Volume 1 – Arco 1
Capítulo 20: Cada Um Pelo Próprio Futuro
No final do dia, o relatório foi simples demais para ser honesto: a escola estava limpa. Totalmente. Nenhum traço de energia alienígena, nenhuma cicatriz temporal, nenhum resíduo de possessão, reconstrução ou interferência ativa. Como se nada tivesse acontecido. Como se a madrugada tivesse sido apenas um delírio coletivo. Alguém reconstruiu, apagou tudo e sumiu. Os examinadores recolheram seus equipamentos com a tranquilidade burocrática de quem confia demais nos próprios métodos e foram embora sem olhar para trás. E Hanvasa permaneceu sozinha em seu escritório depois que o campus esvaziou, imóvel diante das paredes que agora pareciam observar de volta, o silêncio pesado demais para ser natural. O coração batia pesado, lento, carregado de uma certeza incômoda: não encontraram nada porque algo ali dentro tinha sido escondido com precisão cirúrgica.
Isso era o que tornava tudo pior. Hanvasa sentia que a escola não estava limpa, apenas mascarada. O campo de proteção funcionava — os programas do campo estavam íntegros, rodando perfeitamente, todos os selos ativos, todas as camadas confirmadas — mas ainda assim havia interferências. Do lado de fora, o internato seguia invisível, como deveria. Mas isso não significava nada. O campo não estava protegendo. Não porque estivesse quebrado — e sim porque algo ali dentro do internato estivesse dialogando com o campo, dobrando suas regras sem quebrá-las, confundindo qualquer leitura externa. Não era uma brecha. Era interferência direta no espaço, na gravidade, nas leis físicas que sustentavam o próprio conceito de "barreira".
A imagem de Marla voltou à mente de Hanvasa com força, acompanhada da lembrança incômoda do fluxo de magia apontando para dentro da escola enquanto uma ilusão perfeita permanecia do lado de fora. Na cabeça dela os examinadores não encontraram nada porque não estavam olhando para onde deviam. Se Marla estava dentro da escola naquele momento, então ela poderia está escondendo tudo ali dentro, mascarando leituras, desviando sinais, enganando até magia treinada para detectar o impossível. Era ocultação. Marla pelo jeito sempre escondeu demais. Poderes, intenções, limites. Hanvasa sabia que precisava observar antes de agir, ler gestos, padrões, ausências, até ter certeza do que estava sendo escondido — e por quê. Depois disso, viria o confronto. Mas não sozinha. Antes de qualquer coisa, Briaaron precisava saber. Porque se havia alguém interferindo e ocultando o coração da escola, aquilo não era um erro. Era um movimento. E alguém estava jogando muito à frente.
O clima na cidade de Michilli mudou depois de tudo — mas nem todo mundo chorava pelos mesmos motivos. A internet inteira virou um teatro. Todo mundo fingindo estar abalado, mas no fundo era só curiosidade e fofoca. E entre os que não sabiam se choravam ou riam, estavam Misha, Delaryn e Vaskara — três que odiavam estar fora dos holofotes.
Delaryn, especialmente, estava furioso. Repetia o tempo todo que devia ter estado lá. Que se tivesse conseguido passar pela multidão e entrado na enfermaria, teria "acabado" com o Bulmer, aquele "Bambi de merda", como ele dizia. Pra ele, aquele caos todo tinha sido uma oportunidade perdida — a chance perfeita de se vingar do cara que o tinha eliminado no jogo do ano passado, com aquele golpe sujo que deslocou seu ombro e o deixou de fora das finais. Desde então, Delaryn sonhava em uma revanche. Mas o destino — ou talvez só azar — tirou isso dele. E agora todo mundo falava do acidente, das rachaduras, dos poderes, dos "heróis que salvaram a escola". Nenhum deles era Delaryn.
Misha e Vaskara, por outro lado, tentavam fingir que não ligavam, mas era mentira. Elas sabiam que quando as aulas voltassem, os "salvadores" seriam ovacionados. Era assim como o sistema funcionava — a escola ia usar os heróis do acidente pra limpar a própria imagem. Entrevistas, anúncios, patrocinadores, discursos sobre bravura... iriam transformar caos em espetáculo, desastre em marketing. Todo mundo fingindo que o caso estava resolvido. E claro, Bulmer seria o vilão perfeito — o "aluno instável", o "perigo controlado a tempo", e os "salvadores" iam ser tratados como lendas, e elas, as caçadoras, iam despencar no ranking. Ninguém se lembrava de quem ficava de fora. Ninguém celebrava quem não aparecia nas fotos.
