Ascensão Estelar Brasileira

Autor(a): Lótus


Volume 2

Capitulo 22: Do ódio, nasceu o vazio

— Nossa — disse Green, com as sobrancelhas levemente arqueadas — a vida realmente foi cruel com você.

— Se você não falasse, eu não saberia, gênio! — respondeu Aella, cerrando seus punhos.

— Enfim, pelo menos você teve uma vida menos pior com esse Akuji, né?

— Não.

— Não!?

— Bom, o Akuji… se eu pudesse voltar no tempo, eu faria ele sofrer das piores formas que eu consigo imaginar.

— Ele era tão ruim assim?

— Primeiro que ele mentiu pra mim, foi ele quem matou minha família, não os Ceifadores — disse Aella, seu tom de voz mudando, ficando mais sério; ela apertou ainda mais seus punhos, os fazendo sangrar.

— Imaginei, ele tava meio suspeito mesmo.

— Bom, chega de enrolar, me deixe continuar.

— Certo, vá em frente.

— Depois que ele me levou até aquela dimensão, minha vida mudou completamente…

Ao aceitar a oferta de Akuji, Aella foi levada a Velathar, um dos infinitos planos de existência, um lugar onde almas não apenas existiam, mas eram moldadas, consumidas ou apagadas.

Velathar não seguia lógica. O céu parecia profundo demais, como se não tivesse um fim, e a própria noção de distância falhava; o que estava longe podia, em um instante, estar diante de você. Era um mundo que não se mantinha estável, apenas persistia em existir.

Em Velathar, na área dos Nulificadores, Akuji era o principal líder do maior grupo de Nulificadores inteligentes e o mais próximo de se tornar um novo Nihility. Com um simples toque em Aella, ele a transformou em uma Nulificadora.

Velathar se tornou seu inferno. Akuji a treinava dia e noite, em busca de torná-la a arma perfeita. Ele havia notado algo que os humanos daquela vila não perceberam, nem mesmo a própria garota: a sensação que Aella sentiu naquele dia era de sua energia vazando.

Os outros Nulificadores não gostavam dela, pois não a enxergavam como uma igual, mas sim como um ser inferior e favorecido.

Após o passar de centenas de anos, Aella se tornou uma arma para Akuji, uma soldada leal. Para ela, Akuji talvez fosse a figura mais próxima de um pai, mas, para ele, ela sempre foi apenas um objeto.

Isso ficou claro quando uma nova ameaça começou a surgir. Alguns anos antes, boatos haviam começado sobre um novo grupo de Nulificadores que estavam surgindo e se tornando mais poderosos rapidamente. Isso preocupava Akuji, até que ele chamou Aella para conversar.

Eles foram até uma montanha próxima ao abrigo. Uma enorme lua pairava no céu, grande demais para parecer natural, iluminando um cenário onde nada realmente parecia vivo.

A ventania não soprava de forma constante, ela mudava de direção sem aviso, como se o próprio espaço respirasse de forma irregular, fazendo as árvores secas se curvarem em ângulos impossíveis, como se resistissem a algo invisível.

— Sim, senhor. O grupo liderado pelo Nulificador Lugion. — respondeu Aella, se curvando levemente.

— Exatamente. E eu não posso arriscar um confronto direto contra ele, afinal, seu grupo é muito grande e o nosso ainda não está completamente pronto.

— Entendido. Então o senhor gostaria que eu os atacasse de maneira discreta? Devo conseguir enfraquecê-los.

— Não! Isso seria muito arriscado. Mas não se preocupe, eu já decidi o que fazer. Inclusive, já falei com ele sobre isso. — respondeu Akuji, com um leve sorriso.

— O senhor e Lugion chegaram a um acordo?

— Sim.

— Que ótimo. Então o que gostaria de falar comigo exatamente?

— Nosso acordo é que nenhum dos lados irá atacar o outro. Porém, para selá-lo… eu preciso fazer algo.

— O quê, senhor?

— Você será entregue a eles.

A Nulificadora travou.

— O que? O senhor está brincando, né?

— Não.

— Mas… por quê? Depois de tudo que eu fiz? Depois de todo o tempo que me treinou e cuidou, vai simplesmente me descartar assim?

— Sim.

— Mas…

— Entenda, Aella! — disse Akuji, com sua voz firme, cortando-a — Você entendeu nossa relação de forma errada. Eu não te criei como uma filha. Eu te criei como uma arma. E é isso que você é. Uma arma cuja utilidade acabou. Então, se não tem nada útil para dizer, saia da minha frente.

