Volume 1 – Arco 1
Capítulo 23: Coração da Colheita
Domingo do dia 17 de março. E ao amanhecer, o sol trouxe consigo mais do que luz — trouxe o peso leve e inevitável de um dia que mudaria tudo, sem retorno possível. Os telhados reluziam sob o sol, e o ar cheirava a pão quente e flores cortadas — a mistura típica das manhãs antes do Festival da Colheita. As ruas estavam cheias de movimento; sinthras-voadores cruzavam os céus pendurando faixas coloridas, enquanto velocistas passavam correndo. A cidade acordava em uníssono, como se cada respiração fosse parte de um mesmo ensaio.
Os saltadores, sempre exibidos, se impulsionavam para alcançar os pontos mais altos, amarrando bandeiras e lanternas nas torres, competindo para ver quem deixava o enfeite mais brilhante. Nos becos, artistas pintavam murais temporários, misturando pigmentos com magia, fazendo as paredes pulsarem em cores que mudavam com a luz. Os mercados fervilhavam de vozes e cheiros — carne assando, frutas cortadas, mel fervendo. O som dos preparativos era quase uma melodia caótica, feita de risos, marteladas e música improvisada.
Michilli era um mosaico vivo de espécies e culturas, cada um contribuindo com o que podia: fadas alinhavam fitas nas árvores, trolls e híbridos empurravam barris de cerveja, e humanos discutiam preços de flores com sinthras jardineiros. Era uma cidade onde tudo se misturava, e naquele dia, essa mistura parecia dançar. Mas ainda assim, por trás da alegria, havia uma cautela discreta — acima do som e da cor, os milionários assistiam das varandas como deuses entediados observando mortais. Desde o massacre político da década de 1920, nenhum deles ousava se misturar à multidão em eventos.
As torres do governo permaneciam fechadas, suas bandeiras balançando devagar no vento, como se recordassem silenciosamente os dias em que os corpos se enfileiravam nas praças e do sangue que se espalhava pelas escadarias do parlamento. Mesmo assim, Michilli sorria. O festival ainda não começou, mas o ar já vibrava com promessas — o tipo de energia que antecede o caos, o tipo que anuncia que, ao cair da tarde, a cidade não seria mais a mesma.
Conforme as horas se passavam e festival da colheita se aproximava. As ruas cheiravam a flores recém-colhidas e perfume demais, as casas exalavam riso. Pelas janelas, dava pra ver famílias se arrumando, crianças correndo, e o cheiro de perfume misturado ao de comida. Glomme, Firefy, Ártemis, Tiruli, Narapha e Anaru se preparavam com suas famílias, prontos pra noite que prometia encher a cidade de luz. Os professores também marcariam presença — o diretor Aelzy, a vice-diretora Hanvasa e parte do corpo docente do internato também compareceriam, seguindo a tradição de participar do festival ao lado das famílias. E entre todos, Bulmer, finalmente liberado, se juntará à cidade em festa, com o sorriso que há dias ninguém via.
O entardecer caiu sobre Michilli como um suspiro dourado, tingindo as janelas e os telhados de cobre. As luzes começaram a acender uma a uma, e o som da cidade mudou — o ritmo dos preparativos se transformou em música, o barulho em riso, o caos em festa. As ruas estavam tomadas por multidões; famílias inteiras desciam as avenidas decoradas, crianças riam e corriam, enquanto o ar se enchia do cheiro doce de comida, fumaça e flores.
As barracas lotadas se estendiam por várias quadras, vendendo de tudo — frutas cristalizadas, pão quente, bebidas mágicas que mudavam de cor, brinquedos encantados que flutuavam por segundos antes de cair nas mãos das crianças. Os fogos começaram cedo demais, riscando o céu com cores indecisas, mas ninguém parecia se importar. Cada explosão arrancava aplausos e gargalhadas. A cidade inteira pulsava sob a promessa da noite.
