Volume 1
Capítulo 1: Recomeço
"O passado nos persegue como uma sombra, mas é através da jornada para desvendá-lo que encontramos a luz que ilumina nosso futuro."
(O Legado Perdido, Haruki Tanaka)
11ª Lua do ano 1832
Lua do Fogo, dia 11
Existe um tipo de inquietude que somente o mundo dos sonhos é capaz de provocar em nós. Um sentimento atroz que consegue quebrar as barreiras da nossa mente e alcançar nossos maiores medos.
Era muito mais que uma visão incomum, aquelas gotas de água flutuando no ar, paralisadas a meio caminho da queda. E a sensação que aquilo provocava fazia o corpo de Yuri estremecer.
Estava escuro ali, mas era possível ver um brilho tênue percorrendo a lâmina da espada, que tremia nas mãos de alguém cujo rosto se escondia sob a sombra do capuz. Era somente uma garota, ele sabia, e mais alguém se aproximava devagar, uma figura imensa, com um sorriso se formando nos lábios.
Um sorriso terrivelmente perverso.
Não… era pior. Era indiferença. O tipo de indiferença capaz de matar.
A umidade densa do beco girava ao redor deles, misturando-se ao som de sinos à distância e o cheiro metálico de sangue fresco. Uma combinação nauseante.
Yuri estava ali outra vez.
Seu corpo inteiro ficou gelado de repente. Sabia o que viria a seguir, mesmo sem conseguir se mover. Era só um espectador, vendo a silhueta diante dele tombar em silêncio, o sangue se espalhando como tinta sobre a terra.
Yuri sabia o que deveria fazer. Conhecia o procedimento, o tempo máximo de resposta, a margem de erro…
E também sabia que era tarde para qualquer coisa que tentasse.
Preferia morrer a ver aquilo de novo.
Tentou gritar, mas nem isso lhe foi concedido.
O ar sumiu dos pulmões. Levou as mãos à garganta e abriu a boca buscando… algo. Um nome? Uma lembrança? Ar…?
Mas não havia nada.
Nada.
Agora só o que sentia eram os espasmos dolorosos que vinham de dentro. Já não conseguia focar na imagem à frente. O que estava acontecendo?
Não importava o que fizesse, tudo estaria terminado em breve...
Então tudo escureceu.
Despertou engolindo o ar como quem acaba de emergir da água. E de fato, seus pulmões doíam como se tivesse segurado o fôlego por tempo demais. O coração pulava no peito e um suor frio escorria em seu rosto. Precisou de um minuto inteiro para se lembrar onde estava, aos poucos, percebendo o ronco abafado do motor do táxi.
Esfregou o rosto com as duas mãos. Aquela experiência não era nenhuma novidade para ele, mas algo que o acompanhava desde muito jovem. Mesmo agora com seus vinte e cinco anos, não conseguia evitar a sensação de que estava perdendo algo. Como uma lembrança que escapava por entre os dedos.
Era sempre assim: flashes de lugares que não conhecia, sensações estranhas demais para serem apenas sonhos, e o mesmo sentimento sufocante de impotência. E vinham acontecendo com mais frequência nos últimos meses.
Desde que…
Um suspiro cansado escapou por seus lábios.
O táxi deslizou em silêncio até a estação. Lá fora, o céu pintado de um tom escuro de cinza, parecia prestes a desabar sobre as pessoas que corriam apressadas de um lado para o outro na rua.
Yuri fechou os olhos e recostou a cabeça no banco, mas nada parecia suficiente para afastar os pensamentos que pesavam em sua mente.
Quando o carro parou, ele se moveu no automático abrindo a porta.
— Precisa de ajuda com a mala?
Yuri encarou o motorista pela primeira vez e balançou a cabeça, ainda atordoado.
— Ah... não, tá tudo bem. Obrigado. — tentou sorrir, mas o gesto saiu torto, quase uma careta.
