Amamori Junna é Úmida Japonesa

Tradução: Almeranto

Revisão: DelValle


Vol 1

Capítulo 1: Nós Dois, Na Chuva Depois da Escola

Então o nome dela era Amamori Junna.

O nome era escrito com os caracteres para “chuva” (ama) e “molhado” (jun). Seu nome real, que ela revelou após descobrir que eu era uma alma gêmea, combinava perfeitamente com o clima do dia.

O som da chuva forte. O peso do ar úmido parecia agradável.

Depois de nos empolgarmos por um tempo conversando sobre a música que ambos gostávamos, dei uma olhada no relógio na parede. Trinta minutos haviam voado antes que eu percebesse.

“Ei, Amamori.”

“Pode me chamar de Junna, okay? Shigure.”

Quando olhei para ela, seu rosto estava bem ali, colado ao meu.

Recuei com um “Uou!?” e me afastei, mas Amamori nem sequer piscou.

“Estou já te chamando pelo seu primeiro nome, não estou...? E além disso, eu gosto do nome Shigure,” ela declarou.

Ouvir que ela gostava de forma tão desavergonhada me fez recuar ainda mais. Virei o rosto, coçando a bochecha.

“Ah... entendi.”

“Não é 'entendi'.”

“...Obrigado?”

“Também não é isso.”

O olhar de Amamori permanecia fixo, encarando intensamente o lado do meu rosto. Sob aquele encarar inabalável, finalmente disse o que presumi que ela queria ouvir.

“...Junna.”

“Mm.”

Amamori Junna assentiu levemente. Era a resposta correta, pelo visto. Então, sem pressa, ela perguntou: “E você, Shigure?”

“Hm?”

“Você gosta do meu nome?” ela perguntou, inclinando-se para frente para fechar a distância entre nós novamente, como se estivesse perscrutando meus olhos. Segurei a respiração. Não havia escapatória.

“Err, sim... eu gosto. Acho bonito, tanto a forma como é escrito quanto o som.”

“Mm...”

Ao ouvir minha resposta, Junna piscou, seu olhar vagou por um momento antes de ela baixar a cabeça. Ela se afastou, sentou-se adequadamente em sua cadeira e resmungou.

“...Não diga coisas como 'gosto' ou 'bonito' de forma tão desavergonhada.”

“Essa é a minha fala, Garota Sem Emoção”, retruquei, exasperado. Junna não parecia nem um pouco envergonhada.

Talvez fazer piadas com uma expressão séria fosse a coisa dela. Como um arremesso de bola de efeito.

“—Então? O quê? Você estava começando a dizer algo, certo?”

“Hein? Ah, err...

Rebobinei minha memória. Antes da troca sobre como nos chamar—

“Então, Junna. Por que você gosta de rock depressivo?” Perguntei apenas por perguntar, sem nenhum motivo em particular.

“O auge do rock depressivo foi há um bom tempo, não foi?”

O termo “rock depressivo” surgiu e atingiu seu pico entre os anos 90 e o início dos anos 2000. Embora ainda existam muitas bandas e músicas hoje que se encaixariam na definição, como um rótulo de gênero, é praticamente um termo morto.

“Então, por quê?”

“............”

Não houve resposta de Junna. Ela também havia desviado o olhar.

“Para mim, foi YOHILA que me fez entrar nessa.”

Então continuei, olhando para o estojo da guitarra encostado na parede.

“Eu os descobri no inverno do meu oitavo ano do ensino fundamental. Estava procurando músicas em um site de vídeos e me deparei com eles... e fiquei viciado logo na primeira vez que escutei. Ainda me lembro claramente do choque e da empolgação daquele momento.”

YOHILA é uma banda que usa o slogan “A Nova Geração do Rock Depressivo”.

Eles são conhecidos por suas letras sombrias, escritas com uma sensibilidade única, seu som de guitarra pesado e distorcido, e seus vocais melancólicos e sussurrados que podem subitamente se tornar crus e emocionais. São populares principalmente entre os jovens na internet. Uma banda de rock indie em ascensão.

