Volume 1

Capítulo 2: Como Saber?

 

 

O silêncio que caiu sobre a sala foi violento. O ar pareceu engrossar. Glenn sentiu o estômago dar um nó; a lealdade que ele sentia pelo primo colidiu de frente com o que tinha acabado de viver naquela noite.

— Por que está me dizendo isso? — a voz de Glenn saiu baixa, firme, mas havia algo quebrado ali dentro.

Louis não respondeu. Ficou imóvel, como uma estátua de mármore sob a luz pálida da lua que entrava pela janela. O vento lá fora era o único som, até que a porta da frente rangeu.

— Chegamos! — a voz de Tia Vivian cortou a tensão como uma lâmina.

A casa foi invadida por movimento e pelo cheiro de pão fresco. Vivian atravessou a sala radiante.

— Adivinha quem encontramos no caminho? A Ellie! E ela está lindíssima, meu Deus, aquela menina se tornou uma mulher em um piscar de olhos…

Ela parou. O olhar de mãe captou a eletricidade parada entre os dois rapazes no meio da sala. Reynolds entrou logo atrás, bufando enquanto tirava o casaco.

— Está tudo bem? — Vivian perguntou. Os olhos verdes da tia o observavam com atenção, e a expressão preocupada combinava com o brilho castanho-avermelhado dos cabelos soltos.

Glenn abriu a boca, mas Louis foi mais rápido. Ele vestiu a máscara de sempre com uma facilidade que assustou Glenn.

— Está tudo bem, mãe. Eu só estava tentando convencer o Glenn a ir comigo ao festival amanhã. Mas, sabe como ele é... ele não parece se importar muito. Mesmo sendo um dia tão importante para mim.

Glenn sentiu o golpe. As palavras de Louis tinham um gume afiado. A lembrança do quase-beijo apareceu, de repente, uma traição imperdoável.

— Festival, huh? — Glenn forçou um sorriso de canto, amargo. — Ver você tropeçar nos próprios pés na frente de metade do vilarejo? Acho que prefiro minha cama, obrigado.

Vivian soltou uma risada, tentando relaxar o clima, e cruzou os braços.

— Tropeçar ele vai de qualquer jeito, Glenn. Mas se você não for, quem vai ajudar a levantar esse pobre coitado?

Reynolds riu ao fundo, pendurando o casaco.

— Ela tem razão, garoto. O Louis vai precisar de um curandeiro amanhã... e talvez de um coveiro, se insistir naquela técnica de abertura que eu ensinei.

— Pai! — protestou Louis, ficando vermelho.

O riso da família preencheu o ar, mas Glenn sentia o peso do segredo como uma âncora puxando-o para o fundo.

 

 

O vapor do banho ainda pairava no ar, colando-se à pele como uma névoa persistente. Glenn atravessou o quarto em silêncio, sentindo o ranger familiar do chão sob os pés descalços. Sentou-se à beira da cama, deixando a água que escorria do cabelo úmido pingar sobre as mãos inertes.

No canto, a lamparina oscilava com a brisa que vinha da fresta da janela. As sombras dançavam pelas paredes — subiam, caíam e desapareciam, como os próprios pensamentos de Glenn.

As palavras de Louis ecoavam em sua mente, uma linha repetida e firme como ferro: Eu vou me declarar pra Ellie.

O som do próprio fôlego pareceu alto demais no quarto vazio. Glenn passou as mãos pelo rosto, os dedos pressionando as têmporas com força, tentando esmagar a confusão que fervia ali dentro. Soltou o ar em um suspiro longo e pesado, deixando o corpo cair de costas no colchão.

O tecido o abraçou, mas não trouxe conforto. O teto parecia girar devagar acima dele.

Por que ele disse aquilo… daquele jeito?

O pensamento veio seco, uma pontada de dúvida. Não era apenas uma confidência; parecia um aviso, ou talvez um pedido de permissão que Glenn não sabia se podia dar.

Os olhos se fixaram na madeira do teto, mas a mente ainda vagava lá fora — entre as luzes da vila, o cheiro de flores e aquele espaço milimétrico entre o rosto dele e o de Ellie. Um espaço que, agora, parecia uma abismo intransponível.

Um músculo no seu maxilar se contraiu. As mãos, cruzadas sobre o peito, sentiam a batida descompassada do coração.

Ele sabe? A pergunta o assombrou. Será que ele viu o jeito que ela me olhou? Ou será que ele sempre soube que eu também…

Glenn virou-se de lado, fazendo a cama gemer sob o seu peso. Ele fechou os olhos com força, mas a memória era traiçoeira. Viu Louis treinando exaustivamente com a espada de madeira, o suor no rosto, a empolgação genuína ao falar dela. Louis sempre a amou de um jeito claro, solar, sem as sombras que Glenn carregava.

