História
Capítulo 5: O Som de Um Piano
“Esta pequena mancha branca é um tumor maligno,” explicou o médico.
Não parecia que ele estivesse falando de mim. Os únicos sintomas que eu vinha sentindo eram fadiga e dores de cabeça; nada tão grave.
O tumor tinha o tamanho da unha do meu dedo mindinho, então a cirurgia não demorou muito.
Foi um procedimento simples que nem precisou de bisturi. Acabou rapidinho.
Parecia moleza, e eu presumi que todo o sofrimento tinha ficado para trás.
Alguns anos depois, porém, descobriram que o câncer havia se espalhado.
“Precisamos começar a quimioterapia.”
Essas poucas palavras do médico marcaram o início do meu pesadelo.
Tive que injetar em mim mesma um medicamento forte para impedir que as células cancerígenas se multiplicassem. As células ruins pararam de crescer, mas as células normais também diminuíram o ritmo.
O que isso significava?
Primeiro, fui acometida por náuseas e diarreia severas.
Meu cabelo caiu, então comecei a usar um gorro de tricô, mesmo quando estava dentro de casa.
Comecei a ter problemas para dormir, o que me deixava atordoada.
Minhas memórias começaram a ficar confusas. Aparentemente, eu estava sofrendo de algo chamado “quimioterapia cerebral”.
Eu tinha dificuldade para me lembrar do que tinha acontecido alguns dias antes, ou mesmo no dia anterior.
Espera aí, no que eu estava pensando agora mesmo?
Meus pensamentos estavam uma bagunça, e isso me enlouquecia.
Gradualmente, até essa sensação desapareceu, e eu parei de pensar completamente. Fiquei anestesiada. Estava totalmente fora de mim.
Então, do nada, fui atingida por uma intensa sensação de ansiedade. Passei quase todos os dias chorando sozinha.
Eu estava claramente deprimida.
Por que eu era a única que tinha que suportar tanto sofrimento?
Amaldiçoei meu destino.
Amaldiçoei a mim mesma.
Comecei a pensar que seria melhor estar morta.
Pensei em enrolar uma toalha no pescoço.
Pular de um telhado.
Cortar meus pulsos.
Arrancar minha língua com os dentes.
Pensei em morrer todos os dias.
Mas minha família não me deixava pensar assim.
Continue viva.
Siga em frente.
Carreguei o peso dos apelos deles sozinha.
Você consegue imaginar como é isso?
Como é agonizante ter pessoas desejando que você viva, em vez de morrer?
Ah. Entendi.
É um inferno na Terra.

Hayase não tinha notícias de Fuyutsuki desde que enviou o vídeo da minha confissão.
E, como se não bastasse, eu não via Fuyutsuki há uma semana. Não era porque eu me sentia envergonhado ou constrangido demais para encará-la — eu literalmente não a via.
Narumi e Hayase estavam na mesma situação e mantínhamos contato frequente.
《Yuuko: Algum de vocês teve notícias da Fuyutsuki?》
《Ushio: Nada por aqui.》
《Sorano: Nem eu.》
Mandei uma mensagem para ela, mas ela não leu.
Como era de se esperar, ela também não atendia minhas ligações. Não consegui contatá-la pelo LINE nem por telefone.
Ela também não estava vindo à faculdade.
O que está acontecendo?
Eu estava extremamente apreensivo.
Fuyutsuki não tinha comparecido à nossa primeira aula naquela segunda-feira. O terraço onde costumávamos ir também estava vazio. O lugar estava silencioso, como se Koharu Fuyutsuki nunca tivesse existido.
Eu estava sentado sozinho no terraço, bebendo refrigerante de garrafa e observando as nuvens passarem. A bebida doce efervescia na minha língua e descia pela minha garganta.
Toda segunda-feira, depois da primeira aula, nós dois matávamos tempo no terraço do centro estudantil.
Eu imaginava que continuaríamos fazendo isso para sempre.
Fuyutsuki se sentava ao meu lado, bebendo chá com leite açucarado, enquanto eu almoçava cedo no refeitório da universidade. Conversávamos sobre nada e Fuyutsuki ria.
Por algum motivo, eu achava que as coisas sempre seriam assim.
