A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 3 – Parte 3

Capítulo 89: Instante

Novos fragmentos de memórias, que misturavam tempos remotos e recentes, dominaram sua mente.

Na realidade, com o avanço daquela torrente vertiginosa, notou ser mais do que isso.

Sua própria essência encontrava-se tomada por tantas passagens, capazes de transcender até mesmo a quantidade de estrelas no atual céu noturno.

Mergulhado em tamanha absorção, o garoto deixou o olho restante fechado, no objetivo de tomar aquele momento para si com cem por cento de eficácia.

Deveria experimentar tudo, testar tudo e aceitar tudo, sem quaisquer hesitações. Era o instante decisivo para, enfim, alcançar aquela que fazia parte de seus sonhos mais antigos.

Novamente, pegou-se à vista daquela imagem borrada na falésia, onde a mulher de sua vida situava-se postada na beirada do relevo relvado.

Com as pontas dos pés descalços prontos para escorregarem declive abaixo, ela cruzou as mãos atrás do corpo. Os fios brancos esvoaçavam em virtude da brisa deliberada pelo oceano adiante.

Aquela sequência nunca era modificada e, a cada nova vivência dela, mais detalhes notava tanto pelo cenário quanto pela figura de pé. Já havia reconhecido o ambiente ao visitá-lo há pouco, dessa vez em carne e osso.

Essa era a primeira mensagem.

De súbito, tudo sumiu e reapareceu na imagem do Cosmos.

Ao abrir de novo o olho canhoto, Norman Miller encarou o âmbito dominado por uma mistura de colorações, escuras — pelos gases espalhados e no clima em si — e cintilantes — as inúmeras esferas de plasma, que giravam em seus próprios eixos, irradiando erupções por todos os lados.

Contudo nada o afetava.

Envolto numa finíssima camada de proteção, quase invisível a olho nu, teve certeza sobre estar seguro em meio ao vácuo do universo e à emissão energética daquelas estrelas.

Pela segunda vez — ou terceira, se fosse contar a experiência de milésimos na praia — ele havia acessado a Singularidade.

— Eu... consegui — mussitou consigo, pois ninguém além do próprio estava ali para escutar. — E agora...?

Lembrou-se de toda a cadeia de acontecimentos recentes, como se mal houvesse se passado dois segundos desde o encerramento.

O herdeiro renegado atacou a todos ao perder as estribeiras da sanidade, feriu Gabriel e Beatrice mortalmente e lhe destruiu a vista destra.

Por sinal, percebeu que não sentia mais qualquer incômodo na altura do órgão rasgado pela espada escura.

Levou uma das mãos até tatear o corte ainda em destaque, identificando a profundidade da laceração que continuava suja de sangue quase seco.

Todavia, nada além da placidez se fazia presente.

Era como se tivessem injetado doses elevadas de anestesia naquela região, prestes a fazê-lo deixar de sentir o toque dos dedos; somente uma leve pressão respondia à exploração provocada pelo tato.

Em vista disso, relevou o problema e voltou a pensar nas condições dos companheiros que batalhavam no exterior.

Dali não teria acesso algum a esse outro lado até que cumprisse sua tarefa, assim ponderou.

Em suma, não encontrava a Marcada de Vega — e atual Rainha Celestial — em lugar algum, pelo menos naquela área.

Engoliu em seco e pensou por mais alguns segundos.

Ainda com o problema dos conflitos contra o enegrecido, não poderia perder muito tempo na procura pela garota sentada no trono.

Não conseguia enxergar cenários diversificados na situação atual. Primeiro perderia bastante no intuito de encontrá-la.

E depois? Como deveria falar com ela?

Ela o queria longe esse tempo todo, mais de três anos desde o desfecho da Seleção Estelar, onde o fez esquecer de sua existência em prol de protegê-lo.

Como poderia convencê-la a mudar?

Ela deixou explícito o suficiente suas intenções e, dito isso, revelou deliberadamente a existência de um fardo tão pesado que jamais poderia compartilhar consigo.

Como conseguiria entendê-la a fundo?

Levando em consideração a dúvida anterior e sua elucidação, não vislumbrava maneiras de conhecer quem ela era de verdade.

A chave para a resolução de todos os casos seria essa, pensou sem tantos obstáculos.

Adquiri-la seria o maior dos problemas.

Com a fase de avanço atual da entropia por todo o universo, sentia bastante pessimismo quanto a tentativa de persuadi-la a parar.