Arrastou-se para fora do carro puxando a mala. O vento soprava tão forte que quase o empurrava para trás. Folhas secas giravam no ar chocando-se sem piedade contra as pessoas. Mesmo assim, havia uma quietude estranha naquele momento. Como se o tempo tivesse parado, tal qual as gotas de água no sonho que já começava a se dissipar da memória.
Chegou à plataforma no instante exato em que o trem parava e dirigiu-se às portas que se abriam com um estalo, mas seus pés se colaram no chão. Olhou em volta sentindo a angústia se acumular na garganta.
Ele só precisaria dar mais um passo.
Um simples passo.
Tão pequeno… e ainda assim, capaz de mudar tudo.
O apito soou. As portas começaram a se fechar.
Yuri piscou, voltando à realidade e finalmente, seus pés se moveram.
Entrou no trem, colocou a mala na prateleira rapidamente, sentou-se e fechou os olhos. Não queria ver a cidade tomando distância.
Enquanto as luzes piscavam por trás de suas pálpebras e o trem chacoalhava nos trilhos, adormeceu novamente.
Acordou horas depois com a testa úmida e a boca seca. O vagão, agora quase vazio, abrigava apenas algumas silhuetas silenciosas, recortadas contra a escuridão das janelas. Tentou esticar o corpo, mas logo se arrependeu, sentindo cada músculo do corpo protestar devido ao assento duro.
Lá fora, a tempestade enfim havia começado. A chuva escorria pelo vidro e o trem avançava devagar, lutando contra o vento.
Yuri suspirou.
Não tinha pressa, mas sentia-se estranho ali. Nos últimos meses vivia constantemente cansado. Inquieto.
Olhou para as próprias mãos, inertes sobre o colo. Estavam vazias agora, mas em sua mente ainda pesavam com a memória do fracasso.
As mãos de um médico costumam ser motivo de orgulho. As dele, só revelavam marcas. Aquelas marcas que ele sentia mesmo de olhos fechados. Durante os treinos da infância, aprendera que as mãos também guardavam memórias. Aquilo devia ter ficado no passado. Mas não ficava.
Dentre tantas pessoas, logo ela...
Yuri nasceu com uma herança e um desejo que o puxavam em direções opostas. Sob o calor impiedoso do sol, forçado a enfrentar o caminho que foi traçado no dia em que nasceu com o sobrenome Koyama.
Havia aprendido que o corpo servia para lutar, não para curar. Contrariando a tradição, forjou o seu próprio destino quando escolheu estudar medicina.
Mas todo o esforço não o poupou do que viria depois. Daquele instante em que percebeu tarde demais. Quando chamou seu nome e ela não respondeu. Quando entendeu, com clareza cruel que não havia procedimento, compreensão ou milagre possível para quem já havia desistido antes.
Ele estava lá.
Ainda assim, não foi suficiente.
A lembrança o fez fechar os punhos com força e desviar o olhar, tentando focar nas luzes que passavam velozes pela janela. Akimitsu já estava para trás. Mas o passado continuava colado à pele.
Não sabia o que encontraria à diante. Só sabia que não suportava mais permanecer ali.
Itakawa era uma pequena cidade a oito horas de viagem de Akimitsu, a província onde Yuri cresceu. Após uma busca rápida na internet, encontrou um apartamento modesto que prometia ser aconchegante, embora duvidasse disso pelo preço baixo e pelas fotos do anúncio. Não era perfeito, mas era o melhor que havia encontrado.
Ao descer na estação, o relógio marcava pouco depois da meia-noite. Um vento gelado serpenteava pelas ruas desertas de Itakawa.
Yuri estremeceu esfregando as mãos sobre os braços, embora não soubesse dizer se era o frio ou o fato de estar num lugar completamente estranho. Mesmo assim, se arrependeu de não ter vestido sua jaqueta ao desembarcar.
Começou a cantarolar baixinho, como fazia às vezes para espantar o nervosismo, e caminhou devagar sob a luz fraca dos postes. Seguiu o mapa até chegar ao prédio de aparência abandonada. Tirou do bolso da calça um pedaço de papel amassado e conferiu o endereço que havia rabiscado. Estava certo. Procurou as chaves no outro bolso, girou o trinco e entrou por uma porta que levava a uma escada.