“Onde você está, Fuyutsuki?”
Lembrei-me dela me dizendo uma vez que não gostava de refrigerante.
“Lembra quando eu te disse que as máquinas de venda automática são como roleta russa para mim? Eu não bebo refrigerantes, então sempre que acabo com um, sinto como se minha garganta estivesse queimando.”
Pensei nisso enquanto observava as nuvens passarem.
Uma única nuvem fofa flutuava lentamente da direita para a esquerda. Pássaros cantavam e eu podia ouvir as vozes alegres de garotas caminhando pelo campus.
“Ahhh, como eu queria ouvir a voz dela.” As palavras escaparam inconscientemente e, quando me dei conta do que tinha dito, uma onda de constrangimento me invadiu.
Peguei meu celular e abri o LINE para me distrair.
《Sorano: Você vem para a aula hoje?》
A mensagem que eu havia enviado no dia anterior ainda estava marcada como não lida. — Ela estava me ignorando? Ela tinha me bloqueado? — Pensamentos desagradáveis borbulharam dentro de mim. Era como se houvesse algo preso na minha garganta, dificultando a respiração. Meu coração doía e meu peito apertava.
“O que é isso? Coração partido?”
Eu não conseguia me livrar da ideia de que era algo mais sério.
Eu tinha um mau pressentimento de que algo mais sério havia acontecido com Fuyutsuki, e uma vaga sensação de apreensão me dominou.
Era por isso que eu queria vê-la — para ter certeza de que ela não havia desaparecido.
As pessoas de quem você gosta podem desaparecer num piscar de olhos, como se nunca tivessem existido.
Foi isso que aconteceu com meu pai. Antes que eu percebesse, ele tinha ido embora, para nunca mais ser visto.
Senti como se alguém tivesse dito: “Se ela significa tanto para você, eu a levarei embora,” e arrancado algo escondido no fundo de mim.
O que eu fiz de errado? O que eu fiz para merecer isso?
“...Devo ter feito coisas terríveis na minha vida passada.”
Eu estava tão angustiado que tudo o que eu conseguia fazer era me agarrar a conceitos além do meu controle, como vidas passadas e destino.
Abaixei a cabeça, à beira das lágrimas.
“Bom dia.”
Enquanto eu encarava uma formiga no asfalto lá embaixo, ouvi a voz de Hayase.
Olhei para cima e a vi parada ali com uma expressão sombria no rosto.
“Você está bem, Hayase?”
A aparência dela me preocupou. Talvez fosse a maquiagem, ou talvez as olheiras, mas ela parecia um panda extremamente doente.
“Nunca pensei que te veria tão deprimida, Hayase.”
“Você acha que eu pareço forte?”
“Para mim, todos os líderes parecem fortes.”
“Acredite ou não, eu sou uma manteiga derretida.”
E lá estava Hayase, tão curvada que parecia que sua coluna tinha virado gelatina.
“Imagino que a Koharu não esteja aqui.”
Sempre havia a possibilidade de Fuyutsuki aparecer de repente, do nada, dizendo “Te preocupei? Hehehe” com um sorriso. Talvez Hayase também estivesse se agarrando a essa réstia de esperança. Eu a entendia.
“Talvez seja porque eu mandei aquele vídeo estranho para ela,” disse Hayase.
“Como assim, ‘estranho’?”
“Eu estava tirando sarro da sua confissão.”
“Ah, então era isso mesmo que você queria dizer.” Hayase provavelmente não estava acostumada com pessoas desaparecendo. Ao contrário dela, eu estava acostumado com adultos entrando e saindo da minha vida, então não fui tão afetado quanto ela.
Não, isso é mentira.
Correção: o desaparecimento de Fuyutsuki está sendo muito difícil para mim.
“Eu me pergunto o que aconteceu com ela,” eu disse.
“Quem sabe?” respondeu Hayase simplesmente.
“……”
“……”
A conversa parou abruptamente.
“Bem, sobre as provas do meio do semestre,” comecei, me forçando a dizer alguma coisa. “Podemos pegar provas antigas com os veteranos?”
“Sim, geralmente são eles que devem pedir.”
