Volume 1

Capítulo 20: Bobagens Úteis

 

 

Ronan e a garota de cabelos verdes haviam parado numa viela mais tranquila, ainda distante do… novo beco que ela conjurara. Aquele pensamento insistia em voltar, quase cômico: ela criou um beco.  

Ainda era difícil acreditar.

Os dois estavam escorados na parede de pedra, pernas estendidas, deixando o ar enfim encontrar um ritmo estável. A poeira flutuava num fio de luz que atravessava a entrada estreita.

Ronan abriu a boca duas ou três vezes, tentando encontrar alguma frase que não soasse deslocada.  

Não conseguiu.

Diferente dela.

Virou o rosto para ele, estendeu a mão com uma calma inesperada.

— Lisa Wyrdleaf — disse, num tom simples, mas firme. — Prazer.

A mão dela era pequena. Ronan demorou um segundo antes de apertá-la.

— Lisa… — repetiu, testando o nome no ar. — Wyrdleaf…

Ergueu os olhos para ela. Nada naquela garota lembrava um anão — nem traços, nem postura. Tudo nela era delicado.

"Bom… nem eu pareço, pra falar a verdade."

— Meu nome é—

— Ronan — ela completou, como se fosse óbvio.

Ele piscou, surpreso.

— Você… já sabia?

Um sorriso leve surgiu no canto da boca dela, quase travesso.

— O grandalhão lá atrás gritou seu nome — explicou. — Com bastante entusiasmo, por sinal.

Ronan soltou um suspiro curto, quase um riso.

— É… aquilo foi… meio improvisado.

— Funcional — rebateu ela, com naturalidade. — E bem na cara.

O sorriso dela aumentou só um pouco, o suficiente para puxar o dele junto.

— Não recebo muitos elogios assim — disse ele, com humor discreto.

"Na verdade, não recebo nenhum."

— Talvez devesse — respondeu ela.

Ela desviou o olhar por um instante, ainda sorrindo.

Ronan relaxou os ombros sem perceber. Alguns segundos depois, virou o rosto para ela.

— Então… só pra ter certeza… você é humana?

Lisa ergueu a sobrancelha, devagar, como se avaliasse a pergunta por vários ângulos.

— Eu pareço uma anã?

Ronan a observou com atenção — os cabelos verdes caindo sobre os ombros, o rosto delicado, a postura leve.

— …nem um pouco — admitiu.

Ela assentiu, satisfeita. Um sorriso curto surgiu, iluminando nela algo que não era só beleza — era graça.

— Então aí está sua resposta — disse.

Ronan acompanhou o sorriso com outro menor, mas genuíno.

Não sabia o que dizer — e, ainda assim, não sentia pressa.

Deixou a cabeça cair contra a parede. Por um instante, ouviu apenas a respiração dos dois, misturada ao eco distante da cidade subterrânea.

Foi então que percebeu como aquela presença era improvável ali.

“Eu achei… que fosse o único humano aqui em Karak-Dûm.”

O pensamento veio suave. E, junto com ele, um sorriso bobo escapou.

“Então eu não sou o único estranho aqui embaixo.”

Mas o sorriso não durou.

A lembrança veio logo atrás — o tremor subindo pelos pés, a rocha se erguendo como um punho, o muro bloqueando os garotos. O beco nascendo.

Ele virou para ela rápido demais, como quem se lembra de uma pergunta urgente no meio da madrugada.

— Aquilo que você fez… — disse, procurando as palavras. — A muralha. O chão abrindo… Você é… uma escolhida da Terra?

Lisa arregalou os olhos por um segundo. 

— Uma escolhida…? — repetiu, quase rindo. — É assim que vocês chamam isso?

— Vocês quem? — Ronan perguntou.

— Os anões — respondeu ela, dando de ombros. — Eles têm um monte de nomes estranhos pra tudo. Eu nunca sei qual usar.

Ela puxou as pernas mais perto do corpo, pensativa.

— Mas se você tá falando da magia… — continuou. — Não é nada demais. De verdade.

Ronan franziu o cenho.

Ela sorriu, constrangida.

— Eu ainda preciso sussurrar as palavras — admitiu. — Magos de verdade nem precisam disso.

Havia algo tão despretensioso no jeito como ela falava que Ronan ficou alguns segundos apenas olhando.

— Então… é isso? — murmurou. — Só… magia? Simples assim?

Lisa ergueu um ombro.