Subiu, guiado pela luz amarelada e trêmula do teto até o corredor igualmente mal iluminado. No fim, tentou abrir a porta com a chave. Travada.
Forçou de novo. Nada.
Yuri soltou o ar devagar, encostando a testa na madeira da porta.
Respirou fundo, reunindo suas forças e girou a chave com mais firmeza. A tranca cedeu pela metade.
Resmungou, irritado, e acertou a porta com o punho.
Nesse momento, uma vizinha surgiu no fim do corredor, lançou-lhe um olhar desconfiado e seguiu em frente.
Ele esperou até que ela desaparecesse de vista antes de tentar outra vez.
Quando a porta finalmente se abriu, entrou como quem invade um lugar onde não é bem-vindo.
Olhou em volta desanimado. Era menor do que esperava. Um único cômodo com minicozinha e um banheiro, se é que podia ser chamado assim.
Mas serviria.
Deixou a mala ao lado da porta e caminhou pelo lugar. A luz da rua entrava pela janela, iluminando os móveis com um brilho pálido. Havia uma cama no canto. A colcha surrada e o colchão fino convidando-o a um descanso que ele não sabia se merecia. A exaustão o atingiu no mesmo instante em que se deixou cair sobre ela.
**
O toque familiar do despertador soou pelo pequeno apartamento e Yuri sentou-se na cama, ainda sonolento. Os raios de sol já banhavam todo o quarto. Tateou o chão à procura do celular, mas assim que o alcançou, o toque cessou. Na tela, havia seis chamadas perdidas e uma mensagem de Diro, um amigo que conheceu na faculdade.
Precisava encontrá-lo às oito horas para falar sobre uma vaga no café dele.
Ainda eram 7h13. Abriu a conversa:
“Bom dia, Yuri. Preciso resolver algumas coisas hoje. Podemos adiantar para 07:30?”
Enquanto digitava a resposta, Yuri se levantou às pressas:
“Sem problemas, chegarei no horário.”
— Droga... — murmurou, indo rápido para o banheiro.
Ao se aproximar do espelho, encarou sua própria imagem. O cabelo preto estava mais longo que o habitual, cobrindo parte de sua testa. Aquela pessoa o encarando de volta parecia ter pelo menos uns três anos a mais do que realmente tinha. A pele pálida também não parecia nada saudável. Não era ele mesmo. Nem de longe. Desviou o olhar e ligou o chuveiro.
Enquanto a água escorria, respirou fundo, procurando controlar a sensação de desconforto que sempre surgia nos momentos mais inesperados. A água quente não dissipou o arrepio em sua nuca. Era como se alguém o observasse de um ponto cego, alguém que conhecia suas falhas melhor do que ele mesmo.
Enterrando aquele sentimento no fundo da mente, saiu do apartamento, trancando a porta, e seguiu pelas ruas de Itakawa.
Uma chuva leve começou a cair, banhando as casas com jardins impecáveis. As gotas refletindo o brilho dourado do sol tornavam o cenário quase perfeito. “Perfeito demais”, pensou Yuri.
Chegou ao café às 7h28, grato por ter alugado um apartamento apenas duas ruas dali. A fachada destacava-se exibindo o elegante letreiro Kokoro Café em letras grandes e delicadas. Através das portas de vidro, Yuri vislumbrou a decoração que combinava preto e amarelo pastel.
Diro estava parado na entrada, com as mangas da camisa de botão dobradas até os cotovelos e um avental escuro preso à cintura. As mãos, como de costume, estavam enfiadas nos bolsos da calça de cor lisa. Quando ergueu os olhos e viu Yuri, um sorriso instantâneo surgiu.
Diro Kazehana era do tipo que chamava atenção sem precisar fazer nada. Seu corpo largo impunha uma presença calma e segura, e o cabelo cortado bem curto, realçava ainda mais os olhos grandes, que traziam sempre uma expressão relaxada. Era fácil se sentir em paz perto dele.