“Você poderia tirar uma cópia da sua para mim? Eu pago uns lanches para vocês no centro estudantil.”
“Claro.”
Eu esperava que Hayase reclamasse de como aquilo era uma troca ruim, mas ela estava com a cabeça nas nuvens. Ela não reagiu à minha tentativa de piada, provavelmente porque estava muito preocupada com Fuyutsuki. Em vez disso, ela apenas encarou fixamente uma fileira de formigas no chão.
Então, ouvi alguém gritar.
“Sorano!”
Era Narumi.
Ele estava correndo em nossa direção, acenando. Seu porte atlético o fazia parecer um jogador de rúgbi, e as outras pessoas no campus tentavam sair do seu caminho quando o viam chegando. Se ele esbarrasse nelas, elas não seriam derrubadas, mas sim atropeladas.
Narumi parou e tentou recuperar o fôlego com as mãos nos joelhos.
“O que foi?” perguntei.
“Por que você está correndo?” disse Hayase.
“Hahaha... Hahaha... Eu... corri até aqui... de Tsukishima,” disse ele, soltando a informação em fragmentos entre as respirações ofegantes.
Parecia que ele tinha corrido todo o caminho desde a Estação Tsukishima, a mais de um quilômetro de distância. Provavelmente deveria haver uma lei para impedir que pessoas tão fortes quanto ele corressem na calçada.
Justo quando eu ia fazer uma piada sobre isso, Narumi disse algo completamente inesperado.
“Eu vi a Fuyutsuki.”
No momento em que ele disse isso, Hayase e eu trocamos um olhar.
“Onde?”
“Ela estava vindo de Shintomicho e entrou em um grande hospital.” A palavra hospital me causou um arrepio repentino.
Eu não conseguia parar de pensar no passado de Fuyutsuki.
O câncer dela. O câncer se espalhando. A hospitalização.
Será que ela tinha ficado doente de novo? — Meu cérebro começou a esquentar.
Eu precisava vê-la. Nada mais importava.
“Obrigado. Vou lá vê-la.”
“Eu vou com você,” disse Hayase, segurando firme a manga da minha camisa.
“E você, Narumi?”
“Desculpe... tenho uma aula obrigatória da qual não posso faltar.”
“Tudo bem, nós dois vamos!” eu disse a ele.
A essa altura, Hayase e eu já estávamos correndo.
“Vocês sabem para onde estão indo?” Narumi gritou atrás de nós.
Olhei para trás, acenando com meu celular.
“Não se preocupe, vou consultar o mapa! Valeu!”
“Cuidado!”
Corremos o mais rápido que pudemos até ficarmos sem fôlego, depois passamos a caminhar em ritmo acelerado e, eventualmente, começamos a correr novamente. Minhas laterais doíam e eu podia sentir o gosto de sangue. Meus pulmões doíam. Mas eu não me importava — nada disso importava. Eu só queria ver Fuyutsuki o mais rápido possível. A ideia de vê-la um segundo antes já fazia tudo valer a pena.
[Almeranto: Se sua corrida for muito intensa e por um longo período, você sente mesmo gosto de sangue, experiência própria.]
Shintomicho ficava a uma estação de metrô da Estação Tsukishima. Discutimos se deveríamos ou não pegar o metrô, mas decidimos correr. Parecia que seria mais rápido do que descer e esperar o trem.
Hayase estava de salto, então teve que desistir quase assim que começamos a correr. “Vai na frente,” ela me disse, então saí correndo sozinho.
Eu conseguia ver o grande hospital da Ponte Tsukuda.
A essa altura, eu estava completamente exausto. Provavelmente já tinha corrido uns dois quilômetros. O hospital parecia uma fortaleza magnífica, com uma combinação de prédios baixos e altos.
Nossa! Tem até um jardim na cobertura.
Era exatamente como você imagina que um grande hospital de cidade grande seja.
Quando entrei pela entrada do primeiro andar, fui recebido pelo aroma de café, em vez do cheiro típico de hospital. A atmosfera luxuosa me deixou incrédulo; havia uma cafeteria pertencente a uma certa rede de lojas verde, restaurantes e, por algum motivo, até uma galeria de arte. Parecia um hotel de luxo. Eu me senti completamente deslocado.
