Volume 2

Capítulo 140: VARIÁVEL

Naor entrou no quarto onde Kai estava, seguido pelo seu séquito de Esquecidos.

Após uma breve reunião sobre os próximos passos a serem seguidos, todos concordaram que era hora de visitar o rapaz.

Ele estava numa cama elevada com as pernas para fora, de costas para a porta. Encarava uma parede de pedra bruta lisa, com sulcos profundos.

Vestia uma roupa leve. Seu cabelo escuro pendia na altura dos ombros, desgrenhados.

Naor deu duas batidas na porta, mas não houve qualquer resposta do rapaz.

— Estamos aqui — falou, para ter certeza de que o rapaz estava ouvindo.

Não houve resposta.

Os Esquecidos trocaram olhares breves, mas preocupados. Yegar parecia o mais afetado. Naor sabia como ele era sentimental e, decerto, teria se afeiçoado ao rapaz.

Naor deu a volta na cama, e parou na borda dela.

Seu olhar percorreu o corpo do rapaz. Parecia bem. Contudo, uma bandagem cobria parte de seu rosto, em volta da testa e do olho esquerdo. Ele possuía um semblante… frio.

“O que aconteceu, meu amigo?”

Kai sequer se deu ao trabalho de se virar para ele.

Naor abaixou o rosto para a manga pendendo vazio ao lado de Kai.

Ele perdera o braço em seu duelo contra o Legatário. De alguma forma, Kai Stone continuava sendo o mais afetado nesta revolução. E, mesmo assim, não havia qualquer traço de desespero em seu olhar. Ele estava resoluto.

Naor virou a cabeça para Yegar e Ashvai — ambos estavam se culpando por terem demorado demais em resgatá-lo. Mas não havia sido sua culpa. Naor sabia disso, os dois sabiam disso; Kai Stone sabia disso.

Mas perder um braço talvez fosse duro demais para alguém tão jovem lidar.

— Como está, meu amigo? — Indagou o Sussurrante.

Kai não disse nada.

— Foi uma luta intensa. Graças ao areal você voltou bem…

Kai virou o rosto lentamente. Seu olhar frio encarou o espaço vazio onde deveria estar seu braço e, lentamente, ergueu a cabeça para Naor.

O líder do Areal limpou a garganta. Kai tornou a encarar o vazio.

Ashvai deu um passo à frente.

— Nosso plano foi bem sucedido, Kai, e isso é totalmente graças à você. Sua bela atuação na arena chamou toda a atenção necessária. Foi realmente um golpe de sorte que Kaedor Vaelrys tenha decidido se juntar ao espetáculo.

Kai permaneceu parado. Ashvai moveu seus olhos pela sala, nervoso.

— Gostaria de agradecer. — terminou.

Yegar cutucou o ombro do Jovem sem Fim e deu um olhar duro para o colega. O homem pareceu desconcertado e Naor riu internamente diante disso.

Ahem — prosseguiu Ashvai. — Mas é uma lástima que tenha sido tão duramente… castigado. Quero também pedir desculpas por isso.

Kai finalmente virou a cabeça e olhou de soslaio para o Jovem sem Fim. Então assentiu e voltou a encarar a parede.

Um silêncio brutal caiu sobre a sala. Apesar de conhecer o jovem a pouco tempo — mais ou menos três revoluções solares — nunca tinham visto o jovem reagir de maneira tão distante.

Ele sempre tinha um comentário — mesmo que ácido — sobre algo. E apesar de sua personalidade quieta e soturna, Kai era alguém que deixava todos confortáveis perto dele.

Agora, contudo, até mesmo os Esquecidos queriam fugir para o lugar mais distante o possível de Stone.

Azbai, com seu senso de perceber as menores sutilezas no ar — e como o mais sábio dentre todos — suspirou.

— É tempo de nos recolhermos, amigos. O jovem precisa de espaço, e nós precisamos nos preparar.

Os Esquecidos assentiram, agradecendo a perspicácia do velho homem. Enquanto todos se encaminhavam para sair, Azbai tocou o peito de Naor e ergueu o rosto, sua pele flácida se enrugando.

— Não você, senhor. O garoto precisa de um amigo. O seja.

Naor suspirou. Mas acatou o pedido do amigo.

Quando todos saíram, Naor se sentou numa cadeira.