— Sim, senhor… — respondeu Aella, de cabeça baixa.

Sem dizer mais nada, ela se virou e foi até sua cabana. Ao chegar, começou a arrumar suas coisas, lembrando-se dos momentos em que Akuji a ensinou, a protegeu e a tornou forte.

Levou a mão ao pescoço, tocando o colar que ele havia lhe dado no momento em que a transformou em Nulificadora. Ao tentar removê-lo, hesitou.

“Eu… não consigo… Ele ainda é o mais próximo de um pai que eu tenho… mas depois daquilo… acho que isso é a única coisa que ainda quero manter.”

Ela soltou o colar e terminou de se preparar. Naquela noite, não dormiu. Apenas esperou.

Quando a escuridão começou a ceder e a lua brilhou mais intensamente, sinal de manhã em Velathar, ela saiu de sua cabana. Do lado de fora, viu Akuji conversando com um homem alto, de cabelos lisos e escuros como o céu, pele pálida como a neve e uma longa capa branca cobrindo seu corpo.

— Aqui está. Leve-a, e assim nosso acordo estará completo. Venha, Aella! — disse Akuji, sem sequer olhar para ela.

Sem responder, ela passou por ele e seguiu em direção a Lugion. Seus guardas abriram caminho, e ela ficou atrás dele, evitando olhar para qualquer um.

— Bom, agora sim nosso acordo está formado. Como você cumpriu sua parte, cumprirei a minha. Adeus, Akuji. — disse Lugion, com um leve sorriso.

Ele se virou e começou a andar, sendo seguido por seus guardas. Aella o acompanhou em silêncio.

Após alguns passos, ele falou:

— Você pode andar ao meu lado, sabia? Ficar atrás de mim não vai te fazer desaparecer.

Aella hesitou, mas continuou onde estava.

— Tudo bem. Cada um no seu tempo. Mas me diga… qual é o seu nome?

— Aella…

— Aella… — repetiu ele — É um bom nome. Aqui, nomes importam. São a única coisa que não deixamos ser apagada.

Ela franziu levemente o cenho.

— E o que você espera de mim?

— Essa é a melhor parte… eu não espero nada. — disse ele, com um leve riso — Se quiser lutar, lute. Se quiser ficar na sua, fique. Se quiser ir embora… ninguém vai te impedir.

— Isso não faz sentido.

— Faz sim. Força que vem à força… quebra. A que escolhe ficar… se fortalece.

Aella permaneceu em silêncio.

— Só tem uma regra: não destrua aquilo que outros estão tentando construir. O resto… você descobre sozinha.

Nos dias que se seguiram, Aella percebeu que o grupo de Lugion era, na verdade, um reino. Um lugar onde Nulificadores não eram apenas armas, mas indivíduos. Onde decisões eram baseadas em confiança, não apenas em ordens.

Ainda assim, ninguém questionava Lugio. Não por medo, mas porque ele compreendia, fazia com que até mesmo seres moldados pelo vazio sentissem que pertenciam a algo.

Com o tempo, Aella se acostumou com sua nova vida. Aproximou-se de Lugion e voltou a ter momentos felizes, algo que nunca imaginou ser possível.

Alguns anos passaram em paz. Porém, a paz não durou.

Akuji era ganancioso demais para aceitá-la e ansiava pelo posto de Nihility.

O ataque veio sem aviso. Não houve mensageiros ou ameaças, apenas destruição.

As fronteiras do reino de Lugion foram as primeiras a cair. Não houve explosões ou avanços visíveis, partes do território simplesmente deixavam de existir.

Nulificadores desapareciam no meio de movimentos, como se tivessem sido apagados antes mesmo de terminar uma ação. O espaço falhava. Regiões inteiras sumiam sem deixar vestígios, como se nunca tivessem sido parte daquele mundo. 

O céu de Velathar começou a se romper em camadas irregulares, como se algo além dele pressionasse para atravessar. O chão não rachava, ele cedia em silêncio, desaparecendo sob os pés antes mesmo de qualquer impacto.

O campo de batalha deixou de ser um confronto. Era instabilidade. Ataques não seguiam trajetórias claras, o espaço entre dois pontos se distorcia, e até a percepção de direção começava a falhar.

