Volume 2
Capítulo 138: MINISTROS
Havia dois sofás largos um de frente para o outro, no centro de um amplo salão de paredes e chão de paralelepípedos.
O pé direito deste salão era alto, sustentado por colunas de pedra bruta e vigas horizontais de madeira antiga, cujo de pontos bem posicionados, diversos archotes pendiam, iluminando fracamente as flâmulas e bandeiras longas e escuras que tremulavam ao vento vindo da larga varanda — que, dela também, uma fraca e nublada luz iluminava o local.
Duas figuras estavam sentadas — uma em cada sofá, de frente para o outro — numa disputa acirrada de moral.
O primeiro estava de costas para a varanda, uma perna sobre a outra, e confortavelmente disposto em seu assento. Tinha uma pele perolada e o canto da boca curvado num fraco sorriso. Seus olhos eram verde-mar — ora escuro, ora claro.
Kaedor Vaelrys possuía um rosto lindo e cabelos num tom de dourado impecável. Sua postura indicava isso — nunca vacilava. Vestia um traje largo de tecido folgado e botas de cano alto.
Mas, diante do outro, havia certo desconforto em seus olhos. Era imperceptível, mas estava lá.
Este também estava tranquilo. Ostentava um traje cerimonial que exalava imponência industrial e decadente, que unia à sua silhueta uma brutalidade de um futuro colapsado.
Usava um pesado gibão de kevlar trançado e lona de paraquedas em tons de verde-pântano, rasgado e costurado com fios de fibra óptica que piscavam em um brilho esmeralda moribundo.
Não apenas isso, era como se…
“Maldito!” Pensou Kaedor. “Sequer esconde essa droga de Intenção Maligna.”
De fato, havia um ar trêmulo em torno do homem. Doentio e purulento.
Kaedor suspirou pesado. Era a quinta vez que se reunia com ele e, mesmo assim, em todas elas, ambos se recusaram a quebrar o silêncio primeiro.
Era uma tola disputa de vontades, claro.
Kaedor — um recém-nomeado Ministro do Viperino — e o outro, um veterano com anos de servidão ao Rei do Viperino.
E, a exemplo das outras quatro vezes, Kaedor precisou ser o primeiro a falar.
“Esse sujeito mesquinho”
— Então — disse, com o sorriso se alargando gentilmente. — O que o traz hoje aqui, Ministro Vaelkor?
O Ministro — Vaelkor — varreu seus olhos marrons pelo lugar e inclinou sua cabeça. Seus ombros erguidos por ombreiras maciças feitas de placas tremeram um pouco.
Ele tinha uma pele da cor de seus olhos, livre de pelos. Apertou os lábios, e franziu a sobrancelha para a bebida em sua mão.
— Não seja sonso. Por que parece surpreso? — indagou, sem preâmbulos. — Havíamos combinado estes encontros para ver seu desenvolvimento em um cargo tão privilegiado.
Kaedor deu de ombros.
— Sim. Contudo, achei que tínhamos estipulado datas fixas. Uma vez a cada vinte sóis, não? Faz apenas dez que nos vimos pela última vez.
Dez sóis atrás, Kaedor se lembrava da mesma sensação opressora que o sujeito emanava. Nem um pouco educado.
Vaelkor suspirou. Se inclinou para frente e colocou o copo sobre a mesa baixa entre os sofás. Os olhos de Kaedor acompanharam o movimento enquanto as ombreiras do Ministro ondularam, como escamas de uma víbora.
O Ministro voltou ao seu lugar e inclinou a cabeça, livre de qualquer emoção.
— Imprevistos acontecem, Legatário — disse, como se ainda não estivesse pronto para chamar o outro de Ministro. — E um grande aconteceu.
Kaedor permaneceu neutro, mas por dentro um frio se apossou dele.
“Estão furiosos. Os Reis e… ele.”
— Então — prosseguir Vaelkor — poderia me explicar como deixou que atacassem uma de nossas principais bases e, à reboque, roubassem nossas mercadorias sob seu nariz? Há explicação para isso, Legatário Kaedor?
— Claro que há. — respondeu Kaedor com dar de ombros. — O imperador permite que a escória trame, então deduzi que não faria mal…
— Não se compare ao Imperador, garoto. — Disse Vaelkor, ainda neutro, mas a voz num tom ameaçador. — Abeeku-Khan permite que a escória rasteje pelo submundo pois isso os mantém entretidos. Mas ele está atento à tudo que acontece em seus territórios. Está mais do que pronto para eliminar algumas raízes podres quando necessário. Agora isso… foi uma perda inestimável para o império.
Kaedor suspirou fundo. Era a verdade. A metade dos escravos em Lyvas foi roubada por aquele bando sujo, e a outra metade morreu pelas mãos dos Kawa Kale e dos soldados de Vaelrys. Em contrapartida, nenhum rebelde ficou vivo sob o escrutínio do Império.
“Uma perda, de fato.”
— Podemos repor os escravos, Ministro, e podemos…
— Isso não tem importância, Legatário. Escravos são apenas isso: escravos. Sequer podem ser considerados seres vivos. Não possuem vontade, e se reproduzem feito ratos. Na verdade, são menos do que ratos. O que realmente importa é que você falhou.
Kaedor o encarou. Não tinha medo do homem, apesar de notar certa mudança ao redor dele. Lutou para manter o respeito, ciente de que qualquer palavra errada era um insulto direto ao Rei do Viperino.
— Você permitiu que eles se reunissem, que conspirassem e que, com um terço de homens a menos do que você, causassem uma balbúrdia em Lyvas. Levaram um quarto dos Kawa Kale à morte, mais da metade dos tributos, e os insetos como um prêmio individual. E, o pior de tudo, levaram Kai Stone com vida. E o que você fez?
— Escavamos a cada centímetro de Lyvas, Ministro. Bares, lojas, becos, comércios e feiras. Levamos sangue para cada um que pudesse estar envolvido, mas todos morreram sem antes nos dizer qualquer coisa de valor.
Kaedor parecia cético quanto à isso. Ele encarou o outro, sem sentir nem um pouco de remorso.
— Além disso, havia mais daqueles monstros do que meus próprios homens. Diria que, no mais, a maior perda aqui foi minha.
Vaelkor balançou a cabeça.
— Os Kawa Kale fazem o que são mandados, Legatário, talvez se você…
— Se eu tivesse os ordenado? O que teriam feito? Jogado dados e atacado uns aos outros? As criaturas pelo menos tem um pensamento próprio?
A voz de Kaedor foi desafiadora o bastante para ele mesmo saber que extrapolara. Vaelkor remexeu-se sobre seu assento, e o Legatário fitou as duas armas cintilando na cintura do ministro. Mas este último não disse nada.
Kaedor se inclinou.
— Não, senhor. Apesar de saber que em grande parte errei, é pertinente que saiba que não lidamos com rebeldes comuns.
Vaelkor não respondeu de imediato. Girou levemente o copo entre os dedos, como se já esperasse ouvir aquilo.
— Imagino — disse por fim. — Continue.
Kaedor sustentou o olhar, medindo o peso das próximas palavras.
— Havia organização. Coordenação demais para vermes. Eles sabiam onde atacar… e quando recuar.
O silêncio se alongou por um instante.
— Diga o nome, Legatário.
…
— …Besouros… Cerúleos.
Apesar de aparentar saber sobre isso, foi como se o Ministro tivesse recebido um balde de água fria. Kaedor suspirou, ciente de que era sua chance de se livrar, mesmo que pouco, do fronte da acusação.
— E não apenas isso…
Vaelkor ergueu o olhar lentamente. Desta vez, não havia impaciência — apenas atenção.
— Não?
Kaedor hesitou por um breve momento, como se escolher as palavras erradas pudesse custar mais do que a própria vida.
— Houve interferência.
— De quem?
O Legatário inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos nos do Ministro.
— Daqueles que o Império prefere fingir que não existem.
Vaelkor ficou imóvel. Nem mesmo o ar ao redor dele pareceu se mover.
— Os Esquecidos.
As sobrancelhas de Vaelkor se franziram. Ele ficou quieto por um longo tempo. Era a primeira vez que seu silêncio era em razão de não ter o que falar. Contudo, Lorde Vaelrys suspeitava que o Ministro já sabia de uma coisa ou duas acerca da relação de Stone e os Degenerados da Areia.
Vaelkor voltou-se para Kaedor, a voz um misto de emoções.
— Tem certeza?
Kaedor assentiu.
— Fui incapacitado pelo Mudo de Barro pouco antes de poder ceifar a vida de Kai Stone.
Vaelkor estreitou os olhos e pareceu alarmado.
“Então, de fato, isso muda tudo.” Pensou. “Se o Pai do Enxame está envolvido com os Esquecidos, talvez não houvesse nada que o garoto pudesse fazer.”
Vaelkor se inclinou para frente, as lâminas cruéis cintilando com o fraco brilho do sol acima. Kaedor engoliu seco.
— Há mais uma coisa.
Vaelkor não disse nada. Apenas aguardou.
— Durante a batalha… ele fez algo que não deveria ser possível.
— “Impossível” é uma palavra fraca, Legatário.
Kaedor ignorou o comentário.
— O espaço… cedeu. Como se fosse tecido. Como se ele já soubesse onde cortar.
Pela primeira vez, Vaelkor não reagiu de imediato.
O silêncio entre os dois pareceu ganhar peso.