Comecei a me perguntar se a equipe da recepção estaria vestida como concierges de hotel, mas a recepção acabou sendo bem comum.
“Hum... com licença... Posso... perguntar... uma coisa?” eu disse, ofegante.
“C-claro. Esta é a sua primeira consulta aqui?” perguntou a recepcionista, um pouco sem jeito com a minha falta de ar.
“Há uma paciente... chamada Fuyutsuki... neste hospital? Koharu Fuyutsuki?”
A recepcionista começou a me olhar com desconfiança. “Desculpe, mas essa é uma informação pessoal.”
“Por favor. Não consegui contatá-la ultimamente.”
Eu estava desesperado. Sabia que estava sendo idiota, mas não conseguia me controlar. Precisava que ela soubesse. Precisava que essa mulher dissesse a ela que eu queria vê-la — para contar a Koharu Fuyutsuki.
“...Receio que isso não mude nada.”
Alguém que parecia ser a chefe da recepcionista se aproximou, com um sorriso forçado no rosto. Era óbvio que aquele era o sorriso que ela reservava para pessoas suspeitas.
“Aconteceu alguma coisa?” ela perguntou.
“Desculpe. Está tudo bem,” respondi — mas na verdade não estava.
Por ora, me virei e me afastei da recepção.
Eu sabia o quão ridículo era o meu comportamento, mas isso não me tornava menos desesperado.
Naquele momento, o chão sob meus pés começou a balançar.
Minha visão começou a ficar branca; devia faltar oxigênio no meu cérebro. Incapaz de me manter em pé, desabei em uma cadeira no saguão.
Quando foi a última vez que corri tanto?

Um sinal eletrônico soou e uma voz disse: “Número cento e sete, por favor.”
Havia me ocorrido que, se eu ficasse sentado no saguão tempo suficiente, o nome de Fuyutsuki poderia ser chamado — mas parecia que eles se referiam aos pacientes por números. Não parecia que eu fosse ouvir o nome dela, não importava quanto tempo eu ficasse sentado de cabeça baixa.
“Onde você está?” murmurei para mim mesmo.
Peguei meu celular e abri o LINE.
A mensagem que eu havia enviado a ela no dia anterior ainda estava sem ser lida.
Fuyutsuki. Fuyutsuki. Fuyutsuki.
Tudo o que eu conseguia ouvir na minha cabeça era o nome dela.
“Sorano!”
Hayase finalmente havia chegado ao saguão do hospital.
“Você veio de trem?” perguntei.
“Não, peguei um táxi.”
Sua expressão era rígida. Percebi que ela havia vindo correndo.
“E então? Onde está a Koharu?”
“A recepção não me diz nada.”
“Seu idiota. Claro que não! Mas tudo bem. Entendo.” Havia um olhar determinado no rosto de Hayase.
“Não temos escolha a não ser procurá-la nós mesmos. Vou para o prédio antigo ao lado. Me avise se a encontrar.”
Com isso, Hayase foi para o prédio antigo e eu saí para procurar Fuyutsuki. O hospital tinha doze andares, e eu fui subindo lentamente de um andar para o outro. Não queria levantar suspeitas, então me esforcei para não encarar e tentei fingir que estava indo para um quarto específico. A fachada luxuosa de antes se desfez à medida que eu subia, e o cheiro forte de desinfetante se intensificava.
Presumi que o departamento de oftalmologia seria o lugar mais provável para encontrá-la. Procurei por alguém usando uma bengala branca, mas ela não estava lá.
Fuyutsuki. Fuyutsuki. Fuyutsuki.
O tempo todo, tudo em que eu conseguia pensar era no nome dela.
Eu ainda não tinha notícias de Hayase.
Onde você está?!
A cada segundo que passava, minha preocupação aumentava. Quando cheguei ao andar da pediatria, quase voltei, achando improvável encontrá-la lá.
Foi então que eu ouvi.
Eu podia ouvir o som de um piano. Uma melodia suave preenchia o corredor do hospital, e meu coração disparou ao ouvir a música familiar. A imagem do perfil de Fuyutsuki enquanto ela tocava piano passou pela minha mente.
