Volume 1

Prólogo: O Fim Antes do Começo

 

 

O que me trouxe até aqui? Até esse ponto sem volta…

Quando foi que eu perdi o controle?

Glenn ergueu os olhos, fixos em seu alvo. A fúria silenciosa em seu olhar era mais aterrorizante do que qualquer grito.

— Vocês vão morrer juntos — disse ele, a voz gélida, desprovida de qualquer rastro de humanidade. — Você, seu nome e seu legado. Todos vão afundar no mesmo buraco.

A espada pendia em sua mão, uma extensão natural de sua vontade assassina. Não era uma arma; era um ponto final.

Ethelion rugiu. Um som gutural, um misto de fúria e terror primal. Atendendo ao comando mudo de seu criador, um dos gólems de pedra avançou. O som de rocha rangendo contra rocha ecoou no salão enquanto a criatura erguia um punho maciço, pronto para esmagar Glenn contra o mármore.

Glenn não recuou. Deu um passo à frente. Encostou a palma da mão no peito da criatura.

Um estalo seco e ensurdecedor reverberou pelas paredes.

Não houve explosão, apenas uma falha estrutural instantânea. Como se a própria magia que o sustentava tivesse sido aniquilada, o gólem se desfez. Blocos colossais de pedra cederam em uma avalanche lenta e pesada, desabando sobre o piso de mármore com um baque profundo que fez o chão tremer. Uma nuvem densa de poeira e detritos cobriu o salão.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelos murmúrios sufocados de horror. Os nobres recuaram em pânico, tropeçando em cadeiras, pisoteando uns aos outros na pressa desesperada para fugir. Alguns simplesmente paralisaram, os olhos arregalados diante do impossível.

Glenn olhou através da poeira para Ethelion. O sorriso que esboçou foi breve, frio e desprovido de humor.

— A mana também tem medo.

Cinco nobres se entreolharam, o pânico transformado em desespero suicida. Empunharam espadas — algumas decorativas, outras arrancadas de guardas mortos com mãos trêmulas.

O primeiro nobre mal conseguiu erguer a lâmina. Glenn o atropelou. Um arco de aço rápido demais para o olho seguir e o braço do homem foi separado do ombro. Antes que o membro atingisse o chão, a espada de Glenn já havia retornado, enterrando-se na garganta do sujeito. O som foi um borbulhar úmido de alguém tentando gritar sem oxigênio.

O segundo veio por trás. Glenn não olhou. Ele apenas desferiu um coice com o cabo da espada no rosto do agressor — o som de nariz e dentes implodindo ecoou no mármore. Enquanto o homem cambaleava, Glenn girou e o partiu ao meio, da clavícula ao quadril. O corpo se abriu como um saco de grãos rasgado, despejando vísceras quentes sobre os sapatos de seda dos espectadores.

O terceiro e o quarto tentaram atacar juntos, um grito de pânico unindo suas vozes. Glenn simplesmente passou por eles. Foi um borrão de prata.

Houve um segundo de silêncio absoluto.

Então, as cabeças de ambos deslizaram dos pescoços simultaneamente, tombando com um baque surdo. Os troncos jorraram sangue como fontes rompidas, batizando a mesa de banquete. O vinho sobre a mesa agora era a segunda bebida mais escura ali.

O quinto homem caiu de joelhos. Sem força nos dedos, a espada caiu.

— P-por favor... — o soluço era interrompido pelo som do próprio vômito. — Meus filhos... eu só segui…

Glenn parou diante dele. O sangue pingava da ponta de sua espada, criando um ritmo constante no chão: prec, prec, prec.

Ele não disse nada. Não havia o que dizer para um morto que ainda respirava.

Um movimento curto. O metal atravessou o crânio do homem de cima a baixo, silenciando a súplica no meio da palavra.

Glenn puxou a lâmina com um estalo de sucção. O corpo desabou, uma massa inerte de carne e arrependimento.

Ethelion, no trono, sentiu o cheiro. Já não era o perfume doce do vinhedo. Era o cheiro ferroso, quente e sufocante de um abatedouro. E o carrasco estava apenas começando.

Acho que entendi.

O que me trouxe até aqui não foi coragem.

Foi a falta de opção.

O peso nos ombros não era novo. Já o conhecia. Desde o primeiro dia em que segurou uma espada...

 

...

 

O som metálico cortava o ar — seco e ritmado. O sol ainda subia sobre Eloria, tingindo o campo de treino com tons de âmbar e poeira.

