Volume 1
Capítulo 5: O Despertar
O ar veio primeiro — quente.
Glenn abriu os olhos de súbito. Os pulmões ardiam e uma tosse seca trouxe à boca o gosto metálico. Acima, o teto de madeira tinha frestas por onde a luz fria da lua atravessava, desenhando listras pálidas no chão. Ele estava sobre a palha de um celeiro nos arredores da vila. As lembranças vinham em pedaços: o clarão, o vulto de Louis correndo.
Ele se levantou devagar. O corpo latejava e a cabeça pesava, obrigando-o a se escorar na parede quando o joelho falhou.
— Onde... eu tô?
Empurrou a porta do celeiro. A madeira velha rangeu e o vento entrou com força, denso e abafado. Diante dele, o mundo havia sido pintado de novo. Colunas de fumaça subiam até as estrelas, tingindo o céu de um degradê cinza e vermelho. Glenn parou por um instante, admirando; era uma cor realmente linda para aquela noite.
Ele começou a caminhar pelas ruas de Eloria, que agora pareciam trilhas escuras entre esculturas negras que um dia foram casas. O ar estava tão espesso que ele precisou agachar, arfando, sentindo o coração batendo rápido demais contra as costelas. Depois de um tempo observando o vazio, Glenn decidiu que era hora de continuar procurando. Não importava para onde olhasse, não encontrava vivalma. A vila estava mergulhada em um silêncio absoluto e disciplinado.
Glenn levantou, limpou cuidadosamente o pó dos joelhos e tentou não escorregar no chão enlameado. Embora o céu estivesse limpo, havia uma lama pegajosa por toda parte, inundando as frestas das pedras. Ele passou a caminhar com cautela, desviando das poças maiores para não estragar os sapatos, seguindo na direção de uma fumaça branca que subia logo à frente. O fogo ali já tinha descansado; restavam apenas cinzas.
Ele baixou o olhar, observando distraidamente os destroços no caminho. Não havia nada de estranho para ver, exceto pelo cadáver carbonizado do Senhor Harven, que repousava no chão de forma rígida, servindo de base para a fumaça branca que escapava de suas roupas queimadas. Glenn coçou a cabeça, um pouco incomodado com a obstrução, e simplesmente deu a volta no vizinho para seguir seu rumo.
Se não havia ninguém ali, o centro era o próximo passo. Ele contornou o que parecia ser uma garota deixada de lado de forma descuidada, cuidando para não deslizar na lama carmesim que se espalhava sob ela como um tapete úmido. Com um passo largo, ele evitou o jovem casal de dançarinos que parecia dormir um sobre o outro, bloqueando a entrada da praça. Passou ao lado de uma mulher idosa deitada de bruços, reparando apenas na imobilidade perfeita de todos eles.
Glenn buscava por qualquer sinal de movimento naqueles figurantes espalhados pelo chão, esperando que alguém finalmente chamasse seu nome e acabasse com aquele teatro vago. Mas a inatividade era a única coisa que restava. Tudo ali parecia fútil. Inclusive ele.
Entregue a esse torpor, ele atravessou a praça arrastando os pés. Seu pé prendeu abruptamente em algo firme, fazendo com que o garoto fosse arremessado para frente. Ele gemeu com a dor da aterrissagem, sentindo o latejar na testa onde o chão o beijou.
Irritado com o tropeço, Glenn olhou para trás para ver qual objeto tinha ficado no seu caminho.
Viu os olhos fechados e sem emoção. Os cabelos longos e loiros, agora embaraçados no seu tornozelo.
— Ellie? — chamou ele, baixinho, esperando que ela pedisse desculpas por tê-lo derrubado.
—...
— AAAAAHHHHHH!
O grito rasgou o que restava do silêncio de Eloria. Glenn desmoronou. O torpor de segundos atrás foi varrido por uma enxurrada de soluços e lágrimas que ardiam como ácido. Ele envolveu os braços ao redor do corpo inerte de Ellie, apertando-a contra o peito, como se seu próprio calor pudesse trazê-la de volta. Naquele instante, o mundo — a vila queimada, o céu vermelho, os mortos — deixou de existir. Só havia Ellie.
— Não… por favor… — ele implorava ao vazio.
Ele olhou para as mãos dela; os dedos estavam sujos de terra, curvados em um espasmo. O vestido, que deveria ser de um azul vibrante, estava encharcado, pesado com um tom escuro e viscoso. Logo acima da cintura, um corte profundo interrompia o tecido e a carne. Glenn pressionou a mão contra o ferimento, sentindo o sangue ainda morno escorrer entre seus dedos, manchando sua pele.
— Ellie… me escuta. Vamos para casa, lembra? Eu preciso te falar uma coisa…
Ele tocou o ombro dela, sacudindo-a de leve. A pele ainda guardava o calor da vida, mas permanecia imóvel, pesada.
— Acorda… — a voz dele quebrou, transformando-se em um sussurro rouco. — Acorda, Ellie. Por favor.
Afastou os cabelos loiros que escondiam o rosto dela, aproximando sua testa da dela. O hálito dele batia na pele fria dela, mas não havia retorno.
— Eu estou aqui… eu prometi. Eu vim por você.
O silêncio de Eloria foi a única resposta. Ele segurou a mão dela, que começava a esfriar, e a encostou no próprio rosto, buscando um sinal, um espasmo, qualquer coisa. Nada. Ele a abraçou com força, tentando protegê-la de um destino que já havia se cumprido. No movimento, a mão de Ellie escorregou do peito de Glenn. O impacto contra o chão foi leve, mas o tilintar metálico da pulseira soou como um sino fúnebre no meio da praça.
Glenn olhou, atraído pelo som. A pedra esverdeada na pulseira brilhava com uma intensidade doentia.
Ele limpou as lágrimas com o dorso da mão, confuso. Havia uma rachadura nova na joia, e dela escorria um brilho estranho, uma substância que se movia como fumaça e líquido ao mesmo tempo. O brilho desceu pelo pulso de Ellie e espalhou-se pela pele em fios delicados, como veias que se acendiam.
— O quê…?
Ao tocar o ferimento, a luz verde não apenas brilhou; ela mordeu.
Glenn sentiu um choque percorrer seu próprio braço ao tocar a pele dela. A pedra começou a vibrar de forma errática, sugando o calor da mão dele para alimentar o brilho. O sangue de Ellie não apenas recuou; ele começou a ferver sob o toque da luz. A garota soltou um engasgo agudo, o corpo arqueando nos braços de Glenn em um espasmo violento de dor pura.
— Ellie! Fica comigo! — Glenn gritou, sentindo a própria pele queimar onde tocava o brilho.
A ferida na cintura dela tentava se fechar, mas a carne parecia resistir, rasgando e colando de novo em um ciclo torturante. O brilho da pedra oscilou, enfraquecendo, e a respiração de Ellie parou por cinco segundos que pareceram horas. Glenn apertou a pedra com tanta força que a rachadura cortou sua palma, misturando o sangue dele ao dela.
Só então, com um último pulsar violento que lançou uma onda de calor pela praça, o corte se fechou em uma cicatriz bruta e avermelhada.
Ellie desabou de volta nos braços dele, arfando como se tivesse acabado de escapar de um afogamento.
— …você prometeu… me salvar… se eu… estivesse em apuros.
O peito de Glenn apertou tanto que ele mal conseguia respirar. Ele colou sua testa na dela, fechando os olhos e segurando aquele instante com todas as forças. Ele tinha medo de que, se soltasse, o brilho verde se apagasse e ela voltasse a ser apenas parte do silêncio da vila.
— É… eu prometi, não foi? Me desculpe…
A respiração dela roçou o queixo dele. Glenn a segurava, mas o silêncio de Eloria foi quebrado por um som úmido. Um engasgo.
— … — o murmuro veio de trás de um monte de brasas.
Glenn virou-se. Louis estava tentando se arrastar, os dedos cravando na terra quente. O alívio de Glenn durou um segundo — o tempo dele chegar perto e ver que Louis estava deixando um rastro grosso e escuro para trás.
— Louis! — Glenn caiu de joelhos, tentando levantá-lo.
Mas quando ele tocou as costas do primo, sua mão afundou. Não havia resistência. Onde deveria estar a lombar, havia um buraco que cuspia sangue a cada tentativa de Louis de respirar.
— Nossos pais… — Louis tentou focar os olhos, mas eles giravam, sem controle. — Glenn… eles…
Glenn travou. Ele não tinha visto ninguém. Mas o pânico no rosto de Louis era tão infantil, tão cru, que a verdade parecia um crime.
— Estão vivos — mentiu Glenn, as mãos tremendo enquanto tentava fechar o ferimento que era grande demais para seus dedos. — Eu vi os dois. Estão te esperando, cara. Aguenta firme, porra!
Louis não sorriu. Ele soltou um ganido agudo, o corpo arqueando em um espasmo. O cheiro de carne queimada e ferro subiu, nauseante.
— Dói… — Louis choramingou, a voz ficando fina, de criança. — Glenn, tá doendo muito… não deixa… não deixa…
— Eu sei, eu sei. — Glenn apertou o pano da camisa contra o buraco, mas o sangue jorrava por cima, quente, sujando tudo. — A gente vai viajar, lembra? Valeris… as árvores de Ilvanor no continente elfo… a gente vai gritar naquela montanha maldita de Karak-Dûm no continente anão que você queria ir!
Louis não estava mais ouvindo os planos. Ele estava lutando pelo ar, os pulmões fazendo um som de assobio quebrado. Ele agarrou o pulso de Glenn com uma força sobrenatural, as unhas enterrando na pele do primo.
— Eu não… quero… — O olhar de Louis travou no céu, onde o Palácio de Aldebaran brilhava, calmo. — Por que eles… não ajudam? Glenn… por que…
Ele não terminou. O corpo de Louis deu um último solavanco violento. O aperto no pulso de Glenn relaxou. O som do assobio parou.
Glenn ficou ali, com as mãos mergulhadas no sangue do irmão, esperando o próximo suspiro. Ele não veio.
— Louis? — sussurrou. — Louis, acorda.
Ele sacudiu o corpo, mas o primo era apenas um peso morto e frio entre os escombros. Glenn olhou para as próprias mãos — o sangue de Louis estava sob suas unhas, na sua pele, em todo lugar.
Glenn levantou a cabeça lentamente.
As nuvens acumulavam-se e o vento trazia o cheiro metálico da tempestade. Gotas começaram a cair frias e deslizavam pelo seu rosto, mas ele não piscava. Seus olhos estavam fixos no alto, onde o Palácio Celestial de Aldebaran flutuava entre os trovões. O palácio cintilava com uma luz que ignorava o mundo abaixo. Imaculado. Indiferente.
Glenn sentiu o peito apertar.
O trovão respondeu com um rugido que ecoou pelos vales. Glenn fechou os olhos, buscando uma explicação que o céu se recusava a dar. As imagens voltaram como lâminas: os gritos, o sangue, as mãos estendidas em vão. Tudo engolido pelo silêncio de um deus que nunca respondeu.
Seus punhos cerraram-se até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Um deus… — repetiu com amargura. — Um deus deixaria isso acontecer?
Lá em cima, o palácio não se moveu. Nenhuma sombra se inclinou para ouvir.
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