Aella lutava na linha de frente, lado a lado com Lugion. Não havia recuo para ela. Cada avanço inimigo precisava ser contido ali, naquele ponto, antes que apagasse tudo atrás dela. Seus golpes destruíam tudo que se aproximava, mas, mesmo assim, não era suficiente.

Foi então que Akuji decidiu encerrar aquilo. No centro do campo de batalha, seus olhos recaíram sobre ela e, com um simples gesto, o colar em seu pescoço se partiu.

Por um instante, tudo ficou em silêncio. Então veio a ruptura.

Aella levou a mão ao peito, seu corpo travando enquanto seu Kor entrava em colapso. Sua energia começou a transbordar de forma violenta e descontrolada, rasgando o espaço ao seu redor. O chão cedia, o ar tremia, e até mesmo os mais fortes recuavam instintivamente diante daquilo.

— O que… você fez…? — sua voz saiu falha, instável.

Akuji sorriu.

— Aquilo nunca foi um presente… era um limitador.

Sua energia não apenas se expandia, ela deformava o ambiente ao redor. O espaço parecia incapaz de suportá-la, se curvando, colapsando e sendo forçado de volta ao lugar em ciclos instáveis.

Não era uma destruição comum. Era como se a própria existência ao redor estivesse sendo sobrescrita pela presença dela.

No fim, restaram poucos de pé. Corpos espalhados, o reino completamente destruído e, no centro de tudo, apenas três presenças ainda sustentavam aquele mundo em colapso: Aella, Lugion e Akuji.

Desde o início, Lugion não havia recuado um único passo. Ele permaneceu na linha de frente o tempo todo, não como alguém que comandava de longe, mas como o próprio ponto que impedia o avanço absoluto de Akuji.

Lugion estava ferido, seu corpo marcado pelo combate, mas ainda de pé. Seu olhar permanecia firme, sem hesitação. Akuji, embora desgastado, ainda carregava a mesma expressão fria, como se tudo estivesse ocorrendo exatamente como ele havia planejado.

— Então… era esse o seu plano desde o início… — disse Lugion.

— Você sempre foi um obstáculo. — respondeu Akuji. — E ela… a chave.

Aella tentou avançar, impedir aquilo, mas não era apenas seu corpo que falhava. Seus olhos não conseguiam acompanhar. A presença dos dois já não parecia ocupar espaço da mesma forma, era como tentar focar em algo que existia entre instantes. Seu poder transbordava, mas, diante deles, aquilo não era controle, era ruído.

Lugion então voltou seu olhar para ela. Não havia desespero nem arrependimento em sua expressão, apenas a mesma calma de sempre.

— Aella… não deixa isso te consumir.

Os olhos dela tremeram.

— Eu… não consigo…

— Então aprenda. Mesmo que seja depois disso.

Por um breve instante, o caos ao redor pareceu distante, como se aquele momento existisse separado do resto do mundo.

Akuji avançou.

E, dessa vez, Lugion não esperou.

Os dois desapareceram no mesmo instante. Não foi velocidade comum. Para Aella, eles simplesmente deixaram de estar ali, e, ao mesmo tempo, pareciam presentes em todos os pontos ao redor.

Aquilo não era uma troca de golpes que ela pudesse acompanhar. Era um confronto acontecendo em um intervalo onde a percepção deixava de ser suficiente.

O ar se contraiu e o espaço ao redor começou a se distorcer de forma irregular, sendo pressionado além do que deveria suportar. Aella forçou os olhos, tentando acompanhar qualquer movimento, mas não havia movimento para seguir. Apenas consequências. O espaço se rompia, se reajustava, e só então ela percebia que algo havia acontecido.

Então veio o impacto.

Não como um som, mas como uma quebra. O espaço se partiu em silêncio, dobrando-se sobre si mesmo por um instante impossível antes de ser lançado de volta ao lugar, como se estivesse sendo corrigido à força. Aella sentiu o corpo travar, incapaz de reagir, enquanto sua percepção ainda tentava alcançar algo que já havia terminado.

Quando tudo cessou, os dois já estavam de pé, imóveis, frente a frente. Não havia troca de golpes, nem movimento aparente, apenas o resultado de algo que aconteceu rápido demais para ser compreendido.

Por um segundo, nada mudou. O campo de batalha permaneceu em silêncio, como se até o próprio mundo estivesse esperando.

Ambos ainda estavam de pé. Porém, o corpo de Akuji foi atravessado, ao mesmo tempo, o de Lugion também.