Nos tempos de faculdade, Diro já era um ponto de equilíbrio em meio ao caos. E agora, mesmo diante do desafio de manter o próprio negócio, continuava com aquele brilho no olhar.
— Achei que não viria — brincou, estendendo uma caneca fumegante. — Preparei seu favorito. Ainda gosta de chá preto com canela?
Yuri aceitou a bebida com um aceno tímido. O calor entre os dedos era um contraste bem-vindo ao frio da manhã.
Sentaram-se em uma mesa ao fundo do café, imersos em uma atmosfera aconchegante. Diro contou empolgado seus planos para o estabelecimento e mencionou a vaga disponível perguntando novamente se Yuri estava interessado.
Yuri considerou a oferta por um momento. Trabalhar em um café podia não ser o que havia planejado para sua carreira, mas talvez fosse uma oportunidade de se reconectar com as pessoas. Talvez pudesse encontrar algum conforto em ajudar os outros, mesmo que de uma maneira mais simples. Finalmente, concordou, provocando uma gargalhada em Diro.
— Sei que não é seu emprego dos sonhos, mas podia pelo menos disfarçar, né? — brincou Diro, ainda rindo.
— Não é isso. Eu só... — hesitou. Como explicar que não se tratava do emprego, mas do fato de ele não se reconhecer mais?
— Tudo bem cara — disse Diro, dando um tapinha no ombro de Yuri.
Yuri estremeceu, afastando-se discretamente do toque do amigo. Parecia exatamente o mesmo toque que havia sentido em um sonho que ele sequer conseguia lembrar. Ele não sabia como, mas tinha certeza. Como se o gesto estivesse escrito em sua pele desde antes de ocorrer.
— Tenho certeza de que tudo acontece como deve acontecer. — Diro continuou com um sorriso.
Yuri ainda tentava se recuperar do incômodo que sentia por causa do toque, e aquelas palavras também mexeram com algo dentro dele.
Um calafrio tomou conta de repente. Sempre soubera que Diro era um otimista incorrigível, mas, naquela hora, suas palavras tinham um peso estranho. Mesmo sem dizer diretamente, o amigo parecia lembrá-lo que fugir não apagaria o que havia deixado para trás.
Não tinha certeza se acreditava em destinos ou em significados ocultos por trás das escolhas aparentemente aleatórias da vida, mas, naquele momento, preferiu não discordar. Ao invés disso, tomou um gole do chá preto que Diro serviu e se recostou na cadeira, observando a rua através das portas de vidro.
O movimento suave das pessoas passando pela calçada, os guarda-chuvas se abrindo contra a chuva, os pequenos grupos conversando animadamente enquanto seguiam para o trabalho... Tudo parecia se encaixar perfeitamente. Essa paz aparente do lugar o incomodava de uma maneira inexplicável.
— Você vai gostar daqui, Yuri — disse Diro, trazendo-o de volta de seus pensamentos. — Os clientes são amigáveis, logo logo vai se sentir em casa.
Yuri assentiu novamente, ainda perdido em pensamentos.
— Começamos amanhã? — sugeriu Diro.
— Amanhã está ótimo — respondeu Yuri, ainda incerto, mas curioso com o que o dia seguinte poderia trazer.
Diro o chamou com um gesto sutil e o conduziu até o balcão, onde apoiou um cardápio sobre a madeira envernizada.
— Já que vai trabalhar aqui, é bom entender o básico — disse, com o tom tranquilo de sempre. — Os pedidos podem ser feitos aqui ou nas mesas. Você anota e joga no sistema.
Diro se inclinou levemente sobre o balcão, o olhar mais afiado por um instante.
— O segredo é saber recomendar o doce certo pra pessoa certa. Tem gente que entra só pra tomar um café e acaba levando uma fatia de bolo de mirtilo... ou duas.
Enquanto Yuri explorava com os olhos o interior do café, Diro ajeitou o avental distraidamente.
— Ah, antes que eu me esqueça... deixa eu te apresentar o pessoal. Vocês vão se esbarrar bastante por aqui.