— Louis é meu irmão… — murmurou ele para a escuridão, a voz falhando. — Eu não posso simplesmente me intrometer assim.

Mas a sensação do toque da Ellie na sua bochecha ainda estava lá, vibrando como uma ferida aberta. Se ele recuasse agora para salvar a amizade com Louis, estaria traindo o que sentia também? E se avançasse, como conseguiria olhar para o primo novamente sem ver a ruína de uma vida inteira de lealdade?

Eu sou o intruso aqui, pensou ele, o peito apertando. Eles têm a luz, o próprio despertar de mana, um futuro. Eu só tenho esse… silêncio.

Ele ficou imóvel. Ao longe, o som de uma carroça solitária cruzando a rua de pedra foi o único sinal de que o mundo lá fora continuava girando. A lamparina oscilou uma última vez, a chama diminuindo até que o quarto parecesse menor, mais apertado, como se as paredes estivessem se fechando sobre ele.

Glenn respirou fundo, tentando acalmar o turbilhão interno. O corpo se encolheu um pouco mais sob o lençol. O vento entrou pela janela, trazendo o frio da noite, e apagou o resto da luz, deixando-o finalmente sozinho com a sua própria indecisão.

O sono veio tarde, mas veio. Quando a luz atravessou as cortinas, o quarto já estava morno, e o cheiro de sabão ainda pairava no ar. Glenn abriu os olhos devagar. O mundo parecia calmo demais, como se a noite anterior tivesse sido um sonho pesado que o corpo ainda não esquecera totalmente.

Batidas leves na porta quebraram o silêncio.

— Pode entrar — disse ele, a voz arrastada, sentindo o peso das horas em claro.

A madeira rangeu, e Tia Vivian entrou com o rosto banhado pela luz da manhã, radiante como se o festival já tivesse começado dentro dela.

— Bom dia.

— Bom dia, tia — respondeu, erguendo-se com esforço.

Ela apoiou o ombro na moldura da porta, observando-o com um olhar curioso que Glenn conhecia bem.

— Tem certeza de que vai ficar trancado aqui o dia inteiro? Seu tio e o Louis já foram para o festival. O Louis parecia... ansioso. Quase não tocou no café.

Glenn sentiu um aperto no estômago ao ouvir o nome do primo. Imaginou Louis na praça, ajustando a braçadeira, o coração cheio de planos que envolviam a mesma garota que o beijara na bochecha horas antes.

— Acho que vou ficar, sim — murmurou Glenn, desviando o olhar. — Muita gente. Muito barulho.

Vivian suspirou e cruzou os braços, adotando aquele tom que ele sabia ser impossível de ignorar.

— Claro. E eu, uma pobre mulher indefesa, vou atravessar a vila sozinha, cercada por gente apressada, barracas de comida e vendedores insistentes. — Ela fez uma pausa dramática, a mão no peito. — Se eu desaparecer no meio da multidão, diga ao seu tio que lutei com bravura.

Glenn arqueou uma sobrancelha e conteve o riso.

— Tia, isso se chama chantagem emocional.

— Eu prefiro “convite carinhoso” — retrucou ela, com um sorriso vitorioso. — Mas tudo bem, se quiser perder os doces de maçã e as luzes novas da praça, o problema é seu. Só não reclame depois que a casa ficou silenciosa demais.

Ele riu, finalmente. O humor da tia era a única coisa capaz de furar a bolha de melancolia que ele construíra.

Mas o riso não durou.

Assim que Vivian saiu do quarto, só ficou o rangido leve da madeira. A lembrança da noite anterior voltou com força total — o toque de Ellie, o calor da pele dela, o nome sussurrado na escuridão do quarto. Glenn respirou fundo, os pulmões pareciam pequenos para tanto ar. Ficou olhando para o chão de madeira por alguns segundos, como se esperasse encontrar ali uma rota de fuga que não envolvesse trair o primo ou sufocar o que sentia.

Se eu for, vou ver os dois juntos, pensou ele. Vou ver o Louis lutar por ela. Vou ver o brilho nos olhos dela quando ele se declarar.”

A ideia de assistir a essa cena era como um veneno lento. Mas o pensamento contrário era ainda pior: a ideia de ficar ali, naquele quarto, enquanto a vida acontecia lá fora. Enquanto ela acontecia lá fora.

Ele levantou-se da cama, os pés tocando o chão frio. Caminhou até a janela e viu as primeiras lanternas sendo testadas na vila distante. Glenn apertou o parapeito da janela até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele não queria ser o vilão da história de Louis, mas também não conseguia mais ser apenas o espectador da própria vida.

