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Capítulo 35: "Uma Aluna Exemplar"

"Um professor arrastando uma aluna para dentro do próprio carro."

Depois das aulas, já sentada no banco do passageiro, Kamijou-san murmurou aquelas palavras em um tom de voz deliberadamente baixo.

"Você ainda vai continuar com essa piada?! Já não está bom, não?!" 

"Mas o que o senhor está dizendo? Eu pretendo usar essa carta contra o senhor para o resto da vida, sabia?"

Ela exibiu um sorriso de canto, exalando uma malícia genuinamente divertida. Comecei a achar que talvez eu tivesse cometido um grave erro de cálculo ao escolher a minha aliada para essa missão.

"Mesmo que você tente me extorquir, eu não tenho tanto dinheiro assim, sabe?" 

"Professor, o que exatamente o senhor pensa que eu sou?"

Resolvi entrar na onda dela para ver até onde aquilo ia, mas a resposta que recebi foi um par de olhos semicerrados e cheios de descontentamento. Aparentemente, a ideia de ser rotulada como uma garota interesseira feriu profundamente o seu orgulho.

"Uma jovem séria, atenta ao redor e dona de um coração bondoso?"

 "—?! P-Por favor, pare de dizer esse tipo de coisa do nada! Eu vou descer do carro agora mesmo, ouviu?!"

Assim que expressei o que realmente pensava a respeito dela, Kamijou-san avançou contra mim com o rosto completamente vermelho de vergonha. Como ela costuma manter uma postura fria com as pessoas ao redor, com certeza não estava nem um pouco acostumada a receber elogios sinceros. Embora estivesse começando a mostrar esse seu lado mais travesso e implicante, a minha impressão de que ela era uma excelente garota continuava intacta.

"Não pode descer com o carro em movimento, é perigoso, sabe?" 

"Não me devolva uma resposta tão calma e racional...!"

Ela esbravejou irritada, mas a verdade é que, quando o outro lado perde a compostura, fica bem mais fácil manter a mente fria. Para ser sincero, no caso da Kamijou-san, ela era muito mais fácil de lidar quando perdia aquela pose de superioridade.

"Não precisa ficar tão encabulada assim." 

"Eu não estou encabulada!" 

"Sim, sim, claro." 

"Se o senhor continuar me provocando, eu vou contar tudo para a minha irmã— quero dizer, para aquela pessoa, ouviu?!" 

"Espera, isso é gol— hã? O que você acabou de dizer?"

[Jeff: Para esclarecimentos, ele ia dizer golpe baixo e a Marin esconde o fato de que ela chama a Misuzu de Irmã mais velha, mas especificamente na fala está como: (おねえ - Onee).]

O pânico de ser delatado para a Misuzu-chan quase me fez implorar para ela parar, mas uma palavra específica no meio da frase da Kamijou-san fisgou a minha atenção. Ao notar que havia deixado escapar algo que preferia manter sob sigilo absoluto, ela arregalou os olhos e congelou no mesmo instante.

Poucos segundos depois, o seu sistema operacional pareceu reiniciar.

"O senhor prefere ter a sua memória apagada por meios misteriosos agora mesmo ou prefere que eu resolva isso quebrando a sua cabeça com um soco? Escolha de uma vez...!" — E ela passou a tentar me coagir a sofrer de amnésia forçada.

"Eu estou dirigindo, se você me bater vai causar um acidente generalizado, sabia?!"

Como eu já tinha testemunhado a rapidez dos punhos dela momentos antes, apressei-me em lançar uma advertência para acalmar os ânimos. Eu não estava nem um pouco a fim de sofrer um acidente de trânsito só porque ela estava tentando esconder a própria vergonha.

"O professor não escutou absolutamente nada. Estamos entendidos?" 

"Sim..."

A aura assassina que ela emanava do banco ao lado era tão densa que eu não duvidaria se me dissessem que ela guardava um corpo no armário. Diante daqueles olhos frios, achei mais prudente apenas assentir e ficar quieto. O olhar dela deixava mais do que claro que aquilo não era uma brincadeira.

Ainda assim... eu sempre achei estranho o fato de ela se referir à Misuzu-chan apenas como "aquela pessoa", mas pensar que a Kamijou-san a chamava de "irmã mais velha"... Talvez, além da mudança drástica na dinâmica familiar, o fato de a tia ter se tornado formalmente a sua responsável legal tenha criado uma barreira, deixando-a confusa sobre qual seria a distância ideal entre as duas. Nesse aspecto, a pequena Sana-chan provavelmente conseguiu se adaptar com muito mais flexibilidade.

Julgando que continuar provocando a Kamijou-san seria flertar com um perigo real, decidi manter a boca fechada e focar apenas na estrada pelo resto do caminho.

"Ah, boa tarde, professor. Muito obrigada por vir sempre."

