Volume 1

Capítulo 22: Onde as Raízes se Encontram

 

 

Lisa inclinou levemente a cabeça, um sorriso surgindo nos lábios.

— Interessado em magia, Ronan?

A pergunta soou simples demais para o momento.

Ronan ainda tentava recuperar o fôlego.

— O-o quê… o que você tá fazendo aqui? — gaguejou, a voz mais alta do que pretendia.

Ela piscou, como se realmente precisasse pensar na resposta.

— Procurar livros… — disse, num tom casual para alguém flagrada numa ala proibida. — Sabe… pra ler. Isso aqui é uma biblioteca.

Ronan a encarou, incrédulo.

— Eu… eu sei disso — respondeu. — Mas como você entrou aqui? Esse lugar é proibido pra maioria dos anões… quem dirá humanos.

Lisa puxou uma cadeira e se acomodou, cruzando uma perna. Parecia perfeitamente à vontade, como se aquele fosse o lugar mais comum do mundo.

— Bom… costumo estar onde quero. E, até agora, ninguém achou uma boa ideia me dizer o contrário.

Ronan abriu a boca, mas desistiu da resposta.

Olhou ao redor.

O silêncio da biblioteca permanecia intacto. Nenhum guarda. Nenhum funcionário. Apenas estantes intermináveis e o cheiro antigo de papel.

"Acho que está tudo bem se ela estiver aqui. Desde que ninguém nos pegue…"

Quando virou o rosto de volta para ela—

Lisa estava perto demais.

Ela o observava com atenção genuína, o rosto a poucos centímetros do dele. Ronan arregalou os olhos num reflexo imediato, o calor subiu direto para as bochechas.

— Você ainda não respondeu — disse ela, com um leve arquejo de diversão na voz. — Está interessado em magia?

Ronan engoliu em seco.

Assentiu.

— S-sim…

O sorriso dela se abriu um pouco mais.

— Oooh… — murmurou. — E por que esse interesse repentino?

Ronan desviou o olhar, fixou-se em algum ponto entre as estantes.

— Bom… — disse, hesitante. — Eu… achei o que você fez incrível.

Lisa piscou. Por um instante, pareceu sem resposta.

A bochecha dela corou de leve. Cruzou os braços, desviou o olhar com uma tentativa pouco convincente de parecer indiferente.

— N-neste caso… — começou, limpou a garganta — …eu bem que poderia ajudar você a aprender.

O sorriso de Ronan veio inteiro.

Antes que o pensamento o alcançasse, o corpo já tinha se movido. Ele avançou e segurou as mãos de Lisa, os dedos se fechando ao redor dos dela quase sem perceber.

— Sério? Você faria isso mesmo?

Lisa foi pega completamente de surpresa.

O corpo enrijeceu por um instante, como se ainda estivesse tentando entender o gesto. O calor subiu ao rosto, e ela desviou o olhar, incapaz de sustentar o dele por muito tempo.

Ronan, alheio a tudo isso, apenas aguardava a resposta — olhos atentos, sorriso ainda ali, quase infantil.

Lisa respirou fundo.

— S-sim… — assentiu, ainda vermelha. — É claro.

Fez uma pausa curta, reunindo as palavras.

— Bom… vai depender mais de você do que de mim. — O tom tentou soar firme, mas falhou um pouco. — Mas eu vou fazer o possível.

Ronan assentiu. 

— Obrigado, Lisa… de verdade.

Foi só então que percebeu.

As mãos.

Soltou-as devagar, quase relutante, trazendo as mãos de volta para si. O sorriso permaneceu, mas ganhou outro contorno — mais tímido.

Lisa observou o movimento. E sorriu.

Ronan desviou o olhar para o livro aberto à sua frente, os dedos apoiaram na página marcada.

Depois voltou-se para ela.

— Aqui diz… — começou, escolhendo as palavras com cuidado — que é perigoso uma criança aprender magia.

Lisa nem o deixou terminar.

— Lorota.

Ronan piscou.

— Como assim?

Ela cruzou os braços, apoiando-se na mesa. O olhar se perdeu por um instante — puxado por alguma lembrança.

— A melhor hora pra aprender é justamente quando se é criança.

Ronan franziu o cenho.

— Por quê? — perguntou. — E por que mentiriam num livro desses?

