Aelum Brasileira

Autor(a): Marin


Volume 1

Capítulo 12: Tonenhaí

GRIS

 

Parece que tudo deu certo no final, mas isso significa que a minha escolha foi a correta? Se eu corresse dele, como seria o resultado?

O professor me ensinou que não importa a escolha, mas sim a execução e, de fato, a execução saiu exatamente conforme o planejado, eu imagino.

Quero dizer, eu acredito que depois do ocorrido, o menino não vai mais voltar aqui. Em todo caso, a Srta. Cintia não está nada contente sobre o que aconteceu.

— Eu te causei problemas, Srta. Cintia?

Ela me abraça, quase que por reflexo. O ar está frio, e chove lá fora, mas a Srta. Cintia está tão quentinha.

— Não, garoto, no final deu tudo certo, felizmente.

— Que bom... parece que não vamos andar a cavalo hoje, verdade?

— Não, hoje não poderemos, mas certamente outro dia, ? Eu prometo.

Tá bom!

— Srta. Cintia, o Sr. Joatan é bem legal, verdade? Ele é enorme também...

Cintia, que me abraçava, agora me solta e diz: — Gris, de agora em diante, se refira a ele como barão, a não ser que ele lhe de a liberdade de chamá-lo pelo nome. Está bem?

— Sim, acho que entendi.

— Ele é um bom homem, na medida do possível, sim, mas ele só foi tão amigável por conta da influência do V. Seu professor é muito respeitado pelo barão e, em circunstâncias normais, você seria no mínimo preso, mas poderia até ser morto por isso, você entende?

— Entendo... — Parece que o que eu fiz foi bem perigoso. — Srta. Cintia?

— Sim.

— O que eu fiz foi errado?

Estamos sentados um do lado do outro. Cintia respira fundo e aponta para o sofá, logo a minha frente, e diz: — Sente-se ali, pois vamos falar sobre isso.

Eu a obedeço e sento onde ela me indicou. Me sinto um pouco mais distante da Srta. Cintia e não falo somente por ter sentado mais longe.

— A verdade é que eu mentiria se eu te dissesse que sei se foi certo ou errado. O que eu posso dizer é que haverá momentos em que você terá que fazer escolhas, e certas escolhas não terão volta. Você marcará em rocha e será assim para sempre, mas eu também não saberei te dizer quais as melhores ou piores, mesmo depois de feitas.

Cintia faz uma pausa, pensa em suas palavras e continua: — Pode até ser que se você escolhesse fugir do Diego, talvez o barão percebesse que ele te perseguia. Nesse caso, se soubesse que o filho perseguia um protegido do V., ele agiria para evitar este problema. Mas a realidade é que não temos como saber.

— Compreendo. Então isso significa que não havia escolha certa?

— Não necessariamente. Só significa que você estava em uma situação que não tinha condições de fazer a escolha certa.

— Desculpe, Srta. Cintia, eu não sei se entendi.

— Melhor dizendo, se você soubesse que o barão respeita o V. e que ele proibiria o filho de tentar te machucar, você poderia falar com os guardas e ter feito as informações chegarem até os ouvidos do barão, entende?

— Entendi, então bastaria eu ter as informações corretas, que eu poderia ter agido melhor?

Agora me lembro, o professor me disse para mostrar o anel que ele me deu para os guardas e para o barão. Isso teria evitado todos os problemas, mas foi tão rápido que eu não tive tempo de pensar. Ou melhor, mesmo pensando bastante, somente lembrei agora, muito tempo depois.

— Sim, nem sempre é possível evitar resultados ruins, mas se você coletar as informações corretas, poderá decidir melhor. Em resumo, dentro do que você tinha de conhecimento, fez uma boa escolha, pois você se defendeu. Todavia, até mesmo a melhor escolha poderia te matar.

— Compreendo, é como quando os soldados tentam entrar na floresta sem saber como ela funciona, não é?

— Exatamente, como você mesmo havia dito, eles morrem não por serem fracos, mas por desconhecerem a floresta.

— Eu vou prestar mais atenção, Srta. Cintia, e se eu perceber que algo perigoso se aproxima, vou coletar todas as informações para escolher o certo da próxima vez.

Cintia me observa, ela parece me analisar e então diz: — Entendo.

— O quê?

— Nada, garoto, não é nada demais.

Ah! Tive uma ideia! Eu acho que deveria tentar descobrir o motivo de eu ter este bracelete e também lembrar do meu passado, se é que eu tenho um. Se eu souber essas coisas, talvez evite algum problema no futuro.

— Pode ser verdade. Creio que saber as respostas só te ajudaria, mas não se arrisque muito, pois você não conseguirá chegar em Ticandar sozinho, por exemplo.

— Sim, eu sei, o professor também diz que eu devo entender os meus limites. Sei que não estou pronto para entrar na parte interior da floresta sozinho, mas eu vou ser forte logo para fazer isso, e a Srta. Cintia verá!

— Tenho certeza que verei. Mas agora, eu preciso ver como está a estalagem. Se a Lorena não voltar, precisarei adiar minha folga. Venha comigo. Você precisará trabalhar bastante para compensar todo o transtorno de hoje.

Ainda posso ouvir a Lorena esbravejar, mas está muito longe para que eu entenda o que ela fala.

Cintia me pediu para vir até meu quarto e ficar aqui, enquanto ela conversa com a mãe de Laura, e é o que eu faço.

Passo pela porta do meu quarto, me viro e a tranco... Espere um minuto? Enquanto eu virava para olhar a porta, depois que entrei, eu creio que vi algo diferente no quarto de relance.

Quando olho para lá, a janela está aberta e sinto a brisa gelada que vem. Ainda chove.