Este devia ser o chamado Quarto das Crianças. As paredes eram cobertas com papel de parede azul-pastel, e havia um tapete de quebra-cabeça amarelo e verde de aparência macia no chão. As prateleiras nas paredes estavam repletas de brinquedos e livros ilustrados. Havia cerca de dez crianças lá, e três mulheres, que deviam ser mães, olhavam com carinho para seus filhos. Lá, no Quarto das Crianças, vi um piano vertical com uma bengala branca encostada nas teclas.
Meu coração deu um salto.
Fuyutsuki estava tocando piano. Ela se entregava completamente à música, e seus longos cabelos balançavam de um lado para o outro enquanto seus dedos deslizavam pelas teclas.
Que música era aquela? Era algo que costumavam tocar nas igrejas.
“Que amigo temos em Jesus.”
[Del: https://www.youtube.com/watch?v=JTjUDJXTC6A Como curiosidade, não é a primeira vez que esta música aparece em uma tradução que faço (a outra é Kuuderella Vizinha).]
A voz que cantava tinha uma qualidade leve e suave, com a cantora estendendo as notas como uma verdadeira profissional. Todas as crianças começaram a cantar juntas. No momento em que ouvi a voz de Fuyutsuki, senti uma onda de alívio da ponta dos dedos dos pés à ponta dos dedos das mãos. Senti como se fosse desmaiar.
Eu a tinha encontrado. Finalmente a tinha encontrado.
Graças a Deus.
Afinal, ela não tinha desaparecido. Fiquei tão feliz por ela não ter ido embora.
“Para carregar todos os nossos pecados e tristezas!”
Sem perceber minha presença, Fuyutsuki continuou cantando em um tom despreocupado, sua voz cristalina.

Eu não conseguia acreditar no quão boa ela era.
“Hahaha. Ahhaha.”
Uma risada baixa escapou dos meus lábios enquanto minha visão começava a ficar turva. Meus dutos lacrimais estavam quentes e minhas bochechas úmidas.
Peguei meu celular para compartilhar a notícia com Hayase.
《Sorano: Ela está aqui.》
《Yuuko: Onde?!》
《Sorano: Na Sala das Crianças, na ala pediátrica.》
《Yuuko: O que ela está fazendo lá?》
《Sorano: Cantando para as crianças.》
Então Hayase me mandou um adesivo que eu nunca tinha visto antes. Olhando para ele, porém, eu não conseguia entender como ela estava se sentindo.
Encontrei Hayase e esperamos juntos até Fuyutsuki sair.
Ela deve ter passado uns quinze minutos cantando para as crianças.
“Obrigado/Obrigada!” todas gritaram quando ela saiu, e Fuyutsuki disse que as veria novamente em breve.
“Vamos,” eu disse para Hayase. Ela assentiu e me seguiu. — O que deveríamos dizer para Fuyutsuki? — Fazia apenas uma semana, mas parecia que não nos víamos há anos.
Meu coração estava acelerado. — Isso é loucura. O que eu vou dizer?
“Fuyutsuki!”
O som da minha voz a assustou.
Vendo-a reagir daquela forma, algo parecia estranho.
“Desculpe, Fuyutsuki. Sou eu, Sorano. Estou logo atrás de você.”
Eu sabia que as pessoas deveriam dizer seus nomes quando a chamavam. Eu fazia isso quando estávamos nos conhecendo, mas ela foi se acostumando comigo aos poucos e, eventualmente, Fuyutsuki aprendeu a me reconhecer apenas pela voz.
Mas desta vez, ela não disse.
Ela não disse “Oh, Kakeru” daquele jeito despreocupado de sempre.
Quando ela se virou, parecia assustada.
Eu estava nervoso. Sentia como se todo o sangue do meu corpo tivesse congelado e minha garganta estava seca. Fiz uma piada para tentar disfarçar minha ansiedade.
“Com licença, senhorita, mas estávamos procurando por você em todos os lugares. Podemos falar com você por um instante?”
Normalmente, Fuyutsuki teria rido e entrado na brincadeira, dizendo algo como “Quem está perguntando?” ou “Vocês estão enganados!” ou alguma outra resposta sem sentido para a minha piada boba.
