Volume 1
Capítulo 21: O Que Não Me Deixa Dormir
Ronan acordou mais cedo do que o habitual.
O corpo se moveu antes da vontade, como se algo o puxasse para fora do sono. Ainda assim, o peso nas pálpebras era denso. Os olhos se fecharam outra vez por cansaço.
E então, inevitavelmente, as imagens vieram.
A voz de Lisa, baixa, quase um sussurro, ecoando. A muralha surgindo do chão, erguendo-se com violência e graça ao mesmo tempo. O som profundo, reverberando por todos os lados.
E depois… o riso leve.
"Sinceramente… você fica bonito rindo."
As palavras dela voltaram com clareza cruel.
Ronan sentiu algo se revirar no peito.
Outro pensamento se insinuou:
"E se… eu aprender a usar magia?"
A ideia cresceu devagar, ganhando forma, peso. Quase como aquela muralha — surgindo de onde não havia nada.
"Se eu aprender magia… será que posso sorrir daquele jeito sempre?"
"Todos os dias…"
Os lábios se curvaram num sorriso involuntário, quase infantil. Um gesto raro demais para alguém que aprendera cedo a manter o rosto neutro.
"A biblioteca."
A ideia surgiu logo depois — óbvio demais para ser ignorado.
"Se eu for à biblioteca amanhã, devo encontrar algo sobre magia."
O corpo relaxou antes que ele percebesse. O sono o tomou de novo, silencioso.
Quando abriu os olhos outra vez, a luz da manhã já preenchia o quarto.
Ronan bocejou, esfregou o rosto e se sentou na cama. A mente ainda presa ao mesmo ponto — como se não tivesse realmente descansado.
"Magia."
Era nisso que pensava desde o instante em que despertara.
— O único lugar que eu poderia ir… — murmurou, a voz rouca — …seria a biblioteca.
O silêncio respondeu.
E então, a lembrança.
A rainha Thalindra.
A ordem.
A proibição. Clara, sem espaço para interpretação.
Ronan fechou a mão com força. Os dedos tremiam levemente.
— Mas… eu não vou ficar parado só porque ela disse.
As palavras saíram firmes. Havia algo novo nelas.
— O que de pior ela poderia fazer? — continuou, o olhar perdido no chão. — Me humilhar de novo? Me bater?
Um riso seco escapou.
— Dane-se…
Respirou fundo.
— Minha vida já era assim todos os dias… desde que me trouxeram pra cá.
Ronan ficou alguns segundos em silêncio.
Então se levantou da cama.
...
O castelo ainda dormia.
Era cedo — cedo o bastante para que os anões das casas da alta sociedade ainda não rondassem os corredores de mármore, como costumavam fazer quando o sol já estava alto o suficiente para legitimar sua presença arrogante.
Ronan caminhava em silêncio.
O som de seus passos parecia alto naquele vazio, mas ninguém surgia para repreendê-lo. O alívio veio em um suspiro contido, escapando quase sem som.
“Eles sempre agem como se fossem donos de tudo…”
O pensamento mal se formara quando o destino — ou algo muito parecido com ele — decidiu zombar.
Um anão acabava de virar o corredor à frente.
Ronan soube no mesmo instante.
As vestes eram refinadas para um servo. Tecidos grossos, bem cortados, adornados com fios metálicos que refletiam a luz dos artefatos. No peito, ostentado sem qualquer pudor, o brasão da família Grimhold — um martelo cruzado sobre uma montanha partida, símbolo antigo de poder e influência.
Alta sociedade.
O corpo de Ronan reagiu antes da mente.
“É só abaixar o rosto…”
“Olhar pro chão, Ronan…”
A mão de Ronan se fechou devagar. Os dedos pressionaram a palma com força.
Ele ficou olhando para a própria mão por alguns segundos.
“Engraçado.”
“Depois de tudo… depois de todos aqueles dias…”
A ideia de simplesmente abaixar a cabeça de novo parecia insuportável.
“Quantas vezes mais?”
“Quantas vezes eu vou deixar que me vejam como menos?”
O passo não diminuiu.
O peito doía, mas ele não parou.
“Você não vai abaixar a cabeça.”
E então, devagar, como quem empurra uma porta pesada, ele ergueu o olhar.
Não foi um gesto grandioso.
Não houve desafio explícito.
Apenas… firmeza.
O corredor pareceu mais estreito.
O nobre passou por ele.
Ronan manteve os olhos à frente.
Nenhuma reverência. Nenhum desvio.
Os dois seguiram lado a lado por um único segundo — e então já estavam um atrás do outro, separados apenas pelo som dos próprios passos.
Só quando a distância se fez real é que Ronan levou a mão ao peito. O coração batia rápido.
“Eu…”
“Eu consegui.”
Um sorriso surgiu, pequeno, quase incrédulo. Logo depois, o fôlego veio acelerado — como se tivesse acabado de fugir de algo.
Ronan fechou os olhos por um instante e murmurou, baixo, para si mesmo:
— Foco, Ronan…
Abriu-os outra vez.
— Biblioteca.
E voltou a caminhar.
