Volume III
Capítulo 1
Virando a esquina que bloqueia a visão dos dois para o hospital…
— Não acha que é muito repentino? — Antônio Vasconcelos Alves, uma capivara, falou — Quero dizer, só conhecemos ela por dois dias, não acho que ela vá fazer muita questão de irmos visitá-la; e isso se ela não achar estranho. — finalizando seu argumento com um suspiro cansado.
— É só uma questão de cortesia. — respondeu o tigre de terno — Sabe, acho que causaria nela uma má primeira impressão da escola se ninguém fosse lá visitar! — terminando de falar fazendo um pequeno gesto pomposo com a mão, como se entregasse algo para alguém.
— O terno também é parte da cortesia?
— Com certeza! Temos de passar uma boa impressão nos alunos, e o mesmo vale para nossos colegas.
Antônio não questionou novamente, sentia que ficariam naquele “vai e vem” de perguntas e respostas pelo resto do dia (e ele sabia muito bem que o felino tinha, de fato, essa disposição para tagarelar), por isso, decidiu apenas encerrar o tópico com um “entendo” descompromissado.
— Deveria fazer uma academiazinha também, tá bem gordinho, você. — continuou o tigre.
— Vamos logo visitar a mulher, Bruno. — Logo após falar, o raciocínio da capivara foi interrompido por uma voz infantil aguda; ela chamava a atenção de alguém pelo qual chamava de chefe, algo que fez Antônio estranhar a situação e andar um pouco além da esquina e assim pegar um pouco da vista do hospital, eventualmente chegando até dois indivíduos: a origem da voz e mais um.
— Chefe! — a dona daquela voz, uma menina de cabelos negros lisos e ligeiramente arrepiados, falava com uma lontra transformada. — Para com essas encaradas do nada, pô! Você não tava todo apressado pra missão?
— Só me dá um minuto. — resmungou o mustelídeo.
— Ér, ér… c-com licença. — a capivara falou limpando a garganta. — Você… é o responsável pela garota? — Foi aí que percebeu o quão ruim foi sua abordagem.
— Ele é meu chefe! — respondeu a menina, que logo teve sua boca tapada pela lontra.
— Tio. Eu sou o tio dela. — falou.
— Ér… ela é filha de uma lontra, então?
— Hã?
— Se você é tio dela, obviamente é irmão de um dos pais dela. — A capivara franziu a testa e cerrou seus olhos, encarando o mustelídeo, que apenas engoliu em seco e respondeu:
— Quer dizer… eu sou irmão da mãe dela, de fato, mas um irmão de consideração! Meus pais morreram e eu fui adotado pela família dela depois de uns anos.
— Tá… — Antônio não estava convencido ainda, mas estava com muito receio de, simplesmente, gritar que um transformado estava sequestrando uma criança, “vai que está armado…” ele pensava; por isso decidiu jogar de forma mais segura. — De onde você é?
— Caucaia, mas quando fiquei mais velho, mudei pra São Paulo… foi lá que comecei a viver com a mãe dela.
“São Paulo é bem longe de Rosário…”, pensou a capivara sem saber como prosseguir no seu interrogatório, não queria bombardear a lontra com ainda mais perguntas (e não descartou a possibilidade de ser um criminoso armado) assim como não sabia como prosseguir. Até que:
— Mas enfim… — o mustelídeo falou dando uma risadinha sem graça e continuou: — cê sabe se a Sora Tokimoto, realmente, tá nesse hospital?
— Sora Tokimoto? — perguntou tentando ocultar o choque.
— Isso! Eu sou um amigo dela, minha irmã também. Aí quando a gente soube que ela tava internada, foi bem tenso! — Ele coçou a nuca e continuou: — Mas a gente não recebeu telefonema do hospital nem nada, afinal, a gente é só amigo; só sabemos que ela tá hospitalizada e uns caras me disseram que era no Santo-Monte.
Uma narrativa bizarra, para dizer o mínimo, mas a capivara não sabia como aproveitar-se disso para obter mais informações de forma natural (afinal, como Rosário não tem muitos hospitais, é razoavelmente fácil de passar em todos eles apesar do tempo longo de viagem que seria necessário).
— Ér… é, ela tá aqui sim.
— Opa. Valeu demais, gordinho! — a lontra aperta a mão de Antônio e vai na direção da porta principal do edifício enquanto a garota o segue.
— E-ei, espera! — a capivara o chamou.
— Ah, diga.
— S-se quiser ir junto comigo, eu e o tigre estamos indo visitá-la também…
— Tigre?
Naquele momento, Antônio percebeu que seu colega de trabalho não o havia seguido, provavelmente ainda estando na esquina fazendo qualquer outra coisa.
— Tsk! Vou lá chamar ele… se quiserem esperar aqui, eu volto já!
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