Desta vez, porém, tudo o que ela disse foi: “Tudo bem.”
O que estava acontecendo? — Havia algo estranho em sua resposta e em seu tom de voz.
O jardim na cobertura ficava no andar acima da Sala das Crianças, então Fuyutsuki, Hayase e eu decidimos ir até lá.
Hayase tentou oferecer o braço para Fuyutsuki, mas ela recusou e foi sozinha, segurando no corrimão.
Estávamos no topo do prédio, mas havia árvores e um gramado bem aparado. Algumas azaleias exibiam flores vermelhas, e havia um arco verde à nossa frente que levava a um banco do outro lado.
Conseguimos que Fuyutsuki se sentasse no banco. Ela estava usando um pijama felpudo em tons pastel.
Finalmente estávamos frente a frente novamente, mas eu ainda não sabia por onde começar.
No fim, decidi esconder meu profundo afeto por ela e começar pelo básico.
“Faz um tempo.”
Hayase estava sentada ao lado de Fuyutsuki e pegou sua mão.
“Estávamos tão preocupadas com você. Por que não conseguimos entrar em contato?”
Fuyutsuki pareceu se enrijecer, provavelmente porque Hayase havia segurado sua mão do nada.
Havia algo estranho acontecendo.
Então Fuyutsuki abriu a boca e falou.
“Hum...”
Suas próximas palavras me encheram de desespero.
“Já nos encontramos em algum lugar antes?”
Era como se ela nunca tivesse nos visto.
Hayase pareceu atônita e seus olhos se arregalaram em espanto. Um “Não acredito!” baixo escapou de seus lábios e ela olhou para mim.
Obviamente, eu também não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
Sem querer, meu tom ficou mais firme.
“Você está falando sério?”
“Hya!” Fuyutsuki soltou um grito curto e assustado.
Alguém, cuja expressão facial ela não conseguia ver, havia falado com ela em um tom ameaçador. Claro que ela estaria com medo.
“Desculpe,” eu disse.
Pedi desculpas uma segunda vez, tão baixinho que só eu conseguia ouvir, como se estivesse me repreendendo.
Finalmente, estávamos reunidos.
Então, o que no mundo estava acontecendo?
Meu coração estava acelerado. Eu me sentia tonto. Fechei os olhos e olhei para o céu. O sol brilhava forte sobre nós, me deixando zonzo. Naquele momento, o ácido estomacal subiu pela minha garganta.
“Isso... não é uma brincadeira, é?” perguntei novamente.
Eu esperava que isso resolvesse tudo. Se fosse uma brincadeira, terminaria aqui. Eu estava rezando para que terminasse.
“O que não é uma brincadeira?” Ela não estava brincando.
“Indo direto ao ponto, quem é você? Vou pedir ajuda.” Ela realmente não ia.
Confrontada com a realidade da situação, Hayase começou a lacrimejar.
“Tudo bem, então.”
As palavras se formaram naturalmente em minha língua.
Assim que aceitei que as coisas eram assim, meus nervos começaram a se acalmar.
“Prazer em conhecê-la. Meu nome é Kakeru Sorano, e esta é Hayase—”

Depois de conversar com Fuyutsuki, decidi voltar para o dormitório por um tempo.
Já era noite quando saímos do hospital, e o Rio Sumida estava alaranjado sob a Ponte Tsukuda. Não estava completamente escuro, mas, mesmo assim, os postes de luz da ponte já estavam acesos. Devo ter parecido extremamente deprimido, porque um poodle toy que estava passeando latiu para mim.
Sentindo-me impotente, peguei uma pequena pedra que estava no chão e a joguei no rio da ponte.
“Eu também quero tentar,” disse Hayase.
Com lágrimas nos olhos, ela também pegou uma pedra e a jogou na água.
[Del: …Posso jogar uma também…? / Que isso Del, tá tão deprê assim?]
Peguei outra para que pudéssemos jogá-las juntos, e nossas duas pedrinhas tocaram a superfície com um plop. Ondulações se formaram na superfície da água, mas eram muito pequenas. Meu coração estava em turbilhão, enquanto a superfície da água à minha frente estava incrivelmente calma; não importava quantas pedras eu jogasse, ela sempre permaneceria assim. Eu não suportava a tranquilidade que parecia depois do que havia acontecido com Fuyutsuki.