Não queria perder. Nem para Louis, nem para a própria covardia. A verdade estava ali — pequena, dura, alojada no peito como uma pedra que nenhum "despertar" de mana poderia remover.

Eu quero vê-la.

Mesmo que doesse. Mesmo que fosse a última vez que ele pudesse olhá-la sem o peso da culpa. 

 

...

 

O caminho de terra que levava ao centro da vila estava coberto por um tapete de folhas secas e pétalas espalhadas, resultado da preparação frenética da noite anterior. O ar, antes frio, agora estava saturado com um perfume doce que escapava das janelas enfeitadas com ramos de murta.

Vivian ia à frente, as cestas balançando nos braços com um ritmo próprio.

— Bom dia, dona Liane! — acenou ela, radiante. — As flores estão lindas hoje, hein!

Ela se inclinou levemente para trás, sussurrando para Glenn sem perder o passo:

— É o marido dela quem rega, mas ela jura para todo mundo que é talento nato.

Glenn riu, sentindo a tensão da noite passada ceder um milímetro. Mais à frente, um homem acenou apressado entre as barracas.

— Senhor Harven! — chamou Vivian, animada. — Diga à sua esposa que a torta dela ainda me assombra nos sonhos!

O homem gargalhou, e Vivian seguiu com a familiaridade de quem conhecia cada pedra e cada segredo daquele caminho. As pessoas pareciam gostar dela de graça, atraídas pela luz natural que ela emanava. Glenn observou o rastro de sorrisos que ela deixava para trás, as mãos afundadas nos bolsos.

— Acho que não tem uma alma viva nesta vila que não goste de você — comentou ele.

Vivian ergueu o queixo, encenando um orgulho aristocrático.

— Ora, meu bem, a fama vem junto com o talento… e com uma torta de maçã imbatível — ela piscou para ele, mas logo percebeu que o olhar de Glenn estava distante.

— Posso te perguntar uma coisa, tia?

Ela respondeu sem virar o rosto, ajustando a alça da cesta:

— Desde que não envolva política… ou a receita secreta da minha torta.

Glenn balançou a cabeça, um meio sorriso surgindo.

— Não é nada disso. É mais sobre… pessoas. Sentimentos, talvez.

Vivian interrompeu o passo. Ela inclinou a cabeça e deixou escapar aquele sorriso de canto que Glenn conhecia bem — o olhar de quem já leu o final do livro antes mesmo dele começar.

— Ah, entendi — cantarolou ela. — Meu garotinho está apaixonado.

Glenn soltou um suspiro pesado, parte cansaço, parte rendição.

— E é por isso que eu nunca falo nada para você.

Ela segurou a risada, fazendo um esforço visível para recompor a seriedade.

— Está bem, está bem. Prometo me comportar — levantou as mãos, rendida. — Pode falar, Glenn.

Ele hesitou, chutando a terra sob os pés enquanto buscava as palavras certas.

— Como é que a gente sabe que gosta de alguém? De verdade?

Vivian arqueou uma sobrancelha, o tom de brincadeira sumindo para dar lugar a algo mais profundo.

— “Gosta” como? De conversar? De cuidar? De sentir que o mundo fica um pouco mais cinza quando a pessoa vai embora?

Glenn pensou no silêncio da colina e no calor do beijo na bochecha.

— De tudo isso, talvez.

Vivian ficou em silêncio por um momento. O vento bagunçou os fios ruivos de seu cabelo, e ela olhou para o céu, onde as primeiras lanternas do festival já balançavam entre as casas.

— Se lembrar dela dá aquele aperto… mesmo quando foi só um momento curto — disse ela, num tom calmo e quase nostálgico. — Se o silêncio te leva direto para ela, sem esforço nenhum, então não tem mais dúvida.

Glenn baixou o olhar, o peito subitamente apertado. Vivian observou o gesto e o sorriso voltou, dessa vez mais doce.

— Mas você já sabia disso, não sabia?

Ele deu de ombros, sem encarar os olhos dela. Ela riu baixo, balançando a cabeça.

— Crescendo e ficando bonito… isso me dá rugas e orgulho ao mesmo tempo.

O vento quente cruzava a rua, trazendo o aroma de pão doce e madeira queimada das barracas que já começavam a fritar iguarias. Vivian retomou a caminhada em passos lentos, os olhos vagando pelas fitas coloridas que tremulavam entre os telhados.

— Sabe, Glenn… — começou ela, após um silêncio tranquilo. — A gente não escolhe por quem o coração resolve bater.

