Volume 2 – Arco 7
Capítulo 88: Sonhos enterrados
O Cemitério Pascoal ficava localizado na zona oeste de Honorário e, segundo meu tio, era o maior e mais prestigiado cemitério da cidade. Levamos cerca de duas horas de carro no mais absoluto silêncio até, finalmente, chegarmos ao estacionamento da ala 4. Desci do carro com a ajuda da minha mãe. Ainda estava com o corpo fragilizado pelas queimaduras internas, mesmo que tivesse melhorado consideravelmente desde o dia em que acordara na montanha Takamashi. O doutor Sanchez só havia me liberado por conta do velório, mas deixou claro que meus braços deveriam permanecer com ataduras por mais alguns dias, por precaução.
Nos dirigimos à sala de velório daquela ala por uma estrada de paralelepípedo, no meio de um fluxo grande de pessoas que eu nem imaginava que tinham o mesmo destino que eu. Todas elas entraram no edifício, onde já havia muitas outras presenças desconhecidas pra mim, espalhadas por toda parte e conversando em volume baixo, quase sussurrando.
Muita gente se aproximou da minha mãe e desejou os pêsames. E ela conhecia todos. Avistei alguns rostos conhecidos, como os de Hebert e Sandro, além de alguns agentes que eu vira na organização quando a visitei com meu pai. Foi só depois de um tempo que eu me dei conta de que todo mundo nos espiava com o canto dos olhos.
— Seus amigos estão ali — disse minha mãe.
Natsuno, Jhou e Pedro estavam sentados num banco perto de outra porta, e acenaram para mim. Acenei de volta, mas preferi ficar ao lado da minha mãe naquele momento tão delicado. Se havia alguém sofrendo mais do que eu, com certeza era ela. E falando em sofrimento, finalmente avistei o caixão do meu pai…
Minha mãe pegou na minha mão, trêmula. Trocamos um olhar triste, ela com os olhos inchados de tanto chorar. Anuí com a cabeça e ela concordou. Devagar, andamos até o caixão, enquanto as pessoas próximas abriam caminho com certa expectativa. Nesse meio-tempo fui percebendo que muitas pessoas choravam, até mesmo homens robustos de aparência rígida, mas decidi focar no caixão. Não podia chorar de novo com a minha mãe precisando de mim.
Eu tentei.
Quando vi o corpo do meu pai deitado naquela urna de madeira, não pude suportar. Meu coração afundou, gelou, parou de bater. Era o meu pai, dormindo num sono eterno, completamente fora do nosso mundo, da nossa vida.
Minha mãe soltou um grito de choro, e só não caiu no chão porque eu a segurei a tempo. Chorei quando ela me abraçou. Soluçamos juntos, tristes pela perda do homem que não deveria ter partido, que tinha muito o que viver ainda.
— Ele está num bom lugar agora, mãe — tentei consolar. — Está descansando. Um dia o veremos novamente.
Depois de algum tempo, mais calmos, fizemos carinho no rosto do meu pai. Ele estava muito bonito, mais jovem que da última vez que o vi. Consegui conter um pouco o choro, ao contrário da minha mãe, por isso fiquei preparado para o caso de ela precisar do meio apoio.
O caixão era de madeira polida e tingido de vermelho-escuro. Um símbolo de fogo estampava a lateral, com uma frase logo abaixo que dizia: A DIGNIDADE DE UM HOMEM É FRUTO DE SUAS CONVICÇÕES.
Muitas cenas passavam pela minha cabeça. Os momentos que passamos juntos, nós três, cada passeio que fizemos, cada brincadeira ou risada. Lembrei da primeira vez que enfrentei um vampiro, no estacionamento de um cinema, poucos meses atrás. Meu pai esteve presente e mostrou-se orgulhoso. Não, mais que isso: ele foi responsável por eu ter me sentido tão confiante. Essa era uma das principais virtudes dele. Ele sabia como motivar. E eu sabia que, se algo desse errado, ele estaria lá para me proteger.
O velório durou cerca de duas horas, e em nenhum momento eu ou a minha mãe saímos de perto do caixão. Ainda assim, demos espaço para outras pessoas se despedirem também, pois não éramos os únicos afetados pela morte de Tony Kido. Isso comprovava que meu pai era um homem muito querido e respeitado.