Apontou com o queixo para uma garota que conversava com uma cliente próxima à janela. Ela ria de algo que a outra dissera, o corpo leve quase dançando no pequeno espaço entre as mesas.
— Aquela é a Emi. Trabalha meio período, então às vezes aparece de manhã, às vezes à tarde. Depende da confusão que é o cronograma da faculdade dela. — Sorriu, observando a menina com um carinho evidente.
Ao perceber que falavam dela, Emi acenou com um sorriso tão largo que quase engoliu o rosto todo. Os olhos sumiram num brilho breve e contagiante.
— E lá dentro... — Diro indicou a porta semiaberta da cozinha, de onde vinha um cheiro doce delicioso. — Fica o Keid, nosso confeiteiro.
Yuri inclinou a cabeça, curioso. O nome "Keid" parecia combinar com o cheiro de bolo no ar, mas ele tinha aparência diferente do que imaginava. Um homem de aproximadamente quarenta anos, alto, um pouco acima do peso. Apesar da touca que usava, sua expressão séria e os óculos pequenos que usava o fazia parecer mais um professor do que com um confeiteiro.
— Ele não fala muito — continuou Diro — mas dá pra sentir que está sempre presente. A gente costuma brincar que ele é o “pai” do café, embora ele revire os olhos sempre que ouve isso.
Diro soltou uma risada leve.
— Mas é verdade. Ele segura o coração do lugar com uma espátula de confeiteiro e um olhar atento.
Yuri sorriu, quase imperceptivelmente ao notar que Keid realmente revirava os olhos em resposta ao comentário do amigo. Talvez não fosse tão difícil se acostumar com aquele lugar, como havia pensado.
— Yuri?
Ele ergueu os olhos ao ouvir seu nome vindo de uma voz feminina desconhecida. Uma senhora estava parada perto do balcão, segurando a alça da bolsa com força excessiva. O sorriso em seu rosto parecia hesitante, como se ainda estivesse testando o terreno.
— Sim? — respondeu Yuri, no automático.
Ela o observou por um segundo a mais do que o necessário. Os olhos desceram desconfortavelmente pelo corpo dele, analíticos, e subiram de volta para o rosto.
— Desculpa… você é o Yuri Koyama?
O sobrenome caiu no ar com um peso estranho.
— Sou — devolveu, após uma breve pausa.
O sorriso da mulher se desfez devagar.
— Ah… — ela murmurou, como se algo tivesse finalmente se encaixado. — Eu pensei que fosse você quando ouvi o nome, mas fiquei em dúvida. Está mais magro.
Yuri sentiu um leve aperto no estômago. Algo naquela mulher parecia gritar um alerta de perigo.
— A gente… se conhece?
— Não exatamente. — Ela balançou a cabeça. — Eu era enfermeira no hospital central de Akimitsu. Trabalhei lá por alguns anos.
O som das pessoas no café, pareceu ficar distante.
— Vocês se conhecem? — Diro perguntou casual, sem perceber a mudança súbita no ar.
— Trabalhamos no mesmo hospital — explicou a mulher. — Quer dizer… trabalhei.
Ela respirou fundo antes de continuar, direcionando as palavras novamente à Yuri.
— Eu conheci sua namorada.
Yuri sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Algo dentro dele parecia ter sido puxado com força para fora do lugar.
— Ela falava muito de você — continuou. — Dizia que vocês estavam juntos desde sempre. Que era bom ter alguém que entendia o peso da profissão. Ela parecia tão dedicada… — suspirou. — Era uma médica brilhante. Sempre me perguntei como alguém assim podia estar tão… cansada.
Yuri cambaleou, esbarrando no balcão e derrubando um copo de vidro que espatifou com um estalo no chão.
— Você está bem? — Diro deu um passo à frente, segurando-o pelo cotovelo.
Ele apenas o encarou. A palidez tomando seu rosto.
A mulher franziu a testa, confusa.