...
O caminho até a biblioteca foi tranquilo, quase silencioso.
Ronan não encontrou mais ninguém — apenas alguns funcionários apressados e os guardas reais que patrulhavam as longas galerias do castelo.
Caminhava com uma determinação nova, mas o peso da manhã ainda o seguia como uma sombra.
Ao chegar à biblioteca, foi direto ao setor de magias. Seu olhar percorreu as lombadas, em busca de algo que fizesse sentido. Algo para iniciantes. Algo que falasse com ele.
Puxou um volume qualquer. O movimento levantou uma nuvem de poeira, que dançou à luz dos artefatos.
Ronan fechou os olhos para conter o impulso, mas não foi rápido o suficiente.
Espirro.
— Odeio poeira… — murmurou, o rosto já levemente vermelho.
O som ecoou alto na biblioteca vazia, quebrando o silêncio espesso que pairava ali.
Suspirou.
Nenhum livro parecia útil. Nenhum oferecia um ponto de partida claro. Era como estar diante de um mar de palavras e símbolos — e não saber nadar.
Afastou-se da prateleira, as mãos ainda pesadas de frustração. O olhar percorreu as fileiras infinitas, como se esperasse que alguma resposta saltasse das estantes.
"Milhares de volumes."
"Cada um com um segredo, uma história, uma chave."
"Mas quais? Como saber?"
Apoiou-se numa mesa próxima, onde livros se amontoavam de forma desleixada. Alguns alcançavam a altura do seu peito. Outros tinham as bordas rasgadas, gastos até o limite.
"Ninguém se dá o trabalho de colocá-los nos lugares…"
A desordem do lugar refletia a própria busca dele.
E então, algo chamou sua atenção.
Entre os livros empilhados, uma capa se destacou. Não era chamativa — mas havia algo nela que parecia… familiar.
Ronan sentiu um puxão no peito. Como se já tivesse visto aquele livro antes. Ou sonhado com ele.
O título aparecia em letras douradas, gravadas na capa de couro envelhecido:
"Compêndio de Raízes Mágicas — Vol. I"
Pegou o livro com as mãos trêmulas, quase como se tocasse algo sagrado. O peso também lhe pareceu familiar.
Sem pensar, foi até uma mesa e se sentou. Colocou o livro sobre a superfície com cuidado.
Diferente dos outros, este estava limpo.
Sem poeira.
Ronan olhou para a capa mais uma vez, absorvendo a sensação de algo que parecia… certo.
E então, com um suspiro profundo, abriu o livro.
As páginas cederam com um leve estalo e revelaram o índice. Seu olhar percorreu as linhas devagar, absorvendo cada termo como se fossem portas alinhadas à sua frente.
Introdução.
O que é magia.
Sistema de Raízes de Mana.
Magias elementais.
Magias variantes.
Magias vitais.
Magias de defesa básicas.
Arcanismo de reforço.
Palavras mágicas.
Espíritos elementais.
Bestas mágicas.
O dedo de Ronan passou pelas palavras, sentiu o relevo sutil da tinta.
Parou.
"Magias elementais."
Murmurou, quase sem perceber:
— Foi isso que a Lisa fez ontem… não foi?
Ronan respirou fundo.
— Se eu quiser aprender… — disse baixo — …eu deveria ir pelo começo.
Virou as páginas.
O som do papel ecoou baixo na biblioteca silenciosa. Seus olhos se fixaram nas primeiras linhas, e ele leu com atenção quase reverente.
“No mundo, a magia dos elementos não surge do nada — ela é retirada diretamente do ambiente, garantindo que o equilíbrio natural seja preservado.”
“Cada mago não cria fogo espontaneamente, nem invoca água do vazio; em vez disso, ele canaliza a energia já existente ao seu redor, manipulando os elementos dentro dos limites da natureza.”
Ronan releu.
Devagar.
Ele não sabia por quê… mas aquilo não parecia novo.
Ele puxou a gaveta da mesa com cuidado. O rangido foi leve. De dentro, tirou uma folha amarelada e uma caneta de tinta escura. A ponta tremia um pouco ao tocar o papel.
Pensou por um instante.
E então escreveu:
"Para usar magia, você pega emprestado. É como um pacto silencioso. Pedir à pedra que se mova. À chama, que queime."
Ronan parou. Olhou para o que havia escrito. Então se recostou na cadeira, ficando imóvel por um momento.
O teto alto da biblioteca devolveu-lhe apenas silêncio. A pergunta surgiu ali, sem pressa, mas com insistência suficiente para não ser ignorada.
"Como…"
"Como eu pediria a ela que me emprestasse?"
A ideia de pedir soava estranha. Quase inadequada para algo que sempre lhe parecera inalcançável.
O olhar de Ronan se desviou para o lado, como se procurasse apoio em algum outro lugar.
E então pensou em Baragor.
A conversa de dias atrás voltou com uma clareza desconfortável — a voz grave, o tom direto, e aquela forma simples com que Baragor falara de respeito: algo que nasce do reconhecimento e se constrói com o tempo.
Ronan voltou a atenção para o papel.
