Volume 2

Capítulo 139: ESPÓLIOS

O ambiente tinha um clima pesado.

O Pai do Enxame percebeu isso antes mesmo de organizar os próprios pensamentos. Era o tipo de silêncio que não surgia por respeito, mas por excesso de coisas não ditas.

Ninguém ali ousava quebrá-lo.

O que era curioso.

Porque, no papel, a missão havia sido um sucesso.

Ele permaneceu sentado, os dedos entrelaçados sobre a mesa oval, sentindo o frio do mármore atravessar a pele. Seus olhos passaram lentamente por Yegar… depois por Ashvai… e voltaram para o centro vazio da mesa.

Nenhum dos dois parecia satisfeito.

Nem de longe.

A sala era pequena, retangular, com paredes de mármore liso tingidas de um amarelo opaco. Não havia janelas. Apenas uma porta ao fundo, fechada. Um espaço feito para reuniões discretas… ou para decisões que não deveriam ecoar.

Eles haviam conseguido.

Era inegável.

Cinco dúzias de Besouros Cerúleos mobilizados dentro de uma cidade sitiada. Kawa Kale, Legatários, casas poderosas… e ainda assim, haviam atravessado tudo como uma lâmina bem guiada.

Desestruturaram o comando inimigo. Atacaram pontos estratégicos. Derrubaram um a um.

Quando perceberam, já não havia defesa suficiente para contê-los.

Libertaram mais da metade dos escravos. Levaram os cofres de Lyvas. Rasgaram a economia imperial como nunca antes.

Uma tarde. Uma única tarde. Mais dano do que anos inteiros de furtos, emboscadas e pequenas insurgências.

O Pai do Enxame soltou o ar pelo nariz, lentamente.

“Um Nó e meio foi pouco.”

O pensamento veio seco, quase automático.

“Pouco demais.”

Ele girou levemente o pulso, sentindo o peso invisível da decisão que havia tomado dias antes.

O risco não havia sido comum. Nada naquela operação havia sido.

E ainda assim… aceitou rápido demais.

“Mas conseguimos.”

Seu olhar endureceu por um instante.

Sim… conseguiram.

Então por que aquilo não parecia vitória?

Ele recostou-se na cadeira, os olhos voltando para os dois à sua frente.

Yegar estava imóvel como uma estátua mal moldada. Ashvai mantinha o olhar baixo, distante.

Errado.

Tudo aquilo estava errado.

Uma operação daquele nível deveria elevar os ânimos. Deveria incendiar o grupo.

Os Esquecidos haviam dado o primeiro golpe real.

Não era mais sobrevivência. Não era mais oportunismo. Era guerra.

E qualquer um com o mínimo de consciência em Atom já deveria ter percebido isso.

Mesmo os covardes. Mesmo os neutros. Mesmo os que fingiam não ver.

Mas ali… naquela sala…

Parecia um velório. O pensamento veio com um gosto amargo. E ele já sabia o porquê.

Kai Stone.

Sempre voltava para ele.

O Pai do Enxame passou a língua pelos dentes, incomodado.

Nos primeiros dias, aquilo o irritou. Não a situação do rapaz — mas a reação dos outros.

Preocupação demais. Silêncio demais. Peso demais… por um único homem.

Não fazia sentido. Se fosse qualquer outro, estariam comemorando o fato de ainda estar vivo.

Mas Kai não era “qualquer outro”.

Ele fechou os olhos por um breve instante, lembrando.

Arena. Sangue. Corpos.

“Ele matou mais da metade dos campeões mais fortes da temporada…”

A memória era vívida demais para ser ignorada.

“Matou o Retaliador de Sobek…”

Um feito que poucos sequer ousariam imaginar.

“Enfrentou os Brutamontes de Vaelrys… e continuou de pé.”

O Pai do Enxame abriu os olhos novamente, fixando-os na mesa.

E então veio o ponto que realmente o incomodava.

“E ainda assim… deu trabalho ao Legatário.”

Não venceu, mas chegou perto o suficiente para ser notado. Perto o suficiente para ser perigoso.

Ele soltou um leve estalar de língua.

Aquilo não era normal. Não para alguém naquele estado. Não para alguém naquela situação. Não para alguém… sozinho.

E, ainda assim, a preocupação não vinha apenas da força.

O problema era outro. Mais profundo. Mais incômodo.

Kai estava quebrando.

E todos ali sabiam disso.

O silêncio na sala não era sobre a missão. Era sobre o que viria depois dela.

E, pela primeira vez desde que haviam retornado… o Pai do Enxame começou a considerar que talvez—

Talvez…

Um Nó e meio realmente tivesse sido pouco.

Enquanto todos se afundavam num mar de depressão, a porta da sala se abriu com um som surdo.

O Pai do Enxame ergueu o olhar imediatamente.

Um a um, eles entraram.

Naor veio primeiro.

A túnica longa, feita de mantos cerimoniais costurados, arrastou pelo chão com um farfalhar seco. Cada dobra parecia carregar história… ou peso. Ele não caminhava com pressa, nem com hesitação. Apenas… chegava.

Depois dele, Liorah.

Os olhos perdidos, como sempre. Os panos brancos que a envolviam flutuavam levemente, como se ignorasse a ausência de vento. Aquilo nunca deixava de incomodar.

Azbai entrou em seguida.

Mais curvado do que antes.

Os olhos brancos, opacos… mas atentos. Era sempre assim com ele — parecia não ver nada, mas reagia a tudo. Mizrah vinha ao seu lado, segurando seu braço com firmeza. Os cabelos dela estavam mais longos. Longos demais.

Eles mudaram…

O pensamento veio sem esforço.

Ou talvez sempre tivessem sido assim — e ele só não tivesse notado antes.