“As letras, a música, a voz — tudo é simplesmente perfeito... A perspectiva de mundo deles é sombria, mas é exatamente por isso que bate tão forte. Realmente ressoa, sabe? Com um coração cínico e cansado.”

Enquanto eu falava, lembrei-me da conversa que tive com meus companheiros de atletismo antes de vir para cá.

Não consigo me forçar a dizer que não quero fazer algo. Não consigo simplesmente me conformar com o que todo mundo gosta. Consigo ler o ambiente, mas não consigo me obrigar a ir com a corrente — a teimosia, a melancolia, a insatisfação, a frustração e a irritação se acumulam pouco a pouco a cada dia, como resíduos...

Eu amo YOHILA porque eles cantam sobre esses sentimentos sombrios e negativos sem tentar embelezá-los. É como multiplicar um negativo por um negativo e obter um positivo; eles ajudam a reverter meu humor sombrio.

“............Você gosta... da YOHILA?”

Junna, que estivera olhando para baixo em silêncio, ergueu o rosto. Ela me espiou por entre a franja e perguntou timidamente.

“Mesmo?”

“Sim. Eu amo!” respondi com firmeza, cerrando o punho.

“...Então, um teste.”

Junna levantou-se suavemente. Ela me deu as costas, saiu do seu assento e foi até sua guitarra.

Ela pegou o sapo azul-violeta pendurado no zíper e, olhando por cima do ombro, anunciou. Com os olhos semicerrados, ela me encarou, como se estivesse lançando um desafio:

“Um quiz de introduções de músicas da YOHILA. Se você acertar todas as perguntas, então tudo bem. Eu reconhecerei que seus sentimentos são legítimos, Shigure.”

 

 

“Hortênsia e o Fantasma.”

“...Correto.”

Ao ouvir minha resposta, Junna assentiu uma única vez.

Seus dedos voaram pela escala e, com o toque preciso de sua palheta em forma de gota, ela mudava a frase musical suavemente. O som da guitarra elétrica, amplificado por um mini-amplificador e adornado por um pedal de efeitos, ecoou, abafando o ruído da chuva.

“E esta?”

“Chuva, Ruína, Chuva.”

—Mm. Correto...”

Junna concordou com a minha resposta imediata e começou a tocar a melodia da estrofe enquanto pensava na próxima pergunta.

Com o corpo surf green da guitarra apoiado em sua coxa, Junna parecia completamente à vontade tocando. Mesmo para um leigo como eu, estava claro que ela era muito boa.

A melodia elétrica tecida pelo seu deslumbrante dedilhado fazia o ar úmido da chuva e os meus tímpanos vibrarem, antes de ser sugada pelos inúmeros furos de isolamento acústico nas paredes.

“...A próxima é esta. Conhece?”

“Sapo Amarelo.”

“Sim, correto. Devemos fazer uma que não seja single também? Tipo esta.”

“A Escória.”

“Co-correto... Hmm, certo, a última. É um B-side que não foi incluído em nenhum álbum... mas talvez seja difícil demais.”

“A Identidade Própria de uma Panqueca Fria.”

“............Mmm.”

[Almeranto: O cara sabe todas kkkkk.]

Em contraste com o riff selvagem da guitarra, a expressão de Junna era calma e sem emoção. Ela franziu levemente o rosto. Mesmo depois que respondi, ela continuou tocando.

Erguendo o olhar de suas mãos, Junna me encarou.

Eu silenciosamente devolvi o olhar.

“—Correto.” Junna suspirou e parou de tocar. O silêncio e o som da chuva retornaram.

“Eu realmente não achei que você acertaria absolutamente todas...”

A voz de Junna era plana como sempre, como a superfície de um lago calmo. Mas...