Lisa deu de ombros.

— Nem tudo que está escrito é verdade. Às vezes é só… o que alguém quis que fosse.

Fez uma pausa breve, depois continuou:

— Quando somos crianças, a mana não parece algo separado. É como o corpo. Como respirar, correr, cair e levantar. A gente sente antes de tentar controlar.

Fez um gesto vago com a mão, como se moldasse algo invisível no ar.

— Quanto mais cedo começa, mais natural fica. O controle cresce junto com você. E isso faz diferença quando a magia deixa de ser simples.

Ronan absorvia cada palavra.

— Além disso… — ela completou — criança aprendem rápido. Erram rápido. Se adaptam rápido. Começar cedo dá uma vantagem enorme sobre quem só tenta entender tudo depois de adulto.

Ronan assentiu devagar.

— …faz sentido.

Lisa sorriu, satisfeita.

— É claro que faz — disse, com um brilho confiante nos olhos. — Eu nunca estou errada.

Ronan soltou um pequeno riso pelo nariz.

Depois voltou a encarar o livro.

Ronan respirou fundo antes de falar.

— Como você faz aquilo? — disse, por fim. — O elemento terra… não é… tipo… — hesitou, buscando as palavras. — Não é coisa dos anões?

Lisa inspirou devagar.

Não pareceu ofendida. Nem surpresa.

— É o que contam por aqui, né? — respondeu, com um meio sorriso.

Recostou-se na cadeira, o olhar vagando pelas estantes altas.

— Os anões acreditam que é a montanha quem concede esse poder. Que a rocha só escuta quem nasce dentro dela. Que o sangue carrega a voz da pedra… e todas essas metáforas toscas.

Ronan assentiu em silêncio.

Conhecia aquelas histórias. Crescera ouvindo-as. Sempre achara tudo exagerado, poético demais para algo que deveria ser simples — mas nunca dissera isso em voz alta.

Lisa prosseguiu, agora mais direta:

— A mana não liga pro sangue que corre aqui dentro — tocou o próprio peito com dois dedos. — Não desse jeito.

Fez uma pausa breve.

— O que existe são limitações. Variáveis. Probabilidades. — explicou. — Certas raças aprendem algumas coisas com mais facilidade do que outras. Só isso.

O tom era calmo, quase técnico.

— Humanos são… estranhos — disse, por fim.

Ronan ergueu as sobrancelhas ofendido.

— Estranhos?

— Uhum. — Ela sorriu de canto. — A gente não nasce preso a um ou dois elementos, como os elfos ou os anões. Não temos uma afinidade fixa.

Inclinou a cabeça, observando a reação dele.

— Teoricamente, um humano pode aprender os quatro elementos.

O coração de Ronan bateu mais forte.

— Todos…? .

Lisa assentiu.

— Uhum… Parece bonito na teoria. Mas na prática… — o sorriso perdeu um pouco da força — …é quase impossível.

Lisa se recostou um pouco mais, traçando círculos no ar com o dedo, como se desenhasse o que dizia.

— Elfos, por exemplo, tendem a ter afinidade com vento e água — disse. — Anões, com terra e fogo.

Ronan assentiu devagar.

— São esses os elementos que a maioria dos magos dessas raças acaba usando. Não porque seja uma regra absoluta… — ela fez um gesto vago com a mão — …mas porque é mais fácil. A conexão já existe, desde cedo.

Lisa olhou para ele e continuou.

— Nada impede que um elfo aprenda fogo. Ou que um anão tente dominar o vento — continuou. — Mas a dificuldade cresce rápido. É como escrever com a mão errada. Dá pra aprender… só que poucos insistem o bastante.

Ronan absorveu aquilo em silêncio. Depois falou, com cuidado:

— É estranho… — disse. — Eu li uma vez sobre um cavaleiro. Ele usava magia, mas não só… esses elementos.

Lisa inclinou a cabeça.

— Hm… — murmurou. — Nesse caso, ele devia usar feitiços variantes.

Ronan franziu o cenho.

— Variantes?

Ela assentiu.

— É tipo… uma evolução. Ou uma fusão — explicou. — Quando um mago domina bem um elemento, bem mesmo, ele pode forçar esse elemento a mudar de forma.