Já estavam longe demais para que pudesse pôr tudo a perder em consequência de meras palavras.

— Droga... o que eu faço?

Cerrou os punhos sujos em busca de respostas que levassem a algum sucesso, de natureza certeira e ligeira.

Entender que não conhecia nada de Layla, mesmo após tanto tempo juntos, o fez experimentar um amargor esquisito no paladar. Um aperto intenso lhe atingiu o peito, obrigando-o a levar um dos palmos a apertar a camisa com força.

— Você finalmente veio!! — A voz feminina, um tanto familiar para o garoto, puxou sua atenção à esquerda.

Ao encontrar a emissária daquele questionamento, seu olho remanescente arregalou em estupefação.

Os longos fios loiros, tão enormes que alcançavam o solo, pareciam brilhar tanto quanto as esferas luminosas nas cercanias da região cósmica.

Seus olhos, azul-escuros, contrastavam com o fulgor natural e remetiam à essência do próprio universo.

O Marcado de Altair tentou falar algo, mas a garganta travou. A única reação possível foi arquear um dos braços na direção dela, na iminência de ativar o Áster da Telecinesia.

— Não se preocupe, sim!? Não estou aqui para te atrapalhar ou importunar! — A jovem levantou as mãos em claro sinal de harmonia. — Eu estive te esperando, na realidade... Por todo esse tempo, certo?

Ao escutar aquilo, o cacheado relaxou a postura aos poucos, ainda que bastante duvidoso quanto a declaração proferida por ela.

— Você... é aquela Stella, não é? — Demonstrou lembrar-se dela, o que a deixou bastante contente.

— É verdade... esse foi o nome que escolhi usar no seu mundo, né?... — Desviou o olhar durante alguns segundos, um pouco encabulada. — Se você está aqui, então deve ter encontrado minhas primas distantes, eu suponho?

— Como assim?

— Aquelas duas garotinhas. — Ao responder, o fez remeter à aparência de Sothis e Pálida. — Elas são como eu e a Princesa! E todas nós somos descendentes do anterior Rei Celestial, mas isso você já deve ter entendido, certo!?

Àquela “revelação”, Norman não se impressionou, pois já sabia que Layla também era filha do dito rei — enunciado pela respectiva durante sua coroação como a nova rainha.

Por também estar ciente disso, Stella não demonstrou perplexidade alguma no semblante.

Somente aproveitou o momento tão aguardado, seus olhos fechados e os lábios rosados voltados para o alto com leveza.

— Não podemos perder tempo — ele murmurou. — Se você ‘tá aqui pra me ajudar, então me fala onde posso encontrar a Layla. O pessoal... a Bianca e os outros ‘tão lá fora lutando contra aquele maluco. Se eu demorar muito, eles vão...

— Ah, quanto a isto, não precisa se preocupar, sim!? — A interrupção da loira o fez arquear uma das sobrancelhas. —Na Singularidade, vivemos somente um instante com relação ao seu mundo! Por isto, não precisamos nos preocupar com a passagem temporal, certo!?

O marcado perdeu alguns segundos — nem sabia mais se eram segundos, de fato — até soltar a indagação mais óbvia, um pouco incrédulo:

— Como assim?...

Stella girou o corpo, fazendo a barra de seu vestido branco girar a sua volta assim como os fios soltos do alongado cabelo.

— O tempo daqui é diferente do tempo que avança no lado de fora, se assim compreende melhor! — Ela o olhou de soslaio e ergueu o indicador dominante. — Uma hora passada na Singularidade equivale a um mero segundo no outro lado. Em resumo, podemos passar algumas horinhas aqui que, provavelmente, nada demais vai acontecer com seus amigos, entende!?

O Marcado de Altair ficou tão espantado quanto pesaroso com aquela informação, pois fez rápidos cálculos de maneira instantânea e imaginou o quanto aquela garota o esperou ali dentro.

E isso, com certeza, o levou a ponderar sobre o estado de sua companheira, aquela que deveria resgatar.

Três anos no mundo real equivaleriam a, aproximadamente, mais de mil anos na Singularidade.

Agora estava explicado o cabelo crescido daquela que foi a Marcada de Canopus, capaz de criar volume no plano horizontal, ele pensou.

O medo de perder tempo, porém, só ficou ainda maior.

Passar um ano sequer naquele local seria o mesmo que passar menos de uma semana no mundo real, então seria melhor acelerar o processo da mesma maneira.

