Volume 1 – Arco 1
Capítulo 22: Festa dos Doentes
Firefy POV
Ele disse que o rei demonio está dentro dele. O Diabo.
Eu acreditei. Não porque sou boba — nem porque precise de monstros pra explicar o que é quebrar por dentro. Eu acreditei porque eu amo ele — e quando você ama de verdade, aprende a reconhecer quando a dor não é simples, quando não é delírio bonito, quando não é fuga. Aquilo era real demais pra ser inventado. A mão dele tremia como se estivesse segurando o próprio fim, o olhar vazio dele não pedia ajuda — pedia tempo.
E naquele momento eu entendi que não importava se o nome era Diabo, demônio, doença ou maldição. Alguma coisa tinha escolhido ele. E, gostando ou não, tinha acabado de me escolher também.
E desde aquele momento, tudo mudou. Minha fé mudou. Meu jeito de olhar o mundo mudou. Até o jeito que eu olho pra ele mudou — não com menos amor, mas com mais cuidado, mais vigilância, mais medo de piscar e perder alguma coisa importante. Porque quando alguém que você ama te diz que algo vive dentro dele, você não ri, não minimiza, não explica fácil.
Você escuta... E depois disso, você nunca mais escuta o silêncio do mesmo jeito.
Eu só disse o necessário pra eles. Pedi também pra devolverem o celular ao Bulmer. Falei pra deixarem ele sair mais. Pra deixarem ele ir ao festival da colheita, amanhã. Ele precisa lembrar que existe vida fora daquela caixa branca. Precisa rir, precisa de música alta, amigos, abraços...
E com certeza eles ouviram tudo pelas câmeras, pelos microfones escondidos — devem achar que fiquei louca também. Ou vão taxar Bulmer de mais insano ainda. Talvez até tentem mergulhar ele em água benta agora. Por isso eu preciso descobrir de que Diabo ele estava falando. Porque, se ele tiver razão... se realmente quiserem usar Bulmer como hospedeiro, ninguém lá dentro vai perceber até ser tarde demais.
Eu só sei que, se continuarem trancando ele, vão acabar matando o pouco que sobrou dele. E eu não vou deixar. Vou fazer tudo por ele. Tudo. Mentir, implorar, quebrar regras, comprar briga com quem for. Nem que eu vire o alvo do demônio.
Se alguém tiver que cair, que seja eu.
Ele, não.
Na mansão de Delaryn, o sol ainda queimava o fim da tarde e o calor se misturava ao cheiro de álcool, perfume e suor. A música explodia pelos alto-falantes, o grave vibrava nas janelas, e a piscina refletia as luzes coloridas que piscavam em ritmo frenético. Gente demais, corpos demais, risadas soltas e vozes roucas se misturando num frenesi que fazia a casa inteira parecer viva.
No meio do tumulto, na cozinha, Delaryn dançava só de cueca preta, o elástico torto na cintura, o corpo o corpo suado brilhando com o calor do fim da tarde. Os músculos do abdômen se contraíam a cada movimento, e o cabelo desgrenhado colava na testa, empapado de bebida. Um colar de prata batia contra o peito a cada passo, enquanto ele girava, rindo alto, completamente alheio ao caos que ele mesmo alimentava. Makkolb, com a camisa aberta, ria ao fundo, encostado na bancada, observando tudo com prazer. Tiruli, mais quieto, segurava uma garrafa de água e fingia estar ali por acaso, os ombros tensos, o olhar fugindo das cenas mais explícitas como se estivesse preso em um pesadelo que não queria admitir.
Misha entrou na cozinha com o passo firme e o rosto endurecido. O cabelo preso num coque torto, mechas soltas colando no pescoço suado. Assim que viu Delaryn dançando no meio da confusão — cercado por garotas suadas, quase nuas, com copos tombando e risadas escorrendo das bocas — o maxilar dela enrijeceu. A cena era um caos de risadas bêbadas, corpos se esfregando, garotos sem camisa gritando como animais soltos — era um clipe pornô filmado no inferno, e Misha o assistia ao vivo.
— Pelo amor de Deus, Delar... que nojo — ela disse, fazendo uma careta e jogando o cabelo pra trás com um movimento brusco. — Ele acha que é o rei do mundo. Um palhaço bêbado cercado de gente que finge gostar dele. É nojento, é patético, é... é tudo que ele não devia ser!
Ele nem olhou. Nem escutou. Continuava dançando, o corpo suado, o copo girando na mão. Ria de alguma coisa que uma garota disse no ouvido dele. Misha revirou os olhos e cruzou os braços. Se aproximou da geladeira, o salto deixando rastros suaves no chão quente da cozinha. Enquanto pegava um copo e servia uma bebida, os olhos nunca se afastavam do caos à frente.
Ela deu um gole, torceu o copo na mão, os olhos vasculhando cada canto da cozinha. Garotos sem camisa empurravam garotas contra balcões, mãos deslizando pelas coxas, quadris se apertando, bocas se encontrando com força; beijos quase agressivos, mordidas provocativas, gemidos que saíam pela garganta e se colavam ao ar denso. Misha sentiu o estômago revirar, a raiva latejar, mas também aquela centelha irritante de curiosidade involuntária — e odiava isso.
— Não, não... — murmurou, cerrando o maxilar, o nariz torcido de desgosto, os olhos cravados em Delaryn, que se exibia como rei daquele circo de corpos, rindo alto, quase nu, mãos escorregando por braços, ombros, costas suadas.
Ela se virou devagar, os saltos batendo firme no chão, a respiração curta e pesada. Cada passo carregava desprezo, raiva e o fascínio proibido que teimava em percorrer sua espinha. A música alta, os gritos e as luzes coloridas ficavam para trás,
Misha desceu o corredor, o corpo suado grudando levemente na roupa impecável, respirando rápido, tentando processar o que tinha acabado de ver na cozinha. A música lá atrás ainda batia forte, pulsando nas paredes, nos corpos se esfregando e rindo, e mesmo com todo o asco que sentia, não conseguia evitar que algo dentro dela despertasse. Ela se repreendia mentalmente, lembrando das coisas que acreditava, mas era impossível ignorar a tensão, a excitação que subia pelo corpo sem permissão, um misto de repulsa e curiosidade que fazia o coração disparar e a mente girar em perguntas que ela não queria admitir.
No meio do caminho, um garoto encostado na parede chamou sua atenção. Ele parecia esperar por ela ou por alguém, o sorriso confiante e um olhar que parecia reconhecê-la mesmo sem nunca tê-la falado. O coração de Misha acelerou, uma mistura de alerta e excitação subindo pelo corpo. Ela desviou o olhar rapidamente, mas não conseguiu evitar um leve sorriso — e, por um instante, pensou que talvez pudesse provar pra si mesma que não era só uma virgem chata, que podia ser mais, ser mais como Delaryn. Ele devolveu o sorriso, aproximando-se devagar, cada passo calculado, respirando o mesmo ar quente e pesado do corredor.
Quando a porta do banheiro se abriu, ela entrou rapidamente com ele. O garoto a segurou pelo quadril, aproximando-a e pressionando o corpo contra o dele, colocando-a sobre a pia, enquanto se inclinava para beijá-la. O calor do corpo dele e o cheiro de bebida misturado com perfume a fizeram tremer por dentro, provocando uma reação que ela não queria admitir. Os beijos e sussurros começaram doces, mas logo tomaram uma curva cruel e pesada, palavras embriagadas de arrogância que a deixaram enojada. O estômago de Misha revirou e ela empurrou o garoto com força, as mãos suadas e o rosto marcando cada emoção: repulsa, raiva, incredulidade e, de algum modo, desejo contido.
— Tá de sacanagem, né? — murmurou ela, os dentes cerrados, a voz firme apesar da adrenalina e do suor. — Sério. Você acha mesmo que alguma garota vai engolir essas merdas que você tá falando, caralho? Que piada... um idiota tentando se mostrar.
Ele deu um passo à frente, zombava, claramente embriagado, desafiando-a com um sorriso malicioso. Para ele, nenhuma garota teria a ousadia de empurrar alguém como ele, e acreditava que ela merecia apanhar por isso. O sorriso dele, antes arrogante, começou a vacilar quando percebeu que os olhos de Misha mudaram; eles brilhavam com uma intensidade amarelada, e uma luz ardente começou a irradiar de suas mãos, lenta, firme, imponente. Misha respirou fundo, sentindo o poder pulsar, a fúria, a moral e a luxúria se misturando dentro dela, sem arrependimento.
— Que... o que é isso, porra? — ele perguntou, a voz trêmula, percebendo que sua confiança evaporava.
Ele achou que ela iria machucá-lo e tentou se aproximar para batê-la, ela apenas agachou-se, a energia crepitando entre os dedos. Tocou nele rapidamente, e num instante, o corpo do garoto se desfez em partículas cintilantes, como pó espalhado pelo ar, enquanto a luz de Misha aumentava, consumindo o espaço entre eles. Respirou fundo, os olhos ainda ardendo com cada emoção contida, e observou, até que tudo o que restava dele era uma pilha de pó reluzente no chão e no ar, como glitter dourado espalhado.
Misha respirou fundo, a fúria ainda pulsando intensamente em seus olhos, sem vestígios de arrependimento ou pena. Ela sabia exatamente o que fazia e acreditava que ele merecia o destino que acabara de receber. Com um último movimento firme das mãos, o brilho ardente nelas aumentou, fazendo o pó brilhante do que restava do garoto desaparecer, dissolvendo-se no ar como se ele nunca tivesse existido.