— Simples pra quem não tava com três moleques na cola — disse. — Mas, tirando isso… é. Só magia.

Ronan abriu a boca para dizer que tinha sido incrível.

Não saiu nada.

Tentou outra frase.

Também não.

No fim, só saiu:

— Certo… entendi.

Ronan deixou o olhar vagar pela viela.

Um filete de água escorria pela rocha, pingando em algum ponto invisível.

Ele contou as quedas, uma a uma… e, sem querer, a lembrança veio.

Lisa rindo.

O riso dela batendo no dele como uma onda morna.

O jeito como lhe escapara, sem pedir permissão.

Antes que percebesse, estava sorrindo. 

— Eu… — disse, sem pensar. — Eu não ria assim há muito tempo.

Lisa virou o rosto para ele e ergueu uma sobrancelha.

Por um segundo, pareceu que ia perguntar por quê.

Mas não perguntou.

Apenas soltou um suspiro leve e respondeu:

— Então devia rir mais.

Apoiou o queixo no joelho e completou:

— O mundo já é ruim o bastante pra gente ficar economizando risada.

Ela disse aquilo sem peso, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Ronan a encarou.

E percebeu que, pra ela, talvez fosse mesmo.

Pra ele, não.

Nunca fora tão simples.

Antes que conseguisse formular uma resposta, Lisa falou de repente:

— Sinceramente… você fica bonito rindo. E isso é raro, viu? A maioria das pessoas fica meio estranha quando ri.

A frase ficou suspensa entre eles por um segundo.

Ronan virou o rosto rápido demais. Os olhos se arregalaram, as bochechas arderam como brasa.

— Eu… o quê? — gaguejou.

Lisa riu — não aquela risada forte de antes, mas uma risadinha curta, travessa, satisfeita com o efeito que causara.

E como se o destino decidisse participar da cena, o estômago de Ronan roncou. Alto. De novo.

Ele fechou os olhos por um instante, derrotado.

— Ah, não… — murmurou.

Lisa olhou para ele, depois para o estômago, e abriu um sorriso de canto.

Sem dizer nada, enfiou a mão no bolso e tirou um embrulho simples — uma barra de cereal, amassada nas pontas, mas ainda inteira.

Ronan piscou.

— Isso é…?

— Comida — disse ela, balançando a barra. — Serve?

Ele hesitou.

— Por quê?

— Porque você me salvou — respondeu. — E porque, se continuar roncando assim, vai atrair outro bando de idiotas.

Ela estendeu a barra.

Ronan olhou para ela, depois para o alimento, e por fim o pegou — quase com reverência.

O cheiro doce bateu no nariz, e só então percebeu o quanto estava faminto.

Deu a primeira mordida.

Depois a segunda.

Na terceira, já comia como alguém que não via comida havia dias.

E, no fundo do peito, surgiu um pensamento tímido:

“Eu estava fraco demais para pensar em qualquer outra coisa.”

“Ainda assim… consegui ajudar alguém.”

Lisa o observava com um meio sorriso — não de deboche, mas de alívio ao vê-lo comer.

Quando ele terminou, ainda passando o dedo pelo canto da boca, ela arqueou uma sobrancelha, impressionada.

— Uau — murmurou.

Enfiou a mão no bolso de novo e tirou outra barra.

Ronan arregalou os olhos; por um instante, brilharam como os de uma criança diante de um presente.

Lisa não conteve a risada.

— Tá, toma — disse, estendendo a barra para ele.

Ele pegou com uma velocidade quase ofensiva e já deu a primeira mordida antes mesmo de agradecer.

— Obrigado — murmurou entre uma mastigada e outra. — Mas… enfim… por que eles estavam te atacando?

Lisa soltou um suspiro curto, cansado.

— Sinceramente? — disse. — Acho que brutamontes imbecis não precisam de motivo pra serem imbecis.

Ronan assentiu enquanto comia.

Sabia disso melhor do que gostaria.

Lisa então se levantou e sacudiu de leve o vestido, tirando a poeira.

— Bom…

Ronan a encarou, ainda terminando a barra.

Ela ajeitou os cabelos verdes atrás da orelha e disse, num tom baixo:

— Ainda tem um reino inteiro pra eu não pertencer. Minha mãe deve estar preocupada…

Ronan engoliu o último pedaço.

— Entendi.

— E… obrigada. De verdade — disse ela, mais suave agora. — Se não fosse você, eu não teria tido tempo de conjurar nada. Então… obrigada.