Em dado momento, houve uma movimentação diferente entre as pessoas ao nosso redor. Descobri o motivo quando avistei quatro sujeitos se aproximando devagar, alheios aos olhares dos curiosos. Os quatro irmãos do meu pai.
Adriano, o mais alto de todos e que tinha estatura atlética, empurrava a cadeira de rodas que comportava o que claramente era o mais velho entre eles: Adolfo. Os outros dois eram Alfredo, que possuía aparência jovial, apesar da barba volumosa, e Arthur, o comandante da BFM, unidade militar da cidade de Firen.
— Meus sentimentos, Sara — foi logo dizendo tio Adolfo.
Deu até um frio na barriga vê-lo de tão perto, pois a imagem dele adolescente salvando minha avó biológica de vampiros ainda estava clara na minha mente. A julgar pelas linhas de rugas em volta da boca, ele com certeza era um homem sorridente. E me senti ainda mais deprimido ao comparar aquele Adolfo atual, dependente de uma cadeira de rodas, com o Adolfo garoto, saudável e cheio de disposição.
— Filho! — reclamou minha mãe. Acordei do devaneio com a cutucada dela.
— Ah, sim, desculpe.
Tio Adolfo sorriu.
— Falei que consigo ver o quanto você evoluiu — disse ele. — Seu pai comentou isso comigo na nossa última conversa, e vejo que ele não estava exagerando.
— É que faz tempo que a gente não se vê… — falei sem muito ânimo.
— Pode ser.
Havia algo reconfortante no sorriso dele. Adolfo parecia estar sendo sincero, e não apenas forçando simpatia ou uma tentativa de consolo.
Enquanto ele se voltava para a minha mãe, ouvi tio Arthur resmungar:
— Não sei como o Tony tinha tanta paciência.
— O quê? — perguntou Adriano.
— Todas essas pessoas nos encarando, como se fôssemos algum tipo de celebridade.
— Oras, Arthur, você ainda não se acostumou? Sempre foi assim com a gente, você sabe.
Adriano acenou com a cabeça para alguns homens mais próximos.
— Pra você é fácil falar. Acostumou-se com os holofotes deste mundo.
Ele se referia ao fato de o irmão ser um jogador de basquete. Adriano perguntou:
— Diga-me, Diogo, você já está habituado com toda essa babação de ovo, não está?
Demorei um pouco para responder. Eu estava? Mais ou menos. Era algo que ainda me incomodava.
Apenas balancei a cabeça, em negação.
Meus tios provavelmente perceberam que eu não queria muita conversa, então disseram apenas algumas palavras e, juntos, se aproximaram do caixão. E foi nessa hora que eles caíram em lágrimas. Talvez para manter a postura, não fizeram alvoroço, não soluçaram, eles simplesmente sofreram. Lamentaram. Sentiram a morte do irmão. Todo o local ficou em silêncio, como se houvesse expectativa para aquele momento. Acabou me ocorrendo que a primeira vez que eu vi meu pai e seus irmãos reunidos foi num almoço quando eu tinha uns oito ou nove anos. Naquela época, eu não imaginava que a segunda vez que eu os veria juntos seria numa situação tão dolorosa…
Apesar de terem estatura e cortes de cabelo diferentes, todos os meus tios eram parecidos entre si e com o meu pai. A expressão mais rígida, a pele um pouco morena, os cabelos negros com pontas castanhas, características do clã Kido — exceto, claro, por Adriano, que tinha a cabeça raspada. Vê-los de perto me fez lembrar do Tácio. Ele era muito mais parecido com os cinco irmãos Kido do que eu. E todos eles haviam puxado para o meu avô.
Depois de algum tempo, tio Michael e Bruna apareceram para fazer companhia à minha mãe, para que eu pudesse ir até os meus amigos. Com eles, estavam também os primos Kelan e Yago Cordeiro.
— Obrigado por terem vindo — agradeci aos cinco.
— Nós ficamos muito preocupados quando ficamos sabendo o que havia acontecido, Dio — disse Natsuno, observando meus braços enfaixados. — Aqueles ninjas malditos…
— Quando vamos à Lanchonete Lendária tomar um sorvete? — disse Jhou inesperadamente. Considerando o olhar significativo que ele lançou ao Natsuno, entendi que era a forma dele de dizer “não vamos falar sobre isso agora, vamos?”.
— Ah, sim, claro — foi rápido em dizer Natsuno, atrapalhado. — Acho que podemos ir… amanhã?