— Desculpa, eu não quis ser invasiva. É que… pensei que talvez… — hesitou. — Foi uma tragédia o que aconteceu com ela.
— Tragédia? — Diro repetiu. — Do que você está falando?
O mundo se contraiu ao redor de Yuri. Por que estavam falando disso, justo agora?
— Você não sabe? — a mulher perguntou, claramente desconcertada. — Achei que…
Yuri sabia que as próximas palavras teriam um gosto tão amargo quanto o que sentia agora. Seu coração batia rápido demais. Estava prestes a vomitar ali mesmo.
— Ela se jogou na frente de um carro — disse a mulher, enfim.
A náusea subiu com violência. A mão foi automaticamente ao balcão, buscando apoio. Tudo parecia abafado pelo som de sua pulsação.
— Ela… — Diro começou, a voz falhando. — Ela fez isso?
Yuri já não conseguia respirar direito.
— Eu achei que você soubesse — ela articulou visivelmente arrependida. — Me desculpa. Eu não devia ter…
— Não — interrompeu Diro, olhando para Yuri, confuso. — Espera. Você nunca comentou isso comigo.
O olhar deles se encontraram por um momento e Yuri pôde sentir o peso da mágoa.
Abriu a boca, engolindo um punhado de ar, mas não conseguiu dizer nada.
Porque não havia nada que poderia dizer.
Porque explicar exigiria dizer que ele estava lá na hora.
E que mesmo assim, não tinha conseguido fazer nada.
A mulher murmurou outro pedido de desculpas e se afastou, deixando seu café esquecido sob o balcão.
Diro tocou de leve o braço do amigo.
— Yuri…?
Yuri puxou o braço de volta, rápido demais.
— Preciso… — a voz saiu rouca. — Preciso ir.
Sem esperar resposta, virou-se e atravessou o café, sentindo os olhares curiosos cravados em suas costas.
De volta ao apartamento, fechou a porta com força, como se estivesse sendo seguido. Escorregou até se sentar no chão. O coração batia de forma desordenada.
Precisava se controlar.
Inspiração em quatro tempos.
Expiração em seis.
Funcionava com pacientes. Não com ele.
A mão começou a tremer descontroladamente.
— Não…
Abraçou os joelhos, tentando segurar as peças quebradas de si mesmo.
Fechou os olhos, e foi o suficiente.
O som voltou primeiro. Um freio forçado. Um grito de dor.
Depois veio a imagem.
Abriu os olhos de novo, ofegante, como se pudesse apagar aquilo se tivesse força suficiente.
Mas a imagem já estava lá, gravada profundamente. Ela sempre voltava quando ele baixava a guarda.
Yuri pressionou as mãos contra o rosto, sentindo o tremor se espalhar pelo corpo. Os mesmos dedos que haviam aprendido a agir rápido, mas que naquela noite, tudo que conseguiram fazer foi tremer.
“Se eu tivesse tido mais tempo, a teria salvado”, repetia para si mesmo, mas sabia que era mentira. Ele teve tempo. Mais do que necessário.
“Ela se jogou na frente de um carro.”
A frase se repetia em sua mente, como um diagnóstico mal escrito, impossível de corrigir.
Ele havia esperado tempo demais.
Inclinou-se para frente, o estômago se contraindo, o peito queimando.
Não havia mais nada a ser feito.
Só o peso insuportável de saber que, mesmo sendo médico, mesmo amando-a, ele não conseguiu salvá-la.
Permaneceu largado no chão frio encarando o teto. Até ser tomado por uma dor, uma dormência estranha.
Até que só restou o silêncio. E a certeza de que aquela imagem nunca o deixaria.
Notas:
1 - Todas as citações presentes neste livro, assim como os autores mencionados nas epígrafes, são criações fictícias desenvolvidas exclusivamente para o universo de A Terceira Lua Cheia.
Qualquer semelhança com nomes reais, obras existentes ou figuras históricas é mera coincidência.
Esses textos e autores fazem parte do imaginário deste mundo e foram concebidos para enriquecer sua mitologia e atmosfera literária.

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