Ele abriu a boca, tentando formular algo mais elegante do que o que realmente saiu:

— Ce-certo…

Lisa virou-se para a saída da viela.

Deu dois passos.

E começou a correr.

Ronan ficou parado, vendo-a se afastar, com uma pressão estranha no peito — como se algo, dentro dele, tivesse despertado depois de muito tempo.

“Eu… eu quero…”

O pensamento veio antes da coragem.

— ESPERA! — a palavra escapou, crua.

Ronan se assustou com a própria voz.

Lisa parou.

Virou-se devagar.

O coração subiu até a garganta.

Ele se levantou num impulso desajeitado, limpou a calça com a mão, como se isso pudesse ganhar tempo.

— É que…

As palavras tropeçaram.

Ele olhou para o chão por um segundo.

Depois para ela.

— …você gostaria de ser minha amiga?

Lisa ficou imóvel, como se o chão tivesse falhado por um instante.

Os olhos se abriram — surpresa pura.

Então o rosto dela se suavizou.

Um sorriso nasceu… pequeno, depois maior.

— É claro — respondeu, firme e gentil. — É claro que quero.

Inclinou a cabeça num gesto leve.

— A gente se vê por aí, Ronan.

Ela acenou e piscou um dos olhos — um gesto rápido, como um raio de luz naquele subsolo escuro.

Era simples.

Era leve.

Mas atingiu Ronan mais forte do que qualquer muralha de pedra.

O coração bateu uma única vez.

Forte.

Limpo.

E por um segundo, tudo dentro dele parou para sentir.

Um calor subiu pela barriga, arrepiando a nuca.

“O que é isso…?”

Não era medo.

Era outra coisa.

Algo que ele ainda não sabia nomear — mas que, de repente, queria proteger.

Ele ficou olhando o corredor por onde ela desaparecera, como se a luz ainda estivesse ali.

E, no meio de toda aquela pedra fria,

algo dentro dele já não era tão frio assim.

 

...

 

O dia passou rápido demais, arrastando Ronan junto sem que ele percebesse. Quando deu por si, já estava deitado na cama estreita, a pedra fria das paredes contrastando com o cobertor gasto puxado até o peito. O único artefato mágico permanecia aceso, lançando sombras longas pelo quarto.

Ele abriu o livro de fantasia — um dos poucos “luxos” permitidos por Baragor — e voltou à página marcada.

E então, com um único golpe de espada, o nobre cavaleiro libertou a princesa da torre amaldiçoada, jurando protegê-la dali em diante.”

Ronan estreitou os olhos.

— Hm… — murmurou. — Eu sou praticamente um cavaleiro.

Virou a página, animado.

— Salvei uma garota numa situação de vida ou morte… torre, beco… mesma coisa. Sir Ronan.

Um sorriso bobo surgiu.

E morreu.

“É estranho pensar que… eu não lembro de nada antes de chegar naquele beco.”

O pensamento veio sem aviso.

Era como esbarrar em algo invisível — uma frustração antiga que ele não sabia explicar.

Ronan cerrou o maxilar. A página tremia sob a luz do artefato.

— O que tá acontecendo comigo…? — sussurrou. — Não é a primeira vez…

O silêncio pesou no quarto.

Até que—

Toc.

Toc.

Toc.

Três batidas firmes arrancaram Ronan dos próprios pensamentos.

Ele endireitou as costas.

— Pod—

A porta se abriu antes que terminasse.

Ronan congelou.

Baragor Ironfist — o rei de Karak-Dûm — entrou no quarto com passos medidos, as mãos cruzadas atrás das costas. A barba trançada balançava levemente a cada movimento.

O olhar dele caiu direto sobre o livro.

— Ainda lendo essas fantasias? — resmungou, com a voz grave de sempre. — Vai acabar enchendo a cabeça de bobagem.

Ronan fechou o livro devagar, marcando a página com cuidado.

Inspirou fundo… e respondeu antes que pudesse se conter:

— Bobagem melhor que muita coisa em Karak-Dûm.

Assim que as palavras saíram, ele sentiu o estômago afundar.

“Eu realmente disse isso?”

“Para o rei?”

“Para o meu pai?”

Era tarde demais para engolir de volta.

Ronan ergueu o olhar, esperando um sermão. Uma bronca. Um corte seco na voz.

Mas Baragor apenas soltou um meio riso.

Um riso curto.