— Galera, não precisam se preocupar em selecionar as palavras — falei. — Não ligo pra essas coisas. — Apertei os punhos, mesmo que ainda sentisse dores de queimadura nas palmas das mãos. — É um assunto dolorido, mas falar ou não sobre ele não vai mudar absolutamente nada.
Não sei se cheguei a soar arrogante, mas meus amigos ficaram em silêncio por algum tempo. Não havia muito clima para um bate-papo.
— Meus sentimentos, maninho — finalmente disse Natsuno. — O que aconteceu com seu pai foi um impacto para todos nós. Fico triste demais por isso, mas ao mesmo tempo fico aliviado que você tenha sobrevivido. Ainda bem que os Caçadores de Elite apareceram antes que acontecesse algo pior.
Fiz que sim com a cabeça. Pelo jeito, Sandro e Hebert já estavam espalhando a informação falsa para que ninguém descobrisse sobre o que fiz.
— E esses braços aí? — perguntou Kelan. — Nada grave, né?
— Já estão bem melhores. Logo posso voltar a caçar.
— O Riku também ficou bastante preocupado — informou Pedro. — Ele só não veio porque, bem, você sabe… Ele, um Medeiros, de uma tribo rival à sua e tals.
— Não só o Riku, como a turma inteira — acrescentou Jhou. — A gente teve que inventar uma desculpa pra justificar esses dias que você não foi às aulas.
— Sério? E o que vocês disseram? — perguntei.
Jhou e Natsuno coçaram a cabeça.
Perguntei ao Pedro pelo olhar. Ele balançou a cabeça e contou:
— Esses dois não são muito bons em inventar histórias. Disseram que você precisou voltar ao Chile porque esqueceu suas coisas lá.
Em outros momentos, eu teria dado risada. Não que eu me importasse. Mas estava tudo tão sem graça que eu tive que me esforçar para dar um sorriso e soltar um “valeu, galera”.
— Recupere-se logo, cara — disse Yago com um sorriso. — Não se esqueça que nos encontraremos no Torneio da Cidade, e seu time precisará muito de seu líder inteiro, tanto física quanto psicologicamente.
Eu também não estava pensando em futebol, mas entendia que o garoto só queria me motivar a seguir em frente.
Conversamos por mais alguns minutos. Eu a todo momento procurava por Sophia no meio das pessoas, embora soubesse que dificilmente a encontraria. Mesmo que fôssemos namorados, ainda não tínhamos intimidade o suficiente para ela aparecer no velório do meu pai. Kelan e Yago eram caçadores e seu clã pertencia à mesma tribo que a minha, por isso era mais natural eles terem comparecido do que a garota, cuja vontade do pai era que ela estivesse o mais longe possível da nossa realidade atual.
Pigarreando alto, Hebert pediu a atenção de todos. O cômodo ficou no mais absoluto silêncio, atentos ao que o caçador diria. E ele começou:
— Tony Kido era um homem bom. Um amigo exemplar, convicto de seus ideais e disposto a arriscar a própria vida por quem quer que fosse. Nada o impedia de alcançar seus objetivos. E eles eram sempre os melhores possíveis, para todos. O mais incrível de tudo isso? Tony não fazia nada sozinho. Competia aos seus amigos a missão de ajudá-lo. Não como apoio ou trampolim, isso seria fácil demais. Ele nos queria ao seu lado, compartilhava as mais sigilosas informações conosco. Para ele não havia segredos! Tínhamos um verdadeiro líder ao nosso lado. O responsável por fundar a organização que conhecemos hoje e que já fez tanta coisa boa para a humanidade. Com muito trabalho árduo, insistência e doação de parte de sua vida. Tony sacrificou muito do que mais amava pelo bem de quem sequer conhecia. Se ele possuía arrependimentos? Talvez. E se isso o fez mudar como ser humano? Isso jamais. Tony sempre foi o mesmo sujeito. Desde garotinho, quando caçávamos por Honorário, e ele inclusive já queria montar uma equipe organizada, até os seus últimos dias, desgastado pelas tantas perdas dessa vida, ele jamais deixou de confiar ou de extrair o melhor de quem estava ao seu lado. — A voz de Hebert falhou, e ele teve que fazer uma pausa. Era perceptível que ele segurava as lágrimas e tentava manter a voz. — Tony me ensinou muito. Seu legado será eterno. Não por ser um Kido ou por ser um dos homens mais fortes que já conheci. Mas por ser quem ele era. Tony Kido era o mais espetacular ser humano que poderia existir. Outro igual, dificilmente encontraremos por aí. Obrigado por tudo, meu amigo. Aplausos para Antônio Kido.