Ao enxergar essa preocupação no olho remanescente do rapaz, Stella soltou uma risada estridente que ecoou pelo espaço vazio.

O rapaz a encarou desentendido, até que ela conseguiu controlar o impulso que fazia o peito arder e levou uma das mãos à barriga.

— Desculpa, desculpa!! É que te ver assim, depois de tanto tempo, me deixa um pouco animada, sabe!? — Com os dedos, limpou o princípio de lágrimas no canto de cada vista. — Não precisa se preocupar, não irei te segurar aqui por tanto tempo assim! Pretendo fazer com que se encontre com a Princesa. Mas, antes disso, eu gostaria de trocar algumas palavras importantes contigo.

O baque repentino em Norman foi substituído por uma mistura de curiosidade e apreensão.

Em proveito ao instante no qual viveria aquele momento — posto o avanço temporal da realidade —, aceitou o convite silencioso da radiante, que estendeu o braço ao girar metade do corpo.

Os dois começaram a caminhar pelo piso espectral. Apesar da movimentação, não sentiam como se estivessem, de fato, avançando.

Isso pois a imagem das estrelas, mesmo as mais adjacentes, simplesmente não era modificada.

A noção de profundidade permanecia igual ao do princípio do prosseguimento; nada se movia naquele ambiente.

No entanto, um efêmero brilho alabastrino surgiu após alguns minutos de completo silêncio no passeio.

O efeito chamou a atenção do rapaz, até então cabisbaixo, que ergueu o rosto e encarou o feixe puro a, talvez, alguns quilômetros de distância... ou mais.

— Então — ele cochichou, ainda incomodado. — O que queria me dizer?

Stella o encarou, conforme avançava alguns metros à sua frente.

— Antes disso, gostaria de confirmar uma dúvida com você, certo?

Ao questionamento dela, o marcado assentiu em silêncio, cada vez mais habituado àquele semblante soturno que não lhe era característico.

— O quê?... — questionou ainda mais apreensivo, pois era tomado por um estranho embrulho na barriga.

— Me diz. Quais são seus verdadeiros sentimentos pela Princesa?

O Marcado de Altair separou os lábios e ergueu um pouco dos supercílios.

Embora já tivesse a resposta gravada no coração e na ponta da língua, tomou um breve período a fim de ponderar a melhor forma de responder àquilo.

A jovem, radiante, meio que compreendeu isso, portanto tampouco se sentiu incomodada.

— Eu amo ela. — E, no fim, não encontrou outro jeito de expressar a sinceridade desejada, senão sendo tão direto. — Mesmo tendo feito muitas coisas que ainda não consigo compreender, ela me salvou várias vezes e sempre ficou do meu lado. Se não fosse por ela, eu com certeza não teria conseguido sobreviver a tudo isso e nem mesmo seguir em frente.

— Bom, isto é realmente algo. — A garota encarou o céu. — Sabe por que te chamo de Pastor? Porque você herdou o fardo do ser que foi o primeiro vínculo da Princesa com esse lugar!

— O quê?... — Arriou as sobrancelhas.

— Você vai entender em breve. Mas já deixe-me adiantar esse detalhe... — Abriu os braços, apontando uma das palmas erguidas a ele. — A promessa dele, seu fardo... conseguiu alcançar até mesmo as estrelas. Então, foi sendo passado adiante, por novas vidas... até chegar a ti. Por isso, você e a Princesa sempre possuíam uma forte ligação, eu diria!

Norman experimentou certo incômodo perante tanto mistério criado pela garota acerca do presente assunto.

E isso não vinha de agora; desde o primeiro encontro entre eles, no episódio do shopping, responsável por preceder os eventos na floresta do Sul, lembrou-se bem.

Parecia que, apesar de tantas explicações, a quantidade de indagações ao redor dela multiplicava. Era o mesmo que sentia com Layla.

Era o que o fazia ter certeza de que elas estavam conectadas como descendentes do Rei Celestial.

— Mas, eu... — Tentou empurrar uma réplica contundente, com certas dificuldades em formular a melhor frase. De novo, deixou-se levar pelas puras emoções: — Eu... não tenho esses sentimentos por ter herdado um fardo, uma promessa, ou o que seja desse tal Pastor. Eu sou Norman Miller. E eu amo a Layla. Não por causa de alguma outra pessoa. Mas sim..., por mim mesmo!

A loira arregalou os olhos sem sequer notar, tomada por uma torrente calorosa incumbida de causar palpitações poderosas dentro do peito.