No fundo, o que doía nelas não era inveja — era medo de se tornarem irrelevantes. Era insuportável. Caçadoras esquecidas, deixadas de lado, eclipsadas por quem levou os créditos. A raiva era silenciosa, mas constante. Um tipo de dor que não sangra, mas arde — a ferida do esquecimento.
Elas precisavam voltar pro centro dos holofotes, pras telas, pros anúncios. O público de Michilli esquecia rápido, e se não fizessem algo, seriam só nomes de rodapé no próximo boletim escolar. Até porque em Hiden, ninguém se importa com quem você é — só com quem está sendo falado nos microfones.
E naquela escola, fama e poder valem mais do que qualquer lição de moral.
No fim da segunda semana, Briaaron teve outra conversa com Eldaly. Ele estava sendo deixado de lado no trabalho, missões menores, funções cortadas, decisões tomadas sem ele. Ele não era idiota. Sabia exatamente o porquê. Porque ele tinha se recusado a matar inocentes. Simples assim. E no mundo de Mherdan, isso não era coragem, era falha. Era traição. Enquanto falava, ele andava pela sala como um bicho enjaulado, a voz baixa demais para combinar com a raiva que carregava, dizendo que aquilo não era punição direta — ainda — mas um aviso. Um "se comporte ou a gente te apaga".
Ele contou que suspeitava da casa estar grampeada, vigiada mesmo, ele tinha quase certeza de que estavam tentando impedir ele de abrir os olhos de Eldaly, de fazer ela enxergar os podres que Mherdan mandava eles engolirem calados. As ordens que ninguém podia questionar. As ordens sujas, as coisas pra engolir seco, guardar e sofrer em silêncio. Disse que sentia que iam tentar separar os dois. Afastar ele dela. Testar ele. Que iam enfiar outro maluco no lugar, alguém disposto a fazer as merdas que ele não fazia mais.
Eldaly ficou quieta por um tempo, pensativa. Ela não era burra. Nunca foi. Só tinha se rendido ao sistema por cansaço. Mas aquilo estava mudando. Devagar, mas mudando. Ela admitiu que estava abrindo os olhos, que não dava mais pra fingir que não via. Disse que não aceitaria trabalhar com outros iguais a quem ela mesma já foi um dia, obediente demais, cega demais. Que tinha percebido a mudança nele — e nela — e que queria mudar de verdade. Se tentassem separar os dois, ela ia reagir. Rebelar, se fosse preciso.
Os dois sabiam que, dali pra frente, cada palavra importava. Cada palavra teria peso. Cada silêncio também. Precisariam tomar cuidado, medir passos, fingir normalidade. Porque se aquelas conversas chegassem à central, ia dar muito ruim. E a casa parecia calma demais. E quando o silêncio fica assim... é porque alguém tá ouvindo.
Então, a terceira semana com as portas do internato fechadas chegou como uma lâmina fria. Os professores foram todos dispensados de uma vez para aproveitarem a semana longe do lugar. O castelo virou um cadáver de pedra, ecoando apenas o vento e o medo. De repente, uma nova investigação aconteceu: pericias e investigadores analisaram o lugar, reviraram cômodos, sondaram passagens secretas com lanternas, caçando o garoto que sumiu na semana retrasada junto ao desastre na enfermaria. O ar ficava pesado mas o mistério não morria — ele se alimentava das sombras, crescendo mais escuro e faminto.
Michilli sempre costura destinos tortos ao mesmo tempo — enquanto ela decidia o que sacrificar, um espelho devolvia um garoto a si mesmo, e, mais longe, uma voz nascida da dor prometia não calar.
Glomme, pela primeira vez em muito tempo, feliz — ou pelo menos tão feliz quanto alguém que passou a vida inteira odiando a própria aparência pode ser. Ele ficava parado diante do espelho, quase sem piscar, como se precisasse confirmar que o que via era real. Passava os dedos pelo rosto inteiro, sentindo cada traço. As lágrimas desciam, quentes, porque finalmente ele podia enxergar algo que gostava. Algo que não o fazia se encolher de vergonha.