Ronan se inclinou um pouco para frente, atento, enquanto Lisa ergueu um dedo, como quem enumera.

— Por exemplo: gelo — disse. — É só água. Mas congelada. Não é um elemento novo.

Ergueu outro dedo.

— Se você consegue controlar a água o suficiente… e ainda combinar isso com vento, baixando a temperatura do ar ao redor…

Fez um pequeno gesto com a mão.

— …pronto. Gelo.

Ronan piscou, assimilando.

— Então… água… vira gelo.

Lisa deu de ombros, com um ar levemente orgulhoso.

— Basicamente.

Ela apoiou as mãos na mesa e inclinou-se um pouco para frente.

— A forma como a mana se manifesta depende da imaginação e da vontade do mago.

Ronan franziu a testa, atento.

— As raízes são o caminho — disse ela. — Mas é a mente que decide dentro do que elas permitem. Tudo começa com o que você consegue imaginar.

Por um instante, houve silêncio.

Então Lisa sorriu.

— Magia é isso — concluiu. — Pedir pro mundo ceder um pouquinho. Trabalhar junto com ele.

Ela observou Ronan por um instante.

O garoto já tinha voltado os olhos para a página.

Lisa suspirou… e então fechou o livro dele sem aviso.

O som seco ecoou baixo entre as estantes.

— Ei—! — Ronan levou a mão à capa no reflexo, como se tivessem arrancado algo dele. — Eu ia continuar lendo isso.

Ela sorriu, satisfeita com a reação.

— Shhh. — colocou o dedo na própria boca. — Estamos na biblioteca.

Ronan abriu a boca para retrucar, mas ela já continuava:

— Tem mais coisa além do gelo — disse, inclinando-se um pouco sobre a mesa. — Por exemplo… eletricidade.

Ronan piscou, surpreso.

Lisa prosseguiu:

— Pense no vento. Só que em vez de ar… é energia correndo.

Fez um gesto curto com a mão, como se agitasse algo.

— O ar carrega partículas. Se você aprende a sacudir isso rápido o bastante… 

Lisa estalou os dedos.

— Pá. Raios.

Ronan arregalou os olhos, sem tentar esconder.

— Isso… isso parece incrível.

O entusiasmo voltou inteiro.

— Então humanos… — disse, já emendando o raciocínio — com afinidade em tudo, teriam facilidade pra aprender isso também, né? E misturar elementos, deixar tudo ainda mais forte, então—

— Calma. — Lisa ergueu a mão, interrompendo-o.

O tom foi firme.

— No papel, sim — disse. — Os quatro elementos, as variações… tudo parece possível.

Ela se recostou na cadeira.

— Na prática? Não é assim que funciona.

O entusiasmo no rosto de Ronan vacilou.

— Por quê?

Lisa o observou por um instante, como se medisse o quanto ele realmente queria ouvir a resposta.

— Esqueceu? Imaginar não basta.

Ronan piscou.

— Não basta eu imaginar que consigo?

Ela soltou um suspiro curto.

— Se fosse só isso, todo mundo seria um grande mago.

Ele virou a cabeça, confuso.

— Esqueceu das raízes? Elas possuem limites — continuou Lisa. — Elas são o caminho por onde a mana passa. E nem todo caminho leva ao mesmo lugar.

Fez um gesto pequeno com os dedos, como se segurasse algo.

— Alguém com afinidade com fogo pode imaginar uma espada em chamas. Pode fazê-la cortar, brilhar, queimar.

Depois abriu a mão.

— Mas esse mesmo mago não consegue criar gelo só imaginando. Não importa o quanto tente.

— Mesmo querendo muito?

— Mesmo querendo muito — confirmou ela rindo. — Porque a mana só responde ao que o corpo reconhece.

O silêncio caiu por um instante.

— Você pode tentar congelar a água — Lisa continuou —, mas se suas raízes só sabem aquecer… tudo o que vai sair é vapor.

Ronan ficou quieto.

— Por isso misturar tudo é tão raro — concluiu ela. — Não é falta de imaginação. É o seu limite também.

Ela inclinou a cabeça, com um meio sorriso.

— A magia começa na mente. Mas termina no corpo.

— Ah… — murmurou. — É muita coisa…

Lisa ficou em silêncio por um instante, observando a reação dele.

Depois levou a mão ao queixo, pensativa.