O Pai do Enxame lembrava-se da última e única vez que vira os companheiros de Naor. Não haviam mudado nada na constituição. Ainda assim… 

Naor parou diante da mesa.

Yegar e Ashvai se ergueram imediatamente.

O Pai do Enxame observou sem se mover.

Yegar foi o primeiro a se aproximar. Não houve palavras. Apenas o gesto. Braço contra braço. Testa contra testa.

Um reconhecimento antigo. Mais profundo do que qualquer saudação.

Naor permaneceu ali por um segundo a mais do que o necessário… e então se afastou.

Voltou-se para Ashvai. Um aceno simples. Respeito. Então, por fim…

Olhou para ele.

O Pai do Enxame não se moveu de imediato. Ficou ali, sentado. Observando.

Mais de duas décadas.

Mais de vinte anos desde a última vez que estiveram frente a frente.

E ainda assim…

“Parece que meu coração vai sair pela boca.”

Aquilo o irritou.

Naor assentiu levemente.

— Rauth.

A voz veio calma. Sem peso. Como se o tempo não tivesse passado.

— Quanto tempo.

O Pai do Enxame se levantou devagar.

Soltou o ar antes de responder.

— É Pai do Enxame, agora.

Uma pausa curta.

— De fato… faz muito tempo, Raek.

Naor sorriu.

As fissuras sutis em sua pele de terracota se marcaram mais ao redor do rosto. Era um sorriso… diferente.

Mais contido. Mais… consciente.

Está tão mudado…”

O pensamento veio involuntário.

“Esses olhos dourados… esse sorriso… esse semblante…”

Não era mais o mesmo homem. Não era mais o homem tempestuoso.

“O que aconteceu com você?”

Naor inclinou levemente a cabeça.

— É Naor, agora.

O Pai do Enxame pigarrou.

Assentiu. Nada mais. Não havia muito o que dizer.

Um a um, os outros tomaram seus lugares. Cadeiras arrastaram levemente. Tecidos roçaram.

Mas o silêncio… o silêncio permaneceu.

O Pai do Enxame percebeu isso de imediato.

Eles sabiam. Não tudo. Mas o suficiente.

Os quatro haviam seguido por outro caminho, outra missão — mas ainda assim…

Sabiam.

Ashvai limpou a garganta.

— Como ocorreu? Deu tudo certo?

Azbai ergueu a cabeça lentamente.

Os olhos brancos fitaram o teto.

A pele ao redor deles se contraiu, como se enxergasse algo além dali.

— Como deveria ter sido — disse, a voz rouca, arrastada. — Nossa demora se deu aos tratos que colidiram com certos… percalços.

Uma pausa.

— Mas você já sabia, não?

Ashvai assentiu. Ignorou a última parte.

— Alertá-los não iria indispor de mais percalços. No fim… tudo ocorreria da mesma forma.

O Jovem sem Fim respirou pelo nariz.

— Mas talvez… de maneira mais problemática.

Mizrah inclinou a cabeça, os cabelos escorrendo pelo ombro.

— Mais problemática do que agora?

O Pai do Enxame franziu o cenho. Aquilo começou a incomodá-lo de verdade.

Do que diabos eles estão falando?”

Para ele, havia sido um sucesso. Um golpe limpo. Pesado. Efetivo.

Então… o que havia passado despercebido?

Na ponta da mesa, Naor suspirou.

— É nosso dever servir o areal — disse, com calma. — E, como bem sabemos, não interferir na área de atuação do outro.

Seus olhos passaram lentamente por todos.

— As coisas são como são. — Uma pausa breve. — Tivemos êxito em nossa tarefa… mesmo que tenha demorado mais do que o esperado.

Outro silêncio.

— E vocês também tiveram êxito… de certa forma.

Todos assentiram.

Aceitaram. Mas não estavam convencidos.

Ashvai balançou a cabeça.

— Mesmo assim… — murmurou. — Sabe como é difícil saber tanto… e ainda assim não poder mudar nada.

Naor olhou para ele.

Houve algo diferente naquele olhar.

Mais humano.

— Mas você mudou — disse, com firmeza serena. — Nos preparou. Nos guiou. Nos organizou — Ele inclinou levemente a cabeça. — Sem você… seríamos mais uma revolução falha.

Ashvai não respondeu.

Mizrah falou no lugar.

— Ainda assim… pode ser que tenhamos perdido nosso às.

O silêncio caiu novamente. Mais pesado agora. Mais concreto.

O Pai do Enxame recostou-se levemente.

“Esses malucos…”

Mas, pela primeira vez… ele não tinha certeza de que estava certo.

Naor ergueu o olhar.

— Como ele está?

Ashvai não respondeu de imediato.

Trocou um olhar com Yegar, que permaneceu imóvel.

Mas aquilo bastou. Silêncio.

Então…

O Pai do Enxame falou. A voz saiu mais direta do que pretendia.

— Não muito bem.

Todos o olharam. Até Yegar.

— Passou doze sóis lutando pela vida — continuou. — Com todo o suporte que conseguimos dar.

Ele apoiou as mãos na mesa.

— Fora o desgaste físico… mental… e a perda do membro… — Uma pausa curta. — Os órgãos estão intactos.

Ninguém respondeu.

Ele engoliu seco.

Sentiu o peso do que viria antes mesmo de dizer.

— Acordou há uma dúzia de pseudocks.

Agora, todos estavam atentos. Até os que já sabiam. 

— E não disse uma palavra.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez… não era o mesmo.

— Está apenas parado — concluiu o Pai do Enxame. — Encarando uma parede vazia.

E, pela primeira vez desde que a reunião começou… aquilo pareceu, de fato, uma derrota.

 

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