Durante toda a infância e adolescência, cada reflexo era um castigo. Depois de anos de piadas, socos, empurrões e risadas às suas custas, ver o próprio reflexo era sempre um castigo. Tudo isso o ensinou que beleza era uma moeda que ele nunca teria. A própria pele verde, as orelhas pontudas, cada traço "anormal" — da herança maldita do sangue goblin que corria nas veias de sua família há gerações — que marcava seu rosto — ele sempre odiou. A pessoas dizia que não era bonito, que não era aceitável. E ele acreditou nisso.
Mas agora... agora era diferente. Com o rosto reconstruído, ele via pela primeira vez um rosto "normal", humano, alinhado aos padrões de beleza que sempre o rejeitaram. Ainda odiava a cor da pele, ainda odiava as orelhas, mas era um começo. Um milagre. Glomme não percebia o quão absurdo era romantizar o acidente da enfermaria, aquele mesmo que quase o matou. Mas na cabeça dele, tudo valeu a pena. O sofrimento antigo, o medo constante, até mesmo os hematomas e a dor.
Ele pensava — com um sorriso triste — que talvez devesse ter estrangulado o próprio rosto na parede há muito tempo. Cada cicatriz escondida era uma lembrança de que a dor também constrói. E, pela primeira vez, Glomme entendeu que não era um novo rosto o que ele queria — era permissão pra se olhar sem nojo. E pela primeira vez, Glomme não queria se esconder. Queria existir. E ser visto.
E no fundo, ele sentia raiva da própria vida e da sociedade que o ensinou a se odiar. Raiva de como as pessoas tinham o poder de definir sua autoestima, de fazer dele alguém invisível ou ridicularizado. Ele sabia que beleza era um privilégio que ele só havia conquistado por acidente. Ainda assim, ao tocar o próprio rosto, sentia gratidão, porque finalmente podia se enxergar, mesmo que só agora. Um começo de amor-próprio, nascido da dor e da injustiça que carregou por tanto tempo.
Esse sentimento não morria nele. Ele ficava no ar, pesado, como se a injustiça tivesse vontade própria e precisasse de novos lugares pra se alojar. Mudavam os rostos, mudava o ambiente, mas a lógica era a mesma: existir já parecia um erro, e escolher viver do próprio jeito era tratado como provocação. Anaru sentia isso na pele, como julgamento constante.
Depois do fechamento da escola, Anaru não caiu em desespero nem virou sombra de ninguém. Ela se virou. Anaru aprendeu cedo a usar o dinheiro das derrotas — das batalhas em que se vendia, em que deixava outros testarem força contra ela por pagamento. Prometeu a si mesma que ia parar com isso depois de quase morrer, mas ainda não sabia como seria dali pra frente. A escola cobrava os 20% da mensalidade que a bolsa não cobria, e ninguém pagava isso por ela. Ainda assim, ela vivia bem, dormia em hotéis, comia em restaurantes, vivia na cidade, como se tivesse nascido ali. A cidade não a rejeitava. Michilli aceitava dinheiro, silêncio e independência, e isso ela tinha. Ela amava aquela sensação de ser invisível e livre ao mesmo tempo.
A tribo e a família continuavam nas florestas. Disseram que não havia comida pra ela ficar, que não dava pra sustentar mais uma boca, mas Anaru entendeu rápido demais o que também estava nas entrelinhas: esperavam que ela engravidasse cedo, que se casasse logo, que ocupasse o espaço que já tinham decidido pra ela antes mesmo de ela aprender a dizer não. Ela não quis. Aquilo foi o limite. Então ela saiu. Não fugiu — decidiu. Anaru já tinha entendido que não pertencia mais àquele lugar. Ela se sentia praticamente emancipada, dona do próprio tempo, do próprio dinheiro, do próprio corpo. Isso tinha um preço, claro, e às vezes o peso vinha forte, silencioso, no meio da madrugada. Mas ainda assim, era muito melhor do que voltar.
Mesmo com todas as incertezas, Anaru sentia algo crescendo dentro dela. Não era fome, nem medo — era ambição misturada com vontade de existir em voz alta. Ela não estava apenas vivendo, estava se moldando. E se o mundo tentasse empurrá-la de volta pra margem, ia descobrir que Anaru já não sabia mais ficar pequena. E depois do fechamento da escola, essa certeza ficou ainda mais afiada: ninguém ia decidir o futuro de Anaru por ela. Nem tradição, nem medo, nem falta de opções. Ela já tinha escolhido a própria estrada — e não pretendia voltar atrás.
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