Os dois permaneceram imóveis, frente a frente, como se o próprio fim ainda não os tivesse alcançado por completo.

— Heh… você é de fato forte… Lugion… — murmurou Akuji, antes de seu corpo começar a se desfazer.

Lugion ainda resistiu por mais um instante. Lentamente, virou o rosto na direção de Aella, seu olhar firme até o fim.

— Você… não é uma arma… então… escolha por si mesma o que fazer…

Os olhos dela se arregalaram.

— Lugion…

Seu corpo começou a se desfazer, sendo consumido junto ao espaço ao redor, até desaparecer completamente.

Naquele instante, tomada pelo ódio e pela tristeza, o poder de Aella colapsou, gerando uma liberação completa de seu poder, sem controle nem direção.

Sua energia tomou tudo ao redor, não em uma explosão, mas como um apagamento contínuo. O que restava do campo de batalha desaparecia camada por camada, como se estivesse sendo removido da própria realidade.

Quando tudo cessou, não havia ruínas, não havia vestígios. Apenas vazio.

Seu nome se espalhou por Velathar primeiro como um sussurro, depois como um aviso. A Nulificadora no centro da queda dos dois mais poderosos de sua era, uma existência instável, uma ameaça, um erro que não deveria existir.

E, a partir daquele dia, mesmo não sendo a real responsável, Aella passou a ser caçada. Ao mesmo tempo, a soldada que seguia ordens morreu, dando lugar a algo que lutava apenas para sobreviver.

Ao terminar de contar, ela apenas se manteve olhando para baixo, como se mais nada precisasse ser dito.

— Caramba… eles ainda te caçam? — perguntou Green.

— Sim. Minha cabeça seria um belo prêmio para qualquer um deles.

— Olha, por incrível que pareça… acho que consigo te entender. Você deve estar bem cansada, né?

— Sim… mas por que acha que me entende? — disse Aella, erguendo a cabeça e olhando diretamente nos olhos dele.

— Porque eu também tô sendo caçado pela minha própria raça… eu e meus irmãos.

— O quê? O que você fez pros Aeternis?

— Meu irmão… simplesmente existe. — ele soltou um pequeno suspiro — É uma longa história, mas o resumo é: eles querem matar ele… e eu não vou deixar. Por isso a gente tá se escondendo aqui. Eu, o Seth e a Laly.

— E aquele tal de “Luke”?

— Ele tá caçando a gente. Mas fizemos um acordo, lembra?

— Não muito.

— Resumindo: se ele ganhar, ele entrega a gente… ou mata. Se ele vai ter que fazer o que eu mandar, então farei ele se juntar a mim.

— Um estranho se aliar a você?

— Sim. Usamos o Kor no acordo… não dá pra quebrar.

— Entendo. — ela fez uma breve pausa — Agora pode me soltar?

— Certo, não tem mais nada que eu queira saber mesmo.

Assim que Green desfez sua habilidade, Aella desapareceu por um instante e reapareceu logo à frente, sacando sua espada e encostando a lâmina no pescoço dele.

Green não se moveu. Nem um músculo.

Aella franziu levemente o cenho.

— Por que não tentou se defender? Se eu quisesse… poderia ter te matado agora.

— Porque sei que você não faria isso. — respondeu ele, calmo — Mas, antes de você ir embora… tenho uma proposta.

A lâmina permaneceu em seu pescoço. Aella não respondeu.

— Se junte a mim. — continuou Green — A gente tá passando pela mesma situação. Me ajuda a proteger meus irmãos… e eu te ajudo com os Nulificadores.

— O quê? Convidando uma estranha assim? Nada esperto da sua parte.

— Não seria sem garantia. — ele deu de ombros — A gente faz um acordo com Kor. E você nem precisa responder agora… eu fico bastante em casa. Você sabe onde me encontrar, caso mude de ideia.

— Seu… — Aella desviou o olhar por um breve instante — Não me dê um motivo pra voltar.

No instante seguinte, desapareceu.

Green ficou em silêncio por alguns segundos, ainda olhando para o ponto onde Aella havia desaparecido.

— Ela vai voltar. — com um leve sorriso no rosto.

Então seu olhar mudou.

— A Laly saiu um pouco antes da Aella acordar… — murmurou — Mas o Seth… A energia dele havia sumido por um tempo. E agora tá bem fraca…

Ele soltou um leve suspiro.

— Se ele não aparecer em algumas horas… eu vou atrás.

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