“Você realmente os ouve”, ela murmurou, e seus lábios levemente — mas definitivamente — relaxaram, transformando-se em um sorriso suave. Um sorriso como um raio de sol deslumbrante que subitamente atravessa uma fenda nas pesadas nuvens de chuva.

Foi a primeira expressão real que vi no rosto de Junna desde que nos conhecemos.

“Ei.”

Não consegui evitar abrir a boca e perguntar.

“Junna, você é—”

Bem nesse momento, um som eletrônico estridente inundou os alto-falantes instalados perto do teto. Era o sinal indicando o horário limite para os alunos deixarem a escola.

Junna, que estava limpando cuidadosamente as cordas, parou e olhou para o relógio. Os ponteiros marcavam 18h. Ela dobrou o pano, segurou a guitarra pelo braço e se levantou.

“Está na hora. Preciso ir...”

“Ah, ei!”

Enquanto Junna guardava rapidamente seu equipamento — a guitarra, o amplificador e os cabos — escolhi minhas palavras com cuidado. Junna olhou para mim de relance.

“...Aceita trocar contatos?” perguntei hesitante.

[Almeranto: Esse prota parece ser promissor, já pediu o telefone da mina.]

Não houve resposta de Junna. Continuei, como se para preencher o silêncio.

“Quero conversar mais sobre todo tipo de coisa. Não só música, mas livros também. E quero saber o que você achou desse livro de novo assim que eu terminar de ler—”

“Desculpe.”

Cortando-me, Junna fechou o zíper do estojo da guitarra. Ela jogou a alça sobre o ombro e se levantou.

“Eu não uso LINE.”

“—Hein? Ah, err... certo.”

Dando as costas para o meu eu confuso, Junna começou a caminhar rapidamente, com a guitarra nas costas. O sapo azul-violeta balançava. Parecia que a chuva havia ficado subitamente mais pesada.

“............”

Ela caminhou em direção à saída da sala em silêncio, com a cabeça levemente baixa. E então, abriu a porta e estava prestes a sair sem dizer mais uma palavra — ou era o que eu pensava.

“Shigure.”

Ela parou logo antes de sair e se virou. Seus olhos sonolentos encontraram os meus.

“Até logo.”

“...!?”

Desviando o olhar do meu rosto surpreso, Junna finalmente saiu da sala.

O som abafado de seus passos desapareceu pelo corredor, deixando para trás apenas o barulho da chuva contra a vidraça e eu, completamente perplexo.

“...Bom, então…”

Cocei a nuca e resmunguei.

“Dizer que não usa LINE... não é apenas uma mentira padrão... um jeito de dar um fora em alguém? Mas dizer ‘até log’' significa que ela quer conversar de novo, certo?”

Sobre a mesa estava o livro esquecido que deu início a tudo. Peguei-o e dei um sorriso irônico.

Ela é tão difícil de ler...

Sem expressão, com emoções indecifráveis, ela parecia distante em um momento e, no seguinte, encurtava a distância entre nós. Ela é esquiva, mas é isso que é tão cativante. Uma garota estranha.

Será que a verei de novo?

Ouvindo o som da chuva envolvendo o mundo, banhando-me no eco da guitarra que Junna havia tocado, percebi que estava torcendo para que chovesse de novo amanhã.

 

 

O dia seguinte estava maravilhosamente limpo. Nuvens cúmulos-nimbo, como montes de chantilly, flutuavam em um céu azul-soda.

Como estava ensolarado, é claro, o treino da tarde da equipe de atletismo aconteceu com força total depois das aulas. Sob um céu que derramava uma luz solar quente, corri pelo campo, encharcado de suor.

O solo já havia secado há muito tempo, mas, talvez devido aos resquícios da chuva, o ar estava pesado e úmido. Eu não gosto nem desgosto da chuva, mas provavelmente não gosto do dia seguinte ao que chove. Especialmente durante a estação quente.

“Até mais.”

Despedindo-me dos caras do atletismo — que falavam empolgados sobre streamers e músicas populares e haviam começado a gravar vídeos curtos para as redes sociais — segui para o segundo andar da ala oeste. Para a sala de audiovisual.