Sem uma palavra, Misha saiu do banheiro, respirou fundo, sentindo o calor do corredor e o eco das batidas da música. Cada passo era calculado, firme, como se a simples aparência de normalidade pudesse apagar a destruição que acabara de exercer. Seus olhos estavam sérios, mas nada traía o brilho que alguns segundos atrás iluminava suas mãos; o pó do garoto havia desaparecido, levando consigo qualquer vestígio do que aconteceu, mas não apagando a fúria e a adrenalina que pulsavam em seu peito.
Ela entrou novamente no salão, mergulhando no caos da festa como quem respira debaixo d'água, deixando o som, as luzes e os corpos se chocando ao ritmo da música engolirem sua presença. Por fora, parecia apenas mais uma jovem cansada; por dentro, a mistura de nojo, desejo e poder ainda ardia, tornando cada passo e cada olhar um exercício de controle sobre si mesma.
Mas sem ter percebido, no canto do teto perto ao banheiro, a câmera ainda registrava cada movimento que haviam feito antes de entrar no toalete com aquele garoto, um detalhe silencioso, quase imperceptível, guardando para si a lembrança do brilho ardente e da destruição que Misha havia causado. Ela não viu, não percebeu; mas aquela sombra tecnológica aguardava, silenciosa, pronta para tornar visível o que ela acreditava impossível de ser revelado.
O fim da tarde se arrastava em tons de laranja e violeta, e o jardim da casa de Glomme começava a se dissolver na penumbra. O sol, baixo demais, filtrava-se pelas copas e lançava faixas douradas sobre o gramado. O ar já carregava o frescor da noite que chegava, e o vento leve levantava o cheiro doce da terra úmida. Ele estava ali, de pés firmes, arco mágico nas mãos, de olhos semicerrados, Glomme moldava flechas de mana bruta a partir do silêncio. A energia nascia primeiro no peito, depois escorria pelos ombros, antebraços e dedos, até condensar num brilho verde que chorava faíscas. A corda do arco vibrou quando ele puxou, e a flecha etérea se solidificou o suficiente para obedecer. Disparou. Um estalo seco, alvo riscado. Outra flecha, outra respiração contada: quatro tempos para entrar, dois para segurar, quatro para sair. Algumas cravavam no centro, outras raspavam e morriam no gramado, apagando-se como vaga-lumes esmagados. Ele não xingava quando errava; reposicionava os pés, soltava a tensão dos ombros e corrigia a linha do cotovelo.
A parte favorita era o processo — o instante em que a mana deixava de ser ideia e virava peso real no mundo. O arco cantava metálico e, quando o disparo era perfeito, havia uma vibração doce que subia pelo punho e se instalava no osso. A pele formigava, os pelos do braço arrepiavam, e o cheiro quase ozônico da energia recém-queimada ficava preso no ar. O nariz coçava, insistente, e a cicatriz pinçava quando ele sorria sozinho depois de um acerto limpo. Errava também, evidente, e nesses segundos o corpo todo avisava: joelho esquerdo adiantado, punho torcido, foco escapando. Ele ajustava, repetia, respirava até a mira estabilizar de novo.
Quando começou a fluir, o vento virou cúmplice. As mangas tremiam, o cabelo curto bagunçava no alto da cabeça, e cada gesto escrevia um risco luminoso no ar, um rastro verde que se partia em poeira brilhante e pousava devagar no gramado. As árvores ao fundo balançavam num ritmo que parecia responder ao pulso dele, não ao do clima: sincronia discreta, nada místico demais, só corpo e ambiente conversando sem palavras. O arco, quente nas mãos, já fazia parte do braço; a mana obedecia como se sempre tivesse sido dele. O mundo recuou um passo e, por um minuto inteiro, a única coisa que existia era a linha da mira e o som do próprio coração.
— Gloooomme... querido, meu amor, vem pra dentro, filho... precisamos conversaaar — a voz da mãe cruzou o campo inteiro, doce, quase um canto atravessando o vento. — O jantar tá pronto, e seus tios estão na sala!
A vibração do disparo seguinte morreu antes de nascer. A conexão afrouxou sem estalo, como um sonho que acorda por inteiro. Ele abriu os olhos de vez, sentiu a energia escoar dos dedos e se quebrar em ciscos de luz. Por um segundo, o jardim pareceu se retrair — o vento parou, as folhas quietas, o silêncio se espalhando até o coração dele. Então ele respirou fundo e virou o corpo já em corrida, os pés cortando a grama, o peito ainda vibrando da adrenalina do treino. A casa o esperava, as luzes mais quentes, o cheiro de comida escapando pela porta. E o coração — ainda embalado pelo treino — trocou de compasso: não mais mira e vento, mas o tipo de conversa que muda o desenho do dia.
Anoiteceu como em qualquer outra noite em Michilli — calma, bonita e silenciosa. Alguns tentavam dormir, mas a mente insistia em vagar. Bulmer olhava o teto branco do quarto e sentia o corpo vibrar por dentro, Firefy virava na cama, ouvindo o próprio coração bater rápido sem saber por quê. Michilli parecia calma, mas quem já tinha visto a cidade desabar sabia: silêncio demais é sempre aviso.
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