— Bom… — disse devagar — isso vale para quase todo mundo.

Ronan ergueu os olhos.

— Quase?

— Quem tem apenas uma afinidade não consegue ultrapassar esse limite — continuou ela. — Ainda assim… existe alguém que eu apostaria que quebraria essas regras.

Fez uma pausa curta.

— Sir Sirius Rozario.

Ronan franziu o cenho.

— Quem?

Lisa o encarou por um segundo.

O sorriso que veio depois era de quem sabia algo que o outro ainda não estava pronto para ouvir.

— Alguém que já fez o impossível.

Lisa permaneceu em silêncio por um instante.

— Dizem que ele é um cavaleiro… — começou, enfim. — O mais forte que já existiu.

Ronan ergueu o olhar.

— Um humano… — ela acrescentou. — diferente.

Ele franziu o cenho.

— Nunca ouvi esse nome.

Lisa soltou um pequeno suspiro, quase divertido.

— Não me surpreende — disse. — As outras raças evitam citá-lo.

— Por quê?

Ela inclinou a cabeça, os olhos fixos nele.

— Porque ele é um lembrete incômodo — respondeu. — A prova viva de que, se houvesse uma guerra de verdade… anões e elfos não durariam horas.

Ronan piscou, pego de surpresa.

— C-como assim…?

Lisa não dramatizou. Não levantou a voz. Foi isso que tornou tudo pior.

— Sirius poderia dizimar este continente sozinho.

Ronan a encarou, incrédulo.

Não havia como aquilo ser real.  

Nenhum mago. Nenhum cavaleiro. Nenhum rei.

— Isso… isso é absurdo — murmurou. — Não existe alguém assim.

Lisa balançou a cabeça de leve.

— Hoje ele é o braço direito do rei Hadrian Valerius — continuou, ignorando a reação dele. — Comandante dos Cavaleiros Reais de Valeris. A lâmina que mantém o trono humano de pé.

Ronan desviou o olhar, tentando reorganizar os próprios pensamentos.

— É impossível… uma pessoa só não pode carregar tudo isso.

Lisa deu de ombros.

— É o que as lendas dizem.

Ronan respirou fundo.

— Lendas… — murmurou. — Costumam exagerar. Sempre têm meias verdades.

Ela o estudou por um instante, e então sorriu.

— Vai saber. Às vezes a mana simplesmente escolhe os seus preferidos.

Ronan ficou em silêncio. 

O olhar ainda preso à imagem que Lisa acabara de pintar. Um humano. Um único homem. Forte o bastante para causar medo em raças inteiras.

Respirou fundo.

— Mas… de qualquer forma… — murmurou. — As raízes de mana dele devem ser absurdas, não é?

Lisa assentiu sem hesitar.

— Devem ser… — respondeu. — Tão densas que a mana não fica só contida. Ela deve transbordar.

Inclinou a cabeça, pensativa.

— Já ouvi dizer que, em casos assim, as raízes chegam a ter cor.

Ronan piscou.

— Cor…? — repetiu. — Isso é possível?

Ela sorriu de canto.

— Eu não duvidaria.

O olhar dele ficou inquieto.

— E… as minhas? — perguntou, rápido demais. — Será que eu tenho algo assim?

Lisa soltou uma risada baixa, quase carinhosa.

— Claro que tem — disse. — Todo mundo tem raízes, Ronan.

Ele gesticulou, meio perdido.

— Não é isso… é que… sei lá. Vai que elas não são… boas. Eu nunca senti nada. Nunca vi. Nunca—

— Quer que eu olhe? — ela interrompeu.

Ronan travou.

— O-olhar…? — repetiu. — Isso… isso é possível?

Lisa assentiu, mas o gesto foi mais lento agora. O rosto ganhou um tom rosado, quase imperceptível.

— É — respondeu. — Dá pra ver… mais ou menos.

Ele a encarou, confuso.

— E essa cara é por quê?

Ela desviou o olhar por um segundo.

— Porque não é tão simples assim — explicou. — Se você fechar os olhos e se concentrar, dá pra enxergar a mana fluindo. E, se prestar bastante atenção… — fez uma pausa curta — …dá pra sentir a dos outros também.

Ronan arregalou os olhos.

— Você consegue fazer isso?