Já passava das 17h30, e o prédio escolar, com suas fileiras de salas de uso especial, estava quase deserto. Talvez fossem membros da banda de sopro, que ensaiam na sala de música no quarto andar — um grupo de garotas carregando estojos de instrumentos pretos desceu as escadas e passou por mim.

Pensei no estojo de guitarra de Junna e, com a esperança de vê-la novamente, estendi a mão para a porta da sala de audiovisual. Mas...

“...Está trancada.”

A porta estava trancada, e não houve resposta quando bati. Espiei por uma fresta nas cortinas puxadas sobre a janela da porta. As luzes pareciam estar apagadas. Junna não estava lá.

“Bem, é claro que não está...”

Soltei um suspiro desapontado, peguei meus fones de ouvido sem fio e os coloquei nos ouvidos.

Comecei a tocar o primeiro mini-álbum da YOHILA, O Olho do Tufão Está te Observando, a partir da primeira faixa, pintando o silêncio sem chuva com música antes de girar sobre os calcanhares. O sol poente que entrava no corredor parecia ofuscante, provavelmente porque meu coração ainda estava naquele dia chuvoso.

Espero que chova amanhã.

Olhando para o céu que começava a ficar carmesim, orei. Mas no dia seguinte, e no outro também, o tempo estava estranhamente limpo para junho. Não vejo Junna desde aquele dia.

Parece que os ritmos diários de Junna e o meu só se sobrepõem quando meu clube está de folga — em outras palavras, apenas nos dias em que chove depois das aulas.

“A próxima chance de chuva é... segunda-feira. Falta um bom tempo.”

Fiz uma careta para a fileira de símbolos de sol na previsão do tempo.

A temporada de chuvas ainda não começou oficialmente? Já se passaram três dias desde que nos conhecemos. Com o fim de semana no meio, será quase uma semana até que eu possa vê-la novamente.

...Embora não haja garantia de que eu vá vê-la em um dia de chuva, também.

Esta talvez seja a primeira vez na vida que anseio tanto pela chuva.

Será que existe uma versão reversa de um teru teru bozu? — pensei enquanto caminhava para casa pelas ruas secas e tingidas pela cor do pôr do sol.

[Almeranto: Teru Teru Bozu (てるてる坊主, "monge que brilha") é um tradicional amuleto japonês feito de papel ou pano branco, usado para atrair dias de sol ou parar a chuva.]

 

 

Descobri que, se você pendurar um teru teru bozu de cabeça para baixo, ele se torna um furefure bozu, um amuleto para atrair a chuva.

Era como se meu desejo tivesse sido atendido, pois a segunda-feira amanheceu sob um temporal.

Quando acordei, o som da chuva forte já caía lá fora, e agradeci mentalmente ao furefure bozu sem rosto que eu deixara pendurado de ponta-cabeça no trilho da cortina do meu quarto.

Aparentemente, a forma correta de fazer isso, tanto para o teru teru bozu quanto para o furefure bozu, é pendurá-los sem rosto primeiro e só desenhar um depois que seu desejo se realizar. E então, você deve se livrar dele imediatamente. Parece um pouco cruel.

“Meu desejo... ainda não se realizou, então acho que vou deixá-lo como está.”

Meu desejo era que a chuva continuasse caindo e que eu visse Junna na sala de audiovisual após a aula. Assim, com o furefure bozu sem rosto ainda pendurado, saí de casa. As gotas de chuva batiam contra o meu guarda-chuva de vinil transparente, produzindo um som de instrumento de percussão.

Chovia tanto que eu estava me molhando mesmo sob o guarda-chuva, e meus sapatos estavam encharcados, fazendo um som esponjoso a cada passo. Não houve treino de atletismo pela manhã. Nesse ritmo, o da tarde provavelmente também seria cancelado ou consistiria apenas em um treino leve em local coberto. Eu finalmente conseguiria ver Junna.