— Soube que um especialista está desenvolvendo um protótipo para você — ele ergueu as sobrancelhas. — Rauth está esperançoso sobre isso.

Ele sorriu. Girava algo entre os dedos — meio nó de Krael. Tinha a aparência de uma gema oval e geoide, de cor acobreada. O rosto de um homem fora bordado em alto relevo sobre sua superfície plana.

Abeeku observava o horizonte com um olhar frio e opressor. Sua imagem parecia a de um ditador tirano e cruel. Mesmo assim, havia um aspecto carismático em seu rosto.

Bile subiu pela garganta de Naor, e ele logo ergueu seu olhar, contemplativo.

Não sabia o que acontecera com Kai, mas uma ideia pulsava em sua mente.

— O que aconteceu, amigo?

Kai não disse de imediato. Mas houve uma pequena mudança em seu aspecto. Ele suspirou fundo e então se empertigou.

— Morte, Naor. Muita morte.

O Sussurrante baixou a cabeça, encarando o chão. Se sentia culpado por isso também.

— Pessoas desesperadas por suas vidas fariam qualquer coisa para ter mais um dia — ele se virou para Naor, seu olhar pesado e duro. — Mas eles encontraram o fio de Vento Noturno pelo caminho.

Naor balançou a cabeça.

— Homens condenados, Kai. Todos pagavam por crimes, fosse contra o império ou contra os civis que o mantivessem funcionando. Boa parte deles que tiveram essa chance já estavam condenados à morte. Você apenas adiantou isso.

Kai sustentou o olhar de Naor.

— E quem deveria decidir se vivem ou morrem? Não eu.

— Mas você decidiu, e isso nos deu uma chance. Já pensou se Vaelrys tivesse a força de campeões criminosos ao lado? O que fariam, como você disse, para viver? Para ter seus pecados absolvidos? Você fez bem. Não deveria se culpar por isso.

Kai riu, a voz rouca.

— Culpado? — ele levantou o braço e encarou sua palma. Seu olhar era de… pavor. — Eu não me senti culpado, Naor. Na verdade, toda vez que rasguei suas carnes, senti que este foi o único momento em que ela se silenciou. E eu… gostei.

— É algo perigoso, Kai — disse Naor, suspirando. — Se viciar em sangue, morte, e tudo isso… é perigoso demais. E há um alto preço a ser pago. Quer ter sua humanidade dilacerada? Aliás, é isso que a Voragem deseja. Que você se perca em sangue e morte. É assim que ela vence. É isso que quer?

Kai fechou o punho. Seus dedos estalaram.

— Se for por um momento de silêncio? Pode ser. Depois de tanto tempo ouvindo o que fazer, foi realmente bom saber que há uma escolha.

Naor franziu o cenho. Estava preocupado com o modo de pensar do amigo. Em parte porque ele mesmo já estivera desse lado — não se tornou um Esquecido sem antes experimentar sua própria dose de pecados.

Contudo, não era ninguém para julgar.

— Cada um deve trilhar o próprio caminho, Kai. Não sou ninguém para dizer o que fazer ou o que pensar…, mas tenho apreço por você. Seria triste vê-lo ir por aí.

Kai encarou o vazio.

— Há alguns instantes estava me dizendo que o que fiz estava certo.

Naor deu de ombros.

— Existe uma diferença em ceifar vidas porque é algo certo a se fazer… e ceifar vidas porque gosta.

Kai se virou para ele.

— E quando os dois colidem?

— Dificilmente acontece…, mas saiba onde está pisando. É um caminho sem volta.

Kai suspirou, e ambos retornaram ao silêncio.

— Ele sabe — disse, por fim.

Naor ergueu o olhar. Não parecia surpreso, mas fez o melhor que podia.

— O quê?

— Abeeku… ele sabia que eu estava lá. E aquele Legatário… é um Ministro.

Naor franziu a sobrancelha. Isso, ao menos, era novo. Ele fitou o vazio, enfim suspirou, ainda tentando entender a virada de chave.

— É claro… é óbvio que eles substituiriam Kesel depois de morrer…, por que não pensamos nisso?

— Porque era como uma agulha num palheiro.

Naor franziu o cenho diante da expressão. Kai suspirou.

— Digo… quantos homens existem no império de Abeeku e que poderiam se tornar um Ministro do Viperino?

Naor deu de ombros.

— Uma centena?