Ele ergueu os olhos, curioso com a direção da conversa.

— Mas a gente escolhe o que faz com isso — concluiu ela, ajeitando o lenço sobre o ombro. — Fingir que não sente nada é o mesmo que se trancar para fora da própria casa. O frio acaba te pegando de um jeito ou de outro.

Glenn não respondeu. O som das vozes da praça central, mais adiante, já se misturava ao estalar rítmico das bandeiras ao vento. Vivian olhou para ele de lado, o olhar suavizando.

— Você tem esse jeitão fechado, de quem carrega o mundo nas costas — disse ela, leve. — Mas quando se trata de sentir, meu bem… não dá para viver escondendo tudo no escuro. Não tem problema ser um pouco egoísta. Às vezes, o coração precisa disso para continuar firme.

Glenn parou bruscamente no meio do caminho. O olhar ficou preso às pedras irregulares do chão.

— Mesmo que isso acabe machucando alguém que eu amo? — perguntou ele, a voz não passando de um sussurro rouco.

Vivian se virou devagar. Por um instante, o brilho divertido em seus olhos deu lugar a uma compreensão dolorosa. Ela sabia de quem ele estava falando. Sabia que, naquela casa, o coração de dois irmãos batia pelo mesmo ritmo.

— Glenn… — disse ela baixinho, aproximando-se. — Eu acho que amar sempre dói um pouquinho. A diferença é a razão pela qual a gente decide aguentar essa dor.

Ele respirou fundo, sentindo o peso da confissão rasgar a garganta.

— Eu gosto da Ellie — confessou, enfim.

Vivian piscou, surpresa pela crueza da admissão, e deixou escapar um riso curto, cheio de uma ternura triste.

— Até que enfim alguém disse isso em voz alta.

Glenn abaixou a cabeça, o peso da confissão ainda vibrando no ar. Vivian o observou por um segundo, os olhos brilhando com uma faísca provocativa enquanto cruzava os braços.

— E então? Vai ficar aí parado, esperando outro menino se declarar no seu lugar?

— Não é tão simples — rebateu ele, sentindo o nó na garganta apertar. — O Lou...

Vivian ergueu a mão, cortando-o antes que o nome do primo terminasse de sair.

— Amor nunca é simples, Glenn — respondeu ela, a voz subitamente séria. — Mas também não é um exercício de covardia.

Glenn tentou disfarçar, mas um sorriso involuntário escapou pelo canto dos lábios. Vivian aproveitou a brecha e deu dois socos curtos no ar, em um gesto teatral que parecia saído de uma antiga história de taverna.

— No meu tempo, os garotos resolviam essas coisas na marra! — exclamou, fazendo uma careta de valentona.

Ele riu, balançando a cabeça diante do absurdo da cena.

— Isso seria uma péssima ideia, tia.

— Eu sei — ela admitiu, relaxando a postura com um brilho divertido no olhar. — Mas ia ser engraçado de assistir.

O riso dos dois se perdeu na estrada de terra por um momento, dissipando a névoa de angústia que envolvia Glenn. Então, o tom dela mudou novamente. Vivian pousou a mão sobre o braço dele; o toque era calmo, firme, carregado de uma proteção que ele só conhecera naquela casa.

— Só… não deixa o medo decidir por você, tá? — disse ela, os olhos fixos nos dele. — Seja lá o que acontecer, Glenn, eu só quero ver você feliz.

Ele sustentou o olhar dela por um longo instante e assentiu em silêncio. Não precisava de palavras; o pacto estava feito. Vivian sorriu, um gesto suave de despedida.

— Então vai — falou ela, a voz quase um comando gentil. — Antes que seja tarde demais.

Glenn respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar doce do festival, e começou a correr. Seus pés batiam contra o chão seco, ganhando velocidade à medida que as cores das bandeirolas da vila se tornavam mais nítidas no horizonte.

Vivian permaneceu imóvel no meio do caminho, observando a silhueta do sobrinho se afastar até virar apenas um ponto distante na estrada. O sol da manhã se filtrava entre as copas das árvores, banhando seus cabelos ruivos em tons de cobre e ouro.

— Me perdoa, Louis… — murmurou ela, num sussurro que o vento quase carregou embora. — Mas o Glenn também é meu filho.

Ela fechou os olhos por um momento, sentindo o calor do sol no rosto, e um sorriso triste e esperançoso surgiu em seus lábios.

— Todo mundo merece a chance de amar… e de ser amado.

O som das trombetas do festival ecoou ao longe, anunciando o início das festividades. O jogo estava montado, e Glenn finalmente havia entrado no tabuleiro.

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