Volume II
Uma Carta de Despedida para o Dia 2
01
“Eu quero um mundo em que todos estejam bem e felizes…”, pensou Marcelo, observando em silêncio o sofrimento, igualmente carente de som, de José ajoelhado na rua que lutava contra o vampirismo; e então, andando até a lontra, ele decidiu tomar a escolha mais extrema que sua mente, já extremamente cansada, foi capaz de conceber.
— Ei. — o jovem o chamou, — Tudo isso foi por minha causa, né? — e lhe perguntou com a voz rouca, contrastante com seu sorriso amigável.
O mustelídeo logo se virou na direção da voz, como se seu corpo não estivesse sendo rasgado e reestruturado por dentro, e falou:
— M-Marcelo?!
— Oi… hehe.
— E-então, você tá vivo, e fora daquela, ér, máquina?
— É complicado… — Marcelo respondeu, fazendo menção à um movimento que indicaria coçar a cabeça ou nuca, mas jamais o concluindo e, então, desistindo no meio do processo. — O software, ele expandiu os domínios dele; e agora eu tô mais ocupado do que nunca. — Ele então riu sem jeito.
— Marcelo, o que quer dizer?
— A transformação, que você tava passando agora pouco; você ainda sente dor?
Ao ouvir isso, José arregalou seus olhos e abriu a boca em espanto.
— Mas que porra?! — exclamou enquanto dava tapas em seu estômago e, logo em seguida, alongava os braços. — E-eu virei um vampiro?!
— Bom, sim e não. — o jovem respondeu e suspirou — Eu tirei a sua consciência do corpo que rejeitou.
— Como é?
— Meio difícil de explicar mas, basicamente, é uma coisa que posso fazer desde quando eu fui substituído por aquele aberrante. — Marcelo logo levou as mãos à cabeça e apertou suas têmporas, parecia estar com uma forte enxaqueca; logo em seguida, ainda com as mãos ocupadas, ele falou: — D-desculpa. Essa história de ser Deus é complicada.
— Marcelo… — José o chamou. Olhos ligeiramente arregalados, voz vacilante e uma impressão de que algo estava muito errado; ainda assim, ele decidiu perguntar: — o que tá acontecendo aqui?
— É o preço do meu pecado. — Marcelo gemeu e apertou ainda mais suas têmporas enquanto o ambiente ao redor, a rua de antes, começava a apresentar rachaduras no chão e paredes; outra coisa que o mustelídeo apenas notou naquela fora, foi a ausência de outras pessoas, não… a ausência de qualquer outro ser vivo no ambiente; apenas as plantas e o cenário em si permaneceram onde estavam.
E então, Marcelo continuou:
— Sabe, eu sempre tive muito medo de matar as coisas quando me tornei Deus. — O jovem suspirou e prosseguiu: — Mas a culpa foi minha no fim das contas. Eu estava com medo e acabei permitindo que muitos se machucassem por isso; até me convenci de que pessoas iriam morrer independentemente do que eu fizesse… mas eu estava errado. E agora, com essa cidade em sincronização com o sistema, eu compreendo o que podia ter feito há muito tempo.
O sorriso gentil de Marcelo assumiu um aspecto maníaco e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos e ele então exclamou:
— Eu podia, desde o princípio, ter criado back-ups dessa história que chamamos de existência! Eu podia, simplesmente, ter criado uma história nova a partir destes back-ups onde tudo o que eu queria ocorreria e depois colocar vocês nela! Não haveria furo de roteiro, não haveria erro de lógica, não haveria nada disso, pois seria um cenário novo!
— Marcelo, — cortou José — eu não entendo o que você quer dizer!
— Ah, mas vai entender. Eventualmente, você vai entender, você vai me agradecer, você vai ficar feliz por ter sido meu amigo até agora!
E então, com a aparição de um pop-up no céu…
《 Agradecemos a sua colaboração, por favor aguarde enquanto transferimos os arquivos para uma nova pasta. 》
— E-ei! — José gritou à medida que as rachaduras no ambiente tornaram-se mais e mais evidentes — Marcelo, o que você tá fazendo?!
— Estou criando o seu final feliz; pois agora, é a minha vez de retribuir a sua amizade… — Ele sorriu e, logo em seguida, tudo foi consumido pela luz.
02
— Chefe? — uma voz infantil chamou por José, que logo abriu seus olhos para o momento em que estava.
— Hm, m-mas… hein? — ele murmurou, ainda tentando se situar; a imagem da rua de Uradougaoka ainda estava queimada em seus olhos, dificultando a compreensão do que estava na sua frente.
Então, ele virou sua cabeça na direção da voz: era Rosângela Kagemori Oliveira, agora com onze anos de idade, em 2015, na cidade de Rosário.
Eles estavam indo em direção ao hospital Santo-Monte, após um surto de aberrantes, para garantir a segurança de todos.
Isso, esse era o trabalho; inclusive, seria o primeiro de Rosângela.
Então…
“Por que eu estava pensando na Golden Week de 2006?”, refletiu o mustelídeo.
— Cara, chefe, vamos por favor entrar no hospital logo? Aqui fora tá muito quente!
E foi ali que a lontra percebeu que já estavam de frente para o lugar da missão.
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