E então—

—Após as aulas. A chuva não havia parado; pelo contrário, estava ficando ainda mais forte. Assim que o treino da tarde foi cancelado, fui direto para a sala de audiovisual. Coloquei a mão na porta, cuja pequena janela estava coberta por uma cortina. Após respirar fundo, abri-a com determinação. Não estava trancada.

A sala estava clara; as luzes estavam acesas. Olhei para o fundo.

Vi um par de pernas nuas, brancas e impecáveis.

“...Junna?”

Sem resposta. Aproximei-me timidamente.

“............”

Era Junna. Seus pés descalços estavam apoiados sobre uma mesa, e ela encarava a tela de um celular deitado. Usava fones de ouvido pretos. Devia estar ouvindo música, pois eu conseguia ouvir um som baixo escapando.

Como de costume, ela não havia notado minha presença.

Talvez eu a assuste um pouco.

Sentindo-me travesso, tomei cuidado para que ela não sentisse minha presença e me aproximei sorrateiramente por trás.

No celular, passava um videoclipe em estilo anime — “Ham”, do Zutto Mayonaka de Iinoni. O título significa “Ele e eu”. O aparelho estava apoiado sobre o peito dela — sobre a curva farta e generosa que parecia contrastar com sua silhueta, de resto, esguia.

Deixando meu olhar subir, vi suas pernas nuas, apoiadas desleixadamente sobre a mesa.

Suas coxas brancas e roliças.

Assim como o busto, eram surpreendentemente fartas. Sua postura relaxada fazia com que a bainha da saia curta subisse, expondo mais da metade daquela pele lustrosa e macia.

Ela não usava meias em nenhum dos pés e, em seus dedos, as unhas bonitas, de um rosa pálido como pétalas de cerejeira, refletiam a luz fluorescente.

Além disso, por algum motivo, as roupas e a pele de Junna estavam levemente úmidas. O cheiro da chuva e uma fragrância doce e sutil que emanava de seu corpo, um fascínio inebriante, faziam minha cabeça girar.

Engoli em seco antes de estender a mão e tocar o ombro de Junna.

“—Yo.”

“Hk!?”

Com isso, Junna deu um pulo exagerado, os ombros saltando.

“Eh, hyaah!” — E, no choque, ela despencou da cadeira enquanto tentava se virar para me olhar.

Seu smartphone voou e estancou no chão acarpetado.

A saia dela levantou e, por um instante, meus olhos arregalados captaram o vislumbre de algo que eu não deveria ter visto.

“............Hah!? J-Junna!”

Após congelar por um momento, agachei-me apressadamente, enquanto Junna apenas me encarava com um olhar vago. Ela tirou os fones, piscou duas ou três vezes e então chamou meu nome.

“—Shigure?”

“D-Desculpe! Eu não queria te assustar tanto... Você se machucou?”

“...Sim, estou bem.”

Mostrei preocupação, e Junna se inquietou. Enquanto ajeitava repetidamente o cabelo com a mão direita e a bainha da saia com a esquerda, ela respondeu:

“Eu baixei a guarda... estava pensando que você não viria mais,” ela murmurou em voz baixa.

“—Oi?” Eu disse, pasmo. Mas imediatamente entendi como ela se sentia e, enquanto pegava o celular que ela havia derrubado, expliquei a situação.

“Sabe, eu sou da equipe de atletismo. Nos dias em que não está chovendo e podemos usar o campo, temos um treino intenso à tarde. Tem estado ensolarado desde aquele dia, não é? Essa foi a única razão pela qual não pude vir. Mas eu ainda dava uma espiada aqui depois do treino.”

Mas eu nunca via Junna na sala de audiovisual após as aulas.

Pelo que parecia, ela provavelmente vinha nos dias ensolarados também, mas já tinha ido embora quando eu aparecia após o término do meu treino. Nossos ritmos realmente não batiam em dias de sol.

“...Ah. Então foi isso.”