Assim que estacionamos e chegamos à residência dos Murakumo, a mãe da nossa aluna nos recebeu calorosamente na porta.

"E quem seria essa...?"

Ao notar a presença de Kamijou-san logo atrás de mim, a mãe de Rumi inclinou a cabeça, exibindo uma expressão de curiosidade.

"Boa tarde. Esta é a Kamijou-san, uma colega de classe da Murakumo-san." 

"Muito prazer em conhecê-la, sou Kamijou. É uma honra estar aqui hoje."

No instante em que fiz a introdução, Kamijou-san curvou-se de maneira impecável, fazendo uma saudação profundamente cortês. Vendo aquela cena, era impossível imaginar que se tratava da mesma garota que vivia desdenhando da autoridade dos professores na escola; a postura dela exalava uma educação exemplar.

"Ah, mas que jovem adorável. Sou a mãe da Rumi, o prazer é todo meu."

A mãe de Murakumo, por sua vez, retribuiu o cumprimento com a mesma reverência, tratando uma jovem muitos anos mais nova com extremo respeito. Ver que a filha de uma pessoa tão centrada e gentil havia sido encurralada a ponto de se isolar do mundo só me fazia pensar no quão corrompido e falho estava o ambiente escolar e o sistema de ensino atual.

"Desta vez, pedi para que ela me acompanhasse para colaborar conosco. Tenho certeza de que ela será de grande ajuda para a Murakumo-san." 

"Muito obrigada por se importar tanto com a minha filha. E me perdoe, querida, por acabar envolvendo você em uma situação tão complicada..." 

"Por favor, não se preocupe com isso. Estamos falando de uma colega de classe muito importante para mim. Se alguém como eu puder ser de utilidade, não medirei esforços para ajudar."

Olha... de verdade, quem é essa garota...?

Pensei comigo mesmo, chocado com tamanha polidez. Se ela demonstrasse essa faceta de boa aluna no dia a dia da escola, as notas dela com os outros professores seriam excelentes e ela jamais seria vista como uma estudante rebelde... Pensar que as garotas eram capazes de usar uma máscara de bom comportamento com tanta perfeição chegava a ser assustador.

Engolindo a minha surpresa diante daquela transição cirúrgica da Kamijou-san, tratei de reajustar o meu foco.

"Bem, se me permite, gostaríamos de entrar, como de costume."

Pedi licença e, com o consentimento da mãe, nós dois fomos conduzidos para o interior da casa. Ao tirar os sapatos na entrada, Kamijou-san os alinhou de forma milimétrica com um gesto extremamente refinado, seguindo meus passos com uma elegância digna de uma jovem da alta sociedade. Com certeza, a mãe da Murakumo-san devia estar pensando que ela era herdeira de alguma família nobre, quando, na realidade, ela estava apenas atuando com cem por cento de sua capacidade de fingimento.

"Murakumo-san, boa tarde." 

“...―!’’

Assim que anunciei a minha chegada em frente à porta do quarto, pude ouvir o som nítido de Murakumo prendendo a respiração lá dentro. Ela provavelmente devia estar pensando: “Lá vem ele de novo”.

"Eu vim aqui hoje porque temos um assunto de extrema importância para conversar. Mas antes disso, trouxe uma colega da sua turma para te ver." 

“Eh...?”

Ouvindo a voz confusa e hesitante de Murakumo, desviei o meu olhar para Kamijou-san, que estava ao meu lado. Ela me devolveu um breve olhar que dizia “Eu sei o que fazer” e, em uma fração de segundo, estampou um sorriso imensamente acolhedor no rosto.

"Quanto tempo, Murakumo-san. Sou a Kamijou, você ainda se lembra de mim?"

A voz que saiu da boca de Kamijou-san não guardava o menor resquício daquele tom frio e cortante que ela usava nos corredores da escola, e também não se parecia com a voz doce e infantil que ela dedicava à Sana-chan, muito menos com a sua postura firme de irmã mais velha. Era um tom de voz tão caloroso, sereno e envolto em bondade que faria qualquer um confundi-la com uma verdadeira santa.

Sério, quem diabos era aquela criatura ali do meu lado...?!

“K-Kamijou-san...?! Por que... por que você está aqui...?!”

Alheia ao meu choque silencioso, a voz trêmula e espantada de Murakumo ecoou de dentro do quarto. Parecia que, embora ela conseguisse ignorar a presença dos pais ou de professores que mal conhecia, era impossível fingir indiferença diante de uma colega de classe com quem já tinha convivido.

Ainda mais quando a colega em questão era a Kamijou-san, uma figura que impunha respeito e admiração mútua por parte de todo o corpo discente da escola. Ignorá-la rudemente simplesmente não era uma opção.

...Tudo correndo exatamente conforme o planejado.

Bem, essa última parte era brincadeira. Mas, no fundo, eu realmente guardava a esperança de que a presença dela gerasse justamente esse impacto positivo.

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