“Tecedura Âmida…” pensou o Ministro.
— Então acredita que os Degenerados estão por trás dele?
Kaedor ponderou.
— Sim e não. Ele pareceu, a todo momento, se segurar contra mim, como se temesse algo. E durante a batalha… se superou a cada vez que estava para morrer. Após matar o Retaliador de Sobek, era natural que perdesse para mim. Contudo, enfrentou meus brutamontes e os matou.
Vaelkor franziu o rosto.
“Então ele parece muito mais poderoso do que quando enfrentou Kesel. Falhamos em não impedi-lo antes.”
— Me pareceu que ele está muito mais poderoso do que durante seu enfrentamento contra Kesel. Falhamos em não impedi-lo antes. Sem embargo, não acredito que algo que os Degenerados tenham lhe ensinado possa ter sido suficiente para obter tamanho poder. Deve haver alguma coisa…
— Concordo — Kaedor atalhou. — E Ministro…
Vaelkor encontrou os olhos do Legatário.
— É possível que da próxima vez que encontremos Kai Stone, um único Ministro não seja capaz de subjugá-lo. Como disse antes, só fui capaz de sair vitorioso porque ele já estava exausto e se contendo… Mas se ele realmente consegue evoluir em pequenos espaços de tempo…
Vaelkor assentiu.
— Eu sei… é provável que somente nós, Ministros, em grupo, possamos contê-lo.
Vaelkor se ergueu de repente, suas vestes farfalhavam.
— Os Esquecidos são uma força incomum e muito poderosa em sua unidade. É realmente bom que tenha sobrevivido à um ataque de Yegar, rapaz.
Ele começou a se mover em direção da varanda, seu manto se arrastava feito uma cascata suntuosa e rústica pelo chão. Então parou e se virou para Kaedor, que permaneceu confortavelmente sentado em seu canto.
— De fato, não há muito que pudesse ter feito para evitar tal infortúnio. Como Merirdir disse, você é competente e dedicado, Legatário.
Kaedor assentiu.
— Obrigado, Ministro.
Apesar de dizer isso, Kaedor notou uma força estranha envolver o Ministro. Era profundo, verde e vil. Sua intenção assassina se aprofundou e o clima caiu.
— Não obstante, é prudente que saiba seu lugar. Fique ciente de algo, Ministro da Ordenança — prosseguiu Vaelkor. — Tive meus percalços até que me tornasse — com direito e sem ressalvas — o Ministro da Aspergilose. Mas fiz isso respeitando e sendo leal.
Kaedor sequer se virou para acompanhar a fala de Vaelkor, tendo observado tudo pelo canto do olho. Contudo, estava pronto para convocar seu cetro-lâmina, a Litania Branca.
— O Rei parece ter grande estima por sua casa — prosseguiu Vaelkor. — Mas se no futuro, tornar a me interromper ou sequer pensar em usar de sarcasmo comigo, eu o matarei.
Vaelkor se virou e continuou seu passo como se nada tivesse acontecido. Porém, a voz do Legatário o interrompeu.
— O que fazer agora, Ministro? — indagou, um misto de riso incontido em seu tom. — Quando nos reuniremos outra vez?
O Ministro da Aspergilose suspirou e se virou. Seu peitoral de aço rangeu fracamente.
— Retornarei para Vhal-Kredun e me reunirei com os Reis. Eles devem saber do que aconteceu aqui. Quanto ao dia em que nos reuniremos…
Vaelkor ergueu a mão e, nela, o farfalhar de areia surgiu seguido por um vácuo formado no próprio ar. De repente, uma bússola dourada feita de metais e aço rústico apareceu.
Os olhos de Kaedor se arregalaram.
— Pensei que essa tecnologia houvesse sido abolida do Império.
Vaelkor assentiu.
— E foi. Mas Abeeku ordenou que seus braços e seus seguidores fiéis mantivessem relatos dessa habilidade única. Não é algo para tolos como os Esquecidos ou Kai Stone.
Ele jogou o objeto para Kaedor.
— Esteja preparado… Ministro Legatário. Apesar de você não ter tido muito o que fazer diante das novas informações, ainda é necessário que situações como a de hoje não se repitam. Esteja pronto para quando novas ordens chegarem. E lembre-se: confiamos muito nos Vaelrys, não perca a mão de ninguém, nem mesmo dos seus parentes mais próximos.
Sob o tom ameaçador, Kaedor sabia exatamente sobre o que ele estava insinuando. Um frio gélido percorreu sua espinha pela primeira vez desde que se reuniram, tantos sóis atrás.
De repente, próximo da amurada na varanda, um portal surgiu, revolvido em escuridão e vazio. Vaelkor se virou e caminhou até ele.
— Nos vemos em breve.
Então se foi, levando sua presença doentia junto de si.
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