dos alunos já havia ido embora, já que o horário das aulas havia terminado. Continuei caminhando até minha sala. Ao chegar à porta, a professora Cristina estava saindo e voltou-se para mim.

— Sofia me contou o que aconteceu. Já se recuperou?

— Sim, embora ainda sinta um pouco de dor de cabeça — respondi, levando a mão à testa.

— Entendo. Vá para o seu quarto descansar. Pedi à Valkirye que te entregasse o Livro de Progresso amanhã.

Fiquei confuso ao ouvir o nome daquele livro. Não sabia exatamente o que era, embora soasse familiar.

— Desculpe, professora Cristina, mas o que é o Livro de Progresso?

Sentia como se já tivesse ouvido aquele nome antes. Talvez em algum livro da biblioteca onde vivi, mas não conseguia lembrar de nada concreto.

— É o livro que vai te acompanhar durante seus cinco anos na academia. Então cuide bem dele; esses livros não podem ser substituídos — explicou.

— Entendi.

Aquele livro parecia ser muito importante. Gravei na mente que deveria ser responsável quando o recebesse. Percebendo minha compreensão, Cristina se preparou para se despedir, mas antes colocou a mão em meu ombro. Olhei em seus olhos.

— Não é por você ser plebeu que é diferente dos outros. Você é forte. A prova disso é ter chegado até aqui. Agora foque nos seus sonhos e não se deixe intimidar.

Após dizer isso, ela retirou a mão do meu ombro e se afastou. Fiquei parado, refletindo sobre suas palavras. Observei suas costas se distanciando.

Vou corresponder às suas expectativas!

— E aí, Gindo. Indo para casa?

Grennor surgiu ao meu lado, carregando uma sacola e com expressão tranquila — pelo menos até Karen aparecer logo atrás dele.

— Sim, acabei perdendo as aulas da tarde por causa de um acidente — respondi.

— Normal, normal. Eu também perco às vezes.

— Mas no seu caso, é porque você fica vadiando — Karen retrucou.

Grennor olhou para ela, reconhecendo sua presença.

— Não é vadiar, eu só saio para respirar. E você? Lembro que, no ano passado, faltou bastante nas aulas de Concentração de Mana.

— Já te disse que estava doente naquela semana!

Os dois começaram a discutir, como sempre. Karen parecia pronta para bater nele só por encará-la. Preferi permanecer neutro e apenas observar.

— Gindo, vamos para o meu quarto nos divertir um pouco. Lá podemos ficar em paz — disse Grennor, lançando um olhar provocativo para Karen.

— O que você quer dizer com esse olhar? Um homem chamando outro para ficarem juntos em um quarto… Grennor, estamos noivos, mas não sabia que você jogava para esse lado.

Karen o encarou, agora com preocupação. Seu tom agressivo suavizou. Grennor parecia prestes a explodir, mas respirou fundo, olhou para mim e colocou o braço sobre meu ombro enquanto a encarava.

— Sim, é isso mesmo. Não queria que você descobrisse tão cedo — disse, de forma sedutora.

— Podemos conversar com calma sobre isso. Sua família espera que você cumpra seus deveres; não é bom agir precipitadamente.

— Acha que estou sendo precipitado? Pois saiba que, desde o dia em que trombei com Gindo naquela manhã, comecei a sentir algo por ele.

Ele fechou os olhos e levou a mão ao rosto de forma teatral. Eu até poderia acreditar… se não o conhecesse.

— Não diga isso. Está dizendo que prefere um garoto a mim?

— Com certeza.

Karen ficou paralisada. A resposta foi imediata e cruel. Eu estava no meio de tudo aquilo sem querer, e permaneci em silêncio, sem saber como agir. Karen encarou Grennor; sua boca começou a tremer, e lágrimas surgiram.

Elas começaram a escorrer sem parar. Seus cabelos castanhos, antes brilhantes, pareciam ter perdido o brilho junto com suas palavras. Meu peito se apertou ao ver sua expressão.

Ela se virou rapidamente e correu pelo corredor, afastando-se de nós.

— Karen!

Chamei por ela, erguendo a mão como se pudesse alcançá-la. Em seguida, virei-me para Grennor, afastando seu braço do meu ombro.

— Isso não foi pesado demais? Ela gosta de você!

— Está tudo bem. É melhor assim. Enfim, vamos?

Senti raiva de Grennor por sua indiferença. Minha visão sobre ele começou a vacilar — eu o via como alguém de bom coração. No entanto, ao encarar seu rosto, notei algo diferente: uma expressão de alguém prestes a desabar em lágrimas.

Mesmo assim, ele permaneceu firme, tentando esconder o que sentia. Decidi não insistir, imaginando que talvez houvesse um motivo para suas atitudes.

— Certo — respondi.

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora