Volume 1
Capítulo 23: O Filho da Montanha
— Que cena patética.
A voz de Thalindra cortou o silêncio da biblioteca. Ronan enrigidceu, mas não virou o rosto de imediato.
— Eu devia saber que você não entenderia uma ordem simples — ela se aproximou da mesa. — Fique longe da biblioteca. Era pedir demais, bastardo?
Thalindra não estava sozinha. Dois guardas reais a escoltavam, as armaduras rangendo de forma pesada. Atrás deles, um grupo de criados sustentava pilhas de livros contra o peito, mantendo os olhos fixos no chão.
Ronan finalmente a encarou, o maxilar contraído. Um dos guardas deu um passo à frente, o metal das grevas batendo seco contra o mármore.
— Está surdo?
O coração de Ronan disparou. Um tremor percorreu sua perna, e ele agradeceu por estar sentado; em pé, Thalindra perceberia sua fraqueza. Respirou fundo — se deixasse o medo transparecer agora, eles se alimentariam disso.
Então ergueu o olhar para o guarda, mesmo que o corpo não acompanhasse.
Então ergueu o olhar para o guarda — mesmo que o corpo nao acompanhasse.
— Não grite — disse Ronan, em tom baixo. — Estamos em uma biblioteca. Além disso, seu hálito já degrada o ambiente o bastante. Não precisa torturar os livros também.
Um silêncio tenso caiu sobre o corredor. Ao fundo, Ronan ouviu um risinho contido. Lisa.
O guarda fechou o punho, o rosto avermelhado.
— Ora, seu—
— Basta. — A ordem de Thalindra foi curta.
O guarda recuou, rígido. Um dos criados, buscando uma coragem súbita, inclinou-se levemente para a nobre.
— Majestade... o rei autorizou Ronan a frequentar este setor.
— Silêncio. — Thalindra nem sequer olhou para o criado. — O rei é imprudente. Sua compaixão o impede de tomar decisões pautadas na ordem deste castelo.
Ela contornou a mesa, o som dos saltos ecoando no piso. Parou ao lado de Ronan e olhou para o livro aberto, depois para o rosto dele.
— Acha que pode se esconder aqui? Entre palavras bonitas e páginas antigas? Como se isso disfarçasse o que você é.
Ronan não respondeu. A presença dela era sufocante. Nobres começaram a surgir nos corredores laterais, atraídos pelo conflito. O tipo de atenção que apenas expõe a ferida.
— Ler meia dúzia de páginas não o torna menos indesejável — continuou ela, elevando a voz para que os curiosos ouvissem. — Nem menos sujo.
Ronan sentiu o calor subir pelo rosto. Ele fixou os olhos nos próprios dedos, que apertavam a borda da mesa. O ar parecia ter sumido do salão. Ele engoliu em seco, reuniu o que restava de sua dignidade e forçou a voz a sair.
— Você não acha que já passou do limite?
Thalindra ergueu uma sobrancelha, genuinamente divertida.
— Limite?
Ela soltou um riso curto e seco. Elegante, mas carregado de desprezo.
— Nunca é gratuito — respondeu. — Você é um erro. Um lembrete vivo da fraqueza do meu marido.
Antes que Ronan pudesse reagir, ela puxou o livro da mesa e o lançou ao chão. O impacto ecoou pelo salão, seco e definitivo. Thalindra ergueu o pé e desceu o salto sobre a capa, rasgando o couro antigo com um som áspero, antes de chutá-lo para longe como se fosse lixo.
— E eu não vou permitir que você se esqueça disso.
Ronan encarou o livro. As páginas estavam abertas de qualquer jeito, agredidas. Algo começou a queimar em sua língua; um impulso bruto, latejando sob a pele. Palavras estranhas se formaram em sua mente como estilhaços: Kael… Thur…
Ele engoliu em seco, sufocando o murmúrio antes que ganhasse forma. O rosto ardia.
"Lisa ainda está aqui?" — pensou. — "Ela está ouvindo tudo isso?".
A ideia de ser humilhado na frente dela doeu mais do que o insulto da rainha.
— Tirem as roupas dele — ordenou Thalindra. A voz era limpa e inevitável. — Vamos ver se ele ainda se sente nobre quando estiver nu diante dos criados.
Ronan arregalou os olhos e levantou-se de supetão. A cadeira tombou com um estrondo, rasgando o silêncio da biblioteca.
Risos baixos surgiram entre os nobres que assistiam à cena. O refúgio de Ronan agora era um tribunal. Ele sentiu o chão ceder sob os pés, as mãos fechadas em punho. O tremor em seu corpo mudou; não era mais medo, era pressão acumulada prestes a explodir.
— Se derem mais um passo... — a voz dele saiu irregular, mas cortante.
Thalindra inclinou a cabeça, ostentando um sorriso venenoso.
— Vai fazer o quê? Chorar? Correr para o Baragor? Isso é uma punição por estar aqui sem minha permissão. Ele vai entender.
Os guardas avançaram. Mãos pesadas se fecharam nos braços de Ronan, apertando como garras de ferro. Ele tentou se soltar, mas o corpo não respondia como devia. O ar parecia grosso, difícil de puxar.
O mundo encolheu. Os rostos ao redor viraram borrões. As vozes, ecos distantes.
Só uma coisa ficou nítida.
O calor.
Começou na garganta. Não — mais fundo. No peito. Como se algo estivesse sendo arrancado de dentro dele, empurrado à força para cima.
Ronan arfou.
— S-solta… — tentou dizer.
Um dos guardas puxou sua camisa com força, o tecido estalando.
Algo dentro de Ronan quebrou. O peso dessa fissura percorreu-lhe o peito antes de se transformar em som.
— Kael’thur… — O murmúrio escapou sem esforço, mas carregava uma estranheza antiga.
Não foi um gesto brusco, e sim um silêncio que se espalhou pelo salão, como se o mundo prendesse a respiração. Os guardas, ainda firmes em seus braços, hesitaram. A língua de Ronan queimava; aquelas palavras martelavam sua mente, não como aprendizado, mas como uma memória arrancada do sangue.
Thalindra franziu o cenho, a confusão nublando sua face autoritária.
— O que você—
— Ennavel… Vaal’grom… Esh’terrah.
As sílabas se encaixaram com uma naturalidade assustadora. Ronan sentiu um formigamento elétrico percorrer o corpo. Não era dor; era reconhecimento. O som não apenas ecoou pela biblioteca; a própria terra respondeu.
Um tremor curto sacudiu o chão. Livros deslizaram das prateleiras e uma poeira fina caiu do teto. As colunas de pedra rangeram como ossos despertando.
— O que é isso? — alguém sussurrou entre os nobres.
A montanha sob o castelo rugiu. Foi um som profundo, vivo. Os guardas largaram Ronan por instinto, cambaleando para trás. O metal das armaduras tilintou enquanto corriam para se posicionar à frente de Thalindra, escudos erguidos.
Ronan mal os via. Seu coração batia em um ritmo que fazia o chão vibrar sob seus pés. Por reflexo, ele ergueu a mão e apontou um único dedo.
O mármore se partiu.
Estacas de rocha escura irromperam do piso violentamente. Não eram pedras comuns, mas pontas negras e irregulares, arrancadas de uma profundidade abissal. Elas formaram uma muralha pulsante entre Ronan e os soldados.
Nobres gritaram e recuaram. Criados deixaram pilhas de livros caírem, as páginas se espalhando como folhas secas. Thalindra não recuou, mas seus dedos se fecharam em torno do colar no pescoço — um gesto de puro instinto defensivo.
Ronan arfava. Seu corpo parecia lento demais para o poder que acabara de invocar.
— Fui eu…? — A pergunta se perdeu no caos.
O chão sob seus pés estalou, uma fissura fina serpenteando pela sala até sumir sob uma mesa. O pânico agora era real; os nobres perceberam que o "bastardo" não era mais uma presa inofensiva.
Thalindra cerrou os dentes. O choque deu lugar à fúria. A mão dela desceu até a cintura, buscando o contorno frio de sua varinha.
— Chega! — ela sibilou. — Guardas, matem-no!
Os guardas avançaram, mas o chão cedeu primeiro.
Não foram os homens que caíram, mas a própria estrutura da biblioteca. O primeiro guarda pisou em falso quando a pedra sob sua bota afundou como barro encharcado. Ele cambaleou, soltando um grunhido de surpresa, enquanto o segundo tentava recuar.
Tarde demais.
A fissura no mármore se alargou. Não houve explosão, apenas um movimento lento e pesado. Placas grossas de pedra se separaram, revelando braços maciços que se apoiaram na borda da ruptura. Quando a criatura se ergueu por completo, o salão mergulhou em uma quietude opressora.
Não era um golem comum, polido ou simétrico. Era uma massa de rocha comprimida, moldada às pressas, como se o prédio tivesse improvisado um guardião. Olhos de um amarelo opaco se acenderam na face rústica, fixos e atentos. Depois outro surgiu. E mais um.
Thalindra deu um passo atrás por puro instinto. O guarda à sua esquerda engoliu em seco, a voz falhando:
— Majestade… é a proteção da biblioteca. Eles despertam quando detectam magia hostil. São… as Respostas.
As criaturas ignoraram os guardas e a rainha. Todos os olhos de pedra se voltaram para Ronan.
— POR QUE ELES NÃO ATACAM?! — Thalindra gritou, perdendo a compostura. — FAÇAM-NOS ATACAR!
Ronan sentiu a pele arder. Um formigamento subia por seus braços e garganta; uma pressão interna que exigia ser libertada. Ele deu um passo involuntário para trás e as criaturas se moveram em sincronia.
O som era tectônico — pedra rangendo contra pedra, um rosnado grave que vinha do centro da terra. Cada passo fazia o chão vibrar, espalhando fissuras como veias sob o mármore. Eles vinham na direção de Ronan sem pressa, mas sem hesitação. Não pareciam guardas protegendo um segredo, mas servos atendendo a uma convocação.
O coração de Ronan disparou. Ele tentou recuar, mas seu corpo não respondeu. O ar ao redor parecia sólido como vidro, tornando cada respiração uma batalha.
Thalindra gritou outra ordem, mas sua voz foi tragada pelo som dos passos.
"Então é isso"
Pensou Ronan, fechando os olhos.
E então, eles pararam.
O impacto do silêncio foi mais brutal que o tremor. A poeira suspensa no ar pareceu estagnar. Um dos golems inclinou o corpo e ajoelhou-se, o peso fazendo o chão estalar. O segundo o seguiu em um gesto lento e cerimonial. O terceiro permaneceu de pé por um segundo a mais antes de baixar a cabeça com a solenidade de um arauto.
Ele estendeu a mão para Ronan. Não para ferir, mas em reconhecimento.
Ao redor, ninguém ousava respirar. Thalindra estava estática. A fúria desaparecera de seu rosto, substituída por um medo cru. Naquele instante, a verdade ficou exposta para todos os nobres e criados presentes:
A biblioteca não estava caçando o bastardo. Ela estava se curvando ao seu novo mestre.
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