Lisa assentiu devagar.

— Consigo — disse. — Mas não muito bem ainda.

Respirou fundo.

— Por isso… — a voz saiu um pouco mais baixa — …vou encostar minha testa na sua. Para ajudar a ver melhor.

O mundo pareceu parar.

Ronan sentiu o rosto esquentar de imediato.

“E-encostar…?”

Ele abriu a boca para perguntar — mas Lisa já estava perto.

Perto o suficiente para que ele sentisse a respiração dela.

Perto o bastante para que qualquer pensamento coerente simplesmente… evaporasse.

Ronan só percebeu que estava sorrindo quando já era tarde demais.

Simplesmente surgiu. Sem pedir permissão.

Um dos olhos de Lisa se abriu devagar.

Ela olhou para o rosto dele… e para o sorriso.

Então estreitou os olhos, inclinando a cabeça de leve, como quem encara algo suspeito demais para ignorar.

— Por que você tá sorrindo? 

Ronan piscou, pego de surpresa.

— Eu não tô.

Ela não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão e deu um peteleco leve na testa dele.

— Tá sim.

Ronan levou a mão ao local, indignado para esconder o riso que quase escapou.

— Não tô.

— Tá. — Lisa cruzou os braços, firme pra alguém com as bochechas tão vermelhas. — E nem adianta fingir.

Ele respirou fundo, rendido.

— Tá bom… — murmurou. — Mas é só… — hesitou, escolhendo as palavras — …uma testa na outra, né?

Lisa desviou o rosto.

— Exatamente. Só isso.

Ronan assentiu, sério pra quem claramente não estava sendo sério.

— Então… — começou, cauteloso — por que você tá tão vermelha… se é só uma testa?

O silêncio constrangedor caiu entre eles.

— Cala a boca. — Lisa respondeu rápido demais.

Antes que Ronan pudesse rir — ou se desculpar — ela segurou o rosto dele com as duas mãos, os dedos firmes nas bochechas.

Ela se aproximou devagar.

Ronan sentiu o coração acelerar, cada batida ecoando alto no peito. O ar ficou curto. Ele não se mexeu — não por falta de vontade, mas porque qualquer movimento parecia capaz de quebrar aquele momento.

A distância entre eles diminuiu.

Até quase não existir.

CLANG.

O som metálico ricocheteou pela biblioteca como um erro impossível de ignorar.

Ronan engoliu em seco.

O corpo reagiu antes da mente. Virou o rosto de imediato, os músculos tensos, o coração batendo rápido demais — não só pelo susto, mas pelo que fora interrompido.

Outro som. Mais próximo.

Metal contra pedra. Passos.

— Merda… — murmurou, quase sem voz.

Lisa piscou, confusa, ainda perto demais.

— O quê? — sussurrou. — O que foi?

“Eu conheço esse som.”

Ronan se levantou num movimento contido. Não olhou para ela.

— Lisa… — disse baixo. — Se esconde.

Ela franziu o cenho.

— Ronan, do que você tá falando?

Ele finalmente a encarou. E naquele olhar não havia nervosismo juvenil, nem timidez — só urgência.

— Por favor — pediu. — Só me escuta. Depois eu explico.

O som voltou. Agora inconfundível.

Eram passos coordenados. 

Lisa hesitou por um segundo antes de assentir.

Sem dizer nada, levantou-se e se esgueirou entre as estantes, desaparecendo atrás de uma fileira alta de livros antigos. 

Silêncio.

Ronan permaneceu ali.

Sentado.

Imóvel.

A respiração controlada à força.

Os passos se aproximaram até não haver mais dúvida. O som de metal batendo no chão de mármore marcou presença como um aviso — não de chegada, mas de domínio.

Então ela apareceu.

A Rainha Thalindra entrou na biblioteca como se o espaço lhe pertencesse desde sempre. O manto escuro deslizava atrás dela, e os guardas reais a escoltavam em perfeita formação, as armaduras refletindo a luz fria do salão.

Os olhos dela percorreram o ambiente.

Estantes. Mesas. Livros abertos.

E então pararam.

Ronan.

O ar ficou pesado.

Ele mordeu o maxilar, sentindo o gosto seco da tensão.

E não desviou o olhar.  

Mesmo quando tudo dentro dele gritava para correr.

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