No centro, professores chegavam em grupos, alguns com filhos e parceiros, outros sozinhos, cansados mas sorrindo. Alguns vinham de mãos dadas com colegas, outros observavam o palco sendo montado com o olhar atento de quem já conhecia o ritual. A música começava a se misturar às vozes — corais infantis, instrumentos de rua, tambores e flautas criando um mar de sons desordenados, mas harmônicos à sua própria maneira. Era o início do festival, e parecia impossível não sentir o coração bater junto ao som das celebrações.
O festival crescia em som e cor, e no meio do tumulto de Michilli havia dois rostos familiares que, ali, não precisavam fingir nada. A música cobria os pensamentos, e a cidade parecia permitir que cada um se tornasse o que realmente era — sem máscaras, sem os papéis impostos pela escola, sem o peso dos olhares.
Narapha estava sentada no chão, as pernas cruzadas, um cachorro-quente desequilibrado na mão e um sorriso que ocupava o rosto inteiro. Ria alto, o corpo balançando com a gargalhada dos tios — híbridos felinos como ela — que zombavam de todos ao redor, dos ricos enfeitados até os casais que tentavam posar de perfeitos. Ela não era a garota barulhenta que usava o humor como armadura. Ali, ela era só uma garota feliz, simples, que se permitia rir sem pensar se estava sendo "demais". Sua alegria era verdadeira, ingênua até, e o brilho nos olhos vinha de algo raro: ela estava em paz.
Do outro lado do festival, Tiruli andava entre as barracas com um grupo de amigos. As luzes refletiam nas lentes do copo que girava nas mãos, e o rosto dele parecia mais leve do que em qualquer outro lugar. Ria, dançava, errava o passo e ria mais ainda. Nada nele lembrava o garoto que andava com os caçadores, sempre quieto, sempre observando o perigo. Ali, ele era um garoto normal, com pais incríveis e um coração que só queria existir. Sem rótulos, sem ameaças, sem precisar provar coragem.
Dois jovens que, na escola, escondiam o que eram — Narapha atrás da teatralidade, Tiruli atrás da neutralidade — agora dividiam a mesma cidade iluminada, o mesmo céu em festa. Nenhum dos dois se via, mas ambos, de maneiras diferentes, estavam finalmente sendo o que a escola nunca deixava: eles mesmos.
O centro do festival fervia em luz e barulho, e no meio do som dos instrumentos e do cheiro de comida, três figuras se destacavam pela alegria que irradiavam. No meio daquela confusão bonita, Glomme, Firefy e Ártemis se abraçavam próximos ao palco, rindo, as asas de Firefy batendo devagar como se acompanhassem o ritmo da música. O trio posava para fotos com o céu alaranjado atrás deles, as mãos cruzadas, o calor dos corpos se misturando à vibração da multidão.
Firefy comentava que havia pedido para deixarem Bulmer ir ao festival, mas não teve resposta desde ontem. Apesar da incerteza, o brilho dela não se apagava, ela queria acreditar que, de algum modo, ele estava bem, e porque aquele momento era para ser feliz. Eles estavam juntos, e isso bastava.
Glomme ria alto, o som leve e sincero que sempre fazia Firefy relaxar. Enquanto Ártemis segurava o celular com firmeza, ajeitando os três num abraço desengonçado. E por um instante, parecia que nada ruim podia ferir aquele momento. Sem Bulmer, sem Trrira, mas ainda assim juntos — três jovens tentando viver um pouco de liberdade antes que a realidade voltasse.
Ártemis jurou que eles iriam se divertir, e se algo desse errado, ela se responsabilizaria — o que, claro, seria um segredo entre eles, já que todos os pais estavam por ali, sorrindo e sem saber o que seus filhos aprontavam.
O clima era leve, elétrico, cheio daquela alegria adolescente que vem do simples fato de existir. A festa já tomava o festival por inteiro — o chão tremendo com as batidas, os cheiros misturados de suor, bebida e comida, e o riso fácil que atravessava o ar. Horas se dissolviam entre danças, abraços e selfies tortas, os três mergulhados naquele delírio coletivo que fazia o mundo parecer infinito. Mas então, entre uma música e outra, quando o ritmo pareceu prender a respiração por um segundo, o som mudou. Um murmúrio atravessou a multidão, um eco confuso de surpresa e choque. Risadas se transformaram em exclamações, e pessoas começaram a se virar para a entrada do festival. Algo — ou alguém — tinha parado o fluxo da festa por um instante.
Firefy sentiu antes de ver. O celular vibrou em sua mão, uma mensagem curta de Bulmer piscando na tela: “Tô aqui.” O coração dela disparou. Olhou ao redor, o som da música parecendo distante demais, e começou a procurá-lo entre as pessoas, desviando de famílias, luzes e vozes. Até que o viu. Bulmer. Acompanhado do pai e da madrasta.
O mundo pareceu parar por um instante. Ártemis soltou o ar devagar. Firefy levou a mão à boca, os olhos marejados. Glomme, quando reconheceu o rosto dele foi o primeiro a reagir. Largou tudo e correu, o rosto tomado por uma mistura de surpresa e emoção. Ele atravessou a multidão, os olhos marejando, tropeçando nas próprias pernas, até se jogar nos braços de Bulmer, o choro preso na garganta finalmente rompendo. Firefy bateu as asas com força, o ar quente rodopiando em volta dela, e voou alguns metros, descendo rápido, fechando as asas antes de abraçá-los.
Ártemis vinha logo atrás, tropeçando, nervosa. Ela ficou parada, a alguns passos de distância. Observava em silêncio, o coração batendo estranho, sem saber se devia se aproximar. Havia ternura demais naquela cena, e ela não sabia onde se encaixava. A luz do palco refletia nos olhos dela, e por um instante, entre aplausos e risadas ao fundo, ela pareceu menor — tímida, deslocada, como se o abraço coletivo não fosse um lugar para ela. Ficou ali, olhando, com aquele meio sorriso incerto que só quem sente saudade sem direito à posse é capaz de dar.
***
Ártemis POV
Éehh... porra, eles se abraçaram.
E eu fiquei aqui, sorrindo, tipo quem finge que tá tudo bem. Porque, bom... é bonito de ver, sabe?
Eles são amigos há anos, se entendem só no olhar, têm um tipo de carinho que parece antigo — e eu gosto disso. De ver eles juntos. De ver que funciona.
Mas, ao mesmo tempo... dói um pouquinho, sabe... Eu conheço eles há o quê? Um mês.
Sou a peça nova tentando se encaixar num quebra-cabeça que já está completo.
E é ok, de verdade. Não tem nada de errado nisso.
É só que, às vezes, eu sinto que o grupo já é deles, e eu tô só aqui, flutuando por perto.
Então eu fico quieta. Esperando meu momento.
Mas, até lá... sou só o encosto feliz por ver que o resto do mundo ainda sabe se abraçar.
***
O abraço foi intenso, de fazer o ar sumir. Glomme o envolveu com força, os braços apertados, o rosto enterrado no ombro dele. Chorava, soluçando baixinho, como uma criança que finalmente encontra o que achava ter perdido pra sempre. Beijou o rosto de Bulmer várias vezes, a testa, as bochechas, os olhos — desesperado, trêmulo, aliviado. O sorriso dele vinha entrecortado de respiração curta, o corpo todo vibrando entre choro e riso.
— Bulmer... você tá aqui mesmo — ele murmurou, a voz falhando, os olhos apertados como se ainda não acreditasse. — Eu achei que você nunca mais ia voltar. Juro, eu pensei que tinha te perdido de vez — respirou fundo, o sorriso tremendo. — Eu não fazia ideia do que fazer sem você aqui.
Bulmer riu de leve, um riso curto e rouco, a garganta apertada. O toque de Glomme era quente, verdadeiro, e por um segundo o peso do corpo dele pareceu sumir. Passou a mão nos cabelos do amigo, encostando a testa na dele.
— Eu tô bem melhor, Glom. Eu juro. Lá na clínica é tudo calmo, as pessoas me tratam bem, e eu tô dormindo, comendo... vivendo um pouco de novo... — disse ele num tom baixo, os olhos úmidos e sinceros demais pra parecerem seguros. Virou-se para ela, e Firefy sustentou o olhar em silêncio; sabia que não era verdade, sabia que ele ainda carregava aquilo por dentro. — Só... os sonhos que continuam vindo. Sempre. Todo santo dia. Eu acordo achando que ainda tô preso lá dentro.
Firefy chegou perto, devagar, as asas se movendo levemente no ar. Os olhos dela estavam marejados, mas o sorriso insistia em ficar. Tocou o rosto de Bulmer com a ponta dos dedos, o gesto delicado, quase infantil.
— A gente vai cuidar disso, tá me ouvindo? — disse ela, num tom doce e firme, o olhar cheio de afeto e medo. — Vamos sentar, conversar, entender, resolver o que tá te acontecendo. Todos nós, juntos, como sempre devia ter sido.
Ártemis assistia de longe, as mãos entrelaçadas atrás das costas, o corpo um pouco curvado, o rosto iluminado por um sorriso tímido. Estava feliz por ele, mas o desconforto de quem não sabe se pertence àquele amor era evidente. Bulmer a notou ali, meio afastada, e por um segundo pareceu surpreso.
— Oi, Ártemis — disse ele, coçando a nuca, um sorriso leve escapando. — Faz um tempinho, né?
— É... faz — respondeu ela, os olhos baixos, o sorriso contido. — Que bom te ver assim, de pé.
O silêncio que se formou foi breve, rasgado logo em seguida pelo estouro distante dos fogos e pelas gargalhadas espalhadas ao redor, como se o mundo estivesse decidido a não deixar aquele momento afundar. Bulmer respirou fundo, os olhos brilhando com uma energia híbrida, uma mistura de cansaço e vontade de viver, como alguém que tinha atravessado algo grande demais... mas não parecia carregar o peso disso. E foi aí que Glomme percebeu. Ele não falou da enfermaria. Nem um comentário solto, nem um desvio estranho, nem aquele tipo de silêncio carregado de quem sabe exatamente o que fez.
Aquilo não fazia sentido.
Glomme estreitou levemente os olhos, observando Bulmer com mais atenção, como se estivesse tentando encontrar alguma rachadura naquela versão leve demais dele. Será que ele lembrava? Ou tinha simplesmente apagado tudo? Esquecido o que fez com todos eles naquele lugar, como se nunca tivesse acontecido? A ideia se instalou desconfortável, grudando na cabeça dele como algo que não dava pra ignorar.
Ele desviou o olhar por um instante, procurando Firefy e Ártemis, esperando encontrar nelas o mesmo estranhamento. Mas nada. Firefy estava focada em Bulmer de um jeito quase protetor, os olhos presos nele com preocupação genuína, como se o que importasse fosse só o agora, só o fato de ele estar ali. Já Ártemis... Ártemis parecia longe. O olhar dela não estava exatamente na conversa, nem nele, nem em ninguém. Era como se estivesse presa em outro pensamento, outro lugar, qualquer coisa menos aquilo.
Glomme voltou a encarar Bulmer, o incômodo crescendo devagar, silencioso. Talvez fosse só ele. Ou talvez fosse exatamente esse o problema.
— Quer saber? Foda-se. Eu quero dançar com vocês. Quero rir, quero beijar, quero viver essa porra de noite até o fim — disse Bulmer, abrindo os braços, o sorriso rasgado no rosto. — Já chega de tristeza, galera. Eu tô vivo, caralho.
Firefy foi a primeira a rir, um riso leve e sincero. Glomme riu logo depois, limpando as lágrimas do rosto. Ártemis tentou disfarçar o sorriso, mas não conseguiu. Bulmer estendeu as mãos e os puxou, e os três o seguiram, correndo entre as barracas, os pés batendo no chão, o vento batendo nos rostos.
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