— E um Legatário estaria apto para disputar posição?

Naor negou.

— Não sei… talvez?

Kai assentiu.

— Não tinha como saber. Na verdade… nada que possamos fazer, é o bastante para lidar com Abeeku.

— Que quer dizer?

— Não está claro? Desde que entrei aqui, que tive contato com o Firenze, percebi que havia algo de muito errado neste lugar. Nunca passou pela sua cabeça que Abeeku pudesse ter, entre seus seguidores, alguém com precognição?

Naor se inclinou, apoiando os cotovelos na perna.

— Visões? Isso seria… até mesmo Ashvai só vê o que o Areal permite. E sequer pode mudar o que acontece. Pode nos alertar, mas se interferirmos, o futuro muda.

— Mas no fim, tudo acontece como deveria.

— Com ressalvas — Naor deu de ombros. — Mas sim. Ainda assim… como alguém poderia ser tão proficiente a ponto de enxergar tanto no futuro? Digo, se houvesse alguém assim, eles teriam se mobilizado melhor, impedindo o que aconteceu. No fim, nem viram o que os abalou, o que mostra que eles não sabiam. Sem contar que era um plano muito antigo… seria impossível.

— Existem explicações básicas para isso. — Kai suspirou. — Talvez Lyvas não fosse tão importante. Escravos também não deveriam ser. Queria que visse o que vi lá, Naor. Eles eram mortos e espancados por puro esporte… como alguém assim poderia ter valor para eles?

Naor se reclinou. Encarou o teto, então passou a mão no rosto.

— Não sei… é muito o que pensar. Não há nada que nos indique que eles saberiam de algo assim. E só conheço uma pessoa capaz de enxergar tanto no futuro.

— Shaul — disse Kai.

Naor voltou seus olhos para o rapaz, nervoso.

— Como sabe?

Kai deu de ombros.

— Apenas supus.

“Esse garoto… não deveria esquecer como ele é inteligente e perspicaz.”

Naor se recordou como ele aprendeu Tecedura Âmida em tão pouco tempo, enquanto se esforçava para lidar com a Voragem.

— Mesmo assim — continuou o Sussurrante. — Nada realmente nos diz que eles possuem tal habilidade. Talvez estivessem jogando verde. Talvez… fosse só uma suposição.

Kai balançou a cabeça.

— No dia em que botei os pés em Atom, uma tropa de Kawa Kale me esperava — numa terra onde deveria ser livre de qualquer vida. Abeeku nunca olhou para aquele lugar, e mesmo assim, não somente sua horda de monstros como um homem de Shaul estavam lá, esperando por algo. E eu vi Fireas, Naor.

Kai voltou o rosto para ele.

— Você mesmo me mostrou a queda de Atom. Isso era pronunciado.

Naor suspirou.

— Mas aquilo… eram oráculos com poderes divinos provenientes da época de ouro de Atom. Muita coisa mudou, elas não existem mais, e as poucas que existem são como Ashvai. Diria que ele é um dos melhores oráculos desde a grande Eritreia. Não há como eles terem previsto tanto no futuro, Kai.

Kai voltou o rosto para a parede.

— E como explica Kaedor Vaelrys? Ele já sabia da minha presença. Inclusive, colocou sua irmã para me espionar. Desde Kesel… ele tem enviado homens para me pegar ou me abater.

Naor encarou Kai com um rosto impassível. Ele sabia mais desse mundo do que o rapaz. Mas algo dentro dele dizia que poderia ser parcialmente verdade.

— Então quem poderia ter uma habilidade tão poderosa a ponto de enxergar anos no futuro? E qual seria seu interesse em ceder uma cidade como Lyvas?

Kai o encarou com um brilho mortal e frio em seu rosto.

— Responderei a sua segunda pergunta primeiro — disse. — Lyvas era só um posto dentre muitos. Uma fração de um denominador muito maior. Sacrificá-la não seria nada comparado ao que querem. E está claro o que eles querem, Naor. Até mesmo vocês, Esquecidos, sabem disso.

O semblante de Naor caiu em desagrado.

— É você.

Kai assentiu.

— E respondendo a sua primeira pergunta: Quem você acha que teria a capacidade de prever o futuro?

Naor arregalou os olhos, chegando numa resposta mais rápida do que o esperado.

— Este seria… o Imperador Abeeku. 

 

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