A caneta pairou por um instante antes de tocar a superfície.
"Talvez… se eu a respeitar…"
Ele parou.
Outra lembrança surgiu logo depois, mais leve, quase sorrateira: Lisa correndo ao seu lado, o vento cortando o rosto, e aqueles sussurros ditos como quem não espera ser ouvido.
A mão voltou a se mover.
"Se eu aprender a pedir direito… as palavras certas."
Ronan inspirou fundo, tentando conter a excitação que começava a crescer dentro do peito.
Os olhos voltaram ao livro.
Um exemplo simples se destacava no texto. Ele leu em silêncio:
“Água: extraída de fontes vivas — rios, lagos, oceanos… mas também do ar. Um mago não inventa água; ele a toma emprestada da umidade, das nuvens.”
Ronan inclinou levemente a cabeça.
Se fosse possível criar água do nada, não haveria sede.
Não existiriam lugares como os desertos de Karak-Dûm.
Seu pai não carregaria tantas negociações inúteis nas costas.
Baragor também não precisaria se curvar tanto aos humanos.
Ele virou a página.
Em seguida, veio o próximo título.
Sistema de Raízes de Mana
Ronan continuou a leitura.
“As raízes de mana representam a profundidade da conexão espiritual e mágica de um ser com o mundo ao seu redor. São como filamentos vivos, que crescem dentro do corpo espiritual do mago — ramificações invisíveis que puxam energia diretamente da natureza.”
Abaixo do texto, havia uma ilustração.
Ronan inclinou-se sobre a mesa para observá-la melhor.
Era a figura de um corpo humano, desenhada com traços simples. Mas, em vez de órgãos ou veias, o interior exibia linhas espessas e irregulares — semelhantes a raízes.
Elas nasciam no centro do peito, ramificavam-se pelo tronco, desciam pelos braços, serpenteavam pelas pernas, cruzavam a cabeça.
Não seguiam um padrão exato. Algumas se entrelaçavam, outras pareciam interrompidas no meio do caminho.
Ronan sentiu um leve desconforto ao imaginar aquilo dentro de si.
Voltou ao texto.
“Quanto mais grossas e ramificadas as raízes, maior a capacidade de absorção e manipulação de mana. Raízes finas indicam conexão fraca, instável ou pouco desenvolvida. O refinamento das raízes exige anos de prática, meditação ou rituais específicos.”
As páginas seguintes eram mais complicadas.
Diagramas. Anotações. Termos que Ronan nunca tinha visto antes.
Ele avançava devagar, relendo linhas, tentando acompanhar o raciocínio do autor. Algumas partes faziam sentido. Outras pareciam escapar antes que pudesse segurá-las.
Virou mais uma página.
Um novo trecho começava ali.
“Crianças não são instruídas em magia formal.”
Ronan franziu a testa e continuou lendo.
“…suas raízes ainda são frágeis. A mana bruta pode rasgar os filamentos, afetar a mente ou deformar o corpo.”
Ele parou por um instante, olhando para a linha.
Logo abaixo, havia outra anotação — escrita de forma diferente, como se tivesse sido adicionada depois.
“…embora existam exceções. Raras. Quando a raiz nasce forte, a criança pode florescer antes da idade adequada.”
Ronan releu aquela parte.
Sem querer, pensou em Lisa.
Ele apoiou o queixo na mão.
— Então é isso… — murmurou.
Não soava como inveja. Ronan apenas constatava.
— Não somos tão crianças… — murmurou, pensativo. — …mas também não somos adolescentes.
O olhar caiu de novo sobre a ilustração.
— Então… acho que ela entra nas exceções.
A ideia ficou ali por um momento.
Ronan virou a página.
Dessa vez o texto não era teórico. Era um exemplo — direto, quase prático.
Terra.
Logo abaixo, em letras mais espessas:
Erguer de Pedra Menor.
A descrição era curta.
“A terra responde quando reconhece intenção estável. Não se trata de força, mas de direção. O mago não empurra o solo — ele indica onde a pedra deve nascer.”
O coração de Ronan acelerou.
— É… a magia que a Lisa usou?
Ele continuou lendo.
As palavras seguintes despertavam algo estranho. Não exatamente pelo significado.
Pelo som.
Como se aquela sequência já tivesse passado pela sua mente antes.
Ronan fechou os olhos por um instante.
Repetiu as palavras em silêncio.
Uma vez.
Duas.
Quando abriu a boca, o sussurro escapou antes que pudesse pensar:
— Kael… thur… enna…
— Interessado em magia?
A voz surgiu de repente.
Quente. Perto demais.
Ronan deu um pulo tão brusco que quase derrubou a cadeira. O livro bateu na mesa com um som seco.
O coração disparou.
Lisa estava ali.
Inclinada sobre o ombro dele, o rosto próximo demais, os olhos atentos tentando decifrar a página aberta — curiosos, vivos, perigosamente perto.
Ronan abriu a boca.
Nada saiu.
Ela inclinou a cabeça, um sorriso surgindo nos lábios.
— Interessado em magia, Ronan?
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