Quase escondido entre a barba e o peito largo.

Ronan piscou.

Aquilo… ele não esperava.

Baragor Ironfist cruzou o quarto como quem avalia o espaço sem realmente precisar fazê-lo.

Parou ao lado da mesa e passou o dedo pela superfície lisa — impecável, sem um fiapo de poeira.

— Fiquei sabendo do que aconteceu hoje no centro — disse, sem elevar a voz.

O hoje no centro saiu lento.

Pesado.

Como se ele já tivesse reconstruído a cena inteira na mente.

Um arrepio subiu pela coluna de Ronan.

— Disseram que você… — Baragor fez uma breve pausa, ajustando o peso das palavras. — …acabou envolvido numa briga.

Ronan deu um pequeno pulo. Nem tentou disfarçar.

Flagrado.

Baragor ergueu uma sobrancelha, puxou uma cadeira e se sentou. Ajeitou a barba com calma.

— Confesso que duvidei — disse. — Mas quero ouvir de você.

Ronan respirou fundo.

Abriu a boca.

Fechou.

Tentou de novo.

— Não foi… bem uma briga — disse, enfim. — Quer dizer… foi, mas não do jeito que parece.

Baragor apoiou os antebraços nos joelhos.

— Comece do início.

Ronan esfregou a nuca, sem saber onde colocar as mãos.

— Tinha uma garota… — começou devagar. — Ela estava encurralada. Três garotos cercando ela. Empurrando. Intimidando.

Ele engoliu em seco.

— Aquilo… me incomodou.

Baragor inclinou levemente a cabeça.

— Uma garota.

Ronan assentiu.

— Humana — acrescentou. — Igual a mim.

Baragor ficou imóvel.

A expressão não mudou.

Mas o ar no quarto… mudou.

Ronan continuou, mais porque precisava falar do que por coragem.

— Eu só intervi. Falei alguma coisa. Tentei afastá-los. Eles avançaram.

Engoliu em seco.

— Então eu… fiz o que deu pra fazer.

Baragor não interrompeu.

E isso, estranhamente, fez Ronan falar mais:

— Depois apareceram outros garotos e tivemos que correr.

Ele soltou um riso curto, ainda incrédulo.

— E no meio da fuga ela… — hesitou. — …ergueu um muro. Um muro de pedra gigante, que saiu do chão. De uma vez. Instantâneo.

Silêncio.

Baragor não se moveu.

Os dedos cerraram o braço da cadeira, devagar.

O olhar se perdeu na pedra nua da parede.

Ronan se mexeu na cama, inquieto.

— É isso — concluiu, com um encolher de ombros. — Só isso.

Baragor Ironfist respirou fundo, devagar.

— E essa garota… — disse, a voz baixa. — Ela tem um nome?

A maneira como perguntou — calma demais, cuidadosa demais — fez Ronan hesitar.

— Lisa — respondeu. — Lisa Wyrdleaf.

Baragor endireitou o corpo.

— Wyrdleaf… — repetiu, olhando para algum ponto distante. — Um nome raro para estas pedras.

Passou a mão pela barba, pensativo, e voltou o olhar para Ronan.

— Você fez o que achou certo.

Ronan abriu o livro de novo, só para ocupar as mãos.

Um sorriso pequeno escapou.

— É… acho que sim.

Baragor foi até a porta. Abriu apenas o suficiente para deixar entrar a luz fria do corredor, mas ficou ali, parado.

— Só tenta… — fez um gesto vago com a mão — ter mais cuidado da próxima vez.

Um canto de riso surgiu sob a barba.

— O garoto não vai esquecer você tão cedo.

Ronan fez uma careta de desculpa. Mas riu também.

Baragor apoiou-se no batente. A voz já não era a do rei.

— A montanha não empurra pessoas por acaso — disse.

— Quando ela se move… é porque alguém precisava ser encontrado.

Ronan franziu o cenho, sem entender ao certo.

Mas assentiu.

— Tá…

Baragor permitiu um sorriso breve antes de sair.

A porta se fechou devagar, abafando o som do corredor.

O quarto voltou a ficar quente e silencioso, iluminado apenas pela luz tênue do artefato.

Ronan deixou o livro na mesinha, ajeitou-se sob o cobertor e encarou o teto.

O nome escapou quase sem voz:

— …Lisa…

Os olhos pesaram.

E, pela primeira vez em dias, dormir não pareceu tão difícil.

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