Dois corpos se moviam no centro do pátio. O mais velho, de ombros largos e cabelos grisalhos, manejava a espada com uma precisão natural. O outro, bem mais jovem, errava o tempo e tropeçava nos próprios pés — e ria. Era aquela risada despreocupada de quem acredita que o tempo é infinito.

Glenn observava tudo da janela do quarto, o queixo apoiado no punho. O ar frio da manhã entrava devagar, agitando as cortinas. Lá embaixo, seu primo Louis girava a lâmina em um arco desajeitado; o tio Reynolds, paciente, bloqueava o golpe e o corrigia com um grunhido curto.

— "Duelos"... — murmurou Glenn, com um sorriso de canto.

Ele se espreguiçou com a lentidão de quem não tem pressa para o dia começar.

— Espero que esse treinamento acabe depois do festival. Não aguento mais acordar com esse barulho.

Ele se deixou cair de costas no colchão, encarando o teto branco. Por um instante, seu pensamento escapou para um nome que ele evitava pronunciar e um rosto que preferia não recordar. Mesmo assim, sentiu o peito apertar.

— Será que ela... vai estar lá? — perguntou ao silêncio do quarto.

Glenn suspirou, sentou-se à beira da cama e vestiu a camisa. Calçou as botas e ficou parado por um momento, ouvindo o impacto das lâminas de madeira lá fora. A casa estava silenciosa. Se a tia Vivian estivesse ali, Reynolds não teria conseguido arrastar Louis para o treino antes do café.

Ao abrir a porta da casa, o cheiro da manhã o atingiu: terra úmida, madeira e o pão assando em algum vizinho. O vento frio terminou de espantar o resto do sono.

O som do treino parou assim que Glenn se aproximou da varanda — ou melhor, assim que seu bocejo alto foi ouvido. Louis se virou, suado e com um sorriso zombeteiro no rosto.

— Finalmente acordou, Alteza. Achei que precisaria de uma patrulha para te tirar da cama. — Ele largou a espada de madeira contra uma árvore.

Glenn ergueu uma sobrancelha.

— Me perdoe, cavaleiro exemplar. Eu estava ocupado sonhando que você aprendia a segurar uma espada sem tropeçar na própria sombra.

Louis bufou, mas não conseguiu esconder o riso. Ao lado dele, Reynolds limpava o suor da testa com o braço. O semblante era sério, mas a voz trazia uma ponta de satisfação.

— Já que a Vivian foi à feira, resolvi aproveitar o sossego para tentar fazer o Louis parecer menos um espantalho armado no festival.

— Pai... — reclamou Louis, torcendo os lábios.

Glenn disfarçou o riso com um pigarro e cruzou os braços.

— Tudo isso é para amanhã?

O tio virou o rosto devagar, lançando aquele olhar que sempre precedia uma lição de moral.

— A disciplina não escolhe hora, Glenn — disse ele, firme. — E a sorte também não.

Glenn assentiu de forma teatral.

— Adoro frases motivacionais antes do café. É quase melhor que comida.

Reynolds soltou uma risada curta e passou por eles em direção à casa.

— Café eu não fiz, mas tem maçãs na cesta.

O som do assoalho rangendo acompanhou a entrada do tio. Glenn se abaixou e pegou a maçã mais vermelha da cesta. Deu uma mordida ruidosa, sentindo o suco frio.

— Acho que ele está pegando pesado, não acha? — comentou com Louis.

O primo apoiou o cotovelo no joelho, ainda recuperando o fôlego.

— Você conhece meu pai. E devia agradecer; pelo menos alguém ainda tenta fazer de você um espadachim decente.

Glenn suspirou, olhando para o horizonte.

— Eu sei — murmurou, sem muita convicção.

Louis o observou por um momento, e o sorriso zombeteiro deu lugar a algo mais animado.

— Sabe de quem recebemos carta?

Glenn ergueu o olhar, curioso.

— De quem?

— Da Ellie — respondeu Louis. O tom era casual, mas havia uma fagulha de interesse que ele não conseguia esconder totalmente.

Glenn parou por um instante. A maçã ficou esquecida no ar, no meio do caminho para a próxima mordida.

— Hoje? — A pergunta saiu mais baixa do que ele pretendia.

Louis assentiu, os olhos brilhando sob a luz da manhã.

— Ela voltou ontem do Colégio Erudito. Quer nos encontrar mais tarde, na clareira perto do riacho.

Glenn deu outra mordida na maçã, mas seu olhar já vagava pelo horizonte, onde o vento agitava o trigo. Ele tentou manter a expressão neutra, mas o leve tensionar do maxilar o entregava. O nome dela sempre deixava rastros.

Ele girou a fruta entre os dedos, sentindo um nó discreto se formar no peito. Enquanto Louis continuava falando, distraído, as lembranças vieram: a menina que chutava o escudo dele quando perdia a paciência; as risadas altas; a promessa arrogante de que um dia seria mais forte que os dois juntos.

— Quanto tempo ela ficou fora, mesmo? — Glenn perguntou, forçando um tom despretensioso.

Louis levou a mão ao queixo, fazendo uma pose pensativa.

— Duzentos e dezenove dias — respondeu, com a precisão de quem realmente contou as datas.

Glenn riu curto.

— Bem específico.

— Hábito — Louis deu de ombros, mas um sorriso escapou.

Glenn olhou para o chão, o canto da boca subindo de leve.

— Será que ela mudou muito?

— A Ellie muda o tempo todo — disse Louis, o olhar perdido por um segundo. — É o que eu mais gosto nela.

Glenn sorriu também. Era mais fácil concordar. Louis estendeu o punho fechado e Glenn bateu o seu contra o dele; o estalo seco selou o pacto silencioso de irem juntos.

 

 

Eles começaram a caminhar pela estrada ladeada por flores silvestres. O cheiro de terra úmida e maçã os acompanhava. Glenn seguia em silêncio, sentindo o coração acelerado demais para quem fingia indiferença.

Por que estou assim?, ele se perguntou, mas a resposta parecia óbvia demais para ser dita.

— Não acho que seja uma boa ideia eu ter vindo — disse Glenn, tentando disfarçar o desconforto. — Ela provavelmente nem quis dizer que…

— Claro que quis — Louis o cortou, sem desviar os olhos do caminho. — Ellie foi enfática. Ela queria mostrar algo para nós dois.

Glenn arqueou uma sobrancelha.

— Por quê?

Louis lançou um olhar divertido, quase de quem sabe um segredo.

— Glenn…

Antes que ele pudesse completar a frase, uma voz feminina ecoou mais à frente, vinda da sombra das árvores:

— Vão me fazer esperar até que horas?

O coração de Glenn saltou. O som daquela voz preencheu o ar de um jeito que só ele parecia notar. Por um segundo, ele temeu que sua respiração curta entregasse o nervosismo para Louis.

Louis se virou na mesma hora, o rosto iluminado por um sorriso largo.

— Ellie! — exclamou ele.

Ela estava parada no alto da colina. A luz do sol a envolvia, e o vento agitava seu cabelo dourado e o vestido claro, que se movia com leveza. Mesmo à distância, o brilho nos olhos dela era o mesmo de anos atrás — o desafio constante de quem sempre quis ser a melhor nos treinos. Mas havia algo novo ali; uma confiança que não pertencia mais à menina que chutava escudos por pirraça.

Louis correu em direção a ela. Ellie o recebeu com o mesmo entusiasmo, rindo alto e girando sobre os próprios pés quando se encontraram.

Glenn permaneceu onde estava. O maxilar travou em um movimento involuntário. Ele observou os dois abraçados, encaixados em uma intimidade que parecia natural demais. O som das risadas e o calor do sol nas costas pareciam conspirar para que aquele momento durasse mais do que ele conseguia suportar.

Glenn caminhou até eles com passos lentos, tentando manter a expressão neutra. 

— Louis, você ainda corre como se tivesse um porco-espinho na bota — disse ela, divertida.

Louis estreitou os olhos, contendo o riso.

— E você ainda acha que corre delicada como o vento.

Ela deu dois passos para trás com um gesto teatral.

— Louis, Louis... você não tem ideia de com quem está falando.

Ela ergueu a palma da mão para o céu e fechou os olhos. Um sussurro curto escapou de seus lábios e o ar ao redor de seus dedos pareceu se torcer. Uma brisa nasceu ali, ganhando força e forma até que as folhas secas no chão começassem a rodopiar em torno dela em um redemoinho controlado.

Louis arregalou os olhos.

— Olha isso, Glenn! Você está vendo? — Ele apontou, entusiasmado. — Na nossa idade e ela já faz isso! Eu sabia. Lembra de quando ela me jogou no lago com um sopro de vento e você não acreditou?

— Você escorregou! — protestou Ellie, rindo, enquanto o vento que ela criava bagunçava seu próprio cabelo.

Glenn enfiou as mãos nos bolsos, o polegar roçando a costura do tecido. Ele observava a cena em silêncio.

O pequeno redemoinho se desfez aos poucos e as folhas voltaram ao chão, uma a uma. Ellie caminhou até ele e parou a menos de um passo de distância.

— É bom te ver, Glenn — disse ela, com simplicidade.

Ele apenas assentiu. O abraço veio logo em seguida; foi rápido e leve. O cheiro de flores que emanava dela se misturou ao cheiro de terra úmida do campo. O tecido do vestido dela roçou no braço dele, ainda quente do sol.

— Também é bom te ver, Ellie. — Glenn piscou devagar.

— Desde quando você aprendeu a fazer isso? — perguntou Louis, ainda fascinado pelas folhas no chão.

Ellie deu um passo para trás, afastando-se de Glenn para responder ao primo.

— Lembra de um ano atrás, quando o tio Reynolds me apresentou àquele mago viajante? — disse ela, olhando para o céu com um meio sorriso. — Aquele dos livros flutuantes… Era professor na academia. Me passou alguns livros, e fui aprendendo enquanto estudava lá.

Glenn franziu o cenho, genuinamente surpreso.

— Isso é incrível. Você aprendeu praticamente sozinha.

Ela sorriu de leve e puxou uma mecha de cabelo para trás da orelha. Por um instante, seus ombros pareceram se recolher, uma ponta de timidez que não combinava com a demonstração de poder de antes.

Louis cruzou os braços, triunfante.

— Eu disse que ela era um prodígio.

Glenn desviou o olhar. As palavras de Louis pairaram no ar. Um aperto familiar tomou-lhe o peito — não era inveja, mas a sensação de ficar para trás, como se cada passo dos outros fosse uma lembrança de sua própria estagnação. Seu maxilar se contraiu, quase imperceptível.

— Vamos sentar — convidou Ellie, interrompendo o silêncio. — Perto da figueira. Preparei uma surpresa para vocês.

A figueira se erguia logo adiante, com o tronco largo e folhas espessas que garantiam uma sombra generosa. Ellie já havia estendido um pano claro sobre a grama. Sobre ele, cestas de palha e copos de barro estavam organizados com cuidado, como se ela tivesse calculado o movimento do sol para que o lanche ficasse protegido do calor.

Havia pães trançados ainda mornos, pequenas tortas de frutas e um jarro com um suco cor de sol. Pedras lisas seguravam as pontas da toalha para que o vento não a levasse.

Louis soltou um assobio baixo.

— Você caprichou, hein?

Ellie riu, sentando-se com eles.

— Fazia tempo que não nos víamos — disse ela, o olhar ficando distante por um breve segundo. — E eu não consegui me despedir direito da última vez.

Louis assentiu com um exagero teatral, a mão no peito.

— É, aquilo doeu.

Ele já estava com um dos pães na mão antes mesmo de terminar a frase.

— Seu pai explicou a situação — interveio Glenn, inclinando-se para a frente. — Foi de última hora. Ninguém te culpa por isso, Ellie.

Ela assentiu. O olhar estava calmo, mas o sorriso havia sumido.

— E, bom... — Glenn hesitou, girando o copo vazio entre as mãos. — Parece que valeu a pena. Você está diferente.

Ele fez uma pausa curta e completou em um tom quase inaudível:

— No bom sentido.

Ellie piscou, surpresa. Um brilho de confusão e riso atravessou o rosto dela ao mesmo tempo. Glenn percebeu o que tinha dito e sentiu o rosto esquentar. Endireitou o corpo imediatamente, focando em qualquer ponto que não fosse o rosto dela.

— Digo... é que... — Ele limpou a garganta, tentando recuperar a postura. — Você parece mais forte. É isso.

Ela não respondeu de imediato. Apenas manteve aquele sorriso pequeno e discreto. Sem dizer nada, pegou o jarro e encheu o copo de Glenn até a borda, entregando-o em silêncio.

Louis não notou nada. Continuava mastigando seu lanche, satisfeito com a comida e com a companhia, alheio à tensão sutil que vibrava entre os outros dois.

Ali, sob a sombra da figueira, o mundo parecia seguro. Eram apenas três jovens e um entardecer que prometia nunca acabar.

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