Todos aplaudiram.
Eu nunca havia ouvido um discurso tão bonito. Tirou um certo peso do meu peito, apesar de a tristeza insistir em invadir meu psicológico. Mentalmente, agradeci muito ao Hebert pelas palavras.
Um homem, cuja camiseta possuía a logo do cemitério, sussurrou algo para a minha mãe. Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas ela fez que sim com a cabeça, lançando um olhar abatido para mim. Ali eu entendi. Era hora do sepultamento.
Tios Adriano, Arthur e Alfredo ajudaram a colocar o caixão no carro fúnebre. E a caminhada até o local do enterro foi o caminho mais doloroso que eu percorri.
Em nenhum momento soltei a mão da minha mãe. Ela mais do que nunca estava precisando de mim. E eu dela.
Olhando a paisagem ao redor, era impossível não imaginar quantas e que tipo de pessoas estavam enterradas naqueles túmulos. Crianças que perderam suas vidas precocemente. Homens e mulheres que foram vítimas de crimes cruéis. Idosos levados pelas doenças ou, simplesmente, pela velhice. Histórias que já fizeram parte do nosso mundo, mas que de alguma forma foram interrompidas.
A palma da mão da minha mãe suava tanto que chegava a escorregar da minha. Quando acontecia isso, ela apertava. E doía. Era impressionante sua força. E ao mesmo tempo comovente.
“Você promete que vai voltar?”, lembrei de suas palavras na minha viagem pelo tempo.
“Eu prometo, Sara, assim que conseguir resolver tudo.” respondera meu pai.
Dessa vez, ele não voltaria.
Meu pai poderia ter sido muito mais feliz do que foi. Mas ele preferiu deixar uma grande parcela de sua felicidade de lado para manter seu objetivo de salvar o mundo. E o que ele ganhou como recompensa foi uma morte precoce.
O carro parou, e dessa vez os próprios funcionários do cemitério moveram a urna vermelha para o buraco que já estava cavado. Posicionaram-na com cuidado, acompanhados pelos olhares atentos, e então anunciaram que quem quisesse, poderia jogar flores. Quase todo mundo jogou. Eu fui o último, com lágrimas nos olhos.
— Por quê, pai? — sussurrei para mim mesmo, então me prostrei à beira da cova. — Por que você está fazendo isso com a gente? Tivemos uma noite tão daora, em família, felizes. Por quê? Você não se sente mal em deixar uma esposa e um filho que te amam? Acha isso certo? Eu ainda nem completei dezesseis anos!
Meus olhos ardiam com as lágrimas que transbordavam. Eu sentia o rosto quente. E ao mesmo tempo meu coração estava gelado.
— Você vai nos abandonar dessa forma? Quando o mundo mais precisa de você? E os nossos inimigos, pai, vão ficar impunes? Pai, me responde! — Soquei o chão, e no mesmo instante meu punho ardeu como se eu o tivesse mergulhado em lava. — Não era esse o combinado! Você me tornaria um homem forte! — Desferi outro golpe. — Me ensinaria a ser um bom caçador! — Ataquei de novo. — Pai, eu queria ser igual a você, seguir seus ensinamentos, ter momentos arriscados contra vampiros ao seu lado! — Ameacei dar um quarto soco, mas parei no meio do caminho. — Pai, eu queria… te deixar orgulhoso…
Solucei por longos minutos, desolado diante da cova onde estava o caixão do meu pai, prestes a ser coberto por terra. Sabia que todos estavam me olhando, em silêncio. Um garoto chorão que estava tendo um ataque de choro. Sabia também que precisava ser forte na frente da minha mãe, para amenizar um pouco sua dor. Eu não queria que aquilo acontecesse. Eu queria manter a postura. Eu queria…
Fui abraçado pela minha mãe. Ela não disse nada, não chorou nem se mostrou desesperada. Ela apenas me abraçou. E foi o suficiente para o meu coração esquentar novamente.
Com isso, os funcionários do Cemitério Pascoal continuaram seu trabalho. Eles provavelmente já estavam habituados àquele tipo de situação. Se isso os fazia se sentir mal ou não, eu não sabia, talvez já nem se importassem. De qualquer forma, enterraram o meu pai.
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