Bestas do Rosário Brasileira

Autor(a): Ikiru997


Volume II

Vislumbres do Presente e Dia 1 da Golden Week de 2006

01

 “Há quanto tempo estamos em Rosário?”, pensou José, uma lontra; enquanto caminhava pela calçada e observava a rua à procura de um táxi. Eles deveriam chegar ao hospital Santo-Monte o mais rápido possível a fim de evitar maiores avarias no lugar após a aparição repentina de mais aberrantes que o usual. O lugar, em breve, iria transbordar.

 — Ai chefe, — a menina humana que o acompanhava, Rosângela Kagemori Oliveira, resmungou — a gente não podia, tipo, ir de carro com algum contato seu? Hoje tá quente pra uma desgraça!

 — O clima de Rosário é quase sempre quente, você sabe disso. 

 — É, mas hoje tá fazendo uns 38 graus…

 — Isso é a sensação térmica. 

 — É justamente ela que importa! — Rosângela era bem distante de seus pais, Miki e Roberto, no sentido de personalidade; isso às vezes aborrecia profundamente o mustelídeo devido à dificuldade de ter uma dinâmica de trabalho sem desavenças na maior parte do tempo. Claro que parte disso se devia à sua idade precoce; ela só tinha onze anos, mas a lontra ainda não conseguia evitar seu aborrecimento às vezes.

 — Mas afinal — ela fala, cortando o assunto que havia iniciado por si própria — por que você decidiu me chamar pra esse trabalho, mesmo?

 — Seus pais ainda estão ocupados, investigando diretamente algumas organizações que suspeitamos estarem se apropriando do incidente de 2004. Honestamente, esse trabalho que estamos fazendo é o mais seguro para um novato.

 — Pô, ainda sou novata?

 — Definitivamente… — falando aquilo, José lembrou; não do incidente em 2004 em si, mas do que ocorreu após ele.

 — Ainda existem muitas coisas pelas quais você deve passar antes de se considerar, de fato, uma profissional dessa área. 

 

02

 Era sábado, 29 de abril de 2006 — o início da Golden Week no Japão —, que perdurou até o dia 5 de maio, uma sexta-feira. A princípio, os turistas estrangeiros preferem visitar locais requisitados durante esses períodos como Quioto, Tóquio, Osaka, Sapporo e outros; porém, José, Miki e Roberto estavam naquele país por outro motivo que não combinava em nada com o clima esperado daquelas curtas “férias” — o trio (apesar de estar com uma criança de colo) estaria lá a trabalho —, restringindo-se a permanecer numa pequena cidade, possivelmente, por toda a sua estadia.

 — Ufa… — resmungou o mustelídeo enquanto espreguiçava-se após mais de 40 horas de viagem (cerca de 35 para chegarem a Tóquio e mais seis até a dita cidadezinha). — finalmente aqui, Uradougaoka. — falou com uma pronúncia um tanto lenta (estava tentando ler a placa com os ideogramas da cidade: «裏戸宇ヶ岡»)

 — Hum, parece que as aulas de japonês deram alguns frutos. — Miki falou de braços cruzados.

 — E tu lá é fluente? Que eu saiba, essa é a tua primeira vez vindo pra cá desde 93!

 — Não me considero fluente, mas tenho uma boa noção da língua. 

 — Tendi.

 — Mas ei, — Roberto, que segurava a pequena Rosângela nos braços, os interrompeu e logo falou: — porquê tivemos que trazer a bebê mesmo?

 — É mais seguro para ela. — Miki respondeu.

 De fato, parecia antinatural levar uma criança de colo para uma missão perigosa como a investigação dos incidentes, mas ninguém tinha certeza da segurança da pequena caso estivesse longe da visão do grupo, pois as organizações de substituição estão se articulando cada vez mais desde a “morte” de Marcelo em 2004 — algo que parecia uma conspiração cujo foco estaria monopolizado nas mãos de poucos pesquisadores loucos mostrava-se muito mais globalizado do que se poderia ter imaginado —; talvez isso, ironicamente, fosse o que dava esperança para José encontrar seu amigo.

 “Você ainda está por aí, não é?”, pensou a lontra “Está perdido, ainda se questionando se pode ser perdoado, né?” e então, logo em seguida, deu um longo suspiro. Mesmo confiante da teoria que a alma de Marcelo estivesse em algum lugar dos servidores japoneses do software, ele ainda tinha um certo receio, um cansaço desanimador que lhe tirava parte do seu empenho em continuar.

 — Ai ai… — Miki resmungou. Parecia que ela e Roberto estavam conversando enquanto o mustelídeo afundava nos próprios devaneios; ele não fazia ideia do contexto da conversa e, tampouco, estava interessado em se inserir devido ao estado turvo de sua mente. — Bom, podemos ir logo procurar por um hotel?

 — É uma boa, — a lontra respondeu — tô bem cansado… na real, aposto que geral tá. 

 

03

 Enquanto isso, no topo de um prédio qualquer; Marcelo observava a paisagem.

 Uradougaoka, apesar de ser uma cidade pequena, estava em expansão e já tinha algumas áreas com diversos prédios modernos, assim como carros luxuosos pelas ruas. Seria animador para Marcelo aproveitar e interagir de fato com a cidade — mas isso era impossível desde que fora substituído por aquela entidade —; tendo agora, como única diversão, observar as pessoas e monstros conviverem juntos assim como ele viu em São Paulo. 

 Apesar disso, ele não culpava a criatura maligna por completo e pensava constantemente em desculpas como: “eu quem deu uma brecha para ela”.

 

《 Arquivos defeituosos foram detectados no sistema 》

《 Excluir “José”, “Miki Kagemori” e “Roberto Oliveira”? 》

 

 No entanto naquele dia, seus monólogos solitários foram interrompidos por um pop-up do sistema; ele mostrava dois nomes familiares e um desconhecido além, claro, das opções de execução do software: “sim” e “não”.

 — Ah… — Marcelo exclamou com genuína surpresa mas, ainda assim, com um visível cansaço.

 Ele clicou com seu dedo no “não” da janela do console, a fechando instantaneamente. Dessa forma, ele pensou se valeria a pena mesmo trair a organização mais uma vez, como quando era criança. 

 “Pessoas morreram quando fiz isso”, pensou e então resmungou:

 — Tsk… Pessoas morrerão independentemente da minha escolha de agora.

 Dessa forma, ele moveu uma de suas mãos para cima, um novo pop-up apareceu.

 

《 Executar “Sincronização de Uradougaoka” como administrador? 》

《 Sim 》 《 Não 》

 

 

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