O sorriso leve voltou a ser delineado pelos beiços unidos.

— Gostei desta resposta, sabia? — mussitou para si, porém o acompanhante foi apto a escutar a reação positiva. — Creio que esteja correto nesse sentido. No fim, essa história breve que te contei se trata apenas de uma lenda, até mesmo entre nós. Mas o que eu pretendo te contar agora, não é lenda alguma...

— E o que seria? — Moveu a cabeça para baixo.

— Eu vou te contar o que você deseja. E o que você deve saber... — Ela ergueu o braço, levando o indicador esticado ao topo do espaço superior. — Para alcançar a Princesa... e resolver tudo.

Norman moveu a cabeça na vertical, pronto para receber o que tanto esperou por mais de três anos terrestres.

No entanto, antes de prosseguir com a conversa encarregada de definir o destino daquele universo... em sua única visão periférica, enxergou um borrão branco se movimentar.

Aquilo trouxe sua atenção ao local determinado. Nada encontrou por ali, além da escuridão preenchida pelos corpos celestes em intensa fusão nuclear.

Em seguida, encarou as costas de sua guia naquele cenário cósmico, percebendo que ela não devia ter visto o que viu.

Pensou em questioná-la, chegou a erguer um dos braços vagarosamente. Contudo, preferiu sustentar a quietude.

Tornou a tatear o ferimento na vista direita; apesar da ausência de incômodos físicos, lhe irritava bastante o fato de não poder enxergar em sua plenitude.

De novo, os fluxos alvos correram por sua esquerda e puxaram seu foco.

De novo, nada residia ali.

Buscou o outro lado daquela passagem. Mais uma vez, nada de relevante pôde ser encontrado ali.

Engoliu em seco ao imaginar que poderiam ser peripécias da mente, em virtude do desacostume naquele lugar extravagante.

Alheio a isso, a faixa luminosa de tom semelhante ganhou singela aproximação.

As esferas adjuntas e os pontos distantes continuavam a apresentar inércia perante a locomoção daqueles dois.

Virou-se de volta a ela, que levou os dedos indicador e médio a tocar o lábio inferior.

— Aqui está bom. — Parou de andar, sendo acompanhada por ele. — Eu poderia começar de onde realmente interessa, talvez?

— Não. Disse que ia me contar tudo, então me conte.

Stella prendeu uma risadinha.

— Estava brincando com você. Sabe, pra deixar o clima um pouco mais leve. — Estendeu a mão aberta à direção dele. — Porque, a partir de agora, espero que esteja preparado pra conhecer esta história.

A voz dela mudou de repente, lhe causando um arrepio indescritível. Por outro lado, o cenário na mesma intensidade, mas as diferenças puderam ser identificadas.

Não havia mais solo algum onde pisar, somente as profundezas da escuridão desconhecida, repleta de pontos distantes e nebulosas violáceas.

No centro daquele local — se é que poderia ser considerado um centro, tamanha a extensão que parecia ser infinita — residia um ponto cerúleo, dissemelhante a qualquer outro detalhe nas cercanias.

Havia um grande trono.

Repousado nele, um ser altivo descansava os braços sobre os apoios laterais. Sua face não podia ser identificada, portanto logo o reconheceu.

Jamais poderia esquecer, afinal, daquele dia... o único no qual pôde vê-lo ao vivo e em cores.

No fim, o ponto de maior evidência naquele âmbito vinha do singelo cintilar branco com teor azulado, postado à direita do assento que flutuava no vácuo.

— Iremos iniciar... literalmente no início de tudo.

O olho do rapaz brilhou. A imagem lhe trouxe extrema perplexidade, a ponto de fazê-lo escancarar a boca sem notar.

Eram duas figuras, iguais, porém distintas.

Uma tinha fios negros, longos a caírem até a próximo à metade das costas. Outra tinha fios brancos, a saltitarem para cada passo no vazio.

Graciosa em sua essência, ela mostrou-se tão reluzente quanto o grande senhor no trono, enquanto o enegrecido parecia irradiar um peso incomum.

Portadores de uma coroa constituída por uma faixa de nuvem densa, de tonalidade acinzentada com leves detalhes celestes, eles abriram os olhos azul-escuros pela primeira vez.

Opa, tudo bem? Muito obrigado por ler mais um capítulo de A Voz das Estrelas, espero que ainda esteja curtindo a leitura e a história! 

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