Lembrei-me de algo que eu havia dito há muito tempo:
“Eu não quero nem causar a menor ondulação.”
A mudança em mim foi uma prova de quão apegado eu havia me tornado, e de repente soltei um grito.
“Aaargh!”
Hayase se juntou a mim enquanto continuávamos a jogar pedras.
Dessa vez, o chihuahua começou a latir para nós.
“Vocês dois estão bem?” perguntou o homem de meia-idade que passeava com o cachorro.
Ele não perguntou isso por preocupação, mas para garantir que não machucaríamos ninguém. Ele segurava o celular em uma das mãos e parecia pronto para pedir ajuda a qualquer momento.
Então, fugimos.
Hayase voltou comigo para o meu quarto no dormitório.
Não foi algo que tínhamos combinado exatamente. Eu estava meio atordoada, e quando me dei conta, já estávamos em frente ao dormitório.
No momento em que abri a porta, fui atingido pelo forte cheiro de alho.
Aparentemente, Narumi estava fazendo guioza.
“Ei. Quer um pouco?”
Ele parecia tão despreocupado que quase me fez chorar.
“Que cheiro horrível!” Hayase exclamou irritada, com a voz embargada pelas lágrimas.
Havia cinquenta guiozas dispostas sobre a mesa redonda no meio do quarto.
“Certo, vamos repassar tudo o que aconteceu.” Narumi mergulhou um bolinho de massa em molho de soja avinagrado e o enfiou na boca junto com um pouco de arroz.
“No sábado, a Fuyutsuki e o Sowano…” começou Narumi.
“Engula a comida antes de falar,” eu disse.
“Como esse idiota consegue ser tão tranquilo?” comentou Hayase.
Ela levou as pontas dos dedos às têmporas. Narumi engoliu em seco, fazendo um som audível.
“Certo. Vamos recapitular,” disse ele.
Eu e Fuyutsuki nos beijamos depois do festival estudantil no sábado.
“Então, na segunda-feira. Nenhum de vocês a viu, né?”
“Não,” respondi, balançando a cabeça. “Ela também não estava na nossa aula.”
“E também, no domingo à noite, mandei aquele vídeo da confissão do restaurante de comida chinesa para ela,” disse Hayase, com os braços cruzados.
Não houve sinal de Fuyutsuki por uma semana depois disso, e era impossível contatá-la. E quando finalmente nos encontramos novamente, ela agiu como se tivesse perdido a memória.
“Eu disse a ela que éramos amigas, mas ela continuou negando.”
“Ela não tem um celular? Tudo o que ela precisa fazer é checar as mensagens do LINE, e ela saberia que você estava falando a verdade.”
“Eu pensei a mesma coisa,” disse Hayase. “Então eu pedi para ela nos mostrar o celular, mas...”
“O que aconteceu?” perguntou Narumi, vendo Hayase hesitar.
“A tela do celular dela estava toda quebrada,” expliquei.
“É.” Hayase assentiu. “A tela estava totalmente destruída; tinha uma teia de rachaduras. Aí a Koharu disse: ‘Eu consigo fazer ligações, mas é difícil para mim mexer na tela!’ Ela não entendeu a piada, mas parecia algo que a Koharu diria.”
Narumi riu alto e deu um tapa na coxa. “Com certeza.”
“Isso não é motivo para risos!” gritou Hayase. Ela estava sentada com as pernas para o lado e quase se levantou de raiva.
“Eu sei que as coisas não estão muito boas, mas ficar irritada não vai ajudar em nada.”
“Se você tivesse realmente visto ela, não estaria dizendo isso.” Um soluço escapou de Hayase. “Eu só sinto pena da Koharu.”
“Ei, não precisa chorar,” disse Narumi.
Eu entendia por que ela estava chorando. Doeu muito quando Fuyutsuki perguntou: “Quem é você?” com aquele olhar inocente no rosto.
Parecia que tudo o que tínhamos vivido tinha sido apagado.