Junna entendeu e pegou o celular da minha mão. Ele estava protegido por uma capa de silicone azul-violeta no formato estilizado de um sapo.

Apertando-o contra o peito, Junna murmurou:

“Estou aliviada.”

Sua voz era plana e, após aquele susto inicial, ela não demonstrava nenhuma expressão real. Mas seu rosto estava vermelho até as orelhas.

O motivo era provavelmente—

“...A propósito, por que você está toda molhada da chuva, Junna?” — Perguntei, sentando-me em uma cadeira enquanto tentava não olhar para o que estava no canto da minha visão. — “Você saiu ou algo assim?”

“Mm. Eu não exatamente ‘sai’, mas...”

Junna sentou-se de volta em seu lugar original, na fileira atrás de mim. Não com as pernas apoiadas na mesa, mas devidamente, com as pernas bem juntas.

“Eu acabei de chegar na escola.”

“...Só agora? Mas já é depois das aulas.”

Se for para chegar tão tarde, melhor tirar o dia de folga, pensei, mas se Junna estivesse ausente, não teríamos conseguido nos encontrar assim.

Você veio até aqui esperando me ver também? — Pensei em perguntar de brincadeira, mas me contive. — Isso é ser convencido demais. — Disse a mim mesmo.

“O motivo é que eu dormi demais.”

“Você dormiu demais?”

“É rock ’n’ roll, não é?”

“—Você acha que pode se safar de qualquer coisa se disser apenas isso, não acha?”

“Quando tento evitar que minha guitarra se molhe…” disse Junna, mudando de assunto suavemente. Sua guitarra, guardada em um estojo macio preto, estava encostada na parede próxima. “...acabo me molhando. Encharcada da cabeça aos pés.”

“Entendi. Então é por isso que você tirou as meias.”

“Exato. Tirei as meias e estou secando-as.”

Junna assentiu enfaticamente, dando ênfase à palavra “e”.

Virei meu rosto para longe de Junna e tentei desviar minha consciência do que eu havia vislumbrado quando ela caiu da cadeira e do que estava pendurado diagonalmente acima de nós.

Se não fosse pelo som da chuva forte, meu próprio coração poderia ser audível. Enquanto eu estava ali sentado em um silêncio emburrado, Junna se mexeu no assento.

“E-Eu não tirei mais nada além das meias... então...”

Não enfatize essa parte tanto assim.

O lugar para onde Junna lançava olhares furtivos.

Fingi não notar a calcinha azul-violeta pálida pendurada no trilho da cortina junto com as meias dela.

[Almeranto: KKKKKKKKKKKK. Mano… demorou uns 5 segundos pra cair a ficha e eu entender. Eu tinha pensado que ele tinha visto apenas a calcinha dela, mas já que ela estava sem, ele viu algo mais.]

 

 

“Certo, vou indo agora.”

Falei logo antes do sinal de recolhimento tocar, por volta das 17h30.

Junna respondeu com um “...Mm” e parou de tocar, verificando a hora em seu celular, que exibia um aplicativo de bateria eletrônica.

“...Já está bem tarde.”

A batida eletrônica que cuspia um ritmo constante como um metrônomo parou, e o som da chuva preencheu o silêncio resultante. O temporal havia diminuído bastante. Nesse ritmo, eu provavelmente conseguiria chegar em casa sem me molhar muito.

“Shigure—”

Quando eu estava prestes a me levantar, ela me impediu puxando minha manga e me encarou. Ficou em silêncio por um momento, como se escolhesse as palavras, antes de dizer:

“...Vejo você de novo, no próximo dia de chuva,” e me soltou. Eu sorri.

“...É. A gente se vê de novo, em um dia de chuva.”

Dizer aquilo em voz alta me fez perceber novamente o quão estranho era o nosso relacionamento. Nós apenas nos encontrávamos quietos em um canto do prédio cinzento e fúnebre da escola em tardes chuvosas para passar o tempo.