Eu tenho certeza que fechei a janela, certeza absoluta, na verdade. A vida na cabana gerou o costume de conferir, com frequência, se as janelas estão fechadas.

Sigo naquela direção com cuidado para analisar e, enquanto me aproximo, posso perceber que o trinco da janela explodiu por dentro ou algo parecido. Está todo destruído e preto em volta, mas o restante dela continua intacta, só está aberta.

A impressão é que alguém, de alguma forma, controladamente explodiu o trinco e abriu a janela para entrar, mas seria impossível sem quebrar a janela, eu imagino.

Logo penso, se alguém entrou, será que roubou os meus pertences? Droga, se levaram as cartas do professor, ele ficará bravo comigo.

Preciso conferir. Corro em direção à cama e me ajoelho para tentar ver embaixo dela, mas, antes que eu possa fazer isso, olho acima da cama e percebo algo estranho.

Isto não deveria estar aqui, é uma figura que não se encaixa. Como estou ajoelhado, está bem na frente dos meus olhos.

É avermelhado, tem dois globos vermelhos e brilhantes fixos em minha direção, além de alguns dentes visíveis e uma cauda que não para de balançar, para lá e para cá, para lá e para cá.

— Caramba, hein! Eu vi aquilo, e foi tipo: Pow! Aí, ele caiu no chão e você chutou as bolas dele. Aí, ele: Ainnnnnn, que dor! Ele gritava. Hahahaha. Aí, você toma, toma e TOMA! Ele não teve chance, caiu que nem um... — A Raposa imita os movimentos da luta de uma maneira bem limitada, que só uma raposa poderia fazer, mas antes dela de terminar de falar, eu digo:

— Bom dia, Srta. Raposa, foi você que explodiu o trinco da janela?

Ahm... — A Raposa olha para a janela, depois volta a me encarar e diz: Nããão. E essa nem foi a melhor parte, porque você tinha que ver o rosto da mulher loira ajoelhada no chão. Ela gritava e chorava com a mão na frente do rosto, estava em choque! Aterrorizada! Acho que ela gritou algo como: Ah Dara! Eu acho que vou morrer! Cuide da minha filhinha! Hahahahaha.

Talvez ela realmente tenha gritado algo, e eu não escutei, pois eu estava concentrado no garoto o tempo todo ou quem sabe a Raposa está somente exagerando. Parece exagerado da parte dela.

— Aí, chegaram os guardas! Prendam ele! Soltem ele! Não entendi nada. Hahahahaha! E a Cintia lá te segurando, tipo, não mexe com meu menino não, hein! Senão eu te espanco também!

Ela realmente parece se divertir com isso, e é engraçado como cada um reage de uma forma diferente sobre o mesmo ocorrido.

Então a Raposa para um pouco de falar, me olha de cima a baixo, e continua:

— E você então, carambolas! Foi tipo frio e calculista, maneirão, sem expressão nenhuma. Para você, era só mais um dia comum. Estava com sangue na mão, com um corpinho estirado no chão e você nem aí pra nada. Os guardas poderiam me prender? Tonenhaí! E se eu for para a forca? Fodjissis! Porque... não tô nem aí...

Slap!

— Ahm?! Você ouviu algo? — diz a Raposa, que levanta a cabeça e arrebita a orelha para escutar melhor.

— Acho que sim, e foi lá no salão — respondo.

Ah! Mas eu não tonenhaí! Hahahaha. — Ela começa a rir e se joga na cama dando gargalhadas.

Por impulso, eu tento acariciá-la. O pelo é tão bonito e com o reflexo da luz, que entra pela janela, às vezes, ele brilha alaranjado e outras vezes em vermelho claro, dando a impressão que está pegando fogo.

Porém, quando a toco, ela para de rir, se levanta rapidamente e diz:

Hey! Olha essa mão boba aí! Onde já se viu, passar a mão em uma donzela como eu. Sou de família, ! Olhe o respeito, seu... delinquente juvenil, ou você vai ser preso assim. Ah! Eu ia esquecendo... que você não tanenhaí. Hahahahaha.

Ela cai de novo na cama e começa a gargalhar. Enquanto isso, eu escuto uma voz feminina vinda da janela, é lá de fora:

— Você vai ver, pois isso vai sair caro para você. Eu vou pedir uma audiência com o barão, pois ele me deve um favor, e esta espelunca aqui não vai ficar de pé por muito tempo. Vou falar que a cozinha tem ratos e baratas...

— A cozinha tem ratos e baratas? Ela sempre pareceu bem limpa.

— Ela deve estar inventando isso. Deve estar com raiva da Srta. Cintia — diz a Raposa que para de rir um pouco para escutar a mulher gritar.

— Espero que não seja culpa minha. Ela é a mãe da Laura, e eu não queria que ela brigasse com a Cintia.

Ah! Não se preocupe. Esse tipo de coisa acontece e, se você quer saber, eu faria o mesmo. Onde já se viu, ele veio aqui, do nada, te agarrou e começou a brigar. Bem feito para ele, e digo mais: Apanhou, e acho que foi pouco.

— É, acho que você tem razão.

Na verdade, não sei se ela tem razão.

— Claro que eu tenho. Sempre tenho a razão. Humpf! — A Raposa vira o rosto com um orgulho visível.

Toc! Toc!

— Alguém bateu à porta, esconda-se — digo para a Raposa, e ela pula para debaixo da cama.

Vou até perto da porta e pergunto: — Quem é?

— Sou eu. — É a voz da Cintia, então eu abro.

— Quem você mandou se esconder?

Ela tem ouvidos muito bons!

Com isso, a Raposa aponta somente sua cabeça sobre a cama e olha para Cintia, esta que coloca a mão sobre o rosto e abaixa a cabeça.

— Eu mereço! — diz Cintia.

Felizmente, o restante do dia foi mais tranquilo.

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