Nós nos divertimos tanto. Rimos tanto. Fizemos tantas coisas emocionantes juntos.
Eu não conseguia simplesmente dizer “Ah, tudo bem então” e aceitar que tudo aquilo tinha sido perdido.
O que diabos tinha acontecido? Como a Fuyutsuki acabou assim?
Ela tinha feito tudo o que podia para ir para a faculdade, mesmo depois de sofrer com uma doença dolorosa e perder a visão. Se existisse um deus por aí a submetendo a desafios ainda mais excruciantes... então ele era simplesmente cruel demais.
“Vamos lá, não adianta chorar,” disse Narumi. “Queremos fazer alguma coisa a respeito, certo?”
“O que a gente vai fazer?” perguntou Hayase.
“Tem que haver alguma coisa…”
“Claro, mas o quê?!” ela gritou histericamente.
“……”
“……”
“……”
Nós três ficamos em silêncio, e a risada rouca de uns caras no corredor ecoou pela parede.
Narumi se levantou lentamente.
“Bem, vamos fazer o que pudermos.”
Ele começou a vasculhar a comida pré-preparada em cima da geladeira.
“Vocês querem sopa de missô?”
“Você é a nossa mãe ou o quê?” retruquei do meu jeito habitual.
“Tem um monte de arroz ali, então se sirvam à vontade,” acrescentou ele.
“Você realmente parece a nossa mãe.”
Finalmente, uma risada escapou dos lábios de Hayase.
“Não me faça rir, Sorano.”
“Bem, chorar não vai te ajudar em nada.”
“Por que você está tão relaxado agora, Sorano?”
“Você acha mesmo que eu não me importo com isso? Sério? Você só pode estar brincando!” Gritei, perdendo a paciência de repente.
Narumi abriu os braços, tentando dissipar a tensão.
“Vamos lá, por que não comemos esses gyoza antes que esfriem?”
“Não. Não quero nenhum,” disse Hayase, emburrada.
Parecia que eu tinha ido longe demais.
“Não adianta brigarmos,” disse Narumi. “Vamos, coma um gyoza.”
“Claro, mãe,” respondeu Hayase fracamente, enquanto colocava um na boca a contragosto.
“…Estes são ótimos.”
“Não é?”
Narumi sorriu presunçosamente e, depois de lançar-lhe um olhar ressentido, Hayase continuou, devorando um após o outro. Para alguém que estava tão relutante em comer, ela parecia ter um apetite e tanto.
“Ei, não coma tudo.”
“Não me dê ordens. Eu fico com fome quando estou de mau humor. Você tem mais alguma coisa além de guioza?”
“Agora que penso nisso, você não trouxe algumas linguiças de casa?” perguntei a Narumi.
Olhei para a geladeira, mas Narumi bloqueou minha visão dramaticamente e gritou “Nãoooo!”. Seu peculiar senso de humor de Kansai estava em plena exibição.
“Mas essas são as minhas favoritas! Elas se chamam linguiças espirais porque são enroladas como uma espiral!”
“Ei, elas parecem deliciosas. Vamos, pegue-as. Não seja mesquinho.”
Hayase agarrou Narumi pelos ombros, tentando puxá-lo para longe da geladeira, mas Narumi resistiu, balançando a cabeça de um lado para o outro.
“Não, não. De jeito nenhum.” Eu os observava, agarrando a barriga de tanto rir.
Antes de entrar na faculdade, eu jamais imaginaria me divertir tanto com os amigos. Cozinhando guioza, nos preocupando, chorando, discutindo e tentando resolver as coisas por conta própria.
Talvez nosso jeito de pensar fosse ingênuo. Talvez só fôssemos capazes de encontrar soluções desajeitadas. Mas, mesmo assim, esse nosso desespero não parecia tão ruim assim.
[Del: (Sussspiiiiiiiiraaaaaaa). É… agora me vou ir deitar em depressão na cama enquanto tento me agarrar ao tênue fio de esperança de que ainda é o capítulo 5… / Almeranto: Ele disse que ia deitar 5 minutos, mas viraram 30 kkkkkkkk. O contraste com o último capítulo é gritante kkkkkkk.]
Traduzido por Moonlight Valley
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