Conversávamos sobre as músicas que gostávamos, discutíamos nossas opiniões sobre livros e eu ouvia Junna tocar sua guitarra. O tempo que passávamos juntos, envolvidos pelo som da chuva, era divertido e pacífico; parecia fluir tão devagar, mas, olhando para trás, passava num piscar de olhos.

“Na próxima vez, vamos fazer um ‘quiz de introduções de músicas sobre chuva’, okay?”

“Músicas sobre chuva... tipo coldrain ou amazarashi?”

“Esses são nomes de bandas, não de músicas. Do amazarashi, seria algo como ‘Rain Man’.”

“Entendi. Tipo ‘Rain and Cappuccino’ do Yorushika, ou ‘A Lost Dog and the Beat of the Rain’ do Ajikan, ou ‘About Water and Rain’ do UNISON—”

“Isso.”

“Ou ‘Raining’ da Cocco?”

“É... Hmm? O título é sobre chuva, mas a letra tem uma vibe forte de tempo ensolarado, não tem?”

“Ou ‘After the Rain’ do Remioromen.”

[Del: Hmm?]

“A chuva já acabou...”

“Eu quero terminar com ‘Niji’ (Arco-íris).”

“’Niji’? Qual ‘Niji’? ELLE? SPYAIR? Fujifabric?”

“Shinku Horou.”

“Você gosta mesmo do seu rock depressivo. Eu aaamo a intro de ‘Discomfort from Paranoia and Autosuggestion’.”

Era gratificante e reconfortante o fato de ela entender cada referência que eu lançava. Junna e eu temos gostos similares, começando pela música, e talvez porque nossas preferências se alinhem, nós simplesmente combinamos muito bem.

“Pessoas que têm o mesmo gosto musical costumam combinar em outros aspectos também.”

— Essa era a teoria da Junna.

“Não pegue um resfriado,” eu disse, levantando-me e colocando minha bolsa de verniz no ombro.

As roupas da Junna estavam completamente secas e, a esse passo, as coisas que ela pendurou no trilho da cortina também já estariam boas para vestir. Junna, segurando a saia firmemente com o corpo da guitarra, assentiu e disse: “Sim.”

“Você também, Shigure. Ah, mas talvez você fique bem.”

“...O que isso quer dizer?”

“Significa que idiotas não pegam resfriado.”

“Idiota? Minhas notas são até que muito boas, sabia?”

Nas provas parciais que tivemos após o feriado prolongado, tive um resultado bem decente, ficando em 16º lugar entre 320 alunos nas cinco matérias principais.

Junna agiu como se estivesse chocada. “Nããão...”, ela disse. Embora tenha sido de forma totalmente inexpressiva.

“E-Eu achei que fôssemos iguais... me sinto tão traída... Deprimente...”

“...As suas são ruins, por acaso? Suas notas.”

“Passando raspando em todas as matérias. 319º lugar. Por pouco não fiquei por último.”

“.........Deveríamos ter uma sessão de estudos algum dia.”

“Por favor.”

Soou desesperador; ela devia estar em apuros de verdade.

“Vou tocar música na guitarra para te ajudar a focar...”

“‘Faça sua lição de casa’.”

“Essa é uma música do Zutomayo. Mas se fosse ‘meia-noite a noite toda’, virar a noite estudando seria moleza, né?”

“‘Faça sua lição de casa’.”

“Não coloque no repeat...”

Se continuássemos com esse bate-papo estilo rotina de comédia para sempre, eu nunca chegaria em casa, então cortei a conversa à força com um: “Certo, então estou parando a reprodução,” e segui para a saída.

Abri a porta fechada e olhei para trás.

“Até mais.”

“É. Até.”

Junna deu um tchauzinho. Com seus olhos sonolentos e uma expressão vazia. Como sempre, ela era difícil de ler, mas—

Espero que chova amanhã também.

Espero que, por trás daquele rosto inexpressivo, ela estivesse secretamente desejando a mesma